Vida em França

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Partindo da actualidade, tentamos explorar os aspectos da multifacetada "alma" francesa nos domínios social, político, económico e cultural.

  1. 6d ago

    Revelações sobre Jordan Bardella relançam polémica sobre o passado do Rassemblement National

    Mensagens com conteúdos antisemitas atribuídas a Jordan Bardella, actual presidente do Rassemblement National, voltam a colocar o partido francês de extrema-direita sob pressão. A sete meses das eleições presidenciais, analisamos o impacto destas revelações e o desafio que representam para a estratégia de normalização do partido. Falamos das recentes revelações do jornal de investigação Mediapart, que publicou mensagens com conteúdos antissemitas, escritas em 2013 por Jordan Bardella, actual presidente do partido francês de extrema-direita Rassemblement National (RN). Recorde-se que o Rassemblement National, antigo Front National, foi criado por um antigo membro da Waffen-SS, o braço militar da organização nazi alemã, e contou também, entre os seus primeiros membros, com antigos elementos das milícias colaboracionistas de Pétain, conhecidas, nomeadamente, pelos actos de tortura cometidos na Argélia, então colónia francesa. Nos últimos anos, no entanto, o partido tem trabalhado na transformação da sua imagem, procurando normalizar as suas propostas, sobretudo desde que Marine Le Pen sucedeu ao pai, Jean-Marie Le Pen. Esta estratégia permitiu ao partido consolidar a sua presença no cenário político francês e tornar-se uma das principais forças de oposição. Agora, com estas revelações, o RN vê-se novamente confrontado com o seu passado. As recentes revelações colocam Jordan Bardella no centro da polémica. O actual presidente do partido, que poderá ser primeiro-ministro caso Marine Le Pen seja eleita em 2027, rejeita as acusações de racismo e antissemitismo. Falamos com Eric Monteiro, especialista em relações internacionais na Universidade de La Rochelle, em França. Serão estas revelações suficientes para ter um impacto no Rassemblement National, a sete meses das eleições? Até que ponto poderão pesar na campanha eleitoral? Se analisarmos a questão, apercebemo-nos de que, a sete meses das eleicções presidenciais, as sondagens dão Marine Le Pen sempre na liderança do primeiro turno. Em caso de segundo turno entre ela e a maior parte dos candidatos, ela é completamente vencedora, e de maneira incontestável, apesar de ter sido condenada pela Justiça. Portanto, ainda é muito cedo para se saber se estas revelações podem impactar a campanha do rassemblement National. Bardella contesta as afirmações segundo as quais teve estas conversas anti-semitas quando ele tinha 17 ou 18 anos, já era membro do partido. É cedo de mais, pelo menos para saber que impacto verdadeiro isso vai ter nas sondagens. E a sete meses das eleições muita coisa pode acontecer. Não se esqueça que a própria Marine Le Pen ainda está à espera de uma decisão da última instância sobre a sua condenação definitiva ou não. Ou seja, se ela for definitivamente confirmada como condenada por desvio de fundos públicos do Parlamento Europeu da ordem de 4 milhões de euros... Isso quer dizer que teremos potencialmente uma candidata a usar pulseira electrónica. Dá impressão que, efectivamente, a situação geopolítica mundial, os problemas que tocam os franceses no quotidiano, como o preço da gasolina, são as preocupações principais e que o resto pouco importa. Mas aqui são revelações graves. A lei francesa é muito clara quanto a isso. Há liberdade de expressão, mas nos limites da lei. Recordamos que racismo e antisemitismo não são opiniões, são crime. A seu ver, o que é mais preocupante nestas revelações?  O que é grave é a tentativa de normalizar a imagem do partido, desde a sua mudança de nome. Como referiu, o partido foi fundado por antigos colaboracionistas do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. O fundador do partido, Jean-Marie Le Pen sempre foi acusado de ter exercido tortura durante a Guerra da Independência da Argélia. A sua filha, Marine Le Pen, fez tudo para justamente fazer esquecer todas as frases ditas pelo pai e que eram claramente antisemitas. Mudou o nome do partido e inclusive excluiu o pai do partido. Portanto, teoricamente, era uma página que estava virada na história do novo partido de extrema direita. Para eles, na direcção do partido, deve estar a ser muito difícil ver que afinal, foram anos e anos de preparação para dar uma credibilidade ao partido. E agora, temos o jovem líder do partido, Jordan Bardella, que nasceu depois disto tudo, que representa uma nova geração, e finalmente, estas revelações vêm mostrar que mesmo ele compartilha os mesmos conteúdos antisemitas e racistas. Como explicar que um ministro israelita - o ministro israelita responsável pela luta contra o antisemitismo - tenha manifestado o seu apoio a Jordan Bardella, depois destas acusações?  Não nos esqueçamos que o governo actual no poder em Israel é uma coligação de partidos de direita com membros da extrema direita de Israel que têm atitudes nas zonas ocupadas na Cisjordânia e em Gaza, que são muito contestadas pela comunidade internacional, inclusive pela ONU. Portanto, acaba por ser um partido de extrema direita em Israel, que vem defender a extrema direita na França. O Presidente francês Emmanuel Macron, pediu ao Rassemblement National que "clarifique" a sua posição e alegou que as acusações são "muito graves". Qual deve ser o papel de um chefe de Estado cessante nesta situação? O Chefe de Estado é garante das instituições e da constituição da lei suprema, e é o chefe das Forças Armadas. O papel do chefe de Estado é de garantir que as leis sejam aplicadas. Portanto, o facto que ele lembre que esta situação deve ser clarificada parece-me saudável. Independentemente das escolhas políticas que ele possa ter tido durante os dois mandatos, é normal que peça esclarecimentos sobre a situação. As acusações são suficientemente graves. Se forem verdadeiras, elas caem mesmo no âmbito do Código Penal. Portanto, tem que haver uma clarificação. Que impacto real isto vai ter? Passam 80 anos desde a Segunda Guerra Mundial e [o holocausto] e, com tudo que a França sofreu, parece-me impossível que não tenha impacto no eleitorado. Realmente, a memória política é curta.

  2. Sep 24

    “Leão XIV vai recordar que o essencial é cuidarmos da dignidade humana”

    O Papa Leão XIV inicia esta sexta-feira, 25 de Setembro, uma visita de quatro dias a França, entre Paris, Lourdes e Metz, num périplo que cruza alguns dos principais temas do pontificado: defesa da dignidade humana, inteligência artificial, migrações, os abusos sexuais na Igreja e a paz na Europa. A viagem inclui, em Lourdes, um encontro privado com vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero. Para o padre Rui Pedro, da paróquia portuguesa do Sacré-Cœur, em Gentilly, nos arredores de Paris, a visita será também uma oportunidade para o Papa lançar um apelo à esperança e à unidade, numa sociedade que considera estar a “desumanizar-se”. O sacerdote espera ainda que Leão XIV aborde, perante as autoridades francesas, a defesa da vida e da dignidade humana, e que, em Metz, faça um apelo à unidade europeia, ao acolhimento dos migrantes e à paz. RFI: O que é que se pode esperar desta deslocação do Papa Leão XIV a França? Padre Rui Pedro, da paróquia portuguesa do Sacré‑Cœur, em Gentilly: Eu penso que um dos apelos fortes que irá ser feito e que, também, nós católicos esperamos é um apelo à esperança, à esperança desta sociedade que se vai, um pouquinho, desumanizando. O próprio Papa, há pouco tempo, emitiu uma encíclica sobre a inteligência artificial. Um apelo à unidade, não é por acaso, que ele vai a Metz, terra de um dos fundadores da União Europeia, Robert Schuman. Um apelo à unidade de uma Europa que também tem as suas raízes cristãs, dos princípios cristãos da igualdade e da liberdade. E depois um apelo à Igreja que peregrina aqui em França e que, de facto, continue a sua renovação, uma renovação missionária e, também, a acolher estes últimos apelos que têm vindo da parte das comunidades - que a Igreja francesa está muito consciente disso - que é este aumento da procura dos jovens pela Igreja e o aumento da procura de catecúmenos, pessoas adultas que, de ano para ano, aumentam no seu pedido de baptismo à Igreja. O Papa desloca-se a Paris, está prevista também uma ida à cidade de Lourdes e termina em Matz. Quem define este percurso? Porque isto também tem uma simbologia, não se escolhe ao acaso. Alguns são convites formais que foram feitos, como por exemplo a UNESCO. Houve um convite formal para que visitasse esta organização das Nações Unidas. Depois, também, houve um convite explícito do Presidente [francês, Emmanuel] Macron e dos próprios bispos franceses. Penso que foi um pouco a conciliação disto tudo. As dioceses que ele visita são: Paris, a diocese de Saint-Denis onde está o Stade de France, a diocese de Lourdes e Metz, portanto, são quatro dioceses a nível da nossa organização religiosa. E são pontos, de facto, sensíveis e lugares de alguma simbologia. Por exemplo, Paris é uma grande cidade onde há uma grande diocese. Há também Notre-Dame, este símbolo mundial que foi renovado. Penso que é interessante que o Papa o visite. Vai a Notre-Dame encontrar os religiosos e religiosas, portanto é um encontro um pouquinho particular com os sacerdotes, aqueles que se consagraram a Deus, homens e mulheres, seminaristas… Portanto, é um momento esperado, porque em França está a haver um aumento de vocações sacerdotais e religiosas. A juventude está a voltar-se também para a Igreja. Depois, em Saint-Denis, é o grande encontro com a juventude. O Papa João Paulo II esteve cá na Jornada Mundial da Juventude em 1997. Este encontro com os jovens que está cheio, o estádio está completo. Portanto, esta grande adesão das pessoas a estes eventos públicos que em poucos dias, em poucas horas, se esgotaram as inscrições, é também símbolo de uma certa ansiedade e de um desejo de encontrar esta figura, escutar a sua mensagem, as suas palavras. Esta é também um bocadinho a expectativa do que vai dizer, o tema é “Para que o mundo tenha a vida” e, há pouco tempo, o Parlamento francês aprovou uma lei sobre o fim de vida e o suicídio assistido. Portanto, o Papa claramente que irá também ter palavras nesse sentido da defesa da vida, visto que é o tema da viagem. E quando irá falar às autoridades, penso que não se irá encolher, portanto irá dizer o que tem a dizer, porque a sua mensagem é de recordar as pessoas, de facto, aquilo que é o pensamento doutrinal da Igreja, o pensamento social da Igreja. Ele vai recordar alguns valores, mesmo que o país, com as suas decisões políticas, tenha optado por, para nós, não-valores da sociedade. Ele, certamente, irá recordar alguns valores que para nós são importantes e mexer com a consciência das pessoas. O Papa Leão XIV é um homem inteligente, bem preparado, inspira-se muito em Santo Agostinho, portanto um homem que procura a verdade e penso que também aqui irá ferir alguns ouvidos. Mas é a maneira de ser do Santo Padre que é dizer o que tem a dizer, fiel à verdade é fiel à sua mensagem. Ainda em Paris, está prevista uma missa gigante na Praça da Concórdia, uma missa cujo perímetro teve de ser alargado dado o número de inscrições para assistir a esta celebração. A que é que se deve esta afluência gigantesca? Penso que neste momento, o Santo Padre é uma das poucas figuras mundiais que ainda recorda alguns valores, que dá esperança à humanidade e que também enfrenta os vários poderes políticos, como o fez há pouco tempo com o seu co-nacional, com o seu conterrâneo [Donald] Trump [Presidente dos Estados Unidos da América]. Portanto, na verdade, ele tem uma mensagem a transmitir ao mundo. Uma mensagem de humanização da sociedade e uma mensagem de fraternidade, de diálogo inter-religioso, diálogo intercultural, onde esta procura das pessoas, esta curiosidade - porque na missa não estarão só católicos praticantes - de toda esta gente que se inscreveu, mesmo que esteja longe da Igreja, vai numa expectativa de ouvir uma mensagem com a qual se pode identificar com os valores. Esta grande adesão das pessoas à Missa do Papa, sem dúvida, podemos interpretar como uma procura das pessoas a quem tem uma voz ainda de autoridade, uma voz livre, uma voz que nos recorda aquilo que é essencial para a vida e vem certamente entusiasmar as paróquias, os movimentos e a Igreja, no sentido de os pequenos sinais que há da renovação da Igreja - uma Igreja mais missionária, que está mais aberto ao mundo. Uma Igreja que também está polarizada em França, há os tradicionalistas e os mais avançados, portanto uma Igreja que no seu interior tem esta polarização. Ele vem, de facto, acolher todos, dar uma palavra de entusiasmo e sobretudo, dizer que é em Jesus Cristo que nós nos identificamos e é nele que temos que encontrar a força do nosso viver e também as respostas que a nossa consciência e o mundo colocam hoje, de facto, não só às religiões. As religiões, hoje, não são um perigo, são um factor importante para a coesão social e para a paz. Mas também elas, hoje, são assediadas por fanáticos e por grupos que usam o nome de Deus em vão. Não se esqueça que é a praça que assinala a concórdia entre a Igreja e o Estado. É de facto um lugar icónico para reafirmar um pouquinho esta unidade, que é preciso ter este diálogo, esta cooperação. Porque quer o Estado, quer as Igrejas, quer a religião, estão todos ao serviço do homem. Este Santo Padre tem falado muito da dignidade humana e que no centro tem que estar o homem. Depois de Paris, o Papa Leão XIV vai para Lourdes, uma cidade mariana, onde está previsto um encontro privado com vítimas de abuso sexual por parte do clero. Penso que em todos os países há esta ferida, esta chaga. Todos os países, todas as igrejas estão a procurar, de facto, seguindo as instruções do Papa Francisco, enfrentar este problema com a tolerância zero e com a verdade, a protecção das vítimas. A França foi também muito golpeada com esta questão. É importante que haja esse encontro, que está já na agenda. O Papa é um homem que tem que escutar, que conhecer a realidade. Creio que encontrar rostos concretos, histórias concretas, irá ajudá-lo também na sua missão, como também o irá fazer também aqui em Paris. Ele vai à Maison Bakhita, onde vai encontrar as associações e as pessoas vulneráveis, os pobres e os imigrantes. O Papa escutar a realidade, escutar a base é muito importante. Dá um sinal de uma Igreja que sabe escutar. As vítimas têm que ser ouvidas, têm que ser também indemnizadas e reparadas pelas ofensas feitas pelo clero ou por cristãos com responsabilidades educativas. Porque não há só padres, também leigos, e há outras pessoas que abusaram de menores e pessoas vulneráveis. Acho que é muito importante este aspecto e segue um bocado as pegadas do Papa Francisco, onde ele ia também sempre escutava este grupo de pessoas particulares desta realidade que, de facto, mancha o serviço da Igreja. Esta deslocação a Lourdes acaba por ser mais tradicional para o Papa, tendo em conta que é um santuário mariano e que seria quase evidente passar por lá. É um lugar de peregrinação popular. Lourdes está muito ligado ao tema da doença, aos doentes, vulneráveis, portanto, pessoas que experimentam na sua pele o sofrimento de Cristo. É um lugar de atenção aos mais simples, um lugar também à devoção mariana que marca este país, França, e, portanto, ir a um lugar popular como Lourdes, é mais uma atenção aos mais simples, aos mais pobres. É uma religião que não pode viver sem cultura. Portanto, não há fé sem cultura e a cultura popular é muito importante para, de facto, manifestarmos os sentimentos religiosos e a experiência religiosa de um povo. Este povo francês tem neste lugar um dos sítios mais internacionais da sua visibilidade como povo cristão que é Lourdes. A visita do Papa Leão XIV a França, termina em Metz, símbolo de terras completamente arrasadas pelas guerras. O que é que se

  3. Sep 16

    Guineense Lizidória Mendes lança versão francesa do livro “Sentimentos e Razão”

    A autora guineense Lizidória Mendes vai lançar uma edição francesa do seu primeiro romance “Sentimentos e Razão”, este sábado, na Maison du Portugal - André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris. O livro fala sobre a emancipação da mulher, mas também sobre o peso da ‘matchundadi’ [masculinidade] e imagina “uma nova mulher guineense” numa “Guiné-Bissau em construção”. Neste programa conversamos com a guineense Lizidória Mendes, de 28 anos, que vai lançar uma edição francesa do seu primeiro romance “Sentimentos e Razão”, este sábado, na Maison du Portugal - André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris. O evento vai ser acompanhado por uma exposição de pinturas da artista plástica guineense Cálida Erinaide, inspiradas nas personagens do livro. “Sentimentos e Razão” conta a história da jovem Malia que sonha com uma carreira académica, que luta contra o peso das construções sociais no seu país e que recusa o feminismo nos moldes ocidentais. Esta é uma história sobre a emancipação da mulher guineense e sobre o peso da ‘matchundadi’ [masculinidade] na Guiné-Bissau, mas também sobre uma outra forma de olhar para a mulher “não a partir do corpo, mas do que ela pensa”. O livro também fala sobre o que Lizidória Mendes resume como “uma Guiné-Bissau em construção”, onde se imagina “a nova mulher guineense” que respeita as suas raízes, mas também as questiona e reajusta. A autora quer acreditar no poder simbólico e até sagrado da literatura e deseja que “daqui a algum tempo tenhamos muitas Malias na Guiné”. RFI: Poderia fazer-nos uma curta apresentação deste livro? Lizidória Mendes, Autora de “Sentimentos e Razão”: “O livro ‘Sentimentos e Razão’ é um romance que falou basicamente da masculinidade na perspectiva guineense, sobretudo na sua fase mais embrionária, e também falou, através da personagem principal que é a Malia, da emancipação da mulher. De uma forma geral, para o enredo do livro, nós conseguimos ver que a Malia não é uma extracção da verdadeira mulher guineense, mas sim uma reescrita do que a mulher guineense deve-se tornar, tirando todas as construções sociais que ela é imposta de seguir, como ter a sua vida cronometrada, ter os seus desejos, entre aspas, controlados pelas expectativas sociais. Ao olhar para a Malia, as pessoas não conseguem ver uma mulher guineense com base nas tradições e culturas, mas se nós formos ver, hoje em dia, as possibilidades que as mulheres podem ter daqui a cinco anos, dez anos, nós podemos ter uma mulher guineense com expressão da Malia ou mais ainda.” O que é que a Malia tem da Lisidória? “Bom, essa é uma pergunta que eu posso dizer que as pessoas me têm feito. E aqui também não vou ser, entre aspas, mentirosa, porque nós não podemos dissociar a arte do artista. Para mim, a arte sempre tem um ponto de partida. Para mim, para reescrever a nova mulher guineense, se o ponto de partida deve ser a partir de mim, que seja, e a Malia pode ter alguma coisa da Lisidória porque a Lisidória é a autora. Além disso, nada mais.” O livro conta a história de Malia, uma jovem guineense que quer estudar e chegar até ao mestrado em França, que luta pela sua emancipação, mas que recusa o feminismo nos moldes ocidentais. Quer explicar-nos porquê este feminismo nos moldes ocidentais não se pode adaptar à cultura guineense? Lemos, por exemplo, que há tradições na Guiné-Bissau que “para muitas mulheres são redes de apoio, onde o Estado não é capaz de garantir a segurança”. Certas tradições não são contraditórias com o feminismo? “Ao dizer que isto é contraditório, leva-nos mais para um debate epistemológico porque o feminismo é o que é dentro de uma realidade em que nasceu. Outras coisas também podem ser dentro das suas próprias realidades. Eu não nego que o feminismo é um projecto sustentável e bom para as mulheres, é muito bom, mas o facto de nós não querermos importar um feminismo, não quer dizer que nós não o podemos reinventar dentro das nossas comunidades para resolver os nossos problemas. O debate que eu trouxe no livro, como algumas pessoas estão, entre aspas, a falar que eu sou antifeminista e tal, o facto de não ser feminista não quer dizer que a pessoa é antifeminista. Eu acho que amanhã [16 de Setembro] já serei socióloga e daqui a alguns dias serei especialista em estudos de género, portanto, é a minha área de estudo. O meu projecto de mestrado repousa basicamente nisto da participação política das mulheres, mas o meu problema epistemológico é: será que o feminismo é universal? Respondo que não. Em todas as comunidades, as mulheres têm as suas próprias realidades. Entretanto, pensar que a cultura é sinónimo de repreensão, não é verdade. Também o Ocidente tem algumas práticas que deixam as mulheres nos segundos planos. O que é que eu nego? É importante nós vermos a realidade das mulheres com base nas suas realidades, criarmos mecanismos de protecção, não trazer modelos que não têm nada a ver com as suas realidades. É essa visão que eu tento trazer no livro. Eu nego a universalidade das coisas, é por isso que a Malia não é universal. Para mim, a vida é feita do específico para o colectivo, nós não podemos pensar a vida do colectivo para o específico. É basicamente essa interpretação e não tem nada a ver com antifeminismo. E eu, enquanto especialista de género, eu respeito muito as lutas feministas, são as lutas que eu estudo, mas eu defendo lutas locais. Por exemplo, na Guiné-Bissau, trabalhei sobre outras formas de organização, no caso, as ‘mandjuandades’, que são organizações associativas na Guiné-Bissau que repousam mais nas questões de solidariedade económica e também nas questões geracionais, mas são organizações que surgiram antes das lutas feministas. E nós temos isso na Guiné-Bissau, são ‘mandjuandades’, e o feminismo guineense poderia ser chamado de ‘mandjuandade’. Não é necessariamente o que nós vamos fazer que obrigatoriamente deve ser chamado de feminismo porque o feminismo é uma denominação, é nome, é epistemológico. Dentro das outras comunidades também pode existir uma outra coisa e aqui quero ressaltar: eu não sou antifeminista, pelo contrário.” Também aborda os constrangimentos sociais e o que se espera da mulher na Guiné-Bissau. Ficamos a questionar se a mulher tem espaço para ser livre na Guiné-Bissau. Isso também transparece no livro? “Sim, transparece no livro. O meu problema aqui é quando as pessoas vão pensar a opressão da mulher. Por exemplo, os colegas que vão fazer trabalhos em África, sobretudo nos países da África Ocidental, muitas das vezes vêem a opressão das mulheres nessas regiões como se a opressão nasceu basicamente em África, mas a questão da opressão, a questão da desigualdade, não tem cor, é universal. Agora, tentar atribuir a identidade de opressão, de desigualdade, para uma determinada comunidade, é errado. Sobretudo, por exemplo, quando alguns antropólogos vão fazer os trabalhos em zonas de África e tal, e as categorias que eles utilizam muitas das vezes não têm nada a ver. Por exemplo, tratam certas categorias como se fossem homogéneas, mas na Guiné-Bissau não existe homogeneidade. Mesmo ao falar, por exemplo, do patriarcado, há sociedades que são matrilineares, em que os filhos pertencem às mulheres e não aos homens. Então, para mim, eu acho que é importante nós fazermos trabalho epistemológico baseado nos contextos porque nós temos realidades muito bem construídas, mas muitas das vezes ao irmos ao terreno, nós utilizamos categorias ocidentais, conceitos ocidentais para denominar estas realidades. Entretanto, o que é que acontece? Os conceitos acabam por sobrepor a realidade. O que nós devemos fazer é reverter a situação. Fazer um trabalho de terreno e com base nesse trabalho de terreno, construirmos os problemas. Mas as pessoas já saem daqui com hipóteses e chegam lá só para confirmar, o que eu acho errado.” Há outro conceito que me parece central no livro, que é a constatação de uma masculinidade rígida, a “matchundadi”, que impossibilita os homens de viverem e de aceitarem a sua vulnerabilidade. Por que é que é algo tão central no livro e até que ponto também é uma questão política e mostra como é a própria sociedade bissau-guineense? “Eu diria até que ponto isto é epistemológico porque é muito intencional a repetição da palavra ‘matchundadi’ no livro. Como eu disse, os assuntos tratados neste livro são embrionários. De uma forma geral, o conceito de ‘matchundadi’ no livro não é desenvolvido. Os personagens vão dizendo: ‘Ah, tu estás a fazer à tua matchundadi e não sei o quê.’ Mas aqui entra a questão e aqui centra-se o debate: até que ponto a matchundadi guineense é masculinidade e não virilidade? Porque muitas das vezes as pessoas acham que tudo o que é matchundadi guineense é virilidade. O que é que as pessoas denominam como matchundadi na Guiné-Bissau? É virilidade: mostrar a força, fazer abuso de poder. Aquilo é virilidade. Matchundadi é mais baseada nos valores de proteger, de prover, de ser uma pessoa com carácter. É o que ensinam em diferentes etnias, sobretudo através dos rituais, como o fanado.” O que é o "fanado"? “O fanado é uma espécie de ritual de iniciação tanto para mulheres, em certas etnias, como para homens também. Vou ressaltar aqui: excisão e fanado são duas coisas diferentes. Fanado é mais assente na questão da transmissão dos valores e tal. Entretanto, como eu tinha dito, todos os conceitos e debates vieram neste livro de uma forma embrionária. No segundo volume terá mais desenvolvimento. Mas, como eu disse, ‘matchundadi’ aparece neste primeiro livro, mas até que ponto

  4. Sep 10

    Cimeira do Espaço: Europa procura transformar capacidade em autonomia

    A Europa tem ciência, indústria e tecnologia espacial, mas continua dependente de terceiros em áreas estratégicas como os lançamentos, as comunicações e o transporte de astronautas. Na Cimeira Internacional do Espaço decorre em Paris, o presidente da Agência Espacial Portuguesa, Ricardo Conde, defende que o desafio já não é provar capacidade, mas ganhar escala, investir e decidir em conjunto. A nova corrida espacial já não se joga apenas na conquista da Lua ou de Marte. Joga-se no controlo das comunicações, dos dados, dos sistemas de navegação, das infra-estruturas digitais e, cada vez mais, da segurança. É neste cenário que Paris acolhe desde ontem, 9 de Setembro, a primeira Cimeira Internacional do Espaço, reunindo governos, agências, empresas e investigadores para discutir quem terá capacidade de agir e de decidir na próxima economia espacial. Para a Europa, a questão tornou-se urgente. Entre a supremacia tecnológica dos Estados Unidos, a afirmação da China e o crescimento acelerado de empresas privadas, o continente procura perceber como preservar a cooperação internacional sem transformar essa cooperação numa dependência estrutural. O presidente da Agência Espacial Portuguesa e chefe da delegação portuguesa no Conselho da Agência Espacial Europeia, Ricardo Conde, começa por rejeitar a ideia de um espaço organizado em blocos fechados. “O espaço nunca se fez, nem nunca se fará, que não seja em cooperação”, afirma, lembrando programas como o Artemis e domínios em que a coordenação entre países é incontornável, como a gestão do tráfego espacial. Mas cooperar não significa abdicar de capacidade própria. “A Europa, e muito bem, procura afirmar a sua resiliência, no sentido de ter alguma autonomia”, sublinha. Para Ricardo Conde, os últimos anos mostraram até que ponto a dependência pode tornar-se uma fragilidade económica, tecnológica e política. A pandemia expôs a vulnerabilidade causada pela desindustrialização; a crise energética revelou os riscos de depender de fornecedores externos; e a guerra na Ucrânia voltou a colocar no centro do debate a dependência europeia dos Estados Unidos em matéria de defesa. “Quando se reage e não se planeia, andamos sempre numa situação de dependência”, observa. O responsável português descreve a Europa como “uma federação de vontades, às vezes boas, outras vezes nem por isso”. E considera que o espaço é hoje um dos terrenos onde essa dificuldade de construir uma estratégia comum se torna mais evidente. A soberania espacial está, desde logo, ligada à soberania digital. “Ninguém pode constituir-se como resiliente, independente ou autónomo quando está completamente dependente das grandes multinacionais e das grandes empresas americanas em serviços”, alerta. O exemplo mais evidente é o Starlink. A guerra na Ucrânia demonstrou o peso estratégico da constelação de satélites da SpaceX na manutenção das comunicações. A Europa ainda não dispõe de uma alternativa equivalente e prepara a constelação IRIS², destinada a garantir comunicações seguras e maior autonomia europeia, mas cuja plena capacidade só deve chegar no final da década. A navegação por satélite mostra, contudo, que a dependência pode ser reduzida. Durante décadas, a Europa viveu sob a predominância do GPS norte-americano. Hoje dispõe do Galileo, desenvolvido para assegurar uma capacidade europeia própria. Para Ricardo Conde, é esse tipo de autonomia que terá de ser construído também noutros segmentos. Um deles é o acesso ao espaço. “Quem controla, ou quem controlar, o acesso ao espaço controla a economia espacial”, afirma. A Europa dispõe actualmente do Ariane 6 e do Vega e começa a assistir ao aparecimento de uma nova geração de lançadores privados. Ricardo Conde vê nesta evolução a possibilidade de criar maior concorrência dentro do próprio continente. “Vai haver uma alteração profunda ao nível da competitividade de que a Europa necessita. Vão aparecer novos lançadores.” Mas permanece uma diferença simbólica e estratégica importante em relação aos Estados Unidos: a Europa consegue colocar satélites em órbita, mas não consegue enviar autonomamente os seus astronautas ao espaço. Para o presidente da Agência Espacial Portuguesa, não é a tecnologia que falta. “A Europa tem uma capacidade científica e técnica fantástica. Agora precisa de dimensão.”  É aqui que surge um dos maiores obstáculos europeus: a fragmentação. Os Estados Unidos dispõem de um Governo federal, de uma agência espacial e de estruturas de defesa inseridas numa mesma arquitectura nacional. Na Europa, as decisões distribuem-se entre a União Europeia, a Agência Espacial Europeia e dezenas de Estados com prioridades e níveis de investimento diferentes. “É uma questão de escala, é também uma questão de consenso político, de vontade política”, resume. Um eventual programa europeu de transporte tripulado exigiria anos de desenvolvimento, recursos financeiros substanciais e, sobretudo, um compromisso político prolongado entre os países. O contraste com a SpaceX ajuda a perceber a dimensão do desafio. Para Ricardo Conde, é errado olhar para a empresa de Elon Musk apenas como o triunfo isolado da iniciativa privada. A SpaceX cresceu apoiada em contratos públicos e numa relação estreita com a NASA e com as estruturas de defesa norte-americanas. Esse investimento permitiu construir uma cadeia quase completa: foguetes reutilizáveis para reduzir o custo dos lançamentos, Starlink para assegurar conectividade e naves capazes de transportar astronautas para a órbita. “Na realidade, tem a cadeia de valor toda”, observa. E a corrida não vai parar nos satélites. Na perspectiva do responsável português, os próximos anos deverão acelerar o desenvolvimento de serviços realizados directamente em órbita. Entre os projectos discutidos pela indústria encontram-se mesmo futuros centros de dados espaciais, uma possibilidade que vai exigir transportar quantidades muito maiores de equipamento para o espaço e garantir ligações permanentes à Terra. É nesse ponto que a capacidade de lançamento poder tornar-se ainda mais decisiva. Os grandes lançadores reutilizáveis norte-americanos prometem transportar cargas muito superiores às actuais, abrindo espaço a actividades económicas que hoje permanecem sobretudo no plano experimental. A resposta europeia, sustenta Ricardo Conde, não tem necessariamente de passar pela criação de uma cópia da SpaceX. Pode assentar na soma das capacidades existentes. França mantém um papel central nos lançadores e na indústria aeronáutica; Alemanha e Itália possuem importantes competências tecnológicas; o Reino Unido continua a ser um parceiro fundamental; e países como Espanha começam também a desenvolver novos actores privados. Há ainda espaço para países mais pequenos. Portugal, Bélgica ou Luxemburgo dificilmente podem competir isoladamente com as grandes potências espaciais, mas podem especializar-se e contribuir para construir a escala europeia. “A França é um actor importantíssimo, pelo seu conhecimento aeronáutico e pelas aplicações espaciais; a Alemanha, a Itália, o Reino Unido, que é fundamental termos sempre connosco, e começam também a aparecer outros actores importantes”, enumera Ricardo Conde. Portugal, acrescenta, pode contribuir “ao seu nível de investimento” para essa capacidade colectiva. É, no fundo, esta a equação que Paris coloca sobre a mesa. A Europa não parte do zero: fabrica satélites, desenvolve lançadores, explora o espaço, possui empresas de referência e uma das mais importantes comunidades científicas do mundo. O problema é transformar essas capacidades dispersas numa força suficientemente integrada para competir num sector cada vez mais estratégico.

  5. Sep 3

    A oito meses das eleições presidenciais em França, candidatos aceleram para o Eliseu

    Mais de 20 candidatos já exprimiram a sua intenção de lançar a sua campanha para as eleições presidenciais que decorrem em França entre Abril e Maio de 2027, mas, por enquanto, Marine Le Pen, na extrema-direita, é a candidata que recolhe mais intenções de voto nas sondagens. Uma radiografia a oito meses das eleições que pode não corresponder ao cenário mais perto do escrutínio, já que mesmo Marine Le Pen aguarda ainda decisões judiciais que podem comprometer a sua participação nestas eleições. Em França, há mais de 20 candidatos que já exprimiram a sua vontade de chegar ao Eliseu. Para formalizar a candidatura para as eleições que se realizam em duas voltas em Abril e Maio do próximo ano, é preciso obter as assinaturas de 500 eleitos nacionais e locais, tarefa nem sempre simples para quem quer ser Presidente. No entanto, entre as duas dezenas de candidatos, há um nome que se destaca em todas as sondagens nas duas voltas das eleições: Marine Le Pen. Candidata desde 2012 a todas as eleições presidenciais, a filha de Jean-Marie Le Pen e líder da extrema-direita pode ter em 2027 a possibilidade real de tornar-se Presidente da República francesa. Frente a ela, no outro lado dos extremos, está Jean-Luc Melenchon, o único que rivaliza com a popularidade de Marine Le Pen. Segundo Eric Monteiro, politólogo e docente na Universidade de La Rochelle, a única possibilidade de travar os extremos, seria reduzir o número de candidatos e encontra um candidato único ao centro, esquerda e direita, um verdadeiro desafio num cenário político francês muito disperso e polarizado. "Vamos assistir a uma eleição inédita. Ela apresenta-se num contexto muito diferente do sistema tradicional de alternância entre dois grandes partidos. O espaço político francês encontra-se hoje completamente fragmentado em vários blocos, e um desses blocos é o partido do União Nacional, antigo Frente Nacional, de Marine Le Pen. Isto, sabendo que houve durante muitos meses uma expectativa de saber se ela podia ser candidata ou não à eleição, devido às decisões judiciais, porque ela estava acusada penalmente e foi condenada por ter desviado dinheiro do Parlamento Europeu. Esse é outro paradoxo, que é termos uma candidata que foi duas vezes condenada em primeira instância, em segunda instância, mas que vai ser candidata e que já oficializou a sua candidatura à eleição presidencial. é complexo. O partido não deixa de ser o partido fundado pelo pai, que numa democracia é um pouco estranho. Mas isso não impede que os franceses continuam a dar-lhe uma base de entre 25 a 35% de votos. Ela tem hipóteses de ser eleita, sem dúvida", explicou o académico. No início do Verão, Marine Le Pen viu a sua pena de ineligibilidade encurtada, permitindo-lhe participar nas eleições, mas tem ainda a cumprir um ano de prisão domiciliária com pulseira electrónica. A decisão sobre a manutenção dessa parte da pena perntence agora ao principal tribunal de recurso em França, a Cour de Cassation, que deverá pronunciar-se antes do início da campanha eleitoral oficial já que será impossível realizar as deslocações necessárias de uma campanha com uma pulseira electrónica. Ao mesmo tempo, os candidatos de centro como os antigos primeiros-ministros Édouard Philippe ou Gabriel Attal ou ainda o candidato de esquerda Raphaël Glucksmann não ultrapassam a barreira dos 15% na primeira volta. Face a Marine Le Pen, Jean-Luc Melénchon, da extrema-esquerda, é o candidato mais destacado  e consegue chegar aos 20%, deixando como possibilidade aos franceses a escolha entre os extremos, algo que ameaça a Frente Republicana que até hoje tem impedido a extrema-direita de governar em França. "Há vários riscos nesta eleição. Primeiro, esta fragmentação do primeiro turno, que pode levar um candidato dos extremos, quer seja da extrema-esquerda ou da extrema direita a potencialmente vir a ser presidente da República, e o desaparecimento progressivo da frente republicana. Se formos a ver, a extrema esquerda e extrema direita rondam os 25% para a extrema esquerda e 30 % para extrema direita. Portanto, os dois juntos são incompatíveis. Os dois juntos formam uma maioria, mas são incompatíveis para governar. Quer dizer que há, de certeza, no resto do espetro eleitoral, uma maioria progressista, quer do centro esquerda, quer do centro direita que poderia vir a governar. O problema é que ela está extremamente fragmentada para constituir uma frente republicana, como houve desde 2002, quando Jean-Marie Le Pen passou para a segunda volta e foi candidato contra Jacques Chirac. Foi a primeira vez que isso existiu nas eleições presidenciais. Houve uma frente republicana incontestável. Portanto, a Frente Republicana realmente funcionou e tem funcionado, mas, desta vez, o eleitor francês está cada vez mais cansado destas únicas opções: ou um candidato ao qual não adere completamente, ou há um candidato extremo. Portanto, há um risco real e a única maneira de manter uma espécie de representação das forças de progresso é de ter só um candidato", detalhou Éric Monteiro. Se as aparições públicas e entrevistas dos diferentes candidatos se multiplicam nesta rentrée, também os diferentes cenários são analisados de forma quotidiana com múltiplas sondagens que prevêem todos os cenários possíveis nas duas voltas das eleições. Para Éric Monteiro as sondagens são credíveis no dia em que são realizadas, mas não podem prever o que se vai passar daqui a oito meses. "As sondagens valem o que valem em função da temporalidade. Oito meses antes, elas reflectem a situação actual. As eleições são sempre num domingo. As últimas sondagens aparecem na sexta feira, portanto, nas 24 horas que precedem o escrutínio. Não há sondagens públicas, mas elas continuam a ser feitas. Elas são publicadas posteriormente e a margem de erro é entre 0,5% e 1%. Em regra geral, portanto, elas são credíveis. A questão é que é muito cedo e há muitas contradições ainda no discurso político. Enquanto não houver posições claramente definidas sobre questões essenciais que tocam os franceses, ou seja, concretamente, as reformas, o poder de compra, a transição energética, será muito difícil haver haver uma clarificação através das sondagens", concluiu.

  6. Aug 26

    Mayotte: Lecornu tenta acelerar reconstrução e travar imigração clandestina

    Deslocação do primeiro-ministro francês a Mayotte. Esta quarta e quinta-feira Sébastien Lecornu tenta acelerar a reconstrução do arquipélago, que tarda em concretizar-se um ano e meio depois da passagem devastadora do ciclone Chido. Mayotte é uma deslocação estratégica para os pretendentes ao Eliseu. O arquipélago concentra várias temáticas que vão dominar o sufrágio: imigração, insegurança e habitação. A reconstrução é “demasiado lenta” diz o chefe de Governo que promete fazer “sair do papel” os projectos previstos pela lei de Agosto de 2025 destinada a reparar os danos provocados pelo ciclone de 14 de Dezembro de 2024. A lei prevê um montante de cerca de 4 mil milhões de euros, acompanhado de uma estratégia quinquenal para 2026-2031. Mayotte é uma deslocação estratégica para os pretendentes ao Eliseu, as eleições presidenciais estão marcadas para o próximo ano (18 de Abril e 02 Maio 2027). O arquipélago concentra várias temáticas que vão dominar o sufrágio: imigração, insegurança e habitação. “Para ser franco, as pessoas não esperam grande coisa” desta deslocação de Sebastien Lecornu, afirma Manuel Vila Nova, professor franco-são-tomense residente em Mayotte há 14 anos. Segundo o docente, “as pessoas não estão a ver grandes investimentos” e “tudo está muito lento”. Muitos problemas de Mayotte são anteriores ao ciclone e foram agravados pelo Chido, nomeadamente nas escolas, estradas, saneamento e transportes. A imigração clandestina é outra das principais preocupações do arquipélago, embora Manuel Vila Nova rejeite que seja o único problema. “Eu não diria que é o problema essencial”, apontando também a falta de emprego e de investimento. Todavia, a chegada de novos fluxos migratórios, provenientes de vários países africanos e do Médio Oriente, está a alimentar o debate político e o crescimento da extrema-direita. Manuel Vila Nova identifica uma forte adesão eleitoral a Marine Le Pen, líder do partido de extrema-direita União Nacional, embora sublinhe que essa escolha não significa necessariamente uma identificação ideológica total com a líder da extrema-direita francesa. “Não votam nela por prazer de votar por Marine Le Pen. Votam em Marine Le Pen porque ela diz que vai resolver o problema da imigração (…) Há uma aderência forte nesse sentido, porque as pessoas querem que o problema de imigração seja resolvido no terreno”, conclui o professor.

  7. Aug 19

    Ondas de calor em França: "Autoridades ainda estão muito aquém de tomar acções e decisões"

    A França tem vivido um verão inédito, com uma sucessão de cinco ondas de calor que se traduziram por 52 dias com temperaturas próximas ou acima dos 40 graus em praticamente todo o território. Segundo a agência nacional 'Météo-France', 2026 é desde já considerado -de longe- o ano com mais dias de altas temperaturas desde 1947, altura em que se começou a recolher esses dados. Isto traduz-se por uma estiagem generalizada com consequências nomeadamente para a agricultura. Há dias, o governo francês disse que iria anunciar em Setembro um plano de ajuda para os agricultores que foram colocados sob pressão nestas últimas semanas e cujos rendimentos estão a ser afectados. Num âmbito mais geral, o acesso à água potável é mais raro, com o caudal dos rios a baixar. Esta semana, 93 distritos foram submetidos a restrições na utilização da água, sendo que na semana passada, 40 mil pessoas chegaram inclusivamente a conhecer cortes no seu fornecimento. Uma situação perante a qual se torna mais premente a questão do abastecimento em água nas próximas semanas, com todas as consequências que isto acarreta, tanto no sector da agricultura, como no sector dos transportes, da energia ou ainda em termos ambientais. Questões que abordamos com Richard Tavares, consultor de projectos na Agência Europeia de Investigação (REA). RFI: Qual é a principal consequência destas sucessivas ondas de calor aqui em França? Richard Tavares: A consequência principal é sobretudo a retenção da água a nível dos aquíferos e dos dos cursos de água a nível superficial. A ocorrência das diferentes ondas de calor desde Maio afectam sobretudo a retenção da água, que normalmente em período primaveril, era mais acumulada, quer ao nível da superfície, mas também ao nível subterrâneo, nos solos. E estas ondas de calor excepcionais têm provocado sobretudo a evaporação da água a nível do solo. O período da Primavera já é um período, por exemplo, a nível agrícola, em que a actividade é bastante intensa. A remoção das camadas superficiais do solo aumenta ainda a evaporação da água, mas também a nível da vegetação, através da evapotranspiração que recebe um esforço ou um incentivo ainda maior. Ajuda ainda mais a libertar esta água que normalmente é retida. E depois há menos quantidade de água. RFI: E, portanto. Isto tem consequências a vários níveis. O nível mais óbvio é, designadamente a agricultura. É previsível que haja falta de alimento daqui uns tempos, por conta de más colheitas? Richard Tavares: Exactamente, é uma consequência directa destas ondas de calor. Actualmente, por exemplo, já se vê na produção quer dos cereais, quer de fruta e legumes, quer em França, quer noutros países europeus, por exemplo, os países vizinhos, a Bélgica, Itália e Espanha. Tanto a quantidade como o tamanho, por exemplo, da fruta e dos legumes têm reduzido visivelmente. O que tem logo um impacto tanto no consumidor, como no produtor, porque há menos quantidade de produto e o preço vai aumentar. Já existem alguns produtos em que tem havido aumentos, mas nos próximos meses será ainda maior o impacto, quer para o consumidor quer para o produtor, porque viu parte da sua produção reduzir significativamente. RFI: Isto poderá ter também o efeito de encorajar ainda mais os agricultores a usarem químicos na produção agrícola? Richard Tavares: Eu pessoalmente, não diria que existe esse efeito directo do aumento de químicos, porque a própria produção é afectada por falta de água. A introdução de determinados químicos iria afectar a qualidade, por exemplo, do cereal ou das plantas. A produção de químicos poderia ajudar, mas tinha que ser compensada também por um aumento da rega, o que não acredito que a nível de agricultores poderiam ter este aumento, porque a quantidade de água tem reduzido significativamente. RFI: Isto também, como disse, tem efeito sobre a produção de cereais, o que significa que isto também recai sobre o gado. Richard Tavares: Através de dados que recolhi recentemente através do Ministério da Agricultura francês, a quebra dos rendimentos a nível do sector agrícola e alimentar tem sido de 20 a 40%. Já em culturas actuais, quer do milho, girassol, horticultura, o que tem, além do impacto na própria produção industrial, o alimento, por exemplo, para o gado ou para a pecuária. Mas claro que depois a pecuária também será directamente afectada. RFI: Outra das consequências da falta de água tem a ver com o sector do transporte de mercadorias por via fluvial. Como é que estamos nesse aspecto? Richard Tavares: Começa a ser crítico, por exemplo, a nível dos cursos de água normais. O ofício francês da biodiversidade verificou que, a nível, por exemplo, do fluxo de água de rios, cerca de 43% das estações da rede de monitorização detectaram cursos de água já praticamente com seca total. Se isto já acontece nos pequenos rios, nos grandes cursos de água, por exemplo, o Reno, já estão a ser afectados. A nível de França já existe um impacto no transporte de material e de, por exemplo, a mesma a nível de cereais, um impacto directo não apenas para a distribuição, mas também para o contexto de serviços e de produtos que serão vendidos depois, mais tarde, em França. Não sei quais são os valores exactos, mas no transporte internacional, França, Alemanha e os países vizinhos, já existe uma redução drástica, incluindo, por exemplo, a Bélgica. O que implica para as empresas de transportes terem de ver rotas alternativas. A grande maioria é sobretudo o transporte através de camiões, o que tem logo um impacto não apenas económico, mas também na emissão de gases com efeito de estufa. RFI: O facto de baixar o nível dos rios e inclusivamente a água dos rios estar mais quente, faz com que também a produção de electricidade tenha vindo a baixar, dado que houve uma série de reactores que tiveram que suspender as suas actividades devido à falta de água ou outros motivos, como por exemplo -algo surpreendente- a chegada massiva de alforrecas que vinham perturbar a actividade. Richard Tavares: Alguns dos dados mais recentes da EDF e da Autoridade de Segurança Nuclear Francesa, de facto indicaram que três dos reactores já foram afectados. Tendo em conta que em França 70% da produção de electricidade é através de centrais nucleares, há um impacto directo não apenas a nível nacional, mas também a nível internacional. Portanto, o facto de o nível da água baixar ou mesmo a temperatura da água ser bem mais alta do que o normal, impede directamente o funcionamento parcial ou total dos diferentes reactores e da própria central. Existem casos, quer em França, quer noutros países europeus, por exemplo, a Hungria. Existe um impacto directo, o que tem consequências, infelizmente, directamente para o consumidor, no mercado de produção e de venda de electricidade, que é parcialmente pública e privada. O preço da produção de electricidade vai certamente aumentar, mas também a venda de electricidade francesa para os países vizinhos vai ter um impacto. Muitos dos países vizinhos, por exemplo, Espanha, Itália e mesmo Alemanha, compram electricidade francesa, sobretudo para o consumo nas horas de pico, e a redução desta produção tem logo impactos a nível europeu. Esperemos que não haja um 'blackout', como aconteceu em Portugal e em Espanha (em 2025), mas se a situação continuar, teremos que reduzir fortemente o consumo de electricidade. RFI: Relativamente ainda a todas estas consequências da falta de de água, a mais evidente é que há uma parte substancial da França que vê o acesso á água condicionado. Richard Tavares: Exactamente. Por exemplo, basta ver actualmente a plataforma digital do Ministério da Transição Ecológica. Em praticamente todos os distritos metropolitanos estão em alerta. Pelos dados que eu vi, 99 a 67 estão em nível máximo de crise, o que é um reflexo de obrigatoriedade de reduzir drasticamente o consumo de água. Por exemplo, em França, várias dezenas de conselhos já não têm água potável contínua nas torneiras, o que implica sistemas alternativos de distribuição de água ou através de camiões cisterna ou através de água engarrafada, o que é um impacto directo não apenas nas actividades de lazer, que essas serão obrigatoriamente cortadas ou reduzidas ao máximo, por exemplo, piscinas, rega de espaços públicos ou actividades de lazer. Mas há um impacto directo no consumo nas casas das pessoas. O que já é visível em muitas regiões. RFI: Não podíamos também deixar de mencionar o impacto ambiental da falta de água e, sobretudo, quando ela ainda existe, está mais quente. Portanto, isto significa também que há toda uma biodiversidade que fica desequilibrada, senão mesmo destruída. Richard Tavares: Exactamente. Aliando o período de seca com os graves incêndios florestais que tem havido em França e mesmo noutros países europeus, o impacto no ambiente e na biodiversidade local já é visível: o aumento quer da temperatura do ar ou da água. Já se referiu, por exemplo, o surgimento de alforrecas em cursos de água que não era normal, mas o surgimento e o aumento da população de espécies invasivas é cada vez maior a nível europeu. Não tenho dados específicos, mas a percentagem de espécies invasivas nos diferentes ecossistemas tem tido um 'boom' significativo, muito aliado aos eventos de temperatura extrema e pelas alterações climáticas. RFI: Tem alguns exemplos de espécies invasivas que estão agora a chegar massivamente, por exemplo, nos rios franceses ou mesmo no mar? Richard Tavares: Basta ver determinadas espécies de peixes que, por exemplo, as pessoas mantinham em aquários e que libertam acidentalmente ou voluntariamente em cursos de água. O mesmo acontece, por exemplo, com

  8. Aug 12

    O vinho francês também sofre com a seca e calor extremo

    A França enfrenta esta semana a quinta vaga de calor extremo deste verão. As temperaturas continuam a aumentar e a seca também se intensifica. Desde o início da semana, perto de 70% do país está sob restrições para o uso da água, nomeadamente o distrito de Vaucluse, no sul de França, onde as autoridades emitiram um alerta a definir a situação hidrológica como “preocupante” e a pedir restrições no uso da água. É nessa região que se encontra o "Domaine La Perdrière", em Sablet, que tem 27 hectares de vinhas, cultivados em agricultura biológica. O viticultor franco-português Vasco Perdigão, proprietário da quinta desde 2010, deu-nos o seu testemunho sobre o impacto da seca e do calor extremo nas suas vinhas. A agência meteorológica francesa informou, a 6 de Agosto, que a seca do solo se mantinha em níveis recorde em França e era generalizada. O Gabinete Francês para a Biodiversidade acrescentava que a situação dos pequenos riachos é "a mais crítica alguma vez registada para esta época do ano". De acordo com a agência France Presse, no início de Agosto, quase dois terços das águas subterrâneas, as principais reservas de água, estavam abaixo dos níveis normais. Para percebermos concretamente o impacto no terreno, falámos com o viticultor Vasco Perdigão que tem vinhas espalhadas por várias aldeias e, nem todas puderam ser regadas em Julho. As que o foram “estão bem”, as outras - nomeadamente as mais jovens e certas castas não adaptadas a temperaturas altas - “estão a sofrer muito” e algumas parece que “passaram no forno”, conta. Vasco Perdigão receia que, se não chover no mês de Agosto, possa voltar a haver uma diminuição da colheita, algo que aconteceu já no ano passado e que se situou na ordem de 30% de perdas. O viticultor admite que o sector dos vinhos biológicos atravessa um período difícil, entre a seca, a falta de chuva, a diminuição das importações para os Estados Unidos (devido às taxas impostas por Donald Trump) e a redução, em geral, do consumo de vinhos. Ainda que a seca e as altas temperaturas contribuam para diminuir a quantidade de vinho produzido, o facto de praticar uma agricultura biológica mais atenta à terra e à vinha é garante de qualidade, explica Vasco Perdigão. O problema é que seria preciso aumentar o preço, mas a concorrência é feroz. “O mais complicado é ver que as condições de produção são cada vez mais complicadas com o aquecimento do planeta, a seca e as temperaturas muito elevadas, sobretudo este ano porque é um ano recorde. Eu acho que desde 2003 não vimos isto, é uma coisa mesmo impressionante. Por outro lado, a venda de vinho é cada vez mais complicada, cada vez mais concorrencial, e é verdade que nós estamos preocupados”, explica o viticultor.

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Partindo da actualidade, tentamos explorar os aspectos da multifacetada "alma" francesa nos domínios social, político, económico e cultural.

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