O Papa Leão XIV inicia esta sexta-feira, 25 de Setembro, uma visita de quatro dias a França, entre Paris, Lourdes e Metz, num périplo que cruza alguns dos principais temas do pontificado: defesa da dignidade humana, inteligência artificial, migrações, os abusos sexuais na Igreja e a paz na Europa. A viagem inclui, em Lourdes, um encontro privado com vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero. Para o padre Rui Pedro, da paróquia portuguesa do Sacré-Cœur, em Gentilly, nos arredores de Paris, a visita será também uma oportunidade para o Papa lançar um apelo à esperança e à unidade, numa sociedade que considera estar a “desumanizar-se”. O sacerdote espera ainda que Leão XIV aborde, perante as autoridades francesas, a defesa da vida e da dignidade humana, e que, em Metz, faça um apelo à unidade europeia, ao acolhimento dos migrantes e à paz. RFI: O que é que se pode esperar desta deslocação do Papa Leão XIV a França? Padre Rui Pedro, da paróquia portuguesa do Sacré‑Cœur, em Gentilly: Eu penso que um dos apelos fortes que irá ser feito e que, também, nós católicos esperamos é um apelo à esperança, à esperança desta sociedade que se vai, um pouquinho, desumanizando. O próprio Papa, há pouco tempo, emitiu uma encíclica sobre a inteligência artificial. Um apelo à unidade, não é por acaso, que ele vai a Metz, terra de um dos fundadores da União Europeia, Robert Schuman. Um apelo à unidade de uma Europa que também tem as suas raízes cristãs, dos princípios cristãos da igualdade e da liberdade. E depois um apelo à Igreja que peregrina aqui em França e que, de facto, continue a sua renovação, uma renovação missionária e, também, a acolher estes últimos apelos que têm vindo da parte das comunidades - que a Igreja francesa está muito consciente disso - que é este aumento da procura dos jovens pela Igreja e o aumento da procura de catecúmenos, pessoas adultas que, de ano para ano, aumentam no seu pedido de baptismo à Igreja. O Papa desloca-se a Paris, está prevista também uma ida à cidade de Lourdes e termina em Matz. Quem define este percurso? Porque isto também tem uma simbologia, não se escolhe ao acaso. Alguns são convites formais que foram feitos, como por exemplo a UNESCO. Houve um convite formal para que visitasse esta organização das Nações Unidas. Depois, também, houve um convite explícito do Presidente [francês, Emmanuel] Macron e dos próprios bispos franceses. Penso que foi um pouco a conciliação disto tudo. As dioceses que ele visita são: Paris, a diocese de Saint-Denis onde está o Stade de France, a diocese de Lourdes e Metz, portanto, são quatro dioceses a nível da nossa organização religiosa. E são pontos, de facto, sensíveis e lugares de alguma simbologia. Por exemplo, Paris é uma grande cidade onde há uma grande diocese. Há também Notre-Dame, este símbolo mundial que foi renovado. Penso que é interessante que o Papa o visite. Vai a Notre-Dame encontrar os religiosos e religiosas, portanto é um encontro um pouquinho particular com os sacerdotes, aqueles que se consagraram a Deus, homens e mulheres, seminaristas… Portanto, é um momento esperado, porque em França está a haver um aumento de vocações sacerdotais e religiosas. A juventude está a voltar-se também para a Igreja. Depois, em Saint-Denis, é o grande encontro com a juventude. O Papa João Paulo II esteve cá na Jornada Mundial da Juventude em 1997. Este encontro com os jovens que está cheio, o estádio está completo. Portanto, esta grande adesão das pessoas a estes eventos públicos que em poucos dias, em poucas horas, se esgotaram as inscrições, é também símbolo de uma certa ansiedade e de um desejo de encontrar esta figura, escutar a sua mensagem, as suas palavras. Esta é também um bocadinho a expectativa do que vai dizer, o tema é “Para que o mundo tenha a vida” e, há pouco tempo, o Parlamento francês aprovou uma lei sobre o fim de vida e o suicídio assistido. Portanto, o Papa claramente que irá também ter palavras nesse sentido da defesa da vida, visto que é o tema da viagem. E quando irá falar às autoridades, penso que não se irá encolher, portanto irá dizer o que tem a dizer, porque a sua mensagem é de recordar as pessoas, de facto, aquilo que é o pensamento doutrinal da Igreja, o pensamento social da Igreja. Ele vai recordar alguns valores, mesmo que o país, com as suas decisões políticas, tenha optado por, para nós, não-valores da sociedade. Ele, certamente, irá recordar alguns valores que para nós são importantes e mexer com a consciência das pessoas. O Papa Leão XIV é um homem inteligente, bem preparado, inspira-se muito em Santo Agostinho, portanto um homem que procura a verdade e penso que também aqui irá ferir alguns ouvidos. Mas é a maneira de ser do Santo Padre que é dizer o que tem a dizer, fiel à verdade é fiel à sua mensagem. Ainda em Paris, está prevista uma missa gigante na Praça da Concórdia, uma missa cujo perímetro teve de ser alargado dado o número de inscrições para assistir a esta celebração. A que é que se deve esta afluência gigantesca? Penso que neste momento, o Santo Padre é uma das poucas figuras mundiais que ainda recorda alguns valores, que dá esperança à humanidade e que também enfrenta os vários poderes políticos, como o fez há pouco tempo com o seu co-nacional, com o seu conterrâneo [Donald] Trump [Presidente dos Estados Unidos da América]. Portanto, na verdade, ele tem uma mensagem a transmitir ao mundo. Uma mensagem de humanização da sociedade e uma mensagem de fraternidade, de diálogo inter-religioso, diálogo intercultural, onde esta procura das pessoas, esta curiosidade - porque na missa não estarão só católicos praticantes - de toda esta gente que se inscreveu, mesmo que esteja longe da Igreja, vai numa expectativa de ouvir uma mensagem com a qual se pode identificar com os valores. Esta grande adesão das pessoas à Missa do Papa, sem dúvida, podemos interpretar como uma procura das pessoas a quem tem uma voz ainda de autoridade, uma voz livre, uma voz que nos recorda aquilo que é essencial para a vida e vem certamente entusiasmar as paróquias, os movimentos e a Igreja, no sentido de os pequenos sinais que há da renovação da Igreja - uma Igreja mais missionária, que está mais aberto ao mundo. Uma Igreja que também está polarizada em França, há os tradicionalistas e os mais avançados, portanto uma Igreja que no seu interior tem esta polarização. Ele vem, de facto, acolher todos, dar uma palavra de entusiasmo e sobretudo, dizer que é em Jesus Cristo que nós nos identificamos e é nele que temos que encontrar a força do nosso viver e também as respostas que a nossa consciência e o mundo colocam hoje, de facto, não só às religiões. As religiões, hoje, não são um perigo, são um factor importante para a coesão social e para a paz. Mas também elas, hoje, são assediadas por fanáticos e por grupos que usam o nome de Deus em vão. Não se esqueça que é a praça que assinala a concórdia entre a Igreja e o Estado. É de facto um lugar icónico para reafirmar um pouquinho esta unidade, que é preciso ter este diálogo, esta cooperação. Porque quer o Estado, quer as Igrejas, quer a religião, estão todos ao serviço do homem. Este Santo Padre tem falado muito da dignidade humana e que no centro tem que estar o homem. Depois de Paris, o Papa Leão XIV vai para Lourdes, uma cidade mariana, onde está previsto um encontro privado com vítimas de abuso sexual por parte do clero. Penso que em todos os países há esta ferida, esta chaga. Todos os países, todas as igrejas estão a procurar, de facto, seguindo as instruções do Papa Francisco, enfrentar este problema com a tolerância zero e com a verdade, a protecção das vítimas. A França foi também muito golpeada com esta questão. É importante que haja esse encontro, que está já na agenda. O Papa é um homem que tem que escutar, que conhecer a realidade. Creio que encontrar rostos concretos, histórias concretas, irá ajudá-lo também na sua missão, como também o irá fazer também aqui em Paris. Ele vai à Maison Bakhita, onde vai encontrar as associações e as pessoas vulneráveis, os pobres e os imigrantes. O Papa escutar a realidade, escutar a base é muito importante. Dá um sinal de uma Igreja que sabe escutar. As vítimas têm que ser ouvidas, têm que ser também indemnizadas e reparadas pelas ofensas feitas pelo clero ou por cristãos com responsabilidades educativas. Porque não há só padres, também leigos, e há outras pessoas que abusaram de menores e pessoas vulneráveis. Acho que é muito importante este aspecto e segue um bocado as pegadas do Papa Francisco, onde ele ia também sempre escutava este grupo de pessoas particulares desta realidade que, de facto, mancha o serviço da Igreja. Esta deslocação a Lourdes acaba por ser mais tradicional para o Papa, tendo em conta que é um santuário mariano e que seria quase evidente passar por lá. É um lugar de peregrinação popular. Lourdes está muito ligado ao tema da doença, aos doentes, vulneráveis, portanto, pessoas que experimentam na sua pele o sofrimento de Cristo. É um lugar de atenção aos mais simples, um lugar também à devoção mariana que marca este país, França, e, portanto, ir a um lugar popular como Lourdes, é mais uma atenção aos mais simples, aos mais pobres. É uma religião que não pode viver sem cultura. Portanto, não há fé sem cultura e a cultura popular é muito importante para, de facto, manifestarmos os sentimentos religiosos e a experiência religiosa de um povo. Este povo francês tem neste lugar um dos sítios mais internacionais da sua visibilidade como povo cristão que é Lourdes. A visita do Papa Leão XIV a França, termina em Metz, símbolo de terras completamente arrasadas pelas guerras. O que é que se