A Semana na Imprensa

Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

  1. HACE 3 DÍAS

    ‘O Rei da Espanha’: com novo filme autobiográfico em Cannes, Pedro Almodóvar é ovacionado na França

    As revistas francesas desta semana destacam a carreira e a obra do diretor Pedro Almodóvar. Aos 76 anos e com um novo filme estreando no Festival de Cannes, o cineasta espanhol nunca conquistou a Palma de Ouro, o principal prêmio da mostra cinematográfica francesa, apesar de ter um estilo marcante e uma carreira reconhecida mundialmente.  Estampando a capa da revista M, do jornal Le Monde, Pedro Almodóvar é chamado pela publicação de “O rei da Espanha”. E não é para menos: são 24 longas-metragens, cerca de 12 curtas, além de filmes de outros diretores produzidos por meio da produtora El Deseo, que dirige ao lado do irmão, Agustín. O cineasta espanhol também tem um estilo inconfundível, a revista, reconhecido internacionalmente. A publicação destaca ainda que, apesar de todo esse reconhecimento e de ter concorrido sete vezes em Cannes, Almodóvar nunca foi premiado. Este ano, ele tem uma nova oportunidade de ganhar a Palma de Ouro com o filme autobiográfico "Amarga Navidad" (Natal amargo, em tradução livre). Para a revista Le Nouvel L’Obs, o longa é um “autorretrato cru” do cineasta, um eco sutil de “Dor e glória”, também autobiográfico, lançado em 2019, com Antonio Banderas no papel principal. “Amarga Navidad” conta a história de um cineasta em meio a uma crise criativa, interpretado pelo argentino Leonardo Sbaraglia, que busca inspiração para seu próximo filme quando uma tragédia atinge um de seus colaboradores mais próximos. Gradualmente, ele imagina Elsa, uma diretora em processo de escrita, cuja trajetória começa a espelhar a sua. Os dois cineastas tornam-se duas faces da mesma moeda, como em um labirinto de espelhos. “Muitos dizem que tudo o que não é autobiográfico é mentira. Concordo plenamente com isso, na medida em que constato que a minha vida, em níveis variados, sempre foi uma fonte de inspiração”, afirmou Almodóvar à Le Nouvel L’Obs. “Fazer cinema é a razão da minha existência. O que vivo fora dele é um pretexto para usar nos meus filmes”, acrescentou. Do passado na telefonia ao sucesso mundial Antes de se tornar conhecido pelos cenários vibrantes e pelas histórias passionais, o jovem Pedro Almodóvar - então cineasta underground, roqueiro e festeiro inveterado, além de nunca ter escondido sua homossexualidade - trabalhou por 12 anos na companhia telefônica nacional da Espanha. Considerado também um símbolo do despertar espanhol dos anos 1970, quando o país começava a se libertar da ditadura de Francisco Franco, ele só pôde se dedicar integralmente ao cinema após o sucesso de seu primeiro longa-metragem “oficial”, “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão”, lançado em 1980. Sobre seu trabalho mais recente, “Amarga Navidad”, Almodóvar contou à Le Nouvel L’Obs que busca inspiração não apenas na própria vida, mas também em autores clássicos. Para ele, a França é um país com grandes “voyeurs da autoficção”, citando escritores como Annie Ernaux e Emmanuel Carrère.

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  2. 9 MAY

    Exterminadores do futuro? Robôs e IA redefinem mundo do trabalho e deixam famílias sem respostas na França

    As revistas francesas desta semana abordam dois eixos centrais: a corrida global dos robôs humanoides e a reorganização geopolítica e econômica que ela provoca; e o impacto da inteligência artificial nas decisões íntimas, como a escolha de profissões dos filhos. Em ambos os casos, a revista Le Point e o suplemento M, do jornal Le Monde, mostram um mesmo cenário: aceleração tecnológica que transforma o trabalho e desestabiliza referências sociais, econômicas e familiares, sem respostas claras sobre o futuro. Le Point descreve esse movimento como uma transformação estrutural já em curso, comparável a uma nova revolução industrial. O avanço dos robôs humanoides deixa de ser promessa distante e passa a integrar operações concretas, como no aeroporto de Haneda, em Tóquio, onde máquinas da empresa chinesa Unitree já auxiliam no transporte de bagagens. O cenário japonês ilustra uma inversão simbólica: um país historicamente associado à vanguarda da robótica industrial agora recorre a tecnologias desenvolvidas na China para enfrentar a escassez de mão de obra provocada pelo envelhecimento populacional. O cálculo econômico é direto, com robôs custando menos que alguns meses de trabalho humano. A China aparece como o principal laboratório dessa nova corrida. Empresas e polos industriais em cidades como Shenzhen e Xangai formam um ecossistema de desenvolvimento acelerado, onde robôs são treinados em ambientes controlados para reproduzir gestos humanos em escala crescente. Nos Estados Unidos, o tema assume dimensão política e performática. Le Point destaca a aparição de um robô humanoide ao lado da primeira-dama em um evento na Casa Branca, gesto interpretado como demonstração de liderança tecnológica diante da competição global com a China. Leia tambémInteligência artificial já reduz emprego de jovens e ameaça a formação dos profissionais do futuro Inteligência artificial e a crise silenciosa da orientação dos filhos Na outra ponta desse debate, a revista semanal M, do jornal Le Monde, observa como a inteligência artificial está desorganizando algo ainda mais sensível: as estratégias familiares de educação e orientação profissional na França. A cronista Guillemette Faure parte de uma provocação simples – a desconfiança em embarcar em um avião pilotado por IA – para discutir a perda de referências nas escolhas de vida. O texto mostra que antigos roteiros de sucesso – como investir cedo em programação, dominar idiomas estratégicos ou buscar carreiras em grandes corporações – começam a ser colocados em dúvida por pais que já não sabem quais profissões sobreviverão à automação. Leia tambémDisputa na Justiça entre Musk e Altman expõe a luta pelo controle da IA Em relatos reunidos pela publicação, profissionais de áreas tradicionais como direito, medicina ou tecnologia expressam insegurança sobre o futuro de suas próprias carreiras e, em alguns casos, desaconselham que os filhos sigam os mesmos caminhos. Diante desse cenário, surgem estratégias de adaptação quase intuitivas: valorização de atividades manuais, artesanais ou criativas, vistas como menos vulneráveis à substituição tecnológica. Ao mesmo tempo, discursos de executivos do setor de tecnologia oferecem respostas vagas – como “aprender a aprender” ou “estar em beta permanente” – que pouco ajudam na tomada de decisões concretas.

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  3. 2 MAY

    Deriva autoritária de Israel após anos de conflito ganha destaque na imprensa francesa

    Quase três anos após o ataque de 7 de outubro em Israel, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu teria conduzido o país a uma espiral de guerra e endurecimento autoritário. Essa é a avaliação da revista Nouvelle L’Obs, que traz nesta semana na capa o título “A Deriva de Israel”. O tema também ganha amplo destaque na Le Point, que dedica várias páginas à situação no Líbano. Segundo a L’Obs, depois da guerra na Faixa de Gaza — que deixou 72 mil mortos, entre eles 30 mil crianças — Israel abriu seis novas frentes de combate: Líbano, Irã, Cisjordânia, Iêmen, Iraque e Síria. Nem as condenações internacionais nem as investigações internas por corrupção foram capazes de conter os planos de Netanyahu, no poder desde 2009. Um sinal do endurecimento da estratégia foi a aprovação, em março, no Parlamento israelense, da pena de morte para palestinos acusados de terrorismo. “Estamos convencidos de que somos os bons e eles [os palestinos], os maus”, diz um estudante de Tel Aviv, em declaração que ecoa o discurso oficial. Ao mesmo tempo, jornalistas que poderiam denunciar os massacres praticados no conflito passam a se autocensurar por medo de marginalização, enquanto a oposição de esquerda perde espaço no país. Especialistas ouvidos pela Nouvelle L’Obs descrevem uma “democracia em erosão”, cujos ideais foram manchados pela destruição de Gaza, pela colonização da Cisjordânia e por crimes de guerra. Segundo eles, essa política agressiva “contribuiu para colocar em perigo os judeus do mundo inteiro”. Pela primeira vez, ressalta o texto, cidadãos americanos demonstram mais solidariedade aos palestinos do que aos israelenses. Além disso, diversos analistas passam a usar o termo genocídio para descrever a ofensiva. Conflito no sul do Líbano Já a revista Le Point analisa a guerra entre Israel e o Hezbollah, a milícia armada libanesa alinhada ao Irã. O conflito já deixou cerca de 2.500 mortos no Líbano. Sob a justificativa de eliminar a ameaça terrorista, Israel abre caminho para a criação de uma zona de segurança ao longo da fronteira, com destruição de casas e retirada forçada de moradores — o que as autoridades libanesas classificam como uma ocupação. A abertura de conversas diretas entre as diplomacias israelense e libanesa representa uma novidade histórica. Enquanto Tel Aviv afirma mirar a erradicação do Hezbollah, Beirute aposta na consolidação do cessar‑fogo. Em meio às ofensivas israelenses, o Hezbollah rejeita ser desarmado à força — medida que, segundo um deputado eleito pelo grupo, poderia desencadear uma guerra civil no país.

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  4. 25 ABR

    Questionamentos sobre saúde mental de Trump ganham espaço na imprensa francesa

    Donald Trump é louco? A pergunta na manchete de capa da revista francesa L’Express desta semana ecoa a dúvida de muita gente em todo o mundo diante do comportamento imprevisível do presidente dos Estados Unidos. A publicação, que chegou às bancas na quinta-feira (23), traz uma série de reportagens investigativas com o objetivo de confirmar ou desmentir essa suspeita. Após várias declarações chocantes, sobretudo depois do início da guerra contra o Irã, a L’Express lembra que o auge das provocações do republicano foi atingido quando ele ameaçou destruir a civilização iraniana. Uma semana depois, mudou de alvo e provocou um escândalo ao criticar o papa Leão XIV, a quem chamou de fraco. Diante das reações negativas, apagou publicações e mudou de narrativa sem demonstrar qualquer constrangimento. Desde o início do mês de abril, parece que algo está fora da ordem no comando dos Estados Unidos, que vêm acumulando reveses, sintetiza a reportagem. Muitos críticos e opositores apontam uma suposta loucura ou o início de uma demência do presidente, que completará em breve 80 anos. A tal ponto que no Congresso americano, representantes democratas, com o apoio de alguns republicanos insatisfeitos, anunciam que pretendem recorrer à 25ª Emenda da Constituição, que prevê a substituição do presidente em caso de incapacidade para governar. Trata-se de uma iniciativa com consequências potencialmente muito mais graves. Discutir a saúde mental de Trump "pode ser uma faca política de dois gumes". A medida exige maioria absoluta no Congresso, algo que os democratas não possuem, e a tese da loucura pode acabar desacreditando o país no cenário internacional. Jeffrey Sonnenfeld, especialista ouvido pela revista, afirma que "a impressão de caos produzida por Donald Trump é uma estratégia deliberada do presidente, que divide para governar melhor e transgride voluntariamente as normas, obtendo às vezes bons resultados". Louco, psicopata ou habilidoso? A suposta loucura de Trump também interessa a outros meios de comunicação franceses. Em entrevista à rádio pública France Inter, o neuropsiquiatra Boris Cyrulnik afirma que o republicano não é um "louco irresponsáve"l, mas "um psicopata que tem o dinheiro como único valor da condição humana". Psicopata, louco ou habilidoso, o fato é que a guerra no Irã veio atrapalhar até mesmo as melhores estratégias de comunicação do presidente americano, "que perdeu a mão", escreve a Nouvel Obs em editorial. Diante de tantas críticas e da queda em sua popularidade, "Trump vive o início do fim de seu poder?" questiona a L’Express. Alguns analistas afirmam que a guerra contra o Irã seria o Vietnã do republicano. Mas estamos realmente assistindo ao seu crepúsculo? "O 47º presidente dos Estados Unidos ainda tem várias cartas na manga e já demonstrou diversas vezes sua habilidade em transformar críticas em armas políticas". Mesmo que os republicanos sejam derrotados nas eleições de meio de mandato em novembro, Trump permanecerá no poder até 20 de janeiro de 2029, conclui a L'Express.

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  5. 18 ABR

    Como a guerra no Oriente Médio corrói o apoio árabe aos Estados Unidos

    A guerra no Oriente Médio tem abalado o apoio aos Estados Unidos no mundo árabe. O tema é destaque nas revistas semanais francesas, que apontam uma mudança de preferência dessas populações em direção aos grandes rivais de Washington: China, Irã e Rússia. A revista L’Express publica os resultados de pesquisas realizadas pelo Barômetro Árabe, que estuda a opinião pública no mundo árabe desde 2006. Essa mudança começou a se intensificar após a guerra devastadora conduzida por Israel, com apoio dos Estados Unidos, na Faixa de Gaza, e se prolonga até hoje. Segundo o levantamento, os habitantes do Oriente Médio “perderam quase toda a confiança na ordem regional dirigida por Washington”. Embora muitos países do Golfo Pérsico continuem a considerar o programa nuclear iraniano uma ameaça, a guerra iniciada por Israel e pelos EUA contra Teerã intensifica o sentimento antiamericano na região. Nesse contexto, colaborar abertamente com Washington pode se transformar em fonte de protestos, algo que os dirigentes autoritários do mundo árabe detestam. Ainda segundo a reportagem, com os ataques ao Irã, os Estados Unidos passam a perder a imagem de defensores dos direitos humanos. A revista Le Point dedica uma reportagem ao sultanato de Omã, que já foi considerado a Suíça do Oriente Médio por seu papel histórico de mediador em conflitos. Foi em Mascate, por exemplo, que o enviado dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e o genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, se reuniram indiretamente com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em abril de 2025. O apoio americano à guerra lançada por Israel, em junho de 2025, alterou profundamente o cenário diplomático. “Omã se sentiu insultado por Trump”, afirma Abdullah Baabood, professor de relações internacionais da Universidade Waseda, em Tóquio, ouvido pela revista. Já a Le Nouvel Obs, que chega às bancas, analisa as tentativas de acordo entre os Estados Unidos e Teerã, com mediação do Paquistão. Segundo a revista, Donald Trump teria sido convencido pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a tentar derrubar um governo que estaria “enfraquecido após a primeira guerra de doze dias”, em junho de 2025. Apesar das reservas do secretário de Estado Marco Rubio, Trump apostou que o regime iraniano, no poder desde 1979, cairia facilmente após bombardeios. Quarenta dias depois, a realidade sugere que o presidente pode ter se equivocado ao envolver os Estados Unidos em um conflito sem precedentes desde a invasão do Iraque, em 2003. O Irã, por sua vez, pode sair fortalecido ao ampliar a instabilidade regional e ao bloquear o Estreito de Ormuz, o que tem impacto na economia internacional, levando as monarquias do Golfo a pressionar Washington. O resultado é uma erosão acelerada do prestígio americano no mundo árabe, em um momento de profundas recomposições geopolíticas no Oriente Médio.

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  6. 11 ABR

    Energia russa, apoio conservador e propaganda: entenda o plano de Orbán para vencer as eleições húngaras

    Às vésperas das eleições legislativas na Hungria, marcadas para este domingo (12), o primeiro‑ministro Viktor Orbán tenta se manter no poder com o apoio de Moscou, Pequim e Washington. Nem os alertas da maioria dos 26 Estados-membros da União Europeia (UE), nem as consequências da guerra na vizinha Ucrânia parecem abalar a determinação do líder conservador, que está há 16 anos no comando do país. O tema é destaque das principais revistas semanais francesas. A Le Point destaca que, embora a UE invista bilhões de euros na Hungria desde 2004 para a construção de rodovias, metrôs e pontes, é junto à Rússia — em guerra aberta contra os europeus — que Viktor Orbán adquire 80% do petróleo e do gás indispensáveis ao país. Pior do que isso, cartazes de campanha espalhados em diversas cidades desgastam a imagem da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, retratados como “perigosos”. Para a oposição, no entanto, a dependência energética “não deve justificar essa aliança com o Kremlin”, já que haveria alternativas viáveis. O texto sugere ainda que o líder húngaro se beneficia de uma relação opaca com o presidente russo, Vladimir Putin. Segundo a revista Le Nouvel Obs, as pesquisas eleitorais indicam o partido nacional‑populista de Orbán, o Fidesz, atrás da oposição liderada por Péter Magyar, diplomata que denunciou a corrupção dentro da legenda governista. O líder do partido Tisza alerta para a ingerência de equipes de inteligência russa em campanhas de desinformação no país. Aproximação de líderes ultraconservadores O jornal Washington Post chegou a divulgar a existência de um plano envolvendo uma tentativa de assassinato de Orbán para impulsionar sua popularidade. A aproximação com o presidente americano, Donald Trump, e outros líderes conservadores, como o argentino Javier Milei, também integra a estratégia de campanha. O vice‑presidente dos Estados Unidos, JD Vance visitou a Hungria na semana que antecedeu a votação para apoiar o atual primeiro‑ministro. Já a revista L’Express analisa a transformação do Mathias Corvinus Collegium (MCC), instituição educacional fundada em 1996 para apoiar estudantes de baixa renda, em uma “máquina de propaganda” do governo ultraconservador de Viktor Orbán. Privatizado em 2021, o instituto recebeu forte apoio financeiro da companhia petrolífera MOL, cuja receita depende do petróleo russo. Desde então, o MCC se expandiu e passou a atuar em 31 localidades, incluindo Romênia, Eslováquia e Ucrânia. A revista aponta ainda que instituições ligadas a Orbán contam com apoio explícito de Washington. Nas palavras do secretário de Estado americano Marco Rubio, “a vitória de Orbán é a nossa vitória”.

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  7. 4 ABR

    Revistas francesas detalham como Trump usa mandato para se enriquecer e aumentar reservas de urânio

    As revistas francesas Le Point e L’Express traçam, nesta semana, um retrato inquietante da presidência de Donald Trump. Enquanto Le Point descreve um chefe de Estado que transforma o cargo em plataforma de enriquecimento pessoal e influência econômica, L’Express mostra um líder disposto a assumir riscos militares elevados para controlar 440 kg de urânio enriquecido no Irã. Entre negócios e geopolítica, emerge a figura de um presidente que mistura poder e dinheiro de forma inédita no mundo. Segundo reportagem da revista francesa Le Point, publicada nesta semana, o retorno de Donald Trump à Casa Branca teria consolidado uma forma inédita de fusão entre poder político e enriquecimento pessoal. A revista descreve o presidente norte-americano como alguém que transformou o exercício do cargo em uma plataforma de rentabilização contínua, seja por meio de eventos privados, ativos imobiliários, criptomoedas ou relações políticas convertidas em vantagem econômica. Ainda de acordo com Le Point, o fenômeno não seria marginal, mas estrutural. A publicação menciona estimativas do New Yorker segundo as quais Trump teria acumulado mais de US$ 4 bilhões durante seus mandatos, algo que o periódico classifica como “sem precedentes” na história presidencial americana. A revista sustenta que a fronteira entre diplomacia e negócios privados teria se tornado difusa, a ponto de acadêmicos citados no texto falarem em um sistema em que a política externa estaria subordinada a interesses pessoais e de aliados próximos. Leia tambémImprevisibilidade de Trump gera mais incerteza e piora crise no Oriente Médio Nesse contexto, Le Point sugere uma mutação institucional mais profunda: os Estados Unidos, historicamente descritos como uma "plutocracia eleitoral", estariam deslizando para uma forma híbrida de "cleptocracia política", em que decisões de Estado passam a gerar retornos econômicos diretos para o entorno do presidente. A revista enfatiza que "críticos internos do meio financeiro norte-americano já passaram a questionar publicamente possíveis conflitos de interesse da atual administração". Mar-a-Lago, criptomoedas e a economia privada do poder Ainda segundo Le Point, esse modelo de poder se materializa de forma concreta em espaços como Mar-a-Lago, na Flórida, apresentado pela revista como um símbolo físico da fusão entre residência presidencial e "clube privado de negócios". A reportagem descreve o aumento expressivo das taxas de adesão ao clube e a transformação do local em um "centro de influência política e econômica". A publicação destaca também o papel de iniciativas ligadas a criptomoedas associadas ao entorno de Trump, apontando, com base em analistas citados, que determinadas operações financeiras "teriam gerado retornos superiores a US$ 1 bilhão". O conjunto dessas atividades é interpretado pela revista como parte de uma economia paralela do poder, em que o acesso ao presidente e à sua rede se converte em ativo financeiro. Para Le Point, até mesmo eventos diplomáticos podem ser reinterpretados sob essa lógica. A revista menciona a intenção de realizar encontros internacionais em propriedades privadas do presidente, o que, segundo diplomatas citados, reforçaria a confusão entre interesse público e benefício privado. Leia tambémIrã promete ataques ‘esmagadores’ após discurso de Trump que sinaliza continuidade da ofensiva "Troféu estratégico" Já a revista francesa L’Express publica nesta semana uma análise centrada na guerra no Oriente Médio, na qual Donald Trump aparece como ator decisivo em uma disputa de alto risco envolvendo o programa nuclear iraniano. Segundo o veículo, um dos objetivos estratégicos centrais da atual escalada militar seria "o controle de cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60% no Irã". O material poderia, em tese, ser rapidamente convertido em combustível para múltiplas armas nucleares. De acordo com L’Express, esse estoque teria se tornado um “troféu estratégico” cuja localização e neutralização poderiam definir o desfecho político e militar do conflito. A revista afirma que parte desse material estaria dispersa em instalações subterrâneas altamente protegidas, incluindo Natanz, Fordo e possíveis depósitos em Isfahan, segundo dados atribuídos à Agência Internacional de Energia Atômica. A publicação ressalta ainda que, apesar dos bombardeios e operações militares recentes, especialistas consideram que o "urânio enriquecido não foi totalmente destruído", o que mantém o risco estratégico elevado. Nesse cenário, a administração norte-americana consideraria operações extremamente complexas, incluindo ações de forças especiais no terreno — hipótese descrita como politicamente sensível e militarmente arriscada. A fronteira entre operação militar e desastre estratégico Ainda segundo L’Express, qualquer tentativa de recuperar fisicamente esse material exigiria uma operação de altíssima complexidade logística, envolvendo desde forças especiais até equipamentos pesados de escavação e contenção nuclear. Especialistas citados pela revista descrevem um cenário em que seria necessário operar sob risco simultâneo de ataques, explosivos, drones e resistência militar iraniana. A revista também lembra o precedente histórico da operação fracassada “Eagle Claw”, em 1980, durante a crise dos reféns no Irã, para ilustrar os riscos de intervenções desse tipo. O paralelo sugere que o trauma militar norte-americano na região ainda influencia o planejamento estratégico atual. Para L’Express, o risco não se limita ao campo militar imediato. A revista alerta para a possibilidade de proliferação nuclear caso o material seja deslocado ou parcialmente perdido em meio ao colapso de estruturas estatais, o que poderia envolver atores não estatais e grupos extremistas na região.

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  8. 28 MAR

    Estreito de Ormuz é a arma nuclear de Teerã capaz de intensificar a crise energética em todo o mundo

    A crise global de março de 2026 desenha um cenário de profunda incerteza, no qual geopolítica e economia se fundem sob o impacto de um novo choque petrolífero, como constata a imprensa semanal francesa. O ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciado em 28 de fevereiro, desencadeou o estrangulamento do Estreito de Ormuz, um ponto nevrálgico por onde transita uma parcela significativa do petróleo mundial Com o barril de Brent atingindo US$120, o mundo enfrenta o espectro da estagflação — combinação de crescimento estagnado e inflação persistente —, que ameaça especialmente a estabilidade da União Europeia e as estratégias de transição energética. A revista L’Express destaca como esta crise se tornou um inesperado “balão de oxigênio” para Vladimir Putin. Segundo a publicação, a alta dos preços da energia compensa as sanções internacionais e financia diretamente a máquina de guerra russa na Ucrânia, que se aproxima dos 1.500 dias de conflito. Além disso, a revista analisa o “mea culpa” europeu em relação a décadas de políticas equivocadas: a dependência excessiva do gás russo e o abandono precoce da energia nuclear deixaram o continente vulnerável e à mercê da volatilidade dos combustíveis fósseis, forçando governos a adotar medidas emergenciais e impopulares para conter os preços dos combustíveis. A engrenagem econômica iraniana Na revista Le Nouvel Obs, a análise da crise transcende a política para expor as entranhas do poder econômico e o fim do modelo de renda petrolífera no Irã. A revista destaca que o novo interlocutor diplomático de Washington, Mohammad Baqer Qalibaf, não é apenas um líder político, mas uma figura central da Khatam al-Anbiya, o gigantesco braço industrial e financeiro dos Guardiões da Revolução que controla mais de 800 empresas e detém o monopólio de contratos vitais para a infraestrutura do país. Negociar com Qalibaf é, segundo a publicação, uma "traição" ao povo iraniano, pois legitima quem detém as chaves da maquinaria econômica e energética da nação. Por fim, o Le Point traça paralelos sombrios com os choques petrolíferos de 1973 e 1979, alertando que a França e a Europa correm o risco de repetir os mesmos erros econômicos ao responder a uma crise de oferta com políticas de subsídio à demanda. A revista também revela o complexo “jogo duplo” do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Enquanto a Turquia, como membro da Otan, protege infraestruturas vitais como o terminal de Ceyhan — por onde flui o petróleo do Azerbaijão para a Europa e Israel —, Erdogan evita apoiar uma mudança de regime no Irã, temendo que um vácuo de poder resulte em crises migratórias massivas e no fortalecimento de movimentos curdos separatistas.

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Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

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