A Semana na Imprensa

Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

  1. 10 hr ago

    Aplicações práticas da IA não superam os riscos de exclusão econômica e desinformação

    As revistas semanais francesas trazem a Inteligência Artificial como destaque em reportagens. As publicações exploram desde as críticas aos grandes líderes do setor até as aplicações práticas que estão transformando o cotidiano das pessoas. Segundo a L'Obs, vivemos um período de "IA ansiedade", marcado pela crescente preocupação com os efeitos nocivos dessa tecnologia na sociedade, como o impacto ambiental dos centros de dados e a possível destruição de empregos qualificados. A revista destaca o que chama de "falsos profetas da IA", referindo-se a bilionários do setor como Elon Musk, Sam Altman e Mark Zuckerberg, cujas promessas de um futuro radiante esconderiam uma vontade de dominação econômica e poder político. No centro do debate, a publicação traz a encíclica "Magnifica Humanitas" do Papa Leão XIV, que apela pelo "desarmamento da IA" para que ela não domine o ser humano, defendendo uma revolução antropológica que coloque a dignidade humana acima do lucro. Já a revista L'Express traz uma perspectiva fundamentada no debate econômico e filosófico sobre a mesma encíclica papal. Em entrevista, os economistas David Thesmar e Augustin Landier analisam o texto de Leão XIV, classificando-o como "tecnoansioso" por se concentrar excessivamente em riscos como a exclusão econômica e a desinformação. Embora Landier reconheça que a Igreja acertadamente identifica a IA como uma disrupção fundamental que remodela a sociedade, Thesmar diverge da ideia de desaceleração. Acelerar ou controlar? Para ele, a humanidade deve, na verdade, acelerar o progresso técnico para enfrentar desafios globais, argumentando que a estagnação organizada da IA não seria benéfica para o bem-estar humano. Finalmente, Le Point trata do impacto direto da tecnologia no mercado imobiliário, mostrando como a IA está otimizando a busca por imóveis. Através de assistentes inteligentes como o ZIA e o ARI, os interessados podem agora realizar buscas por critérios ultraprecisos, como "vista para a Torre Eiffel" ou "proximidade de boas escolas". Além de reduzir sensivelmente o tempo de pesquisa, a tecnologia permite visualizar o potencial de reformas através de home staging virtual e obter orçamentos detalhados de renovação em poucos segundos. Para os profissionais do setor, a IA atua na liberação de tarefas administrativas repetitivas, permitindo que os agentes imobiliários se dediquem mais ao acompanhamento humano e estratégico de seus clientes.

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  2. 30 May

    Ucrânia aposta em drones para resistir a aumento de ataques da Rússia

    O avanço estratégico ucraniano no conflito com a Rússia, com foco no uso decisivo de drones e tecnologias inovadoras no campo de batalha, é destaque nas revistas semanais francesas. A imprensa também revela os bastidores das sanções europeias contra Moscou, marcadas por um sistema complexo de aplicação.  A revista Le Point enfatiza o desempenho do exército ucraniano que, segundo a publicação, “impressiona o mundo”. Em um conflito que se prolonga no tempo, os ucranianos estão fazendo mais do que simplesmente resistir, afirma a reportagem: a arma secreta de Kiev são drones e robôs ultramodernos, que fazem toda a diferença no campo de batalha. A chamada nova guerra, travada à distância, permitiu que os ucranianos resistissem aos invasores russos, superiores em exército e poder de fogo, analisa a revista. Em abril, pela primeira vez desde a contraofensiva ucraniana de 2023, a Rússia perdeu mais território do que ganhou na Ucrânia, segundo dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW). Ao mesmo tempo, de acordo com um comunicado da Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU na Ucrânia, abril também registrou o maior número de mortes de civis desde maio de 2024: ao menos 209 pessoas morreram e 1.146 ficaram feridas. Os ataques russos têm se intensificado por via aérea, enquanto os avanços são mais limitados por terra. A revista destaca ainda o uso do P1-Sun, considerado o melhor interceptador de drones da Ucrânia. Essa tecnologia, desenvolvida pela start-up ucraniana SkyFall, permite que Kiev neutralize os drones Shahed utilizados por Moscou. Sanções A semanal L’Express, por sua vez, revela os bastidores da aplicação de sanções impostas pela Europa contra a Rússia desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. As medidas de retaliação atingem cerca de 2.600 indivíduos e entidades considerados próximos ao Kremlin, e têm em primeira linha oligarcas e seus familiares. A elaboração da lista de sancionados segue um mecanismo complexo e opaco, segundo a revista. Todos os bens dessas pessoas e empresas em solo europeu são congelados. Eles não podem mais usufruir de suas propriedades, iates, nem movimentar ou sacar recursos de suas contas bancárias na Europa. As sanções, de caráter praticamente permanente, também incluem a proibição de viagens dentro da União Europeia. Um grupo de advogados instalados em Paris e Bruxelas tem tentado contestá-las nos tribunais, apontando lacunas e ambiguidades no sistema europeu. Pouco menos de 100 recursos foram apresentados até agora, com sucesso relativo. Segundo a revista, o processo é difícil não apenas porque as decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) se aplicam apenas ao pacote de sanções contestado – e a lista negra é renovada a cada seis meses –, mas também porque os critérios adotados são variáveis e devido à falta de transparência no processo de seleção dos alvos das sanções. Entretanto, graças a esses vácuos, Vladimir Lissin, o homem mais rico da Rússia e fornecedor de aço para a fabricação de armas no país, até hoje conseguiu escapar da lista, destaca L'Express.

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  3. 23 May

    Líder que 'europeus adoram detestar', Ursula von der Leyen redefine ambição geopolítica da Comissão Europeia

    As revistas semanais francesas trazem duas leituras complementares sobre o papel da Europa no mundo e o lugar que ela ocupa hoje no equilíbrio global. De um lado, a revista L’Express dedica sua capa à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ela é descrita como a dirigente que “os europeus adoram detestar”. Já Le Nouvel Obs avalia que em negociações com a China e os Estados Unidos, os europeus ainda não imprimem a força necessária para defender seus interesses.  Segundo o perfil traçado pela L'Express, Ursula von der Leyen assumiu a chefia da Comissão em um momento de crise global e optou por responder ampliando o alcance da instituição. Primeira mulher à frente do Executivo europeu, ela imprimiu ao seu mandato uma lógica geopolítica, colocando a União Europeia como ator estratégico em um mundo instável. Mas essa expansão de atuação não é consensual. Nos bastidores de Bruxelas, cresce a percepção de que a presidente vai além do que tradicionalmente caberia à Comissão, ocupando espaços políticos e diplomáticos de maneira mais assertiva; para alguns até excessiva. A reportagem insiste em um ponto central: o estilo de Ursula von der Leyen. Ela é frequentemente descrita como uma dirigente que centraliza decisões, personaliza a ação política e imprime uma marca pessoal forte ao cargo. Para seus críticos, trata-se de uma ruptura com o funcionamento mais colegiado que caracteriza a União Europeia. Isso alimenta acusações de que ela “ultrapassa os limites” de sua função, ainda que seus apoiadores vejam nisso uma adaptação necessária a um mundo mais turbulento. Leia tambémAcordo com Mercosul: UE não descarta entrada em vigor antes de voto do Parlamento Europeu Paradoxo A visibilidade e o protagonismo da dirigente alemã revelam um paradoxo: Ursula von der Leyen é ao mesmo tempo uma das líderes mais reconhecidas do continente e uma das mais contestadas.  É nesse ponto que entra uma segunda análise, desta vez da revista Le Nouvel Obs. Em um editorial intitulado “A lição de Pequim aos europeus”, o texto afirma que a União Europeia deveria ser mais firme na defesa de seus interesses. A revista considera que a China soube resistir às pressões de Donald Trump durante a recente visita do presidente norte-americano a Pequim, enquanto muitas vezes, "a Europa se comporta como um vassalo dos Estados Unidos". Segundo a revista, em um mundo cada vez mais competitivo, a força, e não a conciliação, passou a definir o equilíbrio de poder. A crítica é direta: a Europa ainda hesita, ainda evita o confronto e paga um preço alto por isso. Nas duas publicações, a questão central permanece sem resposta: como a Europa pode se tornar uma potência mais assertiva, sem se dividir por dentro?

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  4. 16 May

    ‘O Rei da Espanha’: com novo filme autobiográfico em Cannes, Pedro Almodóvar é ovacionado na França

    As revistas francesas desta semana destacam a carreira e a obra do diretor Pedro Almodóvar. Aos 76 anos e com um novo filme estreando no Festival de Cannes, o cineasta espanhol nunca conquistou a Palma de Ouro, o principal prêmio da mostra cinematográfica francesa, apesar de ter um estilo marcante e uma carreira reconhecida mundialmente.  Estampando a capa da revista M, do jornal Le Monde, Pedro Almodóvar é chamado pela publicação de “O rei da Espanha”. E não é para menos: são 24 longas-metragens, cerca de 12 curtas, além de filmes de outros diretores produzidos por meio da produtora El Deseo, que dirige ao lado do irmão, Agustín. O cineasta espanhol também tem um estilo inconfundível, a revista, reconhecido internacionalmente. A publicação destaca ainda que, apesar de todo esse reconhecimento e de ter concorrido sete vezes em Cannes, Almodóvar nunca foi premiado. Este ano, ele tem uma nova oportunidade de ganhar a Palma de Ouro com o filme autobiográfico "Amarga Navidad" (Natal amargo, em tradução livre). Para a revista Le Nouvel L’Obs, o longa é um “autorretrato cru” do cineasta, um eco sutil de “Dor e glória”, também autobiográfico, lançado em 2019, com Antonio Banderas no papel principal. “Amarga Navidad” conta a história de um cineasta em meio a uma crise criativa, interpretado pelo argentino Leonardo Sbaraglia, que busca inspiração para seu próximo filme quando uma tragédia atinge um de seus colaboradores mais próximos. Gradualmente, ele imagina Elsa, uma diretora em processo de escrita, cuja trajetória começa a espelhar a sua. Os dois cineastas tornam-se duas faces da mesma moeda, como em um labirinto de espelhos. “Muitos dizem que tudo o que não é autobiográfico é mentira. Concordo plenamente com isso, na medida em que constato que a minha vida, em níveis variados, sempre foi uma fonte de inspiração”, afirmou Almodóvar à Le Nouvel L’Obs. “Fazer cinema é a razão da minha existência. O que vivo fora dele é um pretexto para usar nos meus filmes”, acrescentou. Do passado na telefonia ao sucesso mundial Antes de se tornar conhecido pelos cenários vibrantes e pelas histórias passionais, o jovem Pedro Almodóvar - então cineasta underground, roqueiro e festeiro inveterado, além de nunca ter escondido sua homossexualidade - trabalhou por 12 anos na companhia telefônica nacional da Espanha. Considerado também um símbolo do despertar espanhol dos anos 1970, quando o país começava a se libertar da ditadura de Francisco Franco, ele só pôde se dedicar integralmente ao cinema após o sucesso de seu primeiro longa-metragem “oficial”, “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão”, lançado em 1980. Sobre seu trabalho mais recente, “Amarga Navidad”, Almodóvar contou à Le Nouvel L’Obs que busca inspiração não apenas na própria vida, mas também em autores clássicos. Para ele, a França é um país com grandes “voyeurs da autoficção”, citando escritores como Annie Ernaux e Emmanuel Carrère.

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  5. 9 May

    Exterminadores do futuro? Robôs e IA redefinem mundo do trabalho e deixam famílias sem respostas na França

    As revistas francesas desta semana abordam dois eixos centrais: a corrida global dos robôs humanoides e a reorganização geopolítica e econômica que ela provoca; e o impacto da inteligência artificial nas decisões íntimas, como a escolha de profissões dos filhos. Em ambos os casos, a revista Le Point e o suplemento M, do jornal Le Monde, mostram um mesmo cenário: aceleração tecnológica que transforma o trabalho e desestabiliza referências sociais, econômicas e familiares, sem respostas claras sobre o futuro. Le Point descreve esse movimento como uma transformação estrutural já em curso, comparável a uma nova revolução industrial. O avanço dos robôs humanoides deixa de ser promessa distante e passa a integrar operações concretas, como no aeroporto de Haneda, em Tóquio, onde máquinas da empresa chinesa Unitree já auxiliam no transporte de bagagens. O cenário japonês ilustra uma inversão simbólica: um país historicamente associado à vanguarda da robótica industrial agora recorre a tecnologias desenvolvidas na China para enfrentar a escassez de mão de obra provocada pelo envelhecimento populacional. O cálculo econômico é direto, com robôs custando menos que alguns meses de trabalho humano. A China aparece como o principal laboratório dessa nova corrida. Empresas e polos industriais em cidades como Shenzhen e Xangai formam um ecossistema de desenvolvimento acelerado, onde robôs são treinados em ambientes controlados para reproduzir gestos humanos em escala crescente. Nos Estados Unidos, o tema assume dimensão política e performática. Le Point destaca a aparição de um robô humanoide ao lado da primeira-dama em um evento na Casa Branca, gesto interpretado como demonstração de liderança tecnológica diante da competição global com a China. Leia tambémInteligência artificial já reduz emprego de jovens e ameaça a formação dos profissionais do futuro Inteligência artificial e a crise silenciosa da orientação dos filhos Na outra ponta desse debate, a revista semanal M, do jornal Le Monde, observa como a inteligência artificial está desorganizando algo ainda mais sensível: as estratégias familiares de educação e orientação profissional na França. A cronista Guillemette Faure parte de uma provocação simples – a desconfiança em embarcar em um avião pilotado por IA – para discutir a perda de referências nas escolhas de vida. O texto mostra que antigos roteiros de sucesso – como investir cedo em programação, dominar idiomas estratégicos ou buscar carreiras em grandes corporações – começam a ser colocados em dúvida por pais que já não sabem quais profissões sobreviverão à automação. Leia tambémDisputa na Justiça entre Musk e Altman expõe a luta pelo controle da IA Em relatos reunidos pela publicação, profissionais de áreas tradicionais como direito, medicina ou tecnologia expressam insegurança sobre o futuro de suas próprias carreiras e, em alguns casos, desaconselham que os filhos sigam os mesmos caminhos. Diante desse cenário, surgem estratégias de adaptação quase intuitivas: valorização de atividades manuais, artesanais ou criativas, vistas como menos vulneráveis à substituição tecnológica. Ao mesmo tempo, discursos de executivos do setor de tecnologia oferecem respostas vagas – como “aprender a aprender” ou “estar em beta permanente” – que pouco ajudam na tomada de decisões concretas.

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  6. 2 May

    Deriva autoritária de Israel após anos de conflito ganha destaque na imprensa francesa

    Quase três anos após o ataque de 7 de outubro em Israel, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu teria conduzido o país a uma espiral de guerra e endurecimento autoritário. Essa é a avaliação da revista Nouvelle L’Obs, que traz nesta semana na capa o título “A Deriva de Israel”. O tema também ganha amplo destaque na Le Point, que dedica várias páginas à situação no Líbano. Segundo a L’Obs, depois da guerra na Faixa de Gaza — que deixou 72 mil mortos, entre eles 30 mil crianças — Israel abriu seis novas frentes de combate: Líbano, Irã, Cisjordânia, Iêmen, Iraque e Síria. Nem as condenações internacionais nem as investigações internas por corrupção foram capazes de conter os planos de Netanyahu, no poder desde 2009. Um sinal do endurecimento da estratégia foi a aprovação, em março, no Parlamento israelense, da pena de morte para palestinos acusados de terrorismo. “Estamos convencidos de que somos os bons e eles [os palestinos], os maus”, diz um estudante de Tel Aviv, em declaração que ecoa o discurso oficial. Ao mesmo tempo, jornalistas que poderiam denunciar os massacres praticados no conflito passam a se autocensurar por medo de marginalização, enquanto a oposição de esquerda perde espaço no país. Especialistas ouvidos pela Nouvelle L’Obs descrevem uma “democracia em erosão”, cujos ideais foram manchados pela destruição de Gaza, pela colonização da Cisjordânia e por crimes de guerra. Segundo eles, essa política agressiva “contribuiu para colocar em perigo os judeus do mundo inteiro”. Pela primeira vez, ressalta o texto, cidadãos americanos demonstram mais solidariedade aos palestinos do que aos israelenses. Além disso, diversos analistas passam a usar o termo genocídio para descrever a ofensiva. Conflito no sul do Líbano Já a revista Le Point analisa a guerra entre Israel e o Hezbollah, a milícia armada libanesa alinhada ao Irã. O conflito já deixou cerca de 2.500 mortos no Líbano. Sob a justificativa de eliminar a ameaça terrorista, Israel abre caminho para a criação de uma zona de segurança ao longo da fronteira, com destruição de casas e retirada forçada de moradores — o que as autoridades libanesas classificam como uma ocupação. A abertura de conversas diretas entre as diplomacias israelense e libanesa representa uma novidade histórica. Enquanto Tel Aviv afirma mirar a erradicação do Hezbollah, Beirute aposta na consolidação do cessar‑fogo. Em meio às ofensivas israelenses, o Hezbollah rejeita ser desarmado à força — medida que, segundo um deputado eleito pelo grupo, poderia desencadear uma guerra civil no país.

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  7. 25 Apr

    Questionamentos sobre saúde mental de Trump ganham espaço na imprensa francesa

    Donald Trump é louco? A pergunta na manchete de capa da revista francesa L’Express desta semana ecoa a dúvida de muita gente em todo o mundo diante do comportamento imprevisível do presidente dos Estados Unidos. A publicação, que chegou às bancas na quinta-feira (23), traz uma série de reportagens investigativas com o objetivo de confirmar ou desmentir essa suspeita. Após várias declarações chocantes, sobretudo depois do início da guerra contra o Irã, a L’Express lembra que o auge das provocações do republicano foi atingido quando ele ameaçou destruir a civilização iraniana. Uma semana depois, mudou de alvo e provocou um escândalo ao criticar o papa Leão XIV, a quem chamou de fraco. Diante das reações negativas, apagou publicações e mudou de narrativa sem demonstrar qualquer constrangimento. Desde o início do mês de abril, parece que algo está fora da ordem no comando dos Estados Unidos, que vêm acumulando reveses, sintetiza a reportagem. Muitos críticos e opositores apontam uma suposta loucura ou o início de uma demência do presidente, que completará em breve 80 anos. A tal ponto que no Congresso americano, representantes democratas, com o apoio de alguns republicanos insatisfeitos, anunciam que pretendem recorrer à 25ª Emenda da Constituição, que prevê a substituição do presidente em caso de incapacidade para governar. Trata-se de uma iniciativa com consequências potencialmente muito mais graves. Discutir a saúde mental de Trump "pode ser uma faca política de dois gumes". A medida exige maioria absoluta no Congresso, algo que os democratas não possuem, e a tese da loucura pode acabar desacreditando o país no cenário internacional. Jeffrey Sonnenfeld, especialista ouvido pela revista, afirma que "a impressão de caos produzida por Donald Trump é uma estratégia deliberada do presidente, que divide para governar melhor e transgride voluntariamente as normas, obtendo às vezes bons resultados". Louco, psicopata ou habilidoso? A suposta loucura de Trump também interessa a outros meios de comunicação franceses. Em entrevista à rádio pública France Inter, o neuropsiquiatra Boris Cyrulnik afirma que o republicano não é um "louco irresponsáve"l, mas "um psicopata que tem o dinheiro como único valor da condição humana". Psicopata, louco ou habilidoso, o fato é que a guerra no Irã veio atrapalhar até mesmo as melhores estratégias de comunicação do presidente americano, "que perdeu a mão", escreve a Nouvel Obs em editorial. Diante de tantas críticas e da queda em sua popularidade, "Trump vive o início do fim de seu poder?" questiona a L’Express. Alguns analistas afirmam que a guerra contra o Irã seria o Vietnã do republicano. Mas estamos realmente assistindo ao seu crepúsculo? "O 47º presidente dos Estados Unidos ainda tem várias cartas na manga e já demonstrou diversas vezes sua habilidade em transformar críticas em armas políticas". Mesmo que os republicanos sejam derrotados nas eleições de meio de mandato em novembro, Trump permanecerá no poder até 20 de janeiro de 2029, conclui a L'Express.

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  8. 18 Apr

    Como a guerra no Oriente Médio corrói o apoio árabe aos Estados Unidos

    A guerra no Oriente Médio tem abalado o apoio aos Estados Unidos no mundo árabe. O tema é destaque nas revistas semanais francesas, que apontam uma mudança de preferência dessas populações em direção aos grandes rivais de Washington: China, Irã e Rússia. A revista L’Express publica os resultados de pesquisas realizadas pelo Barômetro Árabe, que estuda a opinião pública no mundo árabe desde 2006. Essa mudança começou a se intensificar após a guerra devastadora conduzida por Israel, com apoio dos Estados Unidos, na Faixa de Gaza, e se prolonga até hoje. Segundo o levantamento, os habitantes do Oriente Médio “perderam quase toda a confiança na ordem regional dirigida por Washington”. Embora muitos países do Golfo Pérsico continuem a considerar o programa nuclear iraniano uma ameaça, a guerra iniciada por Israel e pelos EUA contra Teerã intensifica o sentimento antiamericano na região. Nesse contexto, colaborar abertamente com Washington pode se transformar em fonte de protestos, algo que os dirigentes autoritários do mundo árabe detestam. Ainda segundo a reportagem, com os ataques ao Irã, os Estados Unidos passam a perder a imagem de defensores dos direitos humanos. A revista Le Point dedica uma reportagem ao sultanato de Omã, que já foi considerado a Suíça do Oriente Médio por seu papel histórico de mediador em conflitos. Foi em Mascate, por exemplo, que o enviado dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e o genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, se reuniram indiretamente com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em abril de 2025. O apoio americano à guerra lançada por Israel, em junho de 2025, alterou profundamente o cenário diplomático. “Omã se sentiu insultado por Trump”, afirma Abdullah Baabood, professor de relações internacionais da Universidade Waseda, em Tóquio, ouvido pela revista. Já a Le Nouvel Obs, que chega às bancas, analisa as tentativas de acordo entre os Estados Unidos e Teerã, com mediação do Paquistão. Segundo a revista, Donald Trump teria sido convencido pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a tentar derrubar um governo que estaria “enfraquecido após a primeira guerra de doze dias”, em junho de 2025. Apesar das reservas do secretário de Estado Marco Rubio, Trump apostou que o regime iraniano, no poder desde 1979, cairia facilmente após bombardeios. Quarenta dias depois, a realidade sugere que o presidente pode ter se equivocado ao envolver os Estados Unidos em um conflito sem precedentes desde a invasão do Iraque, em 2003. O Irã, por sua vez, pode sair fortalecido ao ampliar a instabilidade regional e ao bloquear o Estreito de Ormuz, o que tem impacto na economia internacional, levando as monarquias do Golfo a pressionar Washington. O resultado é uma erosão acelerada do prestígio americano no mundo árabe, em um momento de profundas recomposições geopolíticas no Oriente Médio.

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