O Mundo Agora

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

  1. 6d ago

    A guerra de Trump contra os tribunais e a Justiça internacional

    Donald Trump transformou sanções pessoais em arma contra juízes que contrariam seus interesses e os de seus aliados. Do Brasil à Haia, a ofensiva da extrema direita contra os tribunais não busca corrigir seus vícios, mas garantir a lei do mais forte. Thomás Zicman de Barros, analista político Um juiz é impedido de entrar nos Estados Unidos, pode ter seus bens bloqueados e encontra dificuldades para usar bancos, ter cartões de crédito, e contratar serviços tão básicos como ter um endereço de e-mail. O motivo: suas decisões desagradaram Donald Trump. A punição pessoal serve como recado a todos os magistrados: não melindrem o presidente americano, nem seus aliados. A história parece familiar no Brasil, onde o governo Trump já recorreu a sanções contra integrantes do Supremo Tribunal Federal. Mas não estamos falando do STF, e sim dos juízes do Tribunal Penal Internacional, na Haia, que julga indivíduos acusados de crimes contra a humanidade. Em fevereiro de 2025, com uma canetada, Trump abriu caminho para as sanções contra a corte. Sua administração sancionou magistrados e integrantes da Procuradoria do TPI, sobretudo em represália às investigações envolvendo Israel e os Estados Unidos. A medida lembra o que ele fez contra o Brasil, por conta de uma suposta injustiça contra Jair Bolsonaro, preso após tentar um golpe de Estado. No caso do Tribunal Penal Internacional, Washington vai um passo além. A administração americana prepara agora novas sanções, desta vez contra o próprio tribunal, que poderiam comprometer seu funcionamento. Trump quer enfraquecer a instituição, quem sabe extingui-la. Na semana passada, na Assembleia Geral da ONU, pediu que todos os Estados membros deixassem o TPI. Aqui em Paris, na Assembleia Nacional, a quarta-feira (23) foi dedicada a um evento em torno da defesa da justiça internacional, da independência do TPI e das consequências das sanções americanas, com a participação da vice-presidente da corte, a beninense Reine Alapini-Gansou, de parlamentares como Pouria Amirshahi e Chloé Ridel, advogados e organizações de direitos humanos. No Parlamento Europeu, deputados também pressionam por uma reação. Mas a Comissão Europeia hesita em usar seu mecanismo de bloqueio contra as sanções, e alguns governos europeus próximos ou temerosos da extrema direita impedem uma resposta comum. Os tribunais não estão acima da crítica. O STF tem vícios, a Justiça brasileira é elitista, e permeada por relações ambíguas entre o público e o privado. O TPI de Haia também é acusado de seletividade e funciona numa ordem internacional em que suspeitos de países pobres são muito mais facilmente julgados do que os de países ricos. Mas a extrema-direita não ataca as cortes em busca de mais Justiça, equilíbrio e igualdade. O projeto é o oposto: reafirmar hierarquias sociais e, sobretudo, permitir que o mais forte decida quando a lei deve valer. Trump resumiu essa concepção em 7 de janeiro deste ano, quando lhe perguntaram quais eram os limites de seu poder no cenário internacional. Respondeu que o limite era sua própria moralidade, sua própria mente, e que não precisava do direito internacional. O discurso de Trump celebra o triunfo da vontade de um só homem que faz o que quiser, na hora que quiser, à revelia de todos. Ele ecoa assustadoramente teses do jurista nazista Carl Schmitt. Para Schmitt, soberano é quem decide quando a regra deixa de valer. No plano internacional, tratados, tribunais e leis existem enquanto não incomodam quem tem força suficiente para ignorá-los. Pode-se criticar o STF. Pode-se criticar o TPI, seus excessos e sua seletividade. Mas a alternativa proposta pela extrema direita não é por mais justiça. É a lei do mais forte.

  2. Sep 21

    Por que o avanço chinês no Peru deveria preocupar o Brasil

    O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, publicou um artigo no El Comercio em 8 de setembro, e o fato de ter escolhido um jornal de Lima para acusar os projetos chineses no Peru de comprometerem transparência e segurança de dados diz mais sobre o destinatário da mensagem do que sobre o conteúdo dela, que já era conhecido de quem acompanha o assunto. Thiago de Aragão, analista político A embaixada chinesa respondeu no mesmo dia, com números, que é o terreno onde Pequim se sente confortável na América Latina: um estoque de investimento próximo de US$ 30 bilhões, dezenas de bilhões em ganho comercial acumulado para os peruanos, e a afirmação de que o hemisfério ocidental não é o quintal de ninguém, que a diplomacia chinesa vem repetindo desde que Washington voltou a tratar a região como problema de segurança. Dois dias depois, Rubio estava em Lima e Keiko Fujimori confirmava a entrada do Peru no Shield of the Americas. Nada disso teria peso se fosse apenas troca de comunicados. O que dá densidade ao episódio é Chancay, o porto que a Cosco Shipping Ports opera desde novembro de 2024 e que movimentou 200 mil contêineres só no primeiro semestre deste ano, crescimento de quase 71% sobre o mesmo período de 2025, com 987 mil toneladas em granéis e carga geral, num acumulado que já passou de 502 mil TEU. O terminal foi anunciado com teto de um milhão de contêineres por ano e, na velocidade em que vai, encosta nesse limite no segundo semestre de 2027, o que antecipa uma conversa que os peruanos preferiam adiar, sobre expansão, sobre ferrovia, sobre quem financia os corredores que ligariam o interior do continente ao Pacífico. Essa é a parte que interessa ao capital brasileiro, e não é a parte que costuma aparecer nas manchetes. Aqui em casa, Chancay foi absorvido como assunto portuário, concorrência para Santos e Paranaguá, disputa por carga. É uma leitura estreita. O que o porto está fazendo é reprecificar o custo de levar soja, milho e cobre sul-americanos para a Ásia, e quem influencia esse custo influencia a margem do produtor brasileiro sem precisar de um hectare de terra no Brasil. Um corredor que corta duas semanas de trânsito até Xangai muda o cálculo de qualquer trading, muda o desenho do frete e muda, sobretudo, o poder de barganha do comprador chinês na negociação de safra, que é onde a perda se materializa sem que ninguém consiga apontar o dia em que ela começou. O padrão de atuação das estatais chinesas na região já é suficientemente documentado para não ser tratado como coincidência. A obra física vem antes, porque cria dependência operacional e emprego local, e a camada de telecomunicações vem depois, porque se apoia na legitimidade que a primeira construiu. Huawei e ZTE já ocupam posição central em 5G e data centers no Peru, na Colômbia, no México e no Brasil, segundo o mapeamento da BNamericas, e é exatamente nessa camada que a pressão americana se concentra, porque é ali que o argumento de segurança encontra respaldo bipartidário em Washington. O fórum que Pequim organizou em Lima no dia 16 de setembro, sobre direitos humanos, com representantes de 23 países da região, pertence ao mesmo movimento, e o calendário, na semana seguinte ao artigo de Rubio, não foi acidente. O Brasil está mais exposto que o Peru nessa equação e já sinalizou mais do que provavelmente pretendia. Ao entrar como país fundador da organização internacional de governança de inteligência artificial puxada por Pequim, Brasília se inscreveu num arranjo normativo chinês antes de ter posição consolidada sobre fornecedores de 5G, sobre cabos submarinos e sobre localização de dados, três decisões que estão sendo tomadas em silêncio por empresas e reguladores. Para quem investe, o risco não é o de hoje, é o da revisão posterior, quando uma escolha de fornecedor de rede ou de nuvem que parecia técnica reaparece como questão de acesso a contrato público e a mercado nos Estados Unidos. Fujimori está tentando ficar com o dinheiro chinês e com a cobertura de segurança americana ao mesmo tempo, o que descreve com precisão o que quase todo governo da região gostaria de conseguir, e o arranjo se sustenta enquanto nenhuma das duas potências exigir exclusividade. Essa exigência tende a chegar por etapas, começando por telecomunicações e compras públicas, e, quando ela chegar, o país que terá mais a perder é o que construiu simultaneamente sua pauta exportadora sobre a demanda chinesa e sua agenda regulatória sobre parâmetros americanos.

  3. Sep 14

    Trump inflável, Rubio na América do Sul, e o risco de ingerência estrangeira no Brasil

    A ofensiva diplomática de Washington na América do Sul e os laços com o bolsonarismo acendem o alerta para o risco de ingerência americana na eleição brasileira. Thomás Zicman de Barros, analista político Um enorme Donald Trump inflável subiu no meio da Avenida Paulista. Foi com esse símbolo, e agitando bandeiras americanas, que os apoiadores de Flávio Bolsonaro acharam apropriado comemorar o 7 de Setembro, dia da Independência. Há um paradoxo evidente em celebrar patriotismo e soberania nacional prestando homenagem ao líder de uma potência estrangeira. E a cena ganha outro significado diante do que acontece hoje ao redor do Brasil. Apenas um dia depois daquela manifestação, em 8 de setembro, Marco Rubio desembarcou na Colômbia. O secretário de Estado americano seguiu depois para Equador e Peru, numa viagem destinada a consolidar a aproximação de Washington com três governos de direita e extrema-direita da região. Os Estados Unidos vêm recompondo sua influência na América do Sul. Além dos três países visitados, Chile e Argentina estão muito próximos de Washington. Sobrou o Brasil de Lula para destoar desse novo mapa político. O próprio Rubio já disse isso. Em junho, ao celebrar diante do Senado americano a quantidade de governos latino-americanos hoje alinhados aos Estados Unidos, enumerou as poucas exceções. Citou Cuba e Nicarágua, há anos sob sanções americanas. Mencionou a Venezuela, agora sob tutela de Washington. E, nas palavras dele, “é claro, o Brasil”. Fez então uma observação reveladora: o Brasil está “no meio de um ciclo eleitoral”. Rubio acompanha esse ciclo de perto. Em maio, recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. O candidato também se reuniu com J.D. Vance e Donald Trump. Risco de ingerência O risco evidente é de ingerência estrangeira nas eleições brasileiras. E há precedentes. No ano passado, Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil, enquanto seu governo cassava vistos e aplicava sanções contra Alexandre de Moraes. A própria Casa Branca relacionou essas medidas ao processo contra Jair Bolsonaro. A política interna brasileira entra, abertamente, na política externa americana. A pergunta agora é até onde essa ingerência pode chegar. As redes internacionais da extrema direita ajudam a tornar essas iniciativas menos nítidas. Elas combinam governos, políticos, think tanks, organizações privadas e empresários numa teia por vezes opaca. Nos bastidores, movimentam dinheiro, formam quadros e conectam atores de diferentes países. Uma delas é a Rockbridge Network, rede conservadora americana que teve J.D. Vance entre seus fundadores. Nos últimos dias, surgiram suspeitas de que recursos ligados a essa rede possam ter beneficiado indiretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. O financiamento não foi comprovado, mas há contatos documentados entre a organização americana e personagens do universo político brasileiro. E essa não é a única iniciativa do tipo. Talvez por isso valha a pena voltar à imagem da Avenida Paulista. Para alguns patriotas, a melhor forma de celebrar nossa soberania é louvando um inflável gigante de Donald Trump.

  4. Sep 7

    Como o ouro venezuelano entrou na diplomacia dos Estados Unidos

    Washington começa a desmontar, de forma calculada, as sanções sobre o ouro venezuelano, mas a jogada vai além da economia. Ao liberar o comércio de minerais estratégicos, os EUA miram não só recursos valiosos, mas também influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas. A abertura, porém, é seletiva, reversível e chega antes que Caracas consiga controlar a extração ilegal, que mistura crime organizado, grupos armados e rotas clandestinas. Thiago de Aragão, analista político Sanções costumam ser mais sinceras quando começam a ser desmontadas. A ordem das exceções diz muito sobre o que Washington realmente quer. Na Venezuela, o petróleo veio primeiro. Era previsível. Agora, os Estados Unidos começam a montar uma arquitetura parecida para o ouro, os minerais e o carvão. O subsolo venezuelano entrou, de vez, na diplomacia de Washington. Isso não encerra as sanções. Longe disso. A abertura é controlada, seletiva e, sobretudo, reversível. Ainda assim, muda o lugar da Venezuela no cálculo norte-americano: o país deixou de ser visto somente como um problema político ou uma reserva petrolífera e passou a ocupar espaço na disputa por recursos estratégicos, cadeias de suprimento e influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas. O desenho começou em 6 de março, quando o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos (OFAC) publicou a Licença Geral 51, autorizando determinadas atividades relacionadas ao ouro de origem venezuelana. Três semanas depois, Washington ampliou a autorização para outros minerais, permitiu o fornecimento de alguns bens e serviços ao setor e abriu a possibilidade de negociar contratos condicionais de investimento. Em 2 de setembro, o OFAC mexeu novamente nessa estrutura. As licenças 51D, 54C e 55A passaram a incluir expressamente carvão, minerais e ouro, assim como serviços e negociações ligadas a investimentos futuros. A linguagem continua estreita de propósito: Washington autoriza “determinadas atividades”, não o comércio inteiro, e mantém de pé o restante do regime de sanções. A Venezuela não foi normalizada. Está sendo religada a circuitos econômicos escolhidos pelos Estados Unidos, tomada por tomada. A produção venezuelana não nasce de um setor convencional, com empresas transparentes, rastreabilidade confiável e uma autoridade regulatória que chegue aonde o mapa oficial diz que ela chega. Durante anos, o Arco Mineiro do Orinoco virou uma economia paralela. Ali se cruzam autoridades políticas, oficiais militares, grupos armados, atravessadores e organizações criminosas, cada qual com seu pedaço da mina, da estrada ou do silêncio. O metal ganhou peso quando o colapso do petróleo secou as divisas. E trouxe uma vantagem nada desprezível para quem prefere operar nas sombras: pode ser carregado em pequenas quantidades, fundido, misturado e reexportado com documentos novos. Uma barra não conta de qual mina saiu. Muito menos quem trabalhou nela ou qual território indígena ficou para trás. Essa amnésia cabe no bolso A história da região, aliás, já passou por isso. Quando o ouro foi descoberto no território disputado entre a Venezuela e a Guiana Britânica, Londres tentou ampliar sua presença sobre a área. A disputa escalou até a crise de 1895, quando o secretário de Estado Richard Olney invocou a Doutrina Monroe e pressionou o Reino Unido a aceitar arbitragem. Mais de um século depois, o ouro volta a puxar Washington para o Escudo das Guianas, agora pela porta das sanções, não pela linha de fronteira. O novo governo venezuelano tenta recuperar o comando dessa economia. Em abril, Caracas aprovou uma legislação para atrair capital estrangeiro ao setor mineral. Em junho, enviou forças para Las Claritas, no estado de Bolívar, uma das principais áreas de mineração ilegal do país. Segundo a Reuters, a operação ocorreu enquanto o governo procurava reabrir um setor praticamente fechado ao investidor estrangeiro desde as nacionalizações iniciadas durante o governo de Hugo Chávez. Oficialmente, é uma ofensiva contra o crime organizado. Economicamente, a lógica é outra e bastante simples: ninguém oferece uma concessão séria sobre um território que não controla. Antes de atrair investidores, Caracas precisa provar que manda nas minas, nas estradas e nas rotas de exportação. A região antes tolerada como fonte informal de renda agora precisa virar ativo negociável. Washington quer criar canais legais para o ouro venezuelano antes que a Venezuela tenha mostrado capacidade de separar produção formal, extração ilegal e interesses de atores sancionados. A licença chega antes da rastreabilidade. O mercado, sabemos, não costuma esperar a papelada alcançar a realidade. Um estudo publicado em março pela Global Initiative Against Transnational Organized Crime identificou uma inversão nas rotas do ouro ilegal da Amazônia. O metal já não sai somente da Venezuela. Ouro extraído no Brasil e na Guiana passou a entrar em território venezuelano, enquanto Boa Vista se consolidou como centro logístico de fluxos alimentados por rodovias, aeronaves pequenas, pistas clandestinas e fronteiras onde a presença estatal oscila entre escassa e decorativa. Investigadores brasileiros chegaram a conclusão semelhante. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o aumento da fiscalização no Brasil empurrou redes criminosas para Venezuela, Guiana e Suriname. O ouro retirado ilegalmente de terras indígenas cruza a fronteira, ganha novos documentos e pode reaparecer no mercado internacional com uma biografia perfeitamente limpa. Para o Brasil, destruir pistas e equipamentos dentro do território nacional resolve uma parte visível do problema. A rede aprende rápido. Quando a repressão aperta de um lado, ela muda a rota, o comprador e o papel que acompanha o metal. A fronteira não interrompe o negócio; apenas encarece a travessia. Para a França, tudo isso está bem mais perto do que parece. A Guiana Francesa convive há décadas com uma economia ilegal do ouro conectada ao Brasil e ao Suriname. Um estudo da Fondation pour la Recherche Stratégique estimou em cerca de € 70 milhões por ano o custo das operações francesas de repressão, enquanto as perdas econômicas associadas à mineração ilegal superariam € 500 milhões. Essas redes teriam capacidade para ocultar ou lavar aproximadamente dez toneladas de ouro por ano. Caiena está na Amazônia. Bruxelas também, embora nem sempre se lembre disso. A Guiana Francesa é a fronteira amazônica da União Europeia e uma linha de contato direta entre o mercado europeu, as redes criminosas brasileiras e as economias informais do Escudo das Guianas. O ouro que atravessa essa geografia não respeita as categorias confortáveis de política externa. Ele mistura segurança, meio ambiente, crime organizado, sanções e disputa por recursos numa mesma barra. A abertura norte-americana pode atrair investimento, tecnologia e algum grau de transparência para a mineração venezuelana. Pode ainda dar a Caracas um incentivo para substituir grupos armados por operadores formais e voltar a exercer autoridade em áreas abandonadas pelo Estado. Esse é o cenário otimista. O outro é menos elegante. Se a demanda legal crescer antes que existam mecanismos confiáveis de rastreabilidade, o novo mercado autorizado poderá absorver ouro extraído ilegalmente no Brasil, na Guiana ou na própria Venezuela. A flexibilização não desmontaria a economia criminosa. Daria a ela uma porta nova, com placa oficial e acesso ao sistema financeiro internacional. A pergunta, portanto, não é se o ouro venezuelano pode voltar ao mercado. É outra: quem o extraiu, quem controlou o caminho e quantas vezes sua origem foi reescrita até a exportação? Washington está abrindo uma rota legal para os minerais venezuelanos. O ouro ilegal já sabe viajar.

  5. Aug 31

    França: quem vai enfrentar Marine Le Pen no segundo turno da eleição presidencial de 2027?

    O primeiro debate entre os presidenciáveis franceses mostrou uma corrida ainda fragmentada no país, a oito meses da eleição. Com Marine Le Pen autorizada a concorrer e à frente nas pesquisas, candidatos do centro, da direita e da esquerda disputam quem poderá enfrentá-la no segundo turno. Thomás Zicman de Barros, analista político A campanha presidencial francesa parece ter começado para valer na semana. Na quinta-feira (27), sete dos principais candidatos à sucessão de Emmanuel Macron participaram de um primeiro grande debate, organizado pelo MEDEF, a principal organização empresarial francesa, no célebre estádio de Roland-Garros. Mas a disputa, pelo menos por enquanto, parece ser para saber quem ficará em segundo lugar, ou melhor, quem irá ao segundo turno com Marine Le Pen. A candidata do Reunião Nacional (Rassemblement National) aparece próxima dos 35% das intenções de voto, muito à frente dos adversários. Le Pen voltou recentemente a ser elegível. Condenada no ano passado no caso dos funcionários fantasma no Parlamento Europeu, ela havia recebido uma pena de inelegibilidade imediata. Em julho, a Corte de Apelações reduziu a pena para 15 meses, período considerado já cumprido. Com isso, Le Pen voltou ao jogo eleitoral. No debate do MEDEF, Le Pen tentou sobretudo tranquilizar empresários que ainda mantêm fortes reservas em relação a ela e ao seu programa econômico. Essa hostilidade já não representa necessariamente um veto absoluto: dependendo do adversário no segundo turno, parte do empresariado poderia acabar apoiando a líder de extrema direita, ainda que tapando o nariz. Ela procurou facilitar essa escolha, prometendo disciplina orçamentária e redução de gastos. Flerte com a extrema direita Édouard Philippe e Gabriel Attal têm uma relação bem mais confortável com esse público. Os dois ex-primeiros-ministros de Macron disputam boa parte do mesmo eleitorado de centro: Philippe, hoje mais bem colocado nas pesquisas, insistiu no rigor das contas públicas, e Attal teve alguns dos momentos mais bem recebidos da noite. Se ambos contribuem para a normalização de ideias da extrema direita, é Bruno Retailleau quem flerta mais abertamente com essa tradição, tentando apresentar uma espécie de lepenismo mais liberal. O problema para eles está na divisão dos votos. Sobretudo Philippe e Attal concorrem diretamente pelo antigo e minguante eleitorado macronista. Quando aparecem juntos nas pesquisas, essa fragmentação pode abrir espaço para outro candidato chegar ao segundo turno. Divisão da esquerda Isso ajuda a explicar por que Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, continua competitivo. No MEDEF, a hostilidade do público era visível. Ao defender aumento dos salários, aposentadoria aos 60 anos e o cancelamento da parcela da dívida francesa nas mãos do sistema europeu de bancos centrais, teve como resposta risadas incrédulas da plateia. Mélenchon foi bastante atacado, mas tampouco estava ali para conquistar os empresários. O confronto fala a uma base eleitoral fiel e engajada, que o mantém firme na disputa pela segunda vaga. É justamente uma base assim que falta à ecologista Marine Tondelier. Ela também marcou suas diferenças com os empresários, mas sua candidatura continua patinando nas pesquisas. Raphaël Glucksmann, eurodeputado que quer ser um candidato de centro-esquerda nas eleições, aparece melhor, mas ainda precisa vencer em outubro uma primária que se anuncia disputada. Além disso, custa a encontrar um discurso claro entre a esquerda e o centro, ocupando cada vez mais as ruínas de um inóspito “macronismo progressista”, e tem grandes dificuldades para se impor como figura carismática e presidenciável. O debate do MEDEF mostrou bem o ponto de partida da campanha: Marine Le Pen tem larga vantagem no primeiro turno, enquanto centro, direita e esquerda seguem fragmentados. No momento, a principal disputa é saber quem conseguirá chegar ao segundo turno contra ela.

  6. Aug 24

    Entre tratores e geopolítica, a Europa perde espaço para a China na América do Sul

    O acordo entre União Europeia e Mercosul deixou de ser uma negociação técnica há muito tempo. Virou teste de realidade para a Europa. A pergunta que Bruxelas evita responder é simples: quer mesmo parceiros estratégicos na América do Sul, ou prefere seguir refém de cadeias de suprimento que Washington, Pequim e seus próprios impasses internos definem por ela? Thiago de Aragão, analista político Em Paris, o debate é apresentado como uma disputa entre agricultores franceses e carne brasileira. Leitura compreensível. Também incompleta. Para o pequeno produtor francês, pressionado por custos crescentes de energia, fertilizantes, crédito e exigências ambientais, mais concorrência parece ameaça direta. Não adianta explicar a ele que os volumes serão limitados, que as salvaguardas existem, que a quota é pequena. Quem vive de uma propriedade familiar não enxerga uma “quota tarifária”. Enxerga o risco de não conseguir passar a terra para os filhos. É precisamente por isso que a discussão precisa ser tratada com mais honestidade. O agricultor francês não é inimigo do Brasil. Ele é, antes de tudo, um cidadão pressionado por um modelo europeu que exige padrões ambientais e sanitários cada vez mais ambiciosos, mas nunca conseguiu garantir a ele renda, previsibilidade e poder de negociação dentro da cadeia produtiva. Transformar o produtor brasileiro em vilão de uma história que, no fundo, também fala da fragilidade econômica do campo europeu é o caminho mais fácil. E o menos honesto. Ao mesmo tempo, é insustentável que a França trate o Mercosul como se fosse um bloco homogêneo, incapaz de cumprir regras ou de produzir dentro de parâmetros exigentes. O acordo prevê liberalização gradual, quotas para produtos agrícolas sensíveis, compromissos sanitários e ambientais, além da proteção de 350 indicações geográficas europeias. Queijos, vinhos e azeites franceses ganham acesso progressivo a um mercado sul-americano de quase 300 milhões de consumidores. Ninguém está falando em abrir as portas sem critério. Fala-se em criar regras de acesso, mecanismos de controle e instrumentos de defesa comercial num ambiente que já não permite ilusões sobre autossuficiência. A União Europeia adotou uma salvaguarda que permite suspender preferências tarifárias quando importações agrícolas ultrapassarem gatilhos de volume ou preço. O acordo tenta, com honestidade, responder ao medo político que tomou as zonas rurais europeias. A França, porém, olha para a disputa com lentes excessivamente domésticas. Emmanuel Macron, presidente da França, prometeu votar contra o pacto depois dos protestos que levaram tratores a Paris e a outras cidades no início de 2026. A mobilização é legítima. O problema aparece quando uma pressão real do campo passa a definir a política externa europeia num momento de competição aberta por mercados, minerais críticos, energia, alimentos e infraestrutura. Há um precedente que Paris finge não lembrar. Entre 1961 e 1963, a chamada Guerra da Lagosta colocou navios franceses e brasileiros em rota de colisão no litoral de Pernambuco. A França dizia que lagostas nadavam. O Brasil respondia que elas caminhavam sobre a plataforma continental, e portanto eram recurso brasileiro. O acordo assinado em dezembro de 1964 deu à França cinco anos de pesca controlada, mediante repasse aos pescadores locais. A moral do episódio ficou pouco discutida: a França historicamente enquadra suas disputas com o Brasil no vocabulário mais estreito possível, o do interesse setorial imediato, quando o problema real é sempre estratégico. Lagosta ontem. Bezerro hoje. A dinâmica não mudou. Enquanto isso, Pequim avança A Europa parece esquecer que o tempo não para enquanto ela debate. A China não espera a próxima eleição francesa, nem uma decisão da Corte de Justiça da União Europeia. Pequim avança no comércio, no financiamento, na infraestrutura portuária, na logística sul-americana. O comércio entre Brasil e China alcançou recorde de US$ 171 bilhões em 2025, enquanto investimentos chineses no país cresceram 45 por cento e chegaram a US$ 6,1 bilhões no mesmo ano. Balcão de carne, frango e açúcar é a parte visível da disputa. A parte que importa é outra: quem vai desenhar a infraestrutura econômica da América do Sul nas próximas décadas. Portos, ferrovias, energia, minerais críticos, tecnologia, telecomunicações, a própria arquitetura financeira do comércio exterior, tudo está sendo reposicionado. Quando a Europa hesita, outros ocupam o espaço. Simples assim. A China já entendeu. O investimento em Chancay, no Peru, e a expansão da presença logística chinesa em Santos apontam para uma ambição maior: redesenhar as rotas entre América do Sul e Ásia, reduzir custos de transporte e consolidar corredores comerciais que retirem centralidade do eixo atlântico tradicional. Demonizar Pequim é confortável e inútil. O que interessa é reconhecer que ela opera com estratégia, capital paciente e horizonte de longo prazo que a Europa, neste momento, parece ter perdido. O acordo com o Mercosul é imperfeito. Nenhum acordo comercial relevante é perfeito. Ele exige fiscalização séria, rastreabilidade, reciprocidade regulatória, punição efetiva para quem descumprir compromissos ambientais ou sanitários. O Brasil também precisa abandonar o reflexo automático de enxergar toda exigência europeia como protecionismo disfarçado. Há protecionismo, claro. Existe também uma demanda concreta por transparência e por padrões que serão cada vez mais centrais no comércio global. A questão é se a Europa vai usar essa demanda para construir influência ou para levantar muros. Se escolher o segundo caminho, protegerá temporariamente alguns setores, mas entregará a outros atores a relação estratégica com a América do Sul. O agricultor francês merece proteção contra concorrência desleal. Não deveria, porém, ser usado como álibi para uma Europa que se recusa a tomar decisões geopolíticas. O Mercosul não é ameaça à França. É a chance de a França, e de uma Europa que insiste em ficar menor, voltarem a ser relevantes numa região que, por tempo demais, trataram como periferia.

  7. Aug 17

    Extrema direita europeia usa crise em Ceuta para atacar Sánchez e espalhar medo de 'invasão migratória'

    Ao regularizar imigrantes que já viviam no país, a Espanha contrariou a guinada conservadora do continente. A extrema direita aproveitou a crise de Ceuta para transformar essa diferença numa suposta ameaça para toda a Europa.   Thomás Zicman de Barros, analista político Pedro Sánchez é o primeiro-ministro espanhol – ou, mais precisamente, presidente do Conselho de Ministros – e hoje um dos poucos líderes de esquerda da União Europeia. Nessa posição, acabou comprando briga com muitos governos de direita do continente. No início deste ano, a Espanha lançou uma ampla regularização de imigrantes que já viviam no país, em muitos casos trabalhando e contribuindo para a economia, mas sem os papéis em dia. A decisão causou alvoroço numa Europa governada majoritariamente pela direita e onde ideias antes associadas à extrema direita estão cada vez mais normalizadas. Esse contraste ficou particularmente evidente numa pretensa crise migratória ocorrida há duas semanas em Ceuta, no norte da África. Ceuta é um pequeno território espanhol na costa marroquina, reivindicado pelo Marrocos. Volta e meia, a região vive tensões relacionadas à migração, com pessoas tentando atravessar a fronteira para chegar ao território espanhol. No fim de julho, porém, o episódio tomou uma dimensão extraordinária: mais de 70 mil pessoas entraram em Ceuta em pouco tempo, muitas delas influenciadas por rumores divulgados nas redes sociais de que a fronteira estaria aberta. Dezenas morreram durante a travessia. Para uma cidade de cerca de 80 mil habitantes, evidentemente houve uma crise local e humanitária. Mas a extrema direita espanhola e europeia rapidamente apresentou outra história: a Europa estaria sendo “invadida”. O Vox atacou Sánchez e associou as chegadas à sua política migratória. Fora da Espanha, o medo propagado era de que essas pessoas chegassem à Espanha continental e, graças à livre circulação do espaço Schengen, seguissem para outros países europeus. Passado eurocético Aqui vale uma pequena digressão. Até dez ou quinze anos atrás, boa parte da extrema direita era profundamente eurocética. Marine Le Pen defendia a saída francesa do euro e vários partidos flertavam com a possibilidade de retirar seus países da União Europeia. Depois do Brexit, essa estratégia perdeu força. Em vez de sair da União, a extrema direita passou a tentar conquistá-la por dentro, defendendo uma Europa entendida como uma comunidade civilizacional, frequentemente associada à identidade ocidental, branca e cristã, e à necessidade de protegê-la da imigração. Nesse processo, esses partidos aprenderam também a conviver com a livre circulação dentro da Europa, que continua muito popular. Não é fácil fazer campanha contra a possibilidade de um francês passar férias na Espanha ou de um italiano estudar e trabalhar em outro país sem enfrentar controles fronteiriços. Ceuta ofereceu uma oportunidade para colocar novamente essa liberdade em questão. O governo de Giorgia Meloni restabeleceu controles sobre viajantes provenientes da Espanha, alegando o risco de movimentos secundários de migrantes. Outros governos também pressionaram Madri a endurecer sua política migratória. Controles específicos O problema é que a premissa dessa reação era falsa. Ceuta é território espanhol, mas não oferece passagem automática para o continente europeu. A circulação entre Ceuta e a Espanha continental está sujeita a controles específicos. E, nos dias seguintes à entrada em massa, quase todos os migrantes retornaram ao Marrocos. O governo espanhol informou que ninguém daquela onda havia chegado à Península. Não é sequer a primeira vez que algo semelhante acontece. Em 2021, durante uma crise diplomática entre Espanha e Marrocos, milhares de pessoas entraram repentinamente em Ceuta depois de um relaxamento dos controles marroquinos. A enorme maioria também acabou retornando. Houve, portanto, uma emergência real em Ceuta, mas não a onda migratória continental anunciada pela extrema direita. A crise foi instrumentalizada para atacar Sánchez e uma política espanhola que contraria o consenso cada vez mais restritivo sobre imigração no restante da Europa.  O episódio mostra também como mudou a extrema direita europeia. Ela já não precisa defender a saída da União Europeia para colocar em questão algumas de suas principais conquistas. Diante de uma crise localizada na fronteira africana da Espanha, reapareceram controles dentro da própria Europa, apesar de a suposta onda migratória não ter saído de Ceuta. A Espanha de Sánchez tem tentado resistir a esse consenso cada vez mais conservador que domina o debate político europeu. Mas Ceuta mostrou que essa disputa será difícil. Hoje, Madri aparece cada vez mais isolada diante de um continente que sofre, sim, uma invasão – não de imigrantes, mas de ideias de extrema direita.

  8. Aug 3

    Eleições brasileiras estão na mira da extrema direita global

    A presença de Xavier Milei em evento bolsonarista, os insultos repetidos do presidente argentino a Lula e novos ataques de Washington ao presidente brasileiro mostram que o risco de ingerência estrangeira na eleição presidencial de 2026 é real. Thomás Zicman de Barros, analista político Esta é uma crônica de política internacional. Como tal, evito falar muito sobre política brasileira. Mas, às vezes, a política internacional invade a atualidade nacional. Falo de “invasão” aqui num sentido metafórico, mas não sem motivo: com a proximidade da eleição presidencial de 2026, aumenta a preocupação com possíveis ingerências estrangeiras na política nacional. Não se trata, por sinal, de uma paranoia exclusivamente brasileira: em diversas democracias, inclusive na Europa, são cada vez mais frequentes as acusações de interferências externas em eleições. Apesar de guardar inequívoca base militante, o bolsonarismo vive um momento de fraqueza no Brasil. Jair Bolsonaro está preso por tentativa de golpe de Estado, e impedido de se comunicar diretamente.  Seu filho-candidato Flávio, que até poucos meses atrás aparecia à frente de Lula em certas pesquisas, entrou num inferno astral, envolvido em trapalhadas com Daniel Vorcaro e em conflitos político-familiares com a madrasta Michelle. Partidos de direita que prometiam compor sua coligação parecem preferir a neutralidade. Sem força suficiente no plano interno, o bolsonarismo parece depender cada vez mais de agentes externos para recuperar o fôlego. A presença de Javier Milei, presidente da Argentina, na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro foi interpretada por muitos como um sinal de que a internacional da extrema direita – ou, se preferirmos, uma internacional reacionária – poderá atuar no país. Milei seria, nessa leitura, um emissário de Donald Trump e de sua administração. Se ainda não há como demonstrar essa conexão direta entre a Casa Branca e a Casa Rosada, há poucos motivos para duvidar de que Washington passou a acompanhar as eleições brasileiras com atenção. Da cordialidade aparente ao apoio à oposição Até poucos meses atrás, Trump parecia cultivar uma relação cordial com Lula. Elogiou o presidente brasileiro na Assembleia Geral da ONU e voltou a fazê-lo em encontros posteriores, em Kuala Lumpur e em Washington. O tom da administração americana, contudo, parece ter mudado. O governo Trump não é um todo monolítico. O principal articulador de uma política de apoio a movimentos de extrema direita na América Latina parece ser o secretário de Estado, Marco Rubio, político ultraconservador da Flórida e filho de imigrantes cubanos anticastristas. Foi Rubio quem assinou declarações atacando Lula, responsabilizando-o pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e respaldando críticas ao Judiciário brasileiro. Soma-se a isso o temor de que Washington recorra a outros expedientes para influenciar a política nacional, como a disseminação de desinformação e o impulsionamento de conteúdos em plataformas digitais. Não por acaso, na semana passada o Itamaraty negou visto a agentes do Departamento de Estado americano, sob a suspeita de que viriam ao Brasil para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral. Vale notar que, em diversas ocasiões, as declarações de Trump mais atrapalharam do que ajudaram seus aliados. No Canadá, por exemplo, a hostilidade do presidente americano – que chegou a defender a anexação do país vizinho – contribuiu para a permanência da esquerda no poder, ao associar a oposição conservadora a um adversário externo. Nos últimos meses, entretanto, Washington parece ter sido mais eficiente em suas ingerências. Na Argentina, o próprio Milei só não sofreu uma derrota expressiva nas eleições legislativas do fim do ano passado – sobre as quais escrevi aqui – graças a empréstimos bilionários e à promessa de novas linhas de crédito abertas pelos Estados Unidos. Mais recentemente, na Colômbia, o presidente-eleito Abelardo de la Espriella disparou nas pesquisas depois de receber manifestações públicas de simpatia de Trump. Some-se a isso a vitória, no tira-teima, da ultraconservadora Keiko Fujimori no Peru, a eleição de José Antonio Kast no Chile, e a tutela exercida sobre a Venezuela após o rapto de Nicolás Maduro em janeiro. Brasil: joia da coroa Nesse contexto, o Brasil parece, ao lado do pequeno Uruguai, constituir o último grande baluarte da esquerda – e, digo mais, da democracia – na América do Sul. E não se trata de um bastião qualquer. Sozinho, o Brasil representa mais da metade da população e da economia da região. Trata-se, sem dúvida, da mais cobiçada joia da coroa. Até agora, o saldo da ajuda de Trump ao clã Bolsonaro parece ser negativo. Ao se associarem ao tarifaço – comemorado por Eduardo Bolsonaro –, eles deram a Lula a deixa que precisava para defender a soberania nacional. Mas, num mundo marcado por acusações de ingerências estrangeiras em eleições, não se deve baixar a guarda.

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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

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