Vida em França

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Partindo da actualidade, tentamos explorar os aspectos da multifacetada "alma" francesa nos domínios social, político, económico e cultural.

  1. 4d ago

    João Paulo Lorenzon leva a violência e a vulnerabilidade humanas ao Off Avignon

    O actor e encenador brasileiro João Paulo Lorenzon está no Festival Off Avignon, neste mês de Julho, com dois espectáculos. O primeiro, “Nietzsche - Do Cavalo Nada Sabemos”, é um solo teatral em que ele protagoniza uma viagem interior aos questionamentos em torno da violência, da destruição, da culpa e do desejo de reparação, a partir de uma cena da vida do filósofo Nietzsche. Enquanto encenador, João Paulo Lorenzon leva a Avignon a peça “Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma”, inspirado do universo de Sarah Kane e interpretada por Julia Setubal. Onze anos depois de ter actuado em Avignon em “Nijinsky - Minha Loucura é o Amor da Humanidade”, o actor e encenador brasileiro João Paulo Lorenzon está no Festival Off Avignon, neste mês de Julho, com dois espectáculos: “Nietzsche - Do Cavalo Nada Sabemos”, em que é actor, e “Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma”, que encena. “’Nietzsche - Do cavalo nada sabemos’ é um espectáculo que fala da violência humana, mas também busca uma possibilidade de ternura humana. Ela parte de um episódio enigmático da vida do filósofo alemão Nietzsche, em que ele vê um cavalo sendo espancado e abraça o cavalo para parar essa violência. Isso acontece no final da vida dele e ele enlouquece, entra em colapso, e talvez um olhar possível para esse colapso seja que o filósofo que acreditava na vontade de potência humana, na vontade de liberdade, de amor, de criatividade, de sonho, vê-se encurralado pela violência e vê essa violência, essa potência de violência, alastrando-se por toda a parte”, descreve João Paulo Lorenzon. No entanto, para o actor, “o espectáculo também acredita numa possibilidade de um gesto de ternura, de um gesto afectuoso, de um gesto amoroso". Enquanto encenador, João Paulo Lorenzon defende a peça “Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma”, também um solo interpretado por Julia Setubal. “Sempre fui muito apaixonado pela Sarah Kane. Fui convidado algumas vezes para montar Crave, que no Brasil é traduzido por Ânsia, mas nunca foi até ao fim por questão de subsídio, por questão de agendas e tal. Então, eu achei que poderia ser bom fazer um mergulho no universo da autora e ali, no feminino, a questão da fragilidade e da força, ou seja, muitas vezes a gente esconde a nossa força e muitas vezes a gente tem vergonha da nossa vulnerabilidade. Então, é como se o espectáculo fosse esse lugar em que eu não preciso defender-me diante do outro, em que eu possa realmente me reconhecer diante de mim mesmo”, acrescenta o encenador. Estar em Avignon, é simplesmente “um sonho” para o artista que conheceu o festival ainda “muito pequenino”, numa viagem que fez com os pais. “Tomei um assombro com esse teatro de rua, com o teatro que sai de todas as pedras. Depois, eu pude vir, em 2015, com “Nijinsky - Minha Loucura é o Amor da Humanidade”, e agora é um sonho ter essa troca. É um sonho poder conhecer outros olhares. É um sonho poder assistir a outras coisas, ter esse encontro, essa troca. É uma grande chance”, descreve. “Nietzsche - Do Cavalo Nada Sabemos” é apresentado na sala La Scierie de 4 a 24 de Julho, enquanto “Nunca se tem tanta força como quando não se tem força nenhuma” sobe ao palco do Théâtre des Vents de 19 a 23 de Julho, no âmbito do Off Avignon, paralelo ao Festival de Avignon.

  2. Jul 8

    Avignon: Bem-vindos ao “país do teatro” na companhia de Tiago Rodrigues

    O Festival de Avignon arrancou a 4 de Julho, e junta, durante três semanas, milhares de pessoas, para esta 80ª edição. Este é o epicentro da história contemporânea do teatro, dirigido pelo encenador, dramaturgo e actor português Tiago Rodrigues. Este ano, há 47 espectáculos, dois de encenadoras lusófonas e a língua convidada é o coreano. Há uma maioria inédita de criadoras mulheres e a linha de força é um enorme ponto de interrogação estampado um pouco por todo o lado nas ruelas da cidade francesa. O teatro anda à solta, sem rédeas, pela cidade de Avignon. Bem-vindos ao “país do teatro, à república independente das artes performativas”, nas palavras e na companhia de Tiago Rodrigues, um dos fazedores desta “fábrica de memórias inesquecíveis para o público”. Uma dessas “memórias” é a primeira maratona teatral em português, de dez horas, com a apresentação, a 12 e 13 de Julho, da Trilogia Cadela Força de Carolina Bianchi. Outra é o espectáculo de cinco horas do francês Julien Gosselin, “Maldoror”, que Tiago Rodrigues acredita que “vai marcar as próximas décadas do teatro francês, europeu e mundial”. E outra, ainda, é a peça “Um julgamento - Depois do inimigo do povo” que descreve como “uma interpretação magistral de uma história do repertório agora reescrita, repensada por Christiane Jatahy e Wagner Moura e com um elenco magistral à volta de Wagner Moura que tem uma prestação absolutamente sublime”. Nesta 80ª edição, “os questionamentos” são a bandeira de um festival que sempre foi sintoma e espelho dos tempos que correm. Este é também “um espaço de liberdade onde os artistas e o público se podem exprimir com toda a liberdade”, reitera o artista, destacando que “em França, como noutros países da Europa e do mundo, a liberdade de expressão e de criação estão a ser ameaçadas”. Mais ainda, em França – diz – “já não se trata apenas de uma ameaça, mas de ataques repetidos em vários territórios”. E, assim, a menos de um ano das próximas eleições presidenciais em França, onde a extrema-direita cresce, Tiago Rodrigues, enquanto director desta instituição e não apenas como cidadão e autor de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, toma já posição e pede às pessoas para não deixarem a extrema-direita chegar ao Palácio do Eliseu. Tiago Rodrigues, português, emigrante, inscreve-se numa longa linhagem histórica de emigração portuguesa para França, mas esta é também uma história familiar e é a história que inspira o seu próximo espectáculo, revelou à RFI em primeira mão. O pai, Rogério Rodrigues, exilou-se em França durante o Estado Novo, o filho é agora o director do maior festival francês de artes cénicas e serve com a sua arte o que chama de “dívida de gratidão” que tem com a sociedade francesa por ter acolhido o pai quando este precisava. RFI: Queria começar com uma expressão que o Tiago Rodrigues gosta muito de usar, que é “o país do teatro”. O festival está na 80ª edição. Até que ponto Avignon continua a ser a capital mundial do teatro? Tiago Rodrigues, Director do Festival de Avignon: “Eu acho que cada vez mais, com o passar do tempo, aquilo que era uma utopia imaginada por Jean Vilar, o encenador que em 1947 funda este festival logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, numa sociedade muito dividida e pensa que talvez um festival durante as férias das pessoas - e é preciso relembrar que as férias pagas eram uma novidade na época - durante as férias pagas das pessoas, podia ser um festival que permitisse ao público viver experiências que eles não teriam oportunidade, nem tempo para viver durante o ano, portanto, grandes aventuras teatrais em lugares monumentais que obrigariam a viajar. E é assim que nasce esta ideia, esta utopia de um país do teatro. Um lugar onde viajamos como quem viaja para fazer turismo, como quem viaja para se repousar. E aqui viajamos, sim, pelo turismo, pelo repouso, mas sobretudo pela descoberta dos espectáculos, pela descoberta de uma grande quantidade de estéticas e de visões de um mundo muito diferentes entre si. O tempo fez com que, ao fim de 80 edições, possamos dizer que este é o país do teatro, a república independente das artes performativas. O público vem precisamente com essa sede de ver espectáculos que talvez não tivesse tempo de ver durante o ano. Por exemplo, 'Maldoror', o espectáculo de Julian Gosselin, um grande encenador que dirige o teatro do Odéon, um dos teatros nacionais franceses, e que faz um espectáculo de cinco horas, poderíamos dizer que cinco horas é ambicioso, mas é um espectáculo magistral. O que nós vemos é que ao fim das cinco horas, por volta das duas e meia, três da manhã, todo o público está lá, aplaudiu de pé e viveu essa aventura colectiva que é singular, que só se vive em Avignon, estar num palácio sob as estrelas e ver uma obra de arte que, no meu entender, este ‘Maldoror’ vai marcar as próximas décadas do teatro francês, europeu e mundial.” É português, é o primeiro director estrangeiro a dirigir o festival. Esta é a sua quarta edição como director. Conhece os talentos e as dificuldades das artes performativas portuguesas, brasileiras, de dança contemporânea moçambicana e cabo-verdiana, por exemplo, mas este ano só há duas peças lusófonas no cartaz… “Eu permito-me corrigir o “só”, “só há”. O Festival de Avignon é um festival de nomes de expressão mundial e, portanto, é um festival que tem que estar atento a tudo o que se passa no mundo. Saber que, por exemplo, este ano há duas artistas brasileiras e saber que estas duas artistas brasileiras lusófonas, Christiane Jatahy e Carolina Bianchi, que são duas das grandes artistas desta edição, são duas artistas que vêm de um só país lusófono, numa possibilidade de mais ou menos - é discutível a quantidade de países que existe no mundo, mas digamos que são duas centenas, porque depois há questões de legitimidade de algumas fronteiras, etc - mas digamos que em 200 países haver dois espectáculos, ambos vindos do Brasil ou de criadores brasileiros, criadoras neste caso, é, de qualquer das formas, um foco muito importante, uma atenção muito importante. Há muitos países que não estão representados no festival. Este ano, há uma representação de 14 países e, portanto, digamos que a maioria dos países do mundo não estão presentes no ano. A criação lusófona tem duas presenças e, portanto, acho que estamos numa quantidade, numa proporção muito benéfica para a criação lusófona.” Mas o que eu queria mesmo saber - e já percebeu onde quero chegar - é quando é que Avignon vai convidar a língua portuguesa? “Bom, o que eu posso dizer é que recentemente fui reconduzido para um segundo mandato, portanto, serei director do Festival até 2030. E estou muito feliz, muito vaidoso mesmo dessa possibilidade, mas também é um grande privilégio e uma grande responsabilidade também. E sem dúvidas que a língua portuguesa, eu digo desde o início, tem todo o mérito, toda a riqueza, toda a diversidade contemporânea e, sobretudo, toda a grande qualidade das criadoras e dos criadores, sejam portugueses, brasileiros, moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos para estar presente no festival. Eu recordo que a lusofonia tem estado muito presente nos últimos anos no festival. No ano passado, a abertura do festival fez-se com uma artista cabo-verdiana, Marlene Monteiro Freitas, foi a primeira vez que Cabo Verde esteve na Cour d’Honneur du Palais des Papes e abriu este festival, ainda por cima no ano em que se celebrava os 50 anos da independência desse país-irmão do meu país-natal, Portugal. E, portanto, temos feito um trabalho de abertura, de aproximação do público de Avignon à criação lusófona ou em língua portuguesa. Sem dúvida que até 2030 a língua portuguesa será certamente uma das línguas convidadas no festival.” A Carolina Bianchi vem ao Festival de Avignon pela segunda vez para apresentar não só o terceiro capítulo da sua Trilogia Cadela Força aqui iniciada, como a trilogia completa, o que perfaz dez horas seguidas de maratona teatral. Isto também é histórico. Já houve maratonas teatrais em Avignon, mas em língua portuguesa, se calhar não… “Em língua portuguesa nunca houve uma aventura destas e estamos muito felizes de poder acompanhar a Carolina e toda a sua equipa da Companhia Cara de Cavalo nisto, que é uma aventura inédita. É o tipo de aventuras que só se pode viver em Avignon, dez horas de teatro. Antes que Carolina Bianchi fosse conhecida do público francês ou europeu, apresentámo-la pela primeira vez em 2023 e logo na altura sabíamos que estávamos comprometidos com continuar a acompanhar a sua trilogia. Entretanto, Carolina Bianchi ganhou o Leão de Prata da Bienal de Veneza, tornou-se numa artista absolutamente reconhecida a nível não apenas europeu, mas mundial. Queríamos estar no lugar do término desta trilogia, a acompanhar a aventura até ao fim e, sobretudo, permitir ao público de descobrir pela primeira vez a trilogia completa inédita. É uma grande aventura para a companhia, que exige enormemente. Também exige do público e das equipas técnicas e de acolhimento. Estamos muito felizes aqui em Avignon de poder propor ao público estas aventuras, porque, como nós costumamos dizer, nós queremos ser uma fábrica de memórias inesquecíveis. E é isso que queremos propor: uma memória inesquecível ao público.” A encenadora brasileira Christiane Jatahy também traz uma peça com um forte teor político. Qual é este alerta também em língua portuguesa que esta peça traz para os dias de hoje? “Christiane Jatahy, acompanhada de Wagner Moura, grande actor que foi este ano nomeado para os Óscares, que ganhou o Globo de Ouro, que ganhou o prémio de i

  3. Jul 5

    Peça de teatro "Au Ciel" transforma adeus às avós em viagem cósmica e poética

    A peça de teatro “Au Ciel” [“No céu”] é uma ilustração de como a poesia e a imaginação podem ser a melhor forma para explicar o que não se consegue explicar, nomeadamente para falar sobre a perda de um ente querido às crianças. Neste espectáculo, que está a ser apresentado no festival Off Avignon, o público embarca numa viagem espacial com uma criança, Ariane, que vai procurar a avó Philomène que – dizem os adultos – foi “para o céu”. Esta é “uma história de amor às avós”, conta a sua autora Cindy Rodrigues, que é também uma das três intérpretes em palco. A protagonista é representada por uma marioneta inspirada no filme “Ma Vie de Courgette” e o espectáculo usa “o espaço como cenário, como lugar de viagem, mas também como metáfora da ausência”. A história passa-se passa no verão de 1969. Em palco, há uma janela horizontal gigante que, ora se abre para as esculturas voadoras que acompanham as aventuras cósmicas de Ariane, ora se transforma numa televisão analógica a preto e branco. Dessa televisão tanto saem imagens da chegada do homem à lua, como noticiários burlescos sobre a viagem de uma menina de sete anos pelo espaço. Há, ainda, um sósia francês do Elvis Presley profundamente deprimido, um arlequim filósofo num dos planetas, uma professora de ciência que é todo um planeta e extraterrestres em forma de peúgas super coloridas que não têm emoções. A “descolagem” começa com “a partida da avó para o céu” porque Ariane não percebe para onde ela foi. A história foi imaginada e escrita por Cindy Rodrigues, uma das três intérpretes em palco, da Compagnie du Radis Couronée, que fala da peça como “uma história de amor às avós”. Foi com ela que falámos no Fabrik Théâtre, onde o espectáculo está a ser apresentado no âmbito do Festival Off Avignon. RFI: Do que é que fala para si este espectáculo? Cindy Rodrigues, Actriz e autora de “Au Ciel”: “É a história de uma menina de sete anos a quem dizem que a avó foi para o céu. Esta expressão é muitas vezes usada pelos adultos para falar com as crianças sobre a morte porque é um tema sensível, porque por vezes não encontram as palavras e têm medo de causar tristeza. Então, a Ariane, que não percebe bem o que quer dizer ‘ir para o céu’, vai iniciar uma grande viagem pelo espaço à procura da avó e de respostas para estas perguntas. Este espectáculo interroga a forma como as crianças compreendem o conceito de morte, mas fala também da dificuldade de os adultos em acompanharem as crianças quando elas próprias se confrontam com a experiência do luto.” A Cindy é a autora do texto. Como surgiu a ideia de o escrever? “Este texto nasceu de uma conversa com o encenador. Ele tinha o desejo de criar um espectáculo situado no espaço. Durante o processo de escrita, o conceito do luto surgiu com relativa naturalidade, pois o céu está frequentemente associado à ideia da separação. Queríamos explorar o espaço como cenário, como lugar de viagem, mas também como metáfora da ausência.” Porque é que decidiu situar a acção em 1969, no contexto da chegada do homem à Lua? “Porque gosto da ideia de que as pequenas histórias se encontram com a grande história, criando um elo entre a ficção e os factos históricos. A alunagem da Apollo 11 foi um evento muito marcante que as novas gerações conheceram na escola, mas para certos adultos que assistiram ao espectáculo é também um salto no passado.” Qual é a ligação que a Cindy Rodrigues tem com a personagem Ariane? “Penso que a ligação que tenho à personagem da Ariane é o amor que tenho pelas minhas duas avós, queria homenagear as relações particulares que cada criança pode ter com os seus avós, essas figuras ao mesmo tempo próximas e um pouco à distância, que são fontes de ternura, de memórias. Quando nos tornamos adultos, procuramos manter vivo esse vínculo espacial.” Até que ponto é que o teatro, a arte, a poesia, as marionetas ajudam a explicar melhor a perda de um ente querido aos mais pequenos? “O teatro, a poesia, as marionetas podem contribuir para explicar melhor a perda de um ente querido às crianças pequenas. Elas não dão uma resposta à morte, oferecem um espaço seguro para a expressar, para a viver simbolicamente. O espectáculo de teatro cria uma situação colectiva em que a criança pode assistir a uma história que se assemelha à sua experiência sem ser directamente confrontada com a sua realidade.” Este é um teatro de marionetas. Há muitos objectos em palco, é muito visual, e também há muita música. Como é que foi o processo de criação da marioneta Ariane e o que é que os bonecos permitem expressar que actores em carne e osso não expressam da mesma forma? “Trabalhamos em colaboração com Nadine Delannoy, que foi responsável pela construção da marioneta. Entre as nossas referências encontrava-se a personagem do filme de animação “Ma Vie de Courgette”, com os seus grandes olhos e uma cabeça maior do que o corpo. Trata-se de uma marioneta de tipo bunraku, uma forma tradicional japonesa de teatro de marionetas, manipulada por duas ou três pessoas. A utilização de uma marioneta para representar a nossa protagonista, que é uma criança, permite transpor a realidade para um plano mais poético, criando uma maior empatia em relação à personagem e uma identificação mais universal por parte do público.” O luto, a imaginação, a infância são os temas da peça. O espectáculo quer falar simultaneamente a várias gerações? “Sim, sim, totalmente. Gosto da ideia de que um espetáculo possa ser intergeracional. Claro que os níveis de compreensão não são os mesmos para as crianças e para os adultos, mas acredito que as crianças são muitas vezes muito mais maduras do que se pensa. E quanto aos adultos, nunca estão realmente longe da sua própria infância.” O que é que representa estar no Festival de Avignon? Não é complicado financeiramente? “Sim, sim, naturalmente. Participar no festival representa um grande risco financeiro para as companhias. Cada ano há mais espectáculos e nunca se pode ter a certeza de recuperar os custos, mas quando funciona, isso abre uma oportunidade de oferecer uma bela temporada ao espectáculo e assim acreditamos e queremos que funcione.”

  4. Jul 1

    O masculinismo em França, um fenómeno que deixou de ser periférico

    No passado dia 24 de Junho, foi publicado aqui em França um relatório do Senado sobre os movimentos masculinistas. Outrora considerado um fenómeno social periférico, o masculinismo, uma forma agressiva do machismo que pode inclusivamente traduzir-se, em tentativas de assassínios ou actos terroristas dirigidos contra mulheres, tem vindo a ter cada vez mais eco nomeadamente junto da população jovem. Ao cabo de sete meses de trabalho e entrevistas a varias centenas de pessoas, a comissão dos direitos das mulheres do Senado chegou à conclusão que o fenómeno que abrange os "incels" -solteiros involuntários- e outros subgrupos tendencialmente ligados à extrema-direita representa um “risco real para a democracia e a coesão social”, constituindo um “movimento social e político” estruturado, que coloca em questão a igualdade entre homens e mulheres. As autoras do documento recordam nomeadamente dados já apresentados num relatório governamental do inicio deste ano, segundo os quais 22 milhões de franceses reconhecem aderir a pelo menos uma forma de sexismo, sendo que entre eles, 10 milhões -ou seja 17% da população francesa- se reconhecem numa forma de sexismo "hostil". O relatório cita ainda os resultados de um estudo da Universidade de Dublin, segundo o qual, nas redes sociais, nomeadamente o TikTok e o YouTube, um jovem é exposto a conteúdos masculinistas no espaço de apenas 23 minutos. Foi neste âmbito que a RFI falou com Luísa Semedo, militante feminista e investigadora associada na área de filosofia na Universidade da Sorbonne Nouvelle. O que é o masculinismo Para a universitária "O masculinismo é uma forma mais radical, daquilo que nós já conhecíamos, que era o machismo, o patriarcado, o sexismo, mas agora com uma forma radicalizada, que é uma forma que tem uma acção que vai para além das palavras. Ou seja, muitas destas pessoas que estão no masculinismo são consideradas praticamente como terroristas, ou seja, são pessoas que podem passar a actos violentos contra mulheres. Há uma continuidade nesta questão da dominação dos homens em relação às mulheres e do sexismo, àquilo que nós conhecemos até agora. Tem uma forma 'normalizada'. E esta nova forma, que é a forma hostil, é uma forma de organização que permite fazer mal às mulheres de forma muito mais radical e mais criminalizada". Segundo a estudiosa, o surgimento desta forma mais agressiva do sexismo tem elo com a maior afirmação do feminismo nestes últimos anos, nomeadamente através de movimentos como o 'Metoo'. "Cada vez que há avanços em relação a direitos, há muitas vezes a reacção daqueles que se julgam ser os lesados desse avanço de direitos. E aqui é o caso. Ou seja, o facto de haver um movimento feminista que é forte e que tem conseguido algumas conquistas, faz com que haja esta reacção de pânico em relação a este movimento progressista. E há um segundo factor, que me parece bastante importante, que é a questão das redes sociais. Ou seja, nós estamos aqui face a um fenómeno que não conhecíamos antes, que é uma forma de propagar estas ideias, que é muito mais rápida, que é mundial, e que permite esta radicalização", considera. A sensibilização, a educação e a economia como vectores de luta No seu relatório, as senadoras fazem um pouco mais de 20 recomendações, nomeadamente em torno das redes sociais, a seu ver o principal vector desta ideologia. Apelam a uma maior vigilância, mais transparência nos algoritmos que condicionam o acesso a determinados conteúdos, e também que as páginas masculinistas deixem de poder gerar rendimentos financeiros. Preconizam ainda aulas dedicadas às relações homem-mulher nas escolas, bem como campanhas de sensibilização no seio da população. Luísa Semedo identifica precisamente a educação e a 'economia do masculinismo' como sendo pistas estratégicas de luta. "Deve haver duas frentes de combate: uma que passa pela educação, como é óbvio. Ou seja, é fazer com que estes jovens, mesmo que se confrontem com este tipo de conteúdos, entendam porque é que é mau, entendam qual é o perigo e não adiram a estas teses. E a segunda frente é atacar de forma legal quem produz estes conteúdos. Parece-me, para já, desmonetizar eventualmente este tipo de canais, porque é preciso perceber que aqui também é uma questão de dinheiro que está presente. Os masculinistas, os que são os gurus do masculinismo, ganham dinheiro com isto e, portanto, têm todo o interesse em continuar. E se forem desmonetizados e se forem também responsabilizados por aquilo que estão a divulgar, penso que também é uma das formas de combater", diz. Constam também no relatório a preconização de aumentar os financiamentos para as organizações de protecção das mulheres e o apelo para que o problema seja tratado a nível interministerial como sendo um caso de segurança pública. "Sem dúvida que é necessário que o combate também seja por várias frentes e neste caso tem que haver a implicação de vários ministérios. Tem que haver a implicação de algo que se possa criar. Estou de acordo com isso e que haja fundos para que isso seja feito. Mas também é preciso dizer que já há um trabalho de terreno de anos de muitas associações feministas e que já têm as suas redes, já têm as suas formas de funcionar, que são eficazes e que, portanto, também necessitam de dinheiro. Parece-me também importante fazer isso", reforça Luisa Semedo. França é o segundo país europeu em termos de financiamento ao activismo anti-género De acordo com a Amnistia Internacional, desde o começo da década de 2010, os movimentos sexistas estruturaram-se até se tornarem uma rede amplamente financiada e transnacional, a França sendo até o segundo país europeu em termos de fundos dedicados ao activismo anti-género. A Amnistia Internacional identifica "actores privados, grupos políticos e instituições que permitem a existência de estruturas e associações mais pequenas do movimento anti-género" através do seu financiamento. Num contexto de crescente visibilidade desta corrente, o risco de ataques terroristas masculinistas é acompanhado de perto pelos serviços de inteligência interna (DGSI), que vigiam "uma dezena de indivíduos susceptíveis de radicalização violenta". Segundo o senado, todos têm menos de 21 anos. Em Julho de 2025, a Procuradoria Antiterrorista acusou jovem estudante de 18 anos de ter o projecto de atacar mulheres com facas. "Estamos num nível de alerta que me parece o apropriado, ou seja, levar a sério, não achar que é só uma questão de moda ou de uma questão só de uns miúdos que se interessam por aquilo e mais ninguém se interessa. Não, nós estamos a falar de toda uma geração que está submetida a este tipo de influências e com vários casos já no mundo de tentativas ou de atentados contra mulheres vindo masculinista que foram perpetrados e que foram conseguidos. Portanto, nós estamos mesmo a falar aqui de um verdadeiro perigo já urgente", considera a investigadora. O masculinismo e o mundo do espectáculo Acaso do calendário, a divulgação do relatório do Senado sobre o movimento masculinista em França coincidiu com a "Fashion Week" de Paris. Uma das figuras convidadas para desfilar para uma das marcas presentes no evento, foi Braden Peters, um jovem 'influencer' masculinista americano de 21 anos conhecido sob o nome de 'Clavicular'. Adepto do culto extremo do corpo, próximo dos neonazis no seu país, ele ilustrou-se nomeadamente por filmar-se a ter uma overdose, a atropelar um homem com a sua carrinha, a matar a tiro um crocodilo, e -obviamente- a humilhar mulheres em directo no seu canal. Para Luísa Semedo, a presença deste jovem na semana da moda parisiense demonstra que "já estamos perante formas que começam a ser 'glamourizada', ou seja, já não estamos só naquele fenómeno do 'incel', ou seja, daqueles solteiros involuntários vistos como o estereótipo de rapazes pelos quais nenhuma miúda se interessa. Nós estamos agora face a 'influencers' que têm um certo 'glamour', um certo charme em relação àquilo que estão a fazer. Ou seja, ainda são mais apelativos para muitos jovens que vão sentir essas pessoas como modelos. E, portanto, é uma diversificação justamente das formas como o masculinismo pode ter". "A questão de que me parece importante é a do dinheiro. É sem dúvida, tentar fazer com que isto não renda, porque isto rende dinheiro não somente para os 'influencers', mas para a própria sociedade do espectáculo. E portanto, este último caso é um bocado o exemplo disto. Ou seja, a partir do momento em que, de alguma forma, isto render dinheiro, muitas pessoas vão se interessar. E também dizer que tudo isto tem impacto, depois, apesar de tudo, nos próprios partidos políticos, em como estas gerações vão votar, que provavelmente vão ser mais sensíveis a partidos de extrema-direita. E, portanto, isto vai ter impacto em toda a sociedade, não só nos mais jovens", conclui a estudiosa.

  5. Jun 25

    "O parque imobiliário não está preparado para o aumento das temperaturas"

    A França enfrenta uma intensa vaga de calor, com temperaturas acima dos 40 graus em várias cidades. Mais de 800 escolas encerraram portas e as autoridades recomendam à população que evite deslocações desnecessárias, privilegiando o teletrabalho sempre que possível. As dificuldades em manter os edifícios frescos durante episódios de calor extremo voltam a expor as fragilidades de uma parte significativa do parque imobiliário francês, alerta Emmanuel Lourenço, engenheiro civil e perito qualificado em desempenho térmico. O parque imobiliário está preparado para lidar com temperaturas cada vez mais elevadas? De um modo geral, considera-se que uma parte significativa do parque imobiliário, em particular os edifícios construídos antes de 2008, não está plenamente preparada para responder ao aumento progressivo das temperaturas exteriores sem recurso a sistemas de climatização. Esta realidade decorre, em grande medida, do enquadramento regulamentar vigente à data da sua construção. Com a implementação do Sistema de Certificação Energética passou a existir requisitos mínimos mais exigentes ao nível do desempenho térmico dos edifícios. Este enquadramento normativo implicou a adopção de soluções de construção mais eficientes, nomeadamente ao nível do isolamento térmico, da envolvente opaca, da qualidade dos envidraçados e do controlo das trocas térmicas com o exterior. Assim, os edifícios construídos antes desse período tendem a apresentar um comportamento térmico menos eficiente, sendo mais susceptíveis aos ganhos de calor no Verão e às perdas térmicas no Inverno. Como consequência, registam-se maiores níveis de desconforto térmico no interior das habitações. Ou seja, nos períodos mais quentes a casa torna-se excessivamente quente e, nos períodos mais frios, excessivamente fria… Exactamente. Isso afecta a qualidade dos espaços interiores e o bem-estar dos ocupantes. Além disso, conduz a um aumento do consumo energético, uma vez que obriga à utilização permanente de sistemas de climatização, quer para arrefecimento no Verão, quer para aquecimento no Inverno. De que forma é possível alcançar um equilíbrio na construção, ou seja, utilizar materiais que funcionem tanto no Verão como no Inverno? Todos os materiais podem ser adequados para ambas as estações. A questão fundamental reside na forma como são integrados no projecto. Nos edifícios novos, esse equilíbrio deve ser assegurado desde a fase de concepção. Nos edifícios mais antigos, é necessário estudar cada caso individualmente, identificando oportunidades de melhoria que permitam reduzir a dependência dos sistemas de climatização. É essencial adoptar uma abordagem integrada e criteriosa. Deve ser considerada a orientação solar do edifício, o tipo de utilização prevista, a selecção dos vidros e as respectivas propriedades térmicas, bem como o tipo de isolamento e as soluções arquitectónicas adoptadas. Por exemplo, grandes superfícies envidraçadas orientadas a sul podem representar uma vantagem durante o Inverno, aproveitando os ganhos solares para aquecer naturalmente os espaços interiores. No entanto, durante o Verão, podem originar um sobreaquecimento significativo se não forem devidamente protegidas. Por isso, é indispensável uma articulação eficaz entre arquitectura e engenharia. Nem sempre é um processo simples, mas tem-se assistido a uma evolução muito positiva nesta área. Qual é o custo de não adaptar o parque imobiliário às temperaturas extremas? O custo pode ser muito elevado. Em alguns edifícios, a adaptação é particularmente complexa devido a características arquitectónicas específicas, condicionantes patrimoniais ou limitações financeiras. Tomando um exemplo extremo, não faria sentido aplicar um sistema conhecido como “capoto” - nas paredes exteriores de um castelo histórico. Nesses casos, é necessário recorrer a soluções alternativas, normalmente pelo interior, embora nem sempre seja possível eliminar completamente as pontes térmicas. A reabilitação térmica dos edifícios é um processo complexo, mas que tem vindo a ser concretizado com sucesso em muitas situações. No entanto, a componente financeira continua frequentemente a ser o principal factor de decisão. Como devem ser pensadas as novas construções para responder às ondas de calor, que, segundo os especialistas, serão cada vez mais frequentes? No actual contexto das alterações climáticas, as novas construções devem ser concebidas com base em princípios de elevada eficiência energética e resiliência térmica, de forma a responder adequadamente a fenómenos extremos, como as ondas de calor. O Sistema de Certificação Energética tem desempenhado um papel importante na melhoria do desempenho dos edifícios, promovendo a adopção de soluções construtivas mais eficientes. Estas passam pela utilização de isolamento térmico de maior qualidade, materiais com melhor comportamento face às variações de temperatura e técnicas construtivas adequadas. Naturalmente, as soluções variam de país para país, em função das condições climáticas locais. No entanto, o objectivo é sempre o mesmo: assegurar melhores condições de conforto térmico interior, reduzindo a dependência dos sistemas de climatização, tanto no Verão como no Inverno. Esta semana, em França, as autoridades decidiram encerrar escolas e privilegiar o teletrabalho porque alguns edifícios não oferecem condições para acolher pessoas durante o calor extremo. Que soluções existem para arrefecer edifícios já construídos? Existem dois tipos de soluções: passivas e activas. As soluções passivas exigem uma análise detalhada de cada edifício e incluem intervenções como a melhoria do isolamento térmico, a substituição de elementos construtivos e a optimização do desempenho da envolvente. As soluções activas são normalmente mais rápidas de implementar e, em alguns casos, menos dispendiosas. Incluem sistemas de climatização, ventilação mecânica e outros equipamentos destinados a controlar a temperatura interior. Em França, muitos edifícios foram concebidos sobretudo para responder às necessidades de aquecimento durante o Inverno. É comum encontrar sistemas de aquecimento em edifícios antigos e recentes. No entanto, muitos desses edifícios não dispõem de sistemas adequados para arrefecer os espaços interiores durante os períodos de calor intenso. No futuro, deverão ser privilegiadas construções próximas de espaços verdes? Começam a surgir jardins em coberturas e edifícios. Poderá essa ser uma das soluções? Sem dúvida. Os espaços verdes contribuem para a redução da temperatura nas zonas urbanas e ajudam a mitigar o efeito de ilha de calor. É importante que as cidades integrem cada vez mais áreas verdes distribuídas pelos diferentes bairros, e não apenas concentradas em alguns grandes parques. A substituição de superfícies impermeáveis, como o betão e o asfalto, por solos permeáveis e vegetação favorece a evapotranspiração, um processo natural que contribui para o arrefecimento do ambiente. As coberturas ajardinadas são também uma solução interessante. Além de melhorarem o conforto térmico do edifício, ajudam a reduzir a necessidade de utilização de sistemas de climatização. Naturalmente, implicam um investimento adicional, sobretudo ao nível estrutural, devido ao peso acrescido. No entanto, quando analisamos o ciclo de vida útil do edifício e os benefícios a longo prazo, trata-se de uma solução que pode revelar-se bastante vantajosa.

  6. Jun 17

    Cabo-verdianos em França reuniram-se para apoiar Tubarões Azuis

    A diáspora cabo-verdiana em França reuniu-se na região de Paris, numa fan zone inédita, para apoiar os Tubarões Azuis contra a Espanha. Este evento reuniu mais de 1.500 pessoas, com animação, música e muita emoção na estreia de Cabo Verde no Mundial de Futebol 2026. Oficialmente, Cabo Verde conta em França com cerca de 30 mil dos seus nacionais, mas a realidade mostra outros números já que muitos descendentes de cabo-verdianos têm só nacionalidade francesa e muitos outros chegam a França com a sua nacionalidade portuguesa. Isto faz da diáspora de França, a terceira maior do arquipélago após Portugal e os Estados Unidos. Face ao apuramento dos Tubarões Azuis para o Mundial de 2026 e o jogo de estreia contra Espanha, várias associações da diáspora meteram mãos à obra para organizar um evento à altura deste acontecimento mundial. Com coordenação da Federação das Associações Cabo-Verdianas de França, a diáspora cabo-verdiana criou uma fan zone de Cabo Verde em Villiers-le-bel, a cerca de 40 minutos de Paris. Os bilhetes esgotaram, e não faltaram os ingredientes principais para o apoio à selecção: música, comida e muita animação. Como sublinha Fernanda Cabral Semedo, antiga presidente da Federação das Associações Cabo-Verdianas, os cabo-verdianos de França não quiseram ficar de fora nesta grande festa. "Quando vimos Cabo Verde apurado pela primeira vez na História, um país pequeno, assim seleccionado para a Copa do Mundo, é lógico. É um evento mundial e não podemos ficar de fora. Nós aqui em França, a Federação das Associações Cabo-Verdianas, através do nosso presidente Wilson da Graça, temos um staff por detrás desta organização em conjunto com as nossas associações. E nós aqui em França somos uma diáspora numerosa e não podemos ficar de fora. A ideia surgiu e a união faz a força", declarou a dirigente associativa. De transportes públicos ou de carro, os cabo-verdianos foram chegando a Villiers Le Bel, quase todos trajados a rigor com camisolas e bandeiras. Alguns vieram com amigos, muitos estavam em família e alguns vieram de longe, como explicou Alcides Gomes Semedo, presidente da Associação Domingos Ramos, que actua em Villeneuve-Saint-Georges, e participou na organização do evento. "Não houve nenhuma dificuldade na organização porque já temos uma rede a nível nacional, não só em Paris. Há pessoas que vêm de Marselha, de Nice também", indicou o presidente da associação Domingos Ramos. Dentro do pavilhão alugado para o evento, a energia foi contagiante do início ao fim. Antes do jogo houve batucada, durante o intervalo concertos e até um DJ. Cá fora, um campo de futebol destinado a entreter os mais jovens. Em França, muitas das associações cabo-verdianas consagram uma parte da sua actividade ao desporto, mobilizando os mais jovens para a prática de diferentes modalidades com destaque para o futebol tanto masculino como feminino. O grande objectivo é motivar os jovens, mas sobretudo, através do desporto, mostrar a importância da educação nos seus percursos de vida. Com mais de 60 voluntários num evento que acolheu 1.500 pessoas, o que implica o respeito de regras muito rigorosas, ainda não há um evento definido para os próximos jogos de Cabo Verde até porque os horários de difusão em França são de madrugada. Durante 90 minutos, os cabo-verdianos de França sustiveram a respiração a cada ataque espanhol e vibraram com as defesas de Vozinha. Para a diáspora, esta é uma selecção de ouro pelo seu talento, mas sobretudo, porque representa todos aqueles que longe do seu país continuam a torcer por Cabo Verde. E o primeiro objectivo deste Campeonato do Mundo já foi atingido: mostrar que Cabo Verde consegue! Após a apoteose do empate face à Espanha, os cabo-verdianos em França já só pensam em vitórias e na passagem à próxima fase do Mundial.

  7. Jun 10

    "Estamos todos no mesmo Mundo, Terra, Pátria"- Álvaro Vasconcelos

    Foi apresentado em finais de Maio em Paris, o terceiro e último volume do livro "Memórias em tempo de amnésia" de Álvaro Vasconcelos, especialista de relações internacionais e voz bem conhecida das nossas antenas. Nesta obra em três partes, o autor relata as épocas que atravessou, o salazarismo, o colonialismo português em África, nomeadamente em Moçambique onde viveu, os anos de militância política na África do Sul, em França e em seguida em Portugal, onde regressou na altura do 25 de Abril. No terceiro volume das suas memórias intitulado "O futuro para além do apocalipse", Álvaro Vasconcelos recorda a conquista da independência das ex-colónias, assim como os primórdios da democratização de Portugal e a sua adesão à União Europeia. O antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e fundador em Portugal do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais também evoca a viragem autoritária a que se assiste actualmente em várias partes do mundo, a que ele chama de «brutalismo» e que tem a ver com a corrente 'tecno-totalitarista', encabeçada nomeadamente por alguns magnatas da Silicon Valley. Álvaro Vasconcelos fala também da urgência ambiental, da urgência de não nos esquecermos que somos humanos, numa época em que tendemos a colocar tudo nas mãos da Inteligência Artificial. No fundo, ele fala da urgência de pensarmos. Neste livro denso que é uma chamada de atenção, ele começa cada capítulo com uma espécie de guião de filme e fala com um gosto não dissimulado de todas as fitas que o fizeram reflectir de outra forma sobre o mundo, porque este texto, ainda mais do que os anteriores, é uma declaração de amor à sétima arte. E evidentemente não podíamos deixar de falar -antes de mais- da importância que o cinema tem para Álvaro Vasconcelos. "O cinema é algo que me formou porque eu vivia na África colonial, na Beira, em Moçambique. E como era lá no fundo do Império, a ditadura era certamente muito mais suave para os brancos, para os negros era mais brutal do que em Portugal era para os portugueses. E os brancos da cidade da Beira, onde eu vivia, tinham acesso ao Cineclube da Beira, às grandes obras do cinema mundial, por exemplo, nós vimos o ‘Couraçado Potemkin’, que em Portugal era absolutamente proibido. (…) E como o cinema, começamos a vê-lo mesmo muito, desde muitos miúdos, não só nos cineclubes, os cinemas eram a maravilha da época, era aquilo que nos educava, nos abria novos horizontes, que nos fazia rir com Charlot, com os irmãos Marx, que nos ensinava os problemas graves do mundo, como ‘Hiroshima mon amour’, o neo-realismo italiano, ‘Os ladrões de bicicletas’, etc. Evidentemente que o cinema teve para a minha geração e em particular para aquela que viveu no Império, mas não só, também também em Portugal, um impacto enorme, portanto, foi formativo. E ao escrever o último livro da minha trilogia, senti a necessidade de fazer um livro que fosse mais de reflexão que apenas descritivo da minha vida e de reflexão. Não sou filósofo, portanto, não podia ser uma reflexão filosófica. Mas era uma reflexão à volta das ideias que são veiculadas pelo cinema, que foram veiculadas pela grande literatura que eu li desde miúdo, que sempre me apaixonou e continuo a ler e que me ensinou imenso sobre o mundo. Eu descobri muitas coisas no cinema e na literatura que não era capaz de descobrir com o mesmo grau de profundidade dos ensaios", explica o autor. Nas suas memórias, Álvaro Vasconcelos fala da época colonial e também de uma descolonização das mentes que ainda não foi totalmente feita. "Em África, descobri a violência colonial e que a palmatória é um símbolo absoluto dessa violência. Palmatória com que iam castigar os empregados negros por coisas, não importa o quê. Mas mesmo que fossem coisas graves, era a mesma palmatória que era usada contra os escravos, como eu vi no Museu Afro-Brasileiro, em São Paulo. Infelizmente não temos em Portugal, nenhum museu sobre a escravatura. Temos um pequeno museu em Lagos, mas não temos um grande museu, como têm os brasileiros. E essa palmatória era usada também pelo professor primário para nos manter. Identifico a violência brutal de que era vítima pelo professor primário, que tinha um poder absoluto sobre mim, com a violência, de que eram vítimas os negros, que não tinham direitos nenhuns, nem direito à vida. E para que isso pudesse ter acontecido, foi preciso criar uma narrativa de que eles não eram gente civilizada. E essa narrativa perdurou no pós 25 de Abril, porque nunca se fez um trabalho verdadeiro de descolonização das mentalidades. E hoje, quando os imigrantes são tratados como são tratados com desumanidade, é porque não são considerados humanos iguais a nós. E como não são considerados humanos iguais a nós, podem ser vítimas da arbitrariedade. Não têm os direitos iguais. Isso é uma questão fundamental", considera o estudioso. "Quando se deu o 25 de Abril, podia-se ter feito uma coisa extraordinária e teria ficado para a história. Era considerar que toda a gente que reside em Portugal tem os mesmos direitos. Há um país no mundo em que isso, pelo menos já acontece, que é na Nova Zelândia. E, portanto, se os imigrantes tivessem o direito do voto, seriam tratados de forma completamente diferente ", diz ao referir que, em vez disso, "são vítimas da desigualdade mais absurda da escravatura às vezes da violência da morte no Mediterrâneo. Em vez de irem socorrer, acham que é uma forma dissuasiva que eles morram no Mediterrâneo. Isso, evidentemente, é feito posto em prática por políticos democráticos, mas evidentemente que estão a abrir o caminho à extrema-direita que fará disso uma doutrina de poder." No capítulo que reserva a estes aspectos, o autor escreve que “o silêncio sobre a verdadeira natureza do colonialismo é um dos grandes fracassos da democracia portuguesa” e que “a Europa assumir que o colonialismo foi um crime contra a humanidade tornaria o seu discurso sobre a democracia muito mais legítimo.” "O 25 de Abril foi uma revolução extraordinária. Libertou os portugueses da ditadura e criou um sistema de liberdades públicas, de Estado de Direito. Isso deve ser sublinhado e eu sublinho no livro, porque é único no século XX, uma revolução que não foi só uma libertação, mas trouxe a liberdade. Podemos pensar, por exemplo, que a Revolução de Outubro libertou os russos do Czarismo, que era um regime terrível. Mas não construiu um regime de liberdade. Isso aconteceu em Portugal. Simplesmente, Portugal era ao mesmo tempo uma ditadura e um império. E quando se construiu a democracia, fez-se um trabalho mais ou menos profundo sobre o que era a ditadura, o que é que era o fascismo. Existem vários museus, o Museu do Aljube, um museu em Peniche, existe um trabalho de memória. Existem nos livros de História. Conta-se o 25 de Abril, todo esse passado ditatorial. As pessoas sabem que houve a tortura, que havia a PIDE, que as pessoas não tinham direito à palavra. Tudo isso faz parte da memória colectiva dos portugueses", constata Álvaro Vasconcelos. "O que não se fez nenhum trabalho. O que é que era o colonialismo? Não se explicou o que é que era a tortura em África, o que era o trabalho forçado. Qual era a origem que isso tinha na escravatura? Manteve-se um mito do lusotropicalismo, ou seja, que Portugal tinha contribuído para criar um mundo diferente, um mundo não racista, um mundo multiétnico. Até se dizia isso : ‘Deus criou os homens e os portugueses criaram as mulatas’ escondendo que as mulatas nasciam muitas vezes de actos de violação absoluta, porque as mulheres negras não tinham direitos e, portanto, o senhor tinha um direito de pernada sobre a mulher negra. Isso acontecia frequentemente. Eu, aliás, entrevistei para um dos meus livros uma senhora africana que conta exactamente a história de uma mulher que, depois do 25 de Abril, andava à procura do homem branco, que tinha sido o pai dos seus filhos e que o homem branco tinha desaparecido. Tinha regressado a Portugal e que nunca mais soube dele. E as crianças queriam conhecer o pai. Mas isto é um caso de uma pessoa que se movimentou. A maior parte das vezes ficaram e são vítimas de toda a discriminação. Isso é o aspecto em que o 25 de Abril não fez esse trabalho", diz o politólogo. "Quando em Portugal surge um movimento de sociedade civil poderoso, hoje formado por intelectuais afro-descendentes que defendem o direito à igualdade, que tem voz no espaço público, quando nos lembramos, por exemplo, da Joacine Katar Moreira que foi deputada na Assembleia da República, a campanha racista contra ela. No Parlamento, a extrema-direita dizia ‘Volta para o teu país’. Estou a falar numa deputada, membro do Parlamento. Mas depois as intelectuais todas que são superactivas na sociedade portuguesa, que é aquilo que há hoje de mais vibrante na sociedade portuguesa, mais criativo. Publicam, fazem filmes como a Pocas Pascoal e outros. Ainda recentemente a Kitty Furtado organizou na Gulbenkian um ciclo sobre o cinema africano produzido em Portugal, com numerosos filmes, numerosos realizadores. Portanto, na Bienal de Veneza, há dois anos, a representação de Portugal foram artistas negros. Portanto, temos um movimento extraordinário. Esse movimento choca com esta mentalidade dominante. E então são acusados de serem ‘wokistas’. ‘Wokistas, quer dizer que são pessoas com consciência", sublinha o universitário. Relativamente às lições que se podem tirar do pós 25 de Abril, Álvaro Vasconcelos faz um balanço agridoce : apesar de considerar que “os seus objectivos essenciais foram atingidos: liberdade, fim do colonialismo e um estado inspirado nos modelos sociais europeus”, ele constara que “o que triunfou não foram os mecanismos que pe

  8. May 29

    França: Historiador explica a "dimensão moral" da revogação do “Code Noir”

    A Assembleia francesa aprovou, esta quinta-feira, 28 de Maio, a proposta de lei que revoga formalmente o “Code Noir” [“Código Negro], um conjunto de éditos reais que regulamentou a escravatura nas colónias francesas entre os séculos XVII e XVIII. A França aboliu a escravatura a 27 de Abril de 1848, mas os textos do "Code Noir" nunca foram formalmente retirados. O historiador António de Almeida Mendes considera que o gesto se reveste de uma dimensão moral e histórica que corresponde “ao reconhecimento de um crime” e que pode abrir portas para que se deixe de olhar para a escravatura como “um anexo da história ”. A Assembleia francesa aprovou, a 28 de Maio, a proposta de lei que revoga formalmente o “Code Noir” [“Código Negro], um conjunto de éditos reais que regulamentou a escravatura nas colónias francesas entre os séculos XVII e XVIII. A votação ocorreu em primeira leitura e terminou com 254 votos favoráveis, nenhum contra, nem nenhuma abstenção. A proposta de revogação do “Code Noir” foi apresentada pelo deputado Max Mathiasin, de Guadalupe e tem carácter sobretudo simbólico. O "Code Noir" é considerado um “fóssil legislativo” porque apesar de a França ter abolido a escravatura há 178 anos, o documento ainda não tinha sido revogado de modo explícito. Por isso, é um gesto "muito importante", explica o historiador António de Almeida Mendes, sublinhando que se reveste de uma dimensão moral e histórica que corresponde “ao reconhecimento de um crime” e abre portas para que se deixe de olhar para a escravatura como “um anexo da história como até hoje tem sido”. “É uma coisa muito importante porque estamos a falar de um decreto que já não era aplicado. Estamos a falar do século XVII e, entretanto, houve a abolição do tráfico e a abolição da escravatura no Império francês, Mas a dimensão moral é muito importante porque estamos a falar da dimensão de reconhecimento de um crime. Eu acho que no contexto francês e europeu dessa relação entre história nacional e história imperial, há sempre esse tabu dos crimes do passado. O reconhecimento moral está cá, mas o que é preciso é ir além e inscrever essa história na história da nação e não ser um anexo da história - como até hoje tem sido - essa história de um crime que não foi só um crime de alguns anos, foi um crime que durou vários séculos”, explica o professor de História Moderna na Universidade de Nantes, em França, especializado nomeadamente na história da escravatura. O texto também prevê que o governo entregue ao Parlamento, no prazo de um ano após a promulgação da lei, um relatório sobre o direito colonial e as suas consequências económicas, sociais, culturais e ambientais a longo prazo, nomeadamente em termos de racismo e de desigualdades. O relatório deverá, ainda, avaliar como a história da escravatura, do tráfico negreiro e da sua abolição é tratada nos programas escolares. Algo “muito importante” para o nosso convidado que admite que história do tráfico de pessoas escravizadas “tende a ser minimizada” e vista como “um apêndice da história europeia”. “Eu acho que é muito importante porque eu próprio sou professor e vejo que essa história, muitas vezes, tende a ser minimizada, Eu acho que estamos aí mesmo no centro do que foi o capitalismo e a história moderna que se inicia no século XVI. Essa relação entre a Europa e o mundo, muitas vezes, foi pensada como uma relação harmoniosa, como uma relação de mestiçagem, ainda que com seus crimes. Eu acho que temos que ver também a face sombria do que foi esse encontro, essa modernidade do século XVI e não só pensar que a Europa desenvolveu o mundo e trouxe a modernidade ao mundo, mas pensar mesmo os efeitos negativos desse encontro. Eu acho que isso tem que ser reavaliado nos programas escolares para pensar uma história mais inclusiva (...) Eu acho que é muito importante repensar essa história, mesmo numa cronologia europeia. Por exemplo, se formos a ver, uma das consequências do 'Code Noir' e dessa relação de França com as antigas colónias é que, por exemplo, o Palácio do Eliseu foi construído pela fortuna dos maiores negreiros da época. Estamos a ver que mesmo o enriquecimento da Europa, na altura, tem muito a ver com essa história da escravidão, esta história colonial. Eu acho que é importante complexificar esta história e não só fazer da história do tráfico um apêndice da história europeia”, afirma o investigador. O "Code Noir" foi criado em Março de 1685, sob Luís XIV, e foi ampliado por normas posteriores, de 1723 e 1724, voltadas para outros territórios coloniais. Este conjunto de documentos fixava o estatuto jurídico das pessoas escravizadas, institucionalizando a violência colonial e o tráfico de pessoas consideradas como mercadorias ou "bens móveis", passíveis de serem adquiridos por um “mestre”. O “Code Noir” também instituía sanções em caso de fuga, que iam desde orelhas cortadas, marcas a ferro, pessoas chicoteadas em público e pena de morte. “O 'Code Noir' é é mesmo próprio ao contexto francês. Só existe um 'Code Noir'. Não há, no contexto português, por exemplo, um decreto jurídico idêntico. Basicamente, estamos a falar do Império francês, que tinha um grande império colonial, sobretudo nas Antilhas, no espaço das Caraíbas. O 'Code Noir' organiza as pessoas escravizadas como sendo uma propriedade do 'senhor', como ‘um bem móvel’, a saber, um bem que se pode transmitir em herança de família em família. É para transformar essas pessoas escravizadas em bens patrimoniais, tal como uma casa, uma mesa, uma forma de desumanizar as pessoas”, explica o historiador. Durante o debate no Parlamento, Max Mathiasin classificou a revogação como “um acto poderoso de memória, de justiça e de reconhecimento”, mesmo que admita que não possa “curar sozinho as feridas da história”. Os debates centraram-se na história francesa da escravatura e do colonialismo, dos efeitos visíveis hoje através das desigualdades persistentes entre os territórios ultramarinos e a França continental, e da discriminação sofrida pela população negra. Alguns deputados criticaram o facto de os debates acontecerem bem perto da estátua, em frente da Assembleia, de Jean-Baptiste Colbert, o principal autor do “Code Noir”. Esta revogação acontece 25 anos depois da Lei Taubira, de 2001, em que França reconheceu a escravatura e o tráfico de pessoas escravizadas como crimes contra a humanidade. Resta saber se a revogação vai abrir a discussão sobre reparações, algo que não está no texto, mas que também alimentou os debates na Assembleia, com vários parlamentares a salientarem que antigos proprietários de escravos receberam indemnizações, ao contrário dos próprios escravos. Reparar também passa por abrir o debate, acrescenta António de Almeida Mendes. “É um debate que está mesmo no centro dos debates sobre os crimes do passado. Será que temos de só ficar nesse reconhecimento moral do crime ou ir mais além e considerar que as desigualdades de hoje em dia que subsistem, em termos de acesso à riqueza, em termos de discriminação racial, em termos de racismo, será que isso necessita de ir mais além de uma condenação moral e de abrir o debate sobre as reparações financeiras? É um debate que já tem dez anos, iniciou-se na América Latina, está muito presente nos Estados Unidos. Então, há essa questão: será que a gente pode imaginar uma reparação financeira, que não é só uma reparação em termos monetários, mas uma reparação sobre o que é que a gente pode reparar em termos de desigualdades criadas por esses crimes do passado”, sublinha António de Almeida Mendes. A 21 de Maio, a proposta de lei recebeu o apoio do Presidente francês, Emmanuel Macron, que considerou que manter estes textos em vigor, mesmo sem efeitos legais, constitui "uma traição à República". Durante uma recepção no Palácio do Eliseu para assinalar o 25º aniversário da Lei Taubira, o Presidente afirmou que "esta imensa questão" não deve ser ignorada, mas preveniu que não se devem fazer "falsas promessas" e não anunciou quaisquer acções concretas. Macron falou na “reflexão inacabada” sobre a questão das reparações que, a seu ver, passam pelo “reconhecimento” e nunca poderão ser “totais”. Presente na cerimónia, a autora da lei e antiga ministra, Christiane Taubira lembrou que, no final de Março, a Assembleia Geral da ONU adoptou uma resolução que considerou a escravatura e o tráfico de pessoas africanas como “os crimes mais graves contra a humanidade”. A França e outros países europeus abstiveram-se porque consideraram que não deve haver hierarquia entre crimes contra a humanidade. Emmanuel Macron recordou, ainda, que lançou, há um ano, um trabalho de historiadores para avaliar "o preço" da liberdade imposta pela França ao Haiti, estando as conclusões previstas serem entregues em Dezembro. A 17 de Abril de 2025, o Presidente francês reconheceu, em comunicado, “a força injusta da História” imposta ao Haiti que, há 200 anos (1825), foi obrigado a pagar a França uma indemnização colossal para que esta reconhecesse a independência da antiga colónia. Na altura, Macron não evocou qualquer reparação financeira por parte de França, como pedido pelas autoridades haitianas. Note-se que, em 2003, o antigo Presidente haitiano, Jean-Bertrand Aristide, avaliou a dívida a 21,7 mil milhões de dólares, algo então visto como “anacrónico” pelo governo francês. Relembremos: Após uma proclamação da independência em 1804, depois de uma vitória contra as tropas de Napoleão Bonaparte, as novas autoridades do Haiti - sob a ameaça dos canhões dos barcos franceses - aceitara, a 17 de Abril de 1825, pagar 150 milh

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Partindo da actualidade, tentamos explorar os aspectos da multifacetada "alma" francesa nos domínios social, político, económico e cultural.

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