Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 11 hr ago

    Interesses de grupos americanos estão no centro de novo tarifaço de Trump contra Brasil, dizem analistas

    Medidas anunciadas pelos Estados Unidos geram reações de políticos e do setor produtivo, exigindo novo esforço da diplomacia brasileira nas negociações. Especialistas ouvidos pela RFI apontam que interesses de instituições financeiras norte-americanas, que temem avanço do PIX para outros países, estão no cerne do impasse comercial Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília. O pacote do governo Donald Trump contra o Brasil elevou o clima de disputa eleitoral no país em meio à preocupação de empresários, principalmente os exportadores de manufatura. Às vésperas da entrada em vigor da medida que classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, a Casa Branca anunciou que pode sobretaxar produtos brasileiros em 12,5%, além da tarifa de 25% que foi defendida por Washington um dia antes. As justificativas reúnem de trabalho forçado a desmatamento, com destaque para críticas ao PIX, sistema de pagamento popular no Brasil, citado tanto na questão do terrorismo quanto no impasse comercial. “O setor exportador vê com muita preocupação o que está acontecendo, porque, ao fim, é o setor que está pagando a conta”, afirmou à RFI José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), que destacou os possíveis reflexos na economia: “Isso para nós é péssimo, porque além do comércio internacional em si, que fica prejudicado, atinge emprego, atinge a atividade econômica”, acrescentou Castro. Especialistas contestam justificativas americanas Contrariando a própria justificativa ambiental, o governo norte-americano anunciou que alguns produtos, como a carne bovina, não estão na lista de produtos que podem vir a ser novamente sobretaxados, ao contrário, por exemplo, de maquinários e equipamentos. A RFI também ouviu Caio Roberto Cortez, advogado, especialista em direito penal, que contesta os argumentos oficiais trazidos pelos Estados Unidos. No caso do terrorismo, Cortez não vê resultado eficaz das medidas no combate às organizações criminosas no Brasil. “Não ajuda em nada na prática. Os Estados Unidos rotularam os cartéis mexicanos como terroristas em fevereiro do ano passado e ninguém viu o crime organizado no México acabar por causa disso. Na Venezuela o que se viu foi uma atuação com claro interesse geopolítico, mas não focado em acabar com a violência”, disse o advogado. Se não ajuda no combate ao crime organizado, a classificação atribuída pelo governo Trump, por sua vez, pode ter reflexo na segurança nacional. “A invasão clássica do jeito que as pessoas imaginam, para mim é pouco provável. Mas usar isso como pressão e até fazer ações pontuais fora do território dos Estados Unidos, isso sim é possível. E aí a questão das terras raras da Amazônia é a questão mais delicada”, ressaltou Cortez. “Tem quem mostre que a diplomacia segura essa onda. Um bom exemplo é o México. A relação da presidente Cláudia com o Trump, mais conversada, mais pacificada, ajudou a preservar a soberania mexicana mesmo depois da classificação dos cartéis.” PIX Os dois analistas ouvidos pela RFI destacaram a preocupação de instituições financeiras americanas, especialmente as operadoras de cartão de crédito, com o modelo de pagamentos no Brasil nesse cenário de pressão econômica. “Sobre essa questão do terrorismo, se tem outro interesse por trás, para mim é evidente que sim, principalmente econômico. Veja, não é por acaso que no mesmo período os Estados Unidos fecham uma investigação comercial e miram o Pix e a nossa regulação financeira”, afirmou o advogado. “O Pix é uma operação comercial bancária que deu muito certo no Brasil. O mundo vai tentar copiar a mesma coisa. E isso significaria redução de lucro dos banqueiros”, avaliou o representante da AEB. Corrida presidencial O governo Lula criticou as medidas dos Estados Unidos e reforçou números que apontam queda do desmatamento e esforço de combate ao trabalho escravo. Lula afirmou que entregou nas mãos de Trump uma série de documentos sobre todos os pontos hoje elencados por eles. “Eu saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento democrático e civilizado entre Brasil e Estados Unidos. E confesso a vocês que fui pego de surpresa com a decisão deles”, disse o presidente brasileiro. “E mais ainda, o que é triste, é que tem brasileiro, que eu não vou citar o nome aqui, fomentando essa briga, na perspectiva de que se eles taxam a gente, vão prejudicar uma candidatura. E não percebe que prejudicado é o povo, não é o Lula. Em qualquer outro país do mundo, em qualquer outro momento histórico, isso seria chamado de traição da pátria”, afirmou Lula se referindo à recente viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde ele se encontrou com Donald Trump. O assunto ganhou as redes sociais, com críticas ao presidenciável do PL, que teve de vir a público negar que houvesse pedido um novo tarifaço contra o Brasil. “Eu fiz o pedido direto para que os Estados Unidos não taxassem as empresas brasileiras, que já são absurdamente taxadas pelo governo Lula, empresas estão até saindo do Brasil. Eu reforcei que os Estados Unidos não precisariam mais usar a política de tarifas porque a partir de janeiro de 2027, o Brasil terá um presidente da República que vai sentar para negociar de igual para igual e fechar um acordo que seja bom para as duas nações”, disse Flávio Bolsonaro. Para os empresários que vendem mercadorias lá fora, no meio da disputa eleitoral e dos vários interesses dos Estados Unidos, o setor exportador pode pagar um preço alto. “Nós temos dois presidenciáveis que se reuniram com o Trump, discutiram e, no final, o que aconteceu? Em vez de reduzir o nível das taxas, fala-se em aumentar as tarifas. Os Estados Unidos adotam apenas o que eles querem e nós tentamos não cumprir o que eles querem. É um cenário difícil”, afirmou o empresário da Associação de Comércio Exterior do Brasil.

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  2. 1 day ago

    Portugueses param o país em greve geral contra reforma trabalhista que também afeta brasileiros

    Portugal enfrenta paralisações em todo o país nesta quarta-feira (3), em greve geral convocada pela principal central sindical contra a reforma trabalhista em discussão no Parlamento, com votação prevista para setembro. A mobilização afeta transportes, saúde, com adiamento de cirurgias, educação e aviação, cancelamento de voos entre o Brasil e o país, e expõe o impasse sobre mudanças nas regras de contratação e direitos, com impacto direto sobre brasileiros empregados no país europeu hoje. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Portugal vive um dia de caos em meio à reivindicação contra a reforma do Código de Trabalho, os sindicatos pretendem deixar o país em suspenso para mostrar o descontentamento com o pacote trabalhista. Há paralisações na rede ferroviária e no resto do transporte público, o metrô das cidades de Lisboa e do Porto pararam de circular às vésperas da greve e os impactos na circulação de trens regionais e de longa duração devem se prolongar até quinta-feira. Cerca de 500 voos – sendo 300 da companhia aérea portuguesa TAP - devem sofrer cancelamentos ou atrasos nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro. Foram definidos serviços mínimos para a circulação de transportes assim como para o setor de saúde. Hospitais apenas para urgências Os hospitais e centros de saúde devem funcionar apenas para urgências, tratamentos de quimioterapia e radioterapia, serviços intensivos e blocos operatórios em casos de emergência. A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP)  aderiram à greve, e por isso, as consultas e cirurgias marcadas para esta quarta-feira tiveram que ser canceladas. Outro setor bastante afetado é a educação, com a  adesão da Federação Nacional dos Professores (FENPROF) e do Sindicato de Todos os Trabalhadores da Educação (STOP). As escolas públicas de todos os níveis de ensino, do pré-escolar ao superior, não vão funcionar, mesmo sendo esta a última semana de aulas para milhares de alunos antes das férias de verão. Trabalhadores de uma das maiores fábricas de automóveis do país vão cruzar os braços. Além da indústria, parte do comércio também deve aderir à greve. Em um cenário de 50% de adesão, nos setores público e privado, o impacto econômico da paralisação deve girar em torno de € 400 milhões. Leia tambémManifestação em Portugal denuncia endurecimento da política migratória; brasileiros são alvo de xenofobia "Flexibilidade" As principais críticas do pacote batizado de “Trabalho XXI”, são de que o governo português, sob o disfarce da “flexibilidade” e da “modernização” pretende desmantelar os pilares do Direito Coletivo, onde a democracia no trabalho é reduzida e o poder é concentrado na entidade patronal. Segundo a Associação Sindical dos Professores, “é uma proposta neoliberal que pretende transferir o risco e a instabilidade para os trabalhadores, desregulamentar as condições trabalhistas e acentuar a desigualdade de poder na negociação individual”. Entre as 50 alterações do pacote trabalhista estão a revisão dos limites dos contratos temporários, o reforço da licença parental, a reintrodução do banco de horas individual e as novas regras de proteção de créditos. A principal central sindical portuguesa, a CGTP, acusa o governo de centro-direita de favorecer os empregadores à custa dos direitos dos trabalhadores, apesar de Portugal estar com uma economia forte e taxa de 5,7% de desemprego, um dos níveis mais baixos das últimas duas décadas. O primeiro-ministro Luís Montenegro rebate, afirmando que as alterações feitas na reforma trabalhista visam aumentar a produtividade e impulsionar o crescimento do país, e a longo prazo, elevar os salários. Não houve consenso nas negociações que duraram nove meses; o governo acabou aprovando o pacote no mês passado, que agora aguarda votação na Assembléia da República. Esta é a segunda greve geral contra a reforma trabalhista em Portugal; a primeira foi em dezembro do ano passado. Leia tambémBrasileiros em Portugal vivem clima de incerteza com imigração no centro da campanha eleitoral Trabalhadores brasileiros em Portugal A recente reforma trabalhista terá impacto direto na vida de centenas de milhares de trabalhadores brasileiros em Portugal com a eliminação das restrições para contratar terceirizados, liberando a contratação sem vínculo empregatício e sem prazo após demissão. Outra consequência negativa será a ampliação dos contratos temporários que passou de dois para três anos, o que gera incerteza para a renovação dos vistos de residência e atrasa a obtenção da nacionalidade portuguesa. Os brasileiros são a maior força de trabalho estrangeiro em Portugal e formam a comunidade que mais contribui para a Segurança Social do país. De acordo com o Ministério do Trabalho de Portugal os mais de 400 mil brasileiros com empregos formais –  o número real pode ultrapassar os 700 mil - garantem grande parte da aposentadoria dos portugueses, além de outros benefícios, como o salário maternidade e o seguro desemprego.

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  3. 2 days ago

    Alemanha debate: quem não tem filhos deve receber uma aposentadoria menor?

    Na Alemanha, uma comissão está reunida com uma missão desafiadora: apresentar até o final deste mês uma proposta de reforma para tentar salvar o sistema de aposentadorias. 2025 foi o ano com o menor número de bebês nascidos no país desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e muitos especialistas apontam um possível colapso da previdência no futuro, causado pelo envelhecimento da população. A elevação da idade de aposentadoria para 70 anos e até benefícios menores para quem não tem filhos estão entre as opções debatidas no país. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha Todos os holofotes estão neste momento voltados para os trabalhos desta comissão de Reforma da Previdência e, embora o trabalho dela seja confidencial, todos os dias vaza na imprensa alguma suposta medida que estaria sendo considerada pelo grupo. Nesta semana, os partidos da coalizão que governa o país, o CDU de centro-direita e a SPD de centro-esquerda, devem se reunir com sindicatos para abrir um diálogo. O jornal Bild afirma que a proposta que está sobre a mesa da comissão é de aumentar a idade mínima para 70 anos. O governo nega que já tenha batido o martelo sobre a idade, mas defende a ideia de vincular a idade de aposentadoria à expectativa de vida. Os sindicatos se opõem a uma nova reforma, já que a Alemanha já tem uma das idades mínimas de aposentadoria mais altas do mundo, que chega aos 67 anos. O problema é que há uma grande desigualdade de expectativa de vida dentro da Alemanha, dependendo da região e também do gênero. Por exemplo, entre os homens, a expectativa na parte Ocidental da Alemanha aumentou nos últimos 10 anos, enquanto a dos homens da parte correspondente à antiga Alemanha Oriental diminuiu. E quanto às mulheres, aconteceu o inverso: aumento da expectativa no lado oriental e diminuição no ocidental. Ou seja, não há resposta simples para o nó da Previdência. Pessoas sem filhos penalizadas Na semana passada, uma proposta vazada do Ministério da Saúde mostrou que pessoas sem filhos podem ser penalizadas no sistema de saúde. A ideia é aumentar os descontos no salário de quem não tem filhos em 0,1% para o chamado auxílio-invalidez, que não tem a ver com Previdência. Isso pode soar bastante polêmico fora da Alemanha, mas a verdade é que já faz tempo que o sistema alemão de impostos favorece quem tem filhos, não só através de pagamentos diretos de € 250 por mês por filho, mas também com uma carga tributária global mais baixa. O resultado é que, em geral, o salário líquido no fim do mês é menor para os solteiros sem filhos. Ou seja, o sistema atual já é pensado para incentivar a natalidade, só que parece não estar surtindo efeito. Uma proposta ainda mais ousada veio de um articulista do influente jornal Frankfurter Allgemeine. Ele defende que pessoas que não tiveram filhos recebam na aposentadoria um valor menor do que aquelas que tiveram. Jannis Koltermann faz uma digressão histórica para defender seu argumento. Ele lembra que, durante séculos, os filhos foram a única forma de Previdência, ou seja, aqueles que desejavam se sustentar na velhice tinham que gerar descendentes. Só que essa lógica foi esquecida quando o sistema de Previdência alemão foi criado por Otto von Bismarck, em 1889, e depois reformado em 1957, ganhando a forma que tem atualmente. Na época, chegou-se a cogitar que a Previdência deveria ter um incentivo financeiro para aqueles que geraram filhos. Mas o então chanceler Konrad Adenauer preferiu deixar de fora esta parte do projeto, com o argumento de que, “ora, as pessoas sempre terão filhos”. O histórico chanceler da reconstrução da Alemanha errou sua previsão, e o resultado, segundo o articulista do jornal, é que, no sistema atual, quem decide não ter filhos acaba tendo uma vantagem financeira ao longo da vida e na aposentadoria, usufruindo de um sistema para o qual contribuiu menos do que aqueles que tiveram filhos. A análise é polêmica e dificilmente será levada em consideração na reforma da previdência alemã, já que muita gente considera a escolha de não ter filhos parte das liberdades individuais mais básicas. Rombo de € 4 bilhões A receita total do sistema previdenciário no ano passado foi estimada em € 417 bilhões, enquanto as despesas foram aproximadamente € 4 bilhões acima disso. Ou seja, é um rombo de € 4 bilhões. O problema é que ele tende a aumentar, com a chamada geração baby boomer entrando massivamente na aposentadoria a partir de agora e as novas gerações quase não tendo filhos. A taxa de fecundidade atual da Alemanha é de 1,35 filho por mulher, um nível recorde de baixa e muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher necessários para manter uma população estável. De concreto na reforma, temos o aumento da contribuição para a Previdência. O desconto mensal no salário saltará de 18,6% para 20% até 2029.

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  4. 3 days ago

    Surpresa na Colômbia: extrema direita larga na frente no segundo turno da corrida presidencial

    Contra todas as pesquisas que previam uma vitória da esquerda neste primeiro turno, a extrema direita conquistou a maior quantidade de votos da história da Colômbia. O primeiro turno, realizado neste domingo (31), também foi o que registrou a maior participação de eleitores. Dentro de três semanas, os colombianos terão de escolher entre dois modelos diametralmente opostos, representados por candidatos em dois lados opostos da história: enquanto Iván Cepeda denunciava os crimes de paramilitares, Abelardo de la Espriella os defendia. Se a tendência se mantiver até o próximo dia 21, a Colômbia pode somar-se à onda regional de vitórias da extrema direita. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Mesmo sendo ainda parcial, o triunfo de Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria) neste domingo (31) não estava nos cálculos de nenhuma sondagem. As pesquisas indicavam uma vitória da esquerda de Iván Cepeda (Pacto Histórico) com uma vantagem entre cinco e dez pontos sobre a extrema direita de Abelardo de la Espriella. Algumas medições ainda levantavam a possibilidade de a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia (Centro Democrático), disputar o segundo lugar em disputa acirrada com a extrema direita. Porém, apurados 100% dos votos, Abelardo de la Espriella ficou com 43,74%, 2,84 pontos à frente de Iván Cepeda, com 40,9%. Já a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia, ficou com irrisórios 6,92%, quando as sondagens apontavam mais de 20%. Esse banho de água fria na esquerda governista revela que boa parte dos colombianos antecipou para o primeiro turno o embate direto, previsto apenas para o segundo. Consequência de uma polarização inédita entre esquerda e extrema direita, depois de décadas em que o país foi governado ora pela centro-direita, ora pela centro-esquerda, mas quase sempre pela direita. Assim, diante das recentes vitórias da extrema-direita, a Colômbia se soma a essa possibilidade que, na região, já teve exemplos no Brasil, na Argentina, no Chile, no Equador e em El Salvador. Com 57,9% de participação popular, esta foi a maior votação em um primeiro turno. Na Colômbia, o voto não é obrigatório, e a tradição é mesmo de abstenção. Abelardo de la Espriella tornou-se o candidato mais votado em um primeiro turno na história do país, tornando-se o primeiro a superar os 10 milhões de votos (10.361.499). Reações dentro e fora do país O presidente Gustavo Petro e o candidato da esquerda, Iván Cepeda, rejeitaram o resultado provisório. O chefe de Estado declarou que não aceita os resultados preliminares, criticando o sistema privado responsável pelo processo eleitoral. Petro acusou o software da empresa de adicionar 800 mil eleitores e centenas de milhares de votos. O presidente declarou que "só vai reconhecer o resultado oficial emitido pela Justiça". O candidato governista, Iván Cepeda, também questionou a contagem preliminar, alegando que ela acrescentou 885 mil eleitores, e declarou que "só vai reconhecer o resultado quando essas inconsistências forem resolvidas". A diferença entre o primeiro e o segundo colocado foi de 673 mil votos. O candidato vitorioso, Abelardo de la Espriella, respondeu aos dois, chamando-os de "delinquentes", e advertiu: "não se atrevam a desconhecer a vontade popular". Os presidentes do Equador, Daniel Noboa, e da Argentina, Javier Milei, parabenizaram Abelardo. Caso a esquerda seja derrotada no próximo dia 21, o presidente Lula perderá um importante aliado na região. Estratégia eleitoral Antes do primeiro turno, as pesquisas indicavam que, numa disputa entre Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella, o candidato da esquerda venceria, porque é maior a quantidade de eleitores que rejeitam a extrema direita. Uma hipótese é que os eleitores anteciparam o cenário do segundo turno, a exemplo de todas as eleições latino-americanas em que a extrema direita ganhou. Os votos da terceira colocada, Paloma Valencia, que iriam para Abelardo num segundo turno, anteciparam esse movimento, migrando já no primeiro turno. Na noite de domingo, Paloma Valencia anunciou apoio ao candidato da extrema direita. Abelardo já foi advogado do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), fundador e líder do Centro Democrático, representado por Paloma. Abelardo de la Espriella tem a vantagem de nunca ter sido parte do governo. Quando afirma que vai aplicar "linha dura" contra os violentos, ele tem a vantagem da dúvida, por mais que essa receita já tenha fracassado. Já o candidato Iván Cepeda foi um dos responsáveis por elaborar o atual plano de "Paz Total" do governo. O plano fracassou e permitiu que os criminosos se fortalecessem e ganhassem territórios. O que cada lado fará é tentar apresentar o outro como parte integrante de uma elite política que governou o país. Abelardo de la Espriella vai repetir que Iván Cepeda é parte da classe política que sempre roubou o país e que manteve os seus privilégios. Porém, a esquerda, que só chegou ao poder em 2022, também acusará Abelardo de ter sido próximo da elite de direita que sempre governou o país. Abelardo de la Espriella: o 'Tigre' seguindo os passos do 'Leão' Abelardo de la Espriella é um advogado penalista, de 47 anos, que se autointitula "Tigre". É curioso porque Javier Milei, na Argentina, se autointitula "Leão". Assim como Milei, o candidato da extrema direita promete enxugar o Estado, cortando 40% dos gastos públicos e 700 mil servidores. Promete adotar "linha dura" contra o crime e construir megapresídios, como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Usa um colete à prova de balas, como o presidente do Equador, Daniel Noboa. Faz discursos atrás de um vidro blindado, como o presidente do Chile, José Antonio Kast. Cumprimenta prestando continência, como o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ofende e agride, como Javier Milei ou como Donald Trump. Assim, juntou todas as receitas dos aliados de extrema direita da região. O candidato também pretende eliminar o diálogo de paz e retomar uma aliança militar com os Estados Unidos. O advogado fez fortuna defendendo paramilitares acusados de crimes violentos, golpistas envolvidos em fraudes milionárias e até o suposto testa de ferro de Nicolás Maduro, Alex Saab. Abelardo de la Espriella tem cinco empresas próprias, incluindo uma marca de roupa masculina de luxo, uma marca de licores e de rum e um restaurante em Miami. Ele tem residência em Florença, na Itália, onde viaja todos os anos de jato particular para comprar roupas. Iván Cepeda: um ativista dos direitos humanos Senador e filósofo de 63 anos, Iván Cepeda propõe um "acordo nacional" com os principais setores estratégicos para aprofundar as reformas estruturantes iniciadas pelo atual governo. O candidato quer manter o "plano de paz" e distribuir um milhão de hectares de terra. Cepeda é filho de um histórico dirigente comunista e senador, Manuel Cepeda, assassinado em 1994 por motivos políticos. Isso o levou a ser um ativista dos direitos humanos numa Colômbia atravessada por milhares de vítimas de guerrilheiros, paramilitares e traficantes. Enquanto Iván Cepeda denunciava milicianos paramilitares, Abelardo de la Espriella os defendia.

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  5. 6 days ago

    Polarização política inédita marca eleição presidencial na Colômbia

    Cerca de 41,4 milhões de colombianos vão às urnas no próximo domingo (31) para escolher o novo presidente do país. Historicamente, as disputas eleitorais na Colômbia oscilam entre opções de centro-direita e de centro-esquerda. Desta vez, no entanto, o pleito traz candidatos mais radicais, da esquerda à extrema direita, aproximando o país dos cenários de polarização dos vizinhos. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Dos 11 candidatos, os dois que lideram as pesquisas representam a esquerda e a extrema direita, e prometem mudar a Constituição e adotar uma linha dura que podem conduzir o país a um cenário desconhecido. Há quatro anos, com a vitória do atual presidente Gustavo Petro a esquerda vencia pela primeira vez uma disputa eleitoral. Petro não tem a possibilidade legal de reeleição e termina seu mandato em agosto. Seu candidato, Iván Cepeda (Pacto Histórico), rivaliza com o outro polo: Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria), um nacionalista de extrema direita. Cepeda corre com vantagem neste primeiro turno, mas o cenário está aberto para o segundo turno, em 21 de junho. “Essas opções representam propostas diametralmente opostas, algo com o qual, historicamente, a Colômbia não está acostumada. O país oscilou sempre entre opções liberais tradicionais de centro, nas quais as divisões ideológicas entre direita e esquerda não eram identificadas pelos candidatos. Desde 2022, com a chegada de Gustavo Petro, experimentamos uma reconfiguração política, de alternância ideológica explícita”, diz à RFI a cientista política Paola Montilla, diretora da Escola de Governo e Políticas Públicas da Universidade Externado da Colômbia. Desta vez, tudo mudou. Ou nem tudo. Uma terceira candidata, a senadora Paloma Valencia, representa a centro-direita tradicional e tem chances de se tornar a primeira mulher eleita do país. Seu partido, o Centro Democrático, foi fundado pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010) e mantém chances de surpreender. Assim, o candidato governista Iván Cepeda, atualmente senador, lidera a disputa, rivalizando com o candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, que se identifica com o salvadorenho Nayib Bukele, o argentino Javier Milei e o norte-americano Donald Trump. Embora as mulheres sejam mais propensas a votar, numa proporção histórica de 58% contra 42% dos homens, as propostas com foco na diversidade sexual vêm de Iván Cepeda, reconhecido defensor dos direitos humanos, cujo pai, o legislador Manuel Cepeda, foi assassinado em 1994 por agentes do Estado com a participação de paramilitares. Essas propostas progressistas rivalizam com as conservadoras de Abelardo de la Espriella, um advogado penalista, defensor de Alex Saab, suposto testa de ferro do venezuelano Nicolás Maduro. Risco democrático Paola Montilla explica que o que está em jogo é a alternância política na Colômbia, sobretudo a estabilidade da democracia. A oscilação inédita entre polos políticos é um desafio para a resistência do sistema democrático colombiano. O mais curioso é que, apesar dessa inédita disputa ideológica, os candidatos mais radicais não participaram de nenhum debate político e deram poucas entrevistas. Aos debates foram apenas os candidatos de centro, privando os colombianos de conhecer os programas de governo dos que podem vencer a corrida eleitoral. “Foi uma campanha eleitoral atípica devido à ausência de debates entre os principais candidatos, o que impediu a possibilidade de contrastar propostas e conhecer suas teses fundamentais”, afirma Montilla, apontando ainda outras características das estratégias eleitorais da esquerda e da extrema direita. “Cepeda concentrou-se nos comícios públicos e Abelardo manteve o foco nas redes sociais, apelando para o emocional com mensagens curtas”, observa. Em entrevista à RFI, o economista e analista político Jorge Restrepo, da Universidade Javeriana de Bogotá, também acredita que os principais candidatos, tanto de esquerda quanto de extrema direita, representam um risco significativo para o sistema constitucional democrático e liberal vigente na Colômbia, especialmente no que se refere à divisão de poderes, ao Estado de Direito e às liberdades constitucionais.“A institucionalidade constitucional está em sério risco na Colômbia”, alerta Jorge Restrepo. Como exemplo, Restrepo cita algumas declarações dos candidatos. Abelardo de la Espriella questiona as garantias judiciais, os direitos humanos e a livre iniciativa.“O discurso de linha dura pode esconder traços de autoritarismo”, adverte Restrepo, especialista em segurança. Já Iván Cepeda, de esquerda, defende a convocação de uma Assembleia Constituinte para modificar a Constituição caso o Congresso não aprove as reformas sociais que ele propuser.“Ou seja, se um dos poderes não aceitar essas reformas, ele quer se impor com uma nova Constituição”, critica Restrepo. Paridade eleitoral As pesquisas de intenção de voto indicam um cenário indefinido neste primeiro turno, levando a disputa para o segundo turno dentro de três semanas. A disputa acirrada impede que algum candidato ultrapasse 50% dos votos. Quem larga na frente é o candidato governista Iván Cepeda. Com cerca de 35% das intenções de voto, teria lugar garantido no segundo turno. A dúvida é contra quem. A maioria das pesquisas indica que Abelardo de la Espriella teria cerca de 25% dos votos. Outras apontam que esse percentual seria de Paloma Valencia. O que todos os levantamentos indicam é que Iván Cepeda venceria Abelardo de la Espriella em um segundo turno, mas teria dificuldades para derrotar Paloma Valencia, caso ela avance. “Todos os cenários estão em aberto porque há cerca de 11% de indecisos e, quando perguntados se poderiam mudar de voto, outros 11% dizem que sim”, afirma Paola Montilla. “Paloma Valencia tem maior probabilidade de derrotar Iván Cepeda devido ao seu perfil moderado, que gera menos rejeição. Abelardo de la Espriella, ao contrário, provoca forte rejeição, especialmente entre as mulheres, devido à sua atitude misógina e agressiva. As pesquisas indicam que Paloma venceria Cepeda, enquanto Abelardo teria menos chances. Por isso, o governo usa seus recursos para atacar Abelardo de la Espriella, o candidato ideal para enfrentar”, avalia Jorge Restrepo. “Paloma Valencia é mulher, mãe de família. É filósofa, especializada em economia, com mestrado em políticas públicas. É moderada e amável. Reúne todas as características de uma candidata ideal, não fossem os tempos atuais das redes sociais, exploradas por Abelardo de la Espriella”, compara Restrepo. Segurança define o debate público A segurança sempre foi um tema sensível na Colômbia, que lida com a produção de dois terços de toda a cocaína do mundo, além da presença de milícias e guerrilhas. Nesse sentido, o extremista de direita Abelardo de la Espriella propõe mão dura contra o crime. Iván Cepeda deve se distanciar da política de “paz total” do atual presidente Gustavo Petro, que tentou negociar com o Exército de Libertação Nacional, com dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e com o Clã do Golfo, mas não obteve resultados, exceto o fortalecimento dessas organizações criminosas. Paloma Valencia já se opôs, no passado, ao Acordo de Paz de 2016 e tenderia a retomar a cooperação com os Estados Unidos. “A proposta de ‘paz total’ de Gustavo Petro, de negociar com grupos ilegais, levou à perda de controle de muitos territórios. Em geral, Iván Cepeda representaria uma continuidade do governo Petro, mas com nuances, como na forma de lidar com o crime organizado”, prevê Paola Montilla, da Escola de Governo e Políticas Públicas da Universidade Externado. Para Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos (CERAC), a segurança é um tema central nesta campanha eleitoral, mas o foco já não é o conflito armado, e sim a criminalidade urbana. “Preocupam mais crimes como extorsão a comerciantes, sequestros-relâmpago de pequenos e médios empresários e roubo de cargas. Os guerrilheiros já não querem substituir o Estado nem tomar o poder”, afirma. O tráfico de drogas tornou-se mais lucrativo. Na Colômbia atual, o lucro supera a ideologia. A extrema direita capitaliza melhor essa crise de segurança, sobretudo porque o candidato Abelardo de la Espriella é um advogado penalista que afirma saber como lidar com criminosos. “O candidato de extrema direita tem sido habilidoso para capitalizar a crise de segurança. Paloma Valencia não tem credibilidade para um discurso de linha dura. Iván Cepeda enfrenta dificuldades por causa do fracasso da política do atual governo", diz Jorge Restrepo. "Paloma promete políticas do passado. Cepeda propõe políticas que não funcionaram sob Gustavo Petro. O único que apresenta propostas diferentes é Abelardo de la Espriella. Sabemos que militarizar a segurança e reprimir o crime organizado não dará certo, mas o cidadão comum não sabe disso e adere ao discurso de mão dura”, conclui.

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  6. 28 May

    Eleições e escândalo do Banco Master impulsionam voto pelo fim da jornada 6x1 no Brasil

    Parlamentares têm sido cobrados nas ruas e nas redes sociais a reduzir a escalada de trabalho. Proposta de Emenda Constitucional foi aprovada na Câmara, com apenas 22 votos contrários no primeiro turno e 19, no segundo. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Falência de negócios, queda de produção, riscos econômicos: argumentos que eram usados no século XIX em defesa da escravização de pessoas negras também são repetidos hoje por quem contesta mudanças na jornada de trabalho no Brasil. Mas as eleições estão ajudando a sepultar a escala 6x1 e a estabelecer uma jornada de 40 horas semanais, com dois dias de folga por semana. A proximidade do pleito tem obrigado autoridades políticas a apresentar uma agenda mínima em sintonia com a população. Isso veio em meio a um cenário marcado por escândalos, como o do Banco Master, que atingiu figuras centrais do Congresso, e aos esforços do governo para ganhar popularidade. Eleições são daqueles raros momentos em que, mesmo sopesando o poder financeiro dos grandes grupos nas doações, o voto de um trabalhador na urna conta da mesma forma que o de um grande empresário. E o primeiro grupo é bem mais numeroso. O andar de cima também tem se movimentado nos bastidores. Após o acordo fechado entre o governo e a presidência da Câmara em torno de uma proposta com transição de apenas um ano, começaram peregrinações voltadas ao Senado. “Empresários já procuraram o presidente do Senado, mas acredito que a PEC será aprovada também pelos senadores. Primeiro porque o mandato de 2/3 da Casa termina agora e, assim, são 54 senadores candidatos, a maioria buscando a reeleição. Segundo porque esse tema tem um forte apoio da população, talvez seja a proposição com mais apoio popular dos últimos tempos”, afirmou à RFI o senador Humberto Costa (PT/PE). A proposta original foi apresentada em 2019 pelo deputado Reginaldo Lopes (PT/MG) e previa uma jornada de 36 horas. O assunto ganhou as redes sociais num desabafo de Rick Azevedo (PSOL/RJ) – um balconista de farmácia exausto com a longa jornada, que depois virou vereador – e foi bandeira no Congresso pela atuação da deputada Erika Hilton (PSOL/SP), autora de uma PEC sobre o tema que tramitou em conjunto. Mas de repente, as mudanças passaram a ser defendidas por partidos de várias matizes. “Nós apoiamos a escala 5x2 por acreditar que é o novo momento para o trabalhador brasileiro”, afirmou o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (Maranhão). “A base familiar é fundamental para nós. E acreditamos que com o trabalhador tendo mais tempo com sua família, teremos um país melhor na formação das crianças e adolescentes”, justificou o líder do Progressistas, deputado Doutor Luizinho (RJ). Uma das cenas que viralizaram durante as discussões foi a deputada Sâmia Bonfim (PSOL/SP) mostrando um pote de óleo de peroba durante uma entrevista de Nickolas Ferreira (PL/MG), pois o parlamentar foi um árduo crítico da PEC e, ao fim, votou a favor da redução da jornada de trabalho. “A matéria estava aí. Mas foi a dor de uma bicha de balcão e a insistência de um deputada travesti que deu voz a essa matéria, que popularizou essa pauta. Então essa vitória vai para a conta do movimento LGBTQIA+, na conta da luta das mulheres”, ressaltou Erika Hilton, ao se referir à atuação dela e de Rick Azevedo no processo. "Não dá para descansar" Muitos debates têm sido realizados sobre o tema na imprensa e em fóruns oficiais, com destaque para a presença de economistas, especialistas em trabalho, parlamentares, confederações patronais e de empregados. Em meio a projeções e números apresentados pelas partes, estão aqueles diretamente atingidos pela jornada 6x1, mas que, justamente pela jornada exaustiva, não conseguem comparecer às manifestações que pedem mudanças. Não só porque estão trabalhando, mas porque temem serem identificados e perderem o emprego. A reportagem ouviu pessoas que estão nos shoppings, nas padarias, nas farmácias, nos postos de combustível. A maioria falou baixo e pediu para dar apenas o primeiro nome. “Não dá para descansar com um só dia de folga. Como a jornada diária é longa, acumula tarefas de casa. Aí no dia de folga, que no meu caso é na terça-feira, eu vou cuidar da casa, lavar roupa, passar roupa, limpar tudo”, disse Sílvia, que trabalha num supermercado. “Não consigo ter lazer, não consigo ir numa pizzaria, num aniversário, nada disso. Nem me chamam mais, por causa do meu horário. Nem folga fixa eu tenho, mas geralmente é na terça ou na quinta-feira”, relatou Marcos, que trabalha numa drogaria. O funcionário contou que este ano a jornada dele passou a ser 5x2, portando com dois dias de folga, porém houve aumento da carga diária para dez horas trabalhadas, além de uma hora de almoço. Contando com deslocamento de uma hora e meia na ida e na volta, ele passa 14 horas por dia por conta do trabalho. “É muito cansativo, chego em casa esgotado.” Tanto Sílvia quanto Marcos recebem um salário-mínimo, mesmo valor que a loja de departamento de um shopping em Brasília paga a Henrique, que ainda sonha em realizar o aniversário do filho, hoje com três anos. “Não tem como fazer o aniversário dele na quarta-feira. E mesmo quando tenho folga no domingo, que é raríssimo, é difícil porque preciso organizar tudo antes e depois limpar, já que tenho que trabalhar no dia seguinte. Então a gente faz um bolinho só entre nós, mas eu queria fazer uma comemoração com amigos e família.” A jornada puxada acabou fazendo com que a atendente Érika tivesse dificuldade de seguir com o curso superior. “Eu trabalhava num shopping e tranquei a faculdade, que era federal. Não conseguia me dedicar porque a jornada era muito puxada. Acabei fazendo outro curso, que tinha a modalidade à distância, em outra instituição.” Ela e a amiga Ana trabalham hoje num laboratório de exames médicos, com folga aos domingos, mas com expediente todos os sábados e na maioria dos feriados. “É muito cansativo, você perde tempo de convivência com a família, com os amigos e pode ter problemas de saúde mental. No meu caso é muito tempo de tela, imagina conseguir estudar depois da jornada”, afirmou Ana.

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  7. 27 May

    Muita política e pouco futebol: entenda os motivos do desinteresse dos alemães pela Copa 2026

    A seleção alemã de futebol se reúne nesta quarta-feira (27), na Baviera, para dar início à preparação para a Copa do Mundo 2026. A nationalmannschaft terá 18 dias para fazer os últimos ajustes antes da estreia no torneio, que este ano terá como países-sede o Canadá, os Estados Unidos e o México. Mas o clima na Alemanha é de pouco entusiasmo tanto com o time quanto com a organização do evento. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha O desânimo é tão evidente que se tornou tema de debate na imprensa alemã. Um comentarista do jornal Nordkurier diz que “a expectativa para a apresentação da seleção hoje está mais parecida com a de uma visita ao dentista”. Ele compara esse clima com o da Copa de 2006, quando a Alemanha sediou o torneio e o país viveu uma verdadeira euforia, com bandeiras por todos os lados e forte engajamento popular. Hoje, 20 anos depois, o entusiasmo parece distante. Em 2014 veio a Copa disputada no Brasil e o tetracampeonato alemão, outro momento de celebração e êxtase nas ruas da Alemanha. Mas é verdade que, depois da copa do 7 a 1, a nationalmannschaft parece não mobilizar mais os seus torcedores. Este ano, não há decoração nas ruas nem eventos públicos organizados. A cidade de Mainz, por exemplo, decidiu não organizar a exibição pública dos jogos em telões. O próprio clube local, o Mainz 05, que disputa a Bundesliga, também optou por não abrir o estádio para que os torcedores assistam às partidas em grupo, colo costumava acontecer. As autoridades e o clube justificam a decisão pelos custos adicionais com segurança e pessoal, principalmente devido ao horário mais tardio dos jogos. Mas essa explicação não convence totalmente, já que a estreia da Alemanha está marcada para 14 de junho, às 19h. O adversário do primeiro embate, por outro lado, pode ajudar a explicar o desânimo: a pouco estrelada seleção de Curaçao. Leia tambémBrasileiro no futebol alemão fala sobre volta aos gramados: "medo ainda existe" Anfitriões hostis O país anfitrião é um fator relevante e difícil de dissociar do contexto político. A Copa de 2014 é frequentemente apontada como o último momento de grande mobilização na Alemanha em relação ao torneio. Desde então, as três edições seguintes foram realizadas em países percebidos como politicamente hostis por parte significativa da população alemã: a Rússia, em 2018; o Catar, em 2022; e, agora, os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump, considerado o presidente americano mais impopular entre os alemães. Segundo pesquisas, 71% da população do país não veem mais os Estados Unidos como um parceiro confiável. Apesar disso, quando os ingressos começaram a ser vendidos, a Alemanha figurou entre os países com o maior número de inscrições, atrás apenas de Inglaterra e Colômbia, e registrando, por exemplo, o dobro de pedidos em comparação com a França. No entanto, com a proximidade do torneio, o aumento dos preços afastou parte dos interessados. Assistir aos três jogos da Alemanha na fase de grupos pode custar entre € 8 mil e € 9 mil por pessoa, considerando passagens, hospedagem e traslado. Segundo agências de viagem, a procura por pacotes para a Copa do Mundo está abaixo do esperado. Muitos torcedores alemães já optam por direcionar seus planos para a Euro 2028, que será disputada no Reino Unido e na Irlanda. Há duas semanas, a Federação Alemã de Futebol lançou uma campanha para estimular o interesse pelo torneio, incluindo vídeos que destacam depoimentos emocionantes dos jogadores. A iniciativa busca especialmente atrair o público mais jovem. Desde o último título, há 12 anos, a nova geração que passou a acompanhar a seleção alemã não viu conquistas, apenas eliminações precoces, como nas Copas de 2018 e 2022, quando a Nationalmannschaft foi eliminada ainda na fase de grupos.  Esse histórico esportivo ajuda a explicar a queda de entusiasmo dos alemães pela Copa: a percepção de perda de qualidade do futebol alemão. Campeão mundial Lothar Matthäus provoca Vinícius Jr. O técnico Julian Nagelsmann, de 38 anos, é visto com bastante ceticismo por ser um treinador relativamente jovem e que, desde que assumiu a seleção alemã, em 2023, não tem tido um grande desempenho. Ele foi criticado por deixar de fora, por exemplo, o prodígio do Colônia Said El Mala, de 19 anos, que marcou 13 gols na reta final da Bundesliga. Houve grande polêmica também em torno da decisão de recolocar o goleiro veterano Manuel Neuer entre os titulares, após dois anos afastado da seleção. Parte da opinião pública considerou injusta a troca de última hora de Oliver Baumann — que disputou todas as eliminatórias da Copa do Mundo — pelo jogador do Bayern de Munique. Mas a decisão recebeu um apoio de peso: o campeão mundial Lothar Matthäus afirmou publicamente que Neuer ainda é o melhor goleiro da Alemanha e fez uma declaração provocativa direcionada aos torcedores brasileiros. Em comentário ao jornal Bild, Matthäus disse que “quando um Vinicius Jr. fica cara a cara com o Manu, ele já fica com um borrão na cueca”. Com ou sem entusiasmo, a seleção alemã ainda joga dois amistosos contra Finlândia e Estados Unidos antes da estreia na Copa. A base da delegação será na Carolina do Norte.

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  8. 26 May

    Dinamarca cria ferramenta digital para ajudar filhos de pais divorciados

    A plataforma desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Copenhague, mostrou redução significativa de ansiedade, tristeza e conflitos familiares. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Batizada de SES NXT, a plataforma funciona como um programa digital de apoio psicológico voltado para crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos. O conteúdo é dividido por faixa etária e inclui vídeos, exercícios práticos e relatos de outras crianças que passaram pela separação dos pais. Entre os temas abordados estão conflitos familiares, adaptação à vida em duas casas, famílias recompostas e identificação das emoções depois do divórcio. Segundo o psicólogo Gert Martin Hald, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Copenhague e um dos responsáveis pelo estudo, o divórcio costuma ser o primeiro grande evento negativo vivido por muitas crianças. “Algumas crianças e adolescentes desenvolvem sofrimento psicológico importante e até dificuldades escolares com o divórcio dos pais”, afirma Gert Martin Hald. Melhora emocional O estudo acompanhou 866 crianças e adolescentes durante 12 semanas. Os participantes foram divididos em dois grupos, um recebeu acesso imediato à plataforma e o outro só passou a utilizar a ferramenta depois do fim da pesquisa. Segundo os pesquisadores, as crianças que utilizaram o programa apresentaram redução significativa de sintomas como tristeza, ansiedade, preocupação excessiva e problemas de comportamento. Também houve melhora na concentração, nas relações sociais e na capacidade das crianças de lidar com conflitos familiares. Um dado que chamou bastante atenção foi que quase metade das crianças que utilizou a plataforma saiu de um quadro considerado emocionalmente vulnerável para níveis normais de bem-estar psicológico. No grupo que não teve acesso imediato à ferramenta, essa melhora apareceu em apenas uma em cada dez crianças. Países Nórdicos Hoje, a plataforma SES NXT já é utilizada em 16 municípios dinamarqueses. Cerca de 1.700 crianças já passaram pelo programa. O programa também foi adotado na Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia. Os países Nórdicos aparecem historicamente entre as nações europeias com maiores índices de separação, de acordo com os dados do Eurostat, o órgão de estatísticas da União Europeia. Na Dinamarca, por exemplo, cerca de 12.800 divórcios foram registrados em 2023, segundo o Instituto Nacional de Estatística do país. Suécia e a Finlândia também aparecem regularmente entre os países europeus com taxas elevadas de divórcio. Os pesquisadores alertam que um dos fatores importantes para o bem-estar das crianças depois da separação é justamente a redução dos conflitos entre os pais.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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