O Mundo Agora

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

  1. 3d ago

    Extrema direita europeia usa crise em Ceuta para atacar Sánchez e espalhar medo de 'invasão migratória'

    Ao regularizar imigrantes que já viviam no país, a Espanha contrariou a guinada conservadora do continente. A extrema direita aproveitou a crise de Ceuta para transformar essa diferença numa suposta ameaça para toda a Europa.   Thomás Zicman de Barros, analista político Pedro Sánchez é o primeiro-ministro espanhol – ou, mais precisamente, presidente do Conselho de Ministros – e hoje um dos poucos líderes de esquerda da União Europeia. Nessa posição, acabou comprando briga com muitos governos de direita do continente. No início deste ano, a Espanha lançou uma ampla regularização de imigrantes que já viviam no país, em muitos casos trabalhando e contribuindo para a economia, mas sem os papéis em dia. A decisão causou alvoroço numa Europa governada majoritariamente pela direita e onde ideias antes associadas à extrema direita estão cada vez mais normalizadas. Esse contraste ficou particularmente evidente numa pretensa crise migratória ocorrida há duas semanas em Ceuta, no norte da África. Ceuta é um pequeno território espanhol na costa marroquina, reivindicado pelo Marrocos. Volta e meia, a região vive tensões relacionadas à migração, com pessoas tentando atravessar a fronteira para chegar ao território espanhol. No fim de julho, porém, o episódio tomou uma dimensão extraordinária: mais de 70 mil pessoas entraram em Ceuta em pouco tempo, muitas delas influenciadas por rumores divulgados nas redes sociais de que a fronteira estaria aberta. Dezenas morreram durante a travessia. Para uma cidade de cerca de 80 mil habitantes, evidentemente houve uma crise local e humanitária. Mas a extrema direita espanhola e europeia rapidamente apresentou outra história: a Europa estaria sendo “invadida”. O Vox atacou Sánchez e associou as chegadas à sua política migratória. Fora da Espanha, o medo propagado era de que essas pessoas chegassem à Espanha continental e, graças à livre circulação do espaço Schengen, seguissem para outros países europeus. Passado eurocético Aqui vale uma pequena digressão. Até dez ou quinze anos atrás, boa parte da extrema direita era profundamente eurocética. Marine Le Pen defendia a saída francesa do euro e vários partidos flertavam com a possibilidade de retirar seus países da União Europeia. Depois do Brexit, essa estratégia perdeu força. Em vez de sair da União, a extrema direita passou a tentar conquistá-la por dentro, defendendo uma Europa entendida como uma comunidade civilizacional, frequentemente associada à identidade ocidental, branca e cristã, e à necessidade de protegê-la da imigração. Nesse processo, esses partidos aprenderam também a conviver com a livre circulação dentro da Europa, que continua muito popular. Não é fácil fazer campanha contra a possibilidade de um francês passar férias na Espanha ou de um italiano estudar e trabalhar em outro país sem enfrentar controles fronteiriços. Ceuta ofereceu uma oportunidade para colocar novamente essa liberdade em questão. O governo de Giorgia Meloni restabeleceu controles sobre viajantes provenientes da Espanha, alegando o risco de movimentos secundários de migrantes. Outros governos também pressionaram Madri a endurecer sua política migratória. Controles específicos O problema é que a premissa dessa reação era falsa. Ceuta é território espanhol, mas não oferece passagem automática para o continente europeu. A circulação entre Ceuta e a Espanha continental está sujeita a controles específicos. E, nos dias seguintes à entrada em massa, quase todos os migrantes retornaram ao Marrocos. O governo espanhol informou que ninguém daquela onda havia chegado à Península. Não é sequer a primeira vez que algo semelhante acontece. Em 2021, durante uma crise diplomática entre Espanha e Marrocos, milhares de pessoas entraram repentinamente em Ceuta depois de um relaxamento dos controles marroquinos. A enorme maioria também acabou retornando. Houve, portanto, uma emergência real em Ceuta, mas não a onda migratória continental anunciada pela extrema direita. A crise foi instrumentalizada para atacar Sánchez e uma política espanhola que contraria o consenso cada vez mais restritivo sobre imigração no restante da Europa.  O episódio mostra também como mudou a extrema direita europeia. Ela já não precisa defender a saída da União Europeia para colocar em questão algumas de suas principais conquistas. Diante de uma crise localizada na fronteira africana da Espanha, reapareceram controles dentro da própria Europa, apesar de a suposta onda migratória não ter saído de Ceuta. A Espanha de Sánchez tem tentado resistir a esse consenso cada vez mais conservador que domina o debate político europeu. Mas Ceuta mostrou que essa disputa será difícil. Hoje, Madri aparece cada vez mais isolada diante de um continente que sofre, sim, uma invasão – não de imigrantes, mas de ideias de extrema direita.

  2. Aug 3

    Eleições brasileiras estão na mira da extrema direita global

    A presença de Xavier Milei em evento bolsonarista, os insultos repetidos do presidente argentino a Lula e novos ataques de Washington ao presidente brasileiro mostram que o risco de ingerência estrangeira na eleição presidencial de 2026 é real. Thomás Zicman de Barros, analista político Esta é uma crônica de política internacional. Como tal, evito falar muito sobre política brasileira. Mas, às vezes, a política internacional invade a atualidade nacional. Falo de “invasão” aqui num sentido metafórico, mas não sem motivo: com a proximidade da eleição presidencial de 2026, aumenta a preocupação com possíveis ingerências estrangeiras na política nacional. Não se trata, por sinal, de uma paranoia exclusivamente brasileira: em diversas democracias, inclusive na Europa, são cada vez mais frequentes as acusações de interferências externas em eleições. Apesar de guardar inequívoca base militante, o bolsonarismo vive um momento de fraqueza no Brasil. Jair Bolsonaro está preso por tentativa de golpe de Estado, e impedido de se comunicar diretamente.  Seu filho-candidato Flávio, que até poucos meses atrás aparecia à frente de Lula em certas pesquisas, entrou num inferno astral, envolvido em trapalhadas com Daniel Vorcaro e em conflitos político-familiares com a madrasta Michelle. Partidos de direita que prometiam compor sua coligação parecem preferir a neutralidade. Sem força suficiente no plano interno, o bolsonarismo parece depender cada vez mais de agentes externos para recuperar o fôlego. A presença de Javier Milei, presidente da Argentina, na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro foi interpretada por muitos como um sinal de que a internacional da extrema direita – ou, se preferirmos, uma internacional reacionária – poderá atuar no país. Milei seria, nessa leitura, um emissário de Donald Trump e de sua administração. Se ainda não há como demonstrar essa conexão direta entre a Casa Branca e a Casa Rosada, há poucos motivos para duvidar de que Washington passou a acompanhar as eleições brasileiras com atenção. Da cordialidade aparente ao apoio à oposição Até poucos meses atrás, Trump parecia cultivar uma relação cordial com Lula. Elogiou o presidente brasileiro na Assembleia Geral da ONU e voltou a fazê-lo em encontros posteriores, em Kuala Lumpur e em Washington. O tom da administração americana, contudo, parece ter mudado. O governo Trump não é um todo monolítico. O principal articulador de uma política de apoio a movimentos de extrema direita na América Latina parece ser o secretário de Estado, Marco Rubio, político ultraconservador da Flórida e filho de imigrantes cubanos anticastristas. Foi Rubio quem assinou declarações atacando Lula, responsabilizando-o pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e respaldando críticas ao Judiciário brasileiro. Soma-se a isso o temor de que Washington recorra a outros expedientes para influenciar a política nacional, como a disseminação de desinformação e o impulsionamento de conteúdos em plataformas digitais. Não por acaso, na semana passada o Itamaraty negou visto a agentes do Departamento de Estado americano, sob a suspeita de que viriam ao Brasil para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral. Vale notar que, em diversas ocasiões, as declarações de Trump mais atrapalharam do que ajudaram seus aliados. No Canadá, por exemplo, a hostilidade do presidente americano – que chegou a defender a anexação do país vizinho – contribuiu para a permanência da esquerda no poder, ao associar a oposição conservadora a um adversário externo. Nos últimos meses, entretanto, Washington parece ter sido mais eficiente em suas ingerências. Na Argentina, o próprio Milei só não sofreu uma derrota expressiva nas eleições legislativas do fim do ano passado – sobre as quais escrevi aqui – graças a empréstimos bilionários e à promessa de novas linhas de crédito abertas pelos Estados Unidos. Mais recentemente, na Colômbia, o presidente-eleito Abelardo de la Espriella disparou nas pesquisas depois de receber manifestações públicas de simpatia de Trump. Some-se a isso a vitória, no tira-teima, da ultraconservadora Keiko Fujimori no Peru, a eleição de José Antonio Kast no Chile, e a tutela exercida sobre a Venezuela após o rapto de Nicolás Maduro em janeiro. Brasil: joia da coroa Nesse contexto, o Brasil parece, ao lado do pequeno Uruguai, constituir o último grande baluarte da esquerda – e, digo mais, da democracia – na América do Sul. E não se trata de um bastião qualquer. Sozinho, o Brasil representa mais da metade da população e da economia da região. Trata-se, sem dúvida, da mais cobiçada joia da coroa. Até agora, o saldo da ajuda de Trump ao clã Bolsonaro parece ser negativo. Ao se associarem ao tarifaço – comemorado por Eduardo Bolsonaro –, eles deram a Lula a deixa que precisava para defender a soberania nacional. Mas, num mundo marcado por acusações de ingerências estrangeiras em eleições, não se deve baixar a guarda.

  3. Jul 27

    A linha chinesa que vale mais que uma guerra tarifária

    Enquanto Brasília e Washington encenam a guerra visível das tarifas, uma disputa muito mais silenciosa, e muito mais duradoura, foi decidida em 24 de junho. Naquele dia, a State Grid Corporation of China (SGCC) enfiou a primeira máquina no chão da maior concessão de transmissão da história do Brasil. Mil quatrocentos e sessenta e oito quilômetros de ultra-alta tensão, cortando Maranhão, Tocantins, Goiás e Minas Gerais. Cerca de R$ 20 bilhões. Trinta anos de concessão. Thiago de Aragão, analista político A tarifa de 25% que o United States Trade Representative (USTR) acaba de finalizar contra o Brasil ocupa manchete, mobiliza o Itamaraty, entra na campanha eleitoral. É reversível por natureza, sujeita a negociação, a troca de governo, a decisão judicial, exatamente como foi a tarifa anterior, derrubada pela Suprema Corte americana em fevereiro. Ninguém, no entanto, aguarda o próximo ciclo eleitoral para revogar uma linha de 800 quilovolts fincada no cerrado. Washington briga por fluxo. Pequim, por concreto armado que dura três décadas de concessão e provavelmente muito mais. Alugar e ser dono não é a mesma coisa, e essa é a diferença aqui. A jogada chinesa é elegante porque resolve um problema real. O Nordeste brasileiro virou potência eólica e solar, mas essa energia não tinha como chegar ao Sudeste industrial. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projeta que o desperdício por falta de escoamento, o curtailment, pode encostar em 40 gigawatts por ano até 2030. Em 2025, esse desperdício já custou cerca de US$ 370 milhões. A State Grid não impõe um projeto ao Brasil. Ela preenche um vazio que o próprio Estado brasileiro se recusou a preencher. Por isso é difícil criticar a operação sem parecer que se critica a transição energética. A empresa leu o terreno melhor que muitos analistas em Washington. Não chegou com bandeira, chegou com engenharia. Antecipou a entrega de 2030 para março de 2028, prometeu 30 mil empregos, desviou o traçado do Parque Estadual do Jalapão, anunciou reflorestamento compensatório. Cada gesto reduz superfície de ataque político. Quando a infraestrutura entrega luz à região de Brasília e emprego a quatro estados, contestá-la sai caro para qualquer governo, seja de Lula ou de quem vier depois. Leia tambémEstatal chinesa compra gigante brasileira de eletricidade CPFL por R$ 14 bilhões Soberania comercial E é aqui que o debate sobre soberania comercial não alcança. A State Grid já opera mais de 16 mil quilômetros de linha no Brasil e detém 24 concessões de transmissão. Esta é a terceira linha de ultra-alta tensão que a estatal chinesa constrói no país, depois das duas fases de Belo Monte. Peça por peça, uma empresa de Estado estrangeira está se tornando dona da espinha dorsal física do sistema elétrico brasileiro. A geração muda de mão a cada leilão, todo mundo sabe. A coluna vertebral que carrega tudo é outra história, e essa a State Grid está pavimentando com nome próprio. Vale olhar para trás para entender do que se trata. Em 1896, o Império Russo assinou com a dinastia Qing uma concessão de oitenta anos para construir e operar a Ferrovia Oriental Chinesa, atravessando a Manchúria. O regime russo caiu em 1917. Veio a guerra civil. Veio a União Soviética, teoricamente anti-imperialista, que ficou com o ativo. Veio a invasão japonesa da Manchúria em 1931. E a linha férrea continuou sendo administrada, disputada, cobiçada, até ser vendida por Moscou ao regime de Manchukuo em 1935, por 140 milhões de ienes. Trilho posto no chão sobreviveu a três impérios e a duas ideologias opostas. Quem constrói infraestrutura fixa numa jurisdição alheia compra tempo político que diplomacia nenhuma compra. Lógica chinesa É essa a lógica do capital estatal chinês, e ela é paciente por desenho. Washington raciocina em ciclos de mandato e em instrumentos que expiram no mandato seguinte. Pequim raciocina em concessões de trinta anos, projetadas para atravessar quatro presidentes brasileiros e provavelmente dois secretários-gerais do próprio Partido Comunista Chinês. Enquanto a tarifa americana pressiona a exportação da próxima safra, a linha chinesa vai condicionar por uma geração inteira como e por onde a eletricidade circula no país. Há um risco embutido, e o Brasil precisa nomeá-lo agora, antes da energização, não depois. Quando um único operador estrangeiro controla parte crítica da transmissão, o país troca um gargalo técnico por uma dependência estratégica. Não é uma questão de má-fé chinesa. É uma questão de concentração. Ativo que ninguém desliga é, por definição, ativo do qual ninguém se livra sem custo enorme. O Brasil ganhou a linha de que precisava. A pergunta que sobra, para depois de outubro de 2026, quando o barulho das tarifas tiver passado, é quem, de fato, ficou com a chave da tomada.

  4. Jul 20

    Espanha e Argentina recolocam o racismo no centro do debate no futebol

    Entre Espanha e Argentina, o futebol mostrou, mais uma vez, que nunca se separa da política. As acusações de racismo contra os dois países não devem deixar esquecer que o esporte deve ser também um espaço de resistência. Thomás Zicman de Barros, analista político Apesar de só ter marcado no final da prorrogação, não há dúvida de que a Espanha dominou a final da Copa do Mundo contra a Argentina. Muita gente no Brasil comemorou a derrota dos nossos vizinhos. Para além da rivalidade e do futebol ruim apresentado pela alviceleste, muitos justificavam a torcida por motivos políticos. Como disse antes mesmo do início do torneio, política e futebol são inseparáveis. Para alguns, torcer pela Argentina significaria legitimar o racismo que marca o país. Houve até quem transformasse essa escolha numa forma conveniente de expiar o racismo brasileiro, apontando o dedo para os outros. A Argentina convive, sim, com um grave problema de racismo. Os episódios se repetem nas arquibancadas, nas redes sociais e, por vezes, entre os próprios jogadores. O silêncio de muitos de seus principais atletas diante desse fenômeno também é eloquente. Como se diz hoje, não basta não ser racista: é preciso ser antirracista. Neste aspecto, porém, a Espanha também leva cartão vermelho. Trata-se do país onde Vini Jr. foi alvo de uma escancarada campanha racista, que no entanto tentaram apagar. Até mesmo Javier Tebas, presidente da La Liga, em vez de enfrentar o racismo que se abatia contra o jogador, insinuou que era Vinicius que provocava as torcidas. Fenômeno atravessa séculos O racismo espanhol e argentino vem de longa data. A Espanha foi uma das grandes potências coloniais da era moderna. Ainda que tenha perdido esse protagonismo ao longo do século XX, enfrentando décadas de decadência, conservou por muito tempo uma imagem de si mesma como centro civilizador. A Argentina percorreu uma história diferente, mas chegou a um lugar parecido. Desde o século XIX, parte das elites de Buenos Aires procurou apresentar o país como uma espécie de Europa transplantada para a América do Sul. Domingo Faustino Sarmiento, intelectual que viria a ser presidente do país, resumiu esse projeto na fórmula que atravessou gerações: "civilização ou barbárie". A civilização era a Europa. A barbárie eram os povos indígenas, os mestiços, os gaúchos, todos aqueles que não cabiam no ideal de uma nação branca e europeia. Mas há algo curioso nessa frase. Se Sarmiento precisou opor civilização e barbárie é porque a chamada “barbárie” não branca existia e resistia. E isso vale para os dois finalistas desta Copa do Mundo. A Espanha nunca foi apenas Madri. É, na prática, uma comunidade plurinacional, onde catalães, bascos, galegos e tantos outros disputam há séculos diferentes maneiras de entender o próprio país. Foi também nessas periferias que se organizaram algumas das resistências mais duradouras ao franquismo. E a Espanha do século XXI tampouco é a Espanha sonhada pelos nacionalistas. É um país profundamente transformado pela imigração. Basta olhar para Lamine Yamal, prodígio da seleção espanhola, para perceber isso. Ele é o filho de imigrantes que mostra que a Espanha real é muito mais diversa do que o imaginário construído pelos supremacistas. Algo parecido se vê na Argentina. Por trás da fantasia de uma nação exclusivamente europeia sempre existiu outro país: indígena, mestiço, popular. A Argentina dos chamados cabecitas negras, mobilizados pelo peronismo contra as elites portenhas. Uma Argentina que nunca aceitou desaparecer. Maradona: a Argentina que resiste Maradona talvez tenha sido seu símbolo mais poderoso. Reivindicava sua origem guarani, fazia questão de afirmar sua identidade latino-americana, abraçava causas anti-imperialistas quando isso podia custar muito caro. Era, talvez sem o dizer, a revanche daquela Argentina que Sarmiento havia chamado de “barbárie”. É curioso notar que os jogadores argentinos de hoje, tão omissos quando o assunto é racismo, tenham encontrado tanta convicção para defender a soberania argentina sobre as Malvinas. Depois da vitória sobre a Inglaterra, exibiram uma faixa reafirmando a reivindicação do arquipélago. O gesto lembrava algo que Hannah Arendt observou ao analisar o imperialismo moderno: as hierarquias raciais e a lógica imperial nasceram da mesma visão de mundo. Não é possível combater uma e ignorar completamente a outra. Nada disso transforma a Argentina em exemplo de antirracismo. Nem absolve a Espanha de sua dificuldade em enfrentar o preconceito arraigado. Agora, se política e futebol são inseparáveis, é preciso celebrar os momentos de resistência. O futebol continuará sendo um campo de disputa. Que seja também um espaço de luta antirracista.

  5. Jul 13

    Copa de 2026 revela que a América do Norte deixou de funcionar como bloco previsível

    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na Fifa planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio está sendo disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado. Thiago de Aragão, da RFI O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática. Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um território contínuo. A premissa do megaevento é a integração, e é precisamente essa premissa que a política comercial e migratória do principal anfitrião vem relativizando ao longo do último ano, à medida que tarifas e controles de fronteira reentram no vocabulário das relações regionais. A dimensão histórica torna o contraste ainda mais interessante, e poucos se lembram dela. Em 11 de março de 1983, quando a Colômbia desistiu de sediar a Copa de 1986 alegando dificuldades financeiras, foram exatamente três países que se apresentaram para assumir a vaga: México, Estados Unidos e Canadá, com o México escolhido em 20 de maio daquele ano.  Grau de confiabilidade Os mesmos três protagonistas que em 1983 competiam entre si por um torneio dividem agora a organização de outro, o que sugere que a vizinhança norte-americana é uma constante de longa duração, enquanto o que efetivamente oscila, de uma década para outra, é o grau de confiança e de previsibilidade que sustenta a cooperação entre eles. O quadro atual ilustra bem essa oscilação. Ao longo do último ano, as travessias terrestres entre os três países passaram a operar com triagem biométrica e tecnologia de comparação facial funcionando no limite da capacidade nos principais portos de entrada, o que revela um anfitrião que, no mesmo gesto, abre as portas para o maior espetáculo esportivo do planeta e reforça o escrutínio sobre quem circula dentro dele. A leitura analítica que interessa não é moral, e sim estrutural: o evento exige fluidez, ao passo que a política regional caminha na direção do filtro, e essa divergência entre o que o calendário esportivo pede e o que a agenda econômica oferece é o dado central a observar. A contradição que merece ser nomeada, porque é dela que decorre tudo o mais, está na própria natureza do tratado que une os anfitriões. O acordo nasceu para permitir que mercadorias e pessoas circulassem com o mínimo de fricção, e a revisão tarifária em curso opera em sentido contrário a essa vocação original, de modo que a Copa, ao exigir circulação intensa entre as três jurisdições, acaba expondo na prática a distância entre o discurso da integração e a realidade da fragmentação. Os três países demonstram que conseguem coordenar a logística do maior evento esportivo do mundo, e demonstram, simultaneamente, que coordenar a manutenção do tratado que deveria uni-los é tarefa de outra ordem de dificuldade. Para o México, a posição é particularmente delicada, na medida em que o país é coanfitrião e, ao mesmo tempo, o alvo mais direto tanto da pressão tarifária quanto do endurecimento da retórica de fronteira, o que produz a imagem de uma nação que recebe jogos em três de suas cidades enquanto vê seus cidadãos submetidos a controles reforçados para assistir às partidas do outro lado da linha.  Para o Canadá, o desconforto é menos visível, porém igualmente concreto, já que Toronto e Vancouver sediam jogos ao mesmo tempo em que Ottawa absorve tarifas e processa uma retórica de Washington que oscila entre a parceria e a rivalidade, convivendo com a tarefa de organizar em conjunto um torneio com o vizinho de quem depende e do qual, ao mesmo tempo, busca se proteger. É nesse ponto que a análise interessa diretamente a quem investe e observa a região de fora, e é também onde o Brasil entra. O que a Copa de 2026 revela, para o capital, é que a América do Norte deixou de funcionar como o bloco previsível que o investidor leu durante três décadas, aquele espaço econômico integrado de regras estáveis, cadeia produtiva costurada e fronteira funcional, e passou a operar sob uma camada de aparente continuidade institucional que esconde uma dinâmica real de desconfiança, tarifa e controle.  A diferença é decisiva para quem aloca recursos, porque um bloco genuinamente integrado se planeja com horizonte de uma década, enquanto um bloco que oscila entre cooperação e atrito precisa ser navegado trimestre a trimestre, com prêmios de risco e horizontes de decisão inteiramente distintos. Daí a lição que o Brasil pode extrair, e que tem valor estratégico evidente. O país que aposta na previsibilidade da relação com os Estados Unidos, seja em comércio, em minerais críticos ou em cooperação de segurança, precisa incorporar à sua análise o fato de que mesmo os sócios formais do USMCA, vinculados por um tratado em vigor, estão sujeitos a revisões tarifárias e a controles de fronteira mais rígidos a depender do ciclo político de Washington.  Se a estabilidade da regra oscila até para quem assinou o acordo, é razoável que o Brasil, que sequer dispõe de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, calibre suas expectativas e trate qualquer entendimento bilateral como uma variável sensível ao calendário político americano, e não como um dado permanente sobre o qual se possa planejar a longo prazo. Mensagem geopolítica  Essa é, no fundo, a mensagem geopolítica que a Copa de 2026 oferece a quem souber ler além do placar. A integração regional ganhou um caráter mais cerimonial do que estrutural, o tratado funciona hoje tanto como moldura simbólica quanto como instrumento operante, e o país que organiza o evento mais universal do mundo o faz num momento em que a previsibilidade das próprias regras regionais se tornou ela mesma objeto de negociação.  A imagem que fica não exige estádio para ser compreendida, porque três países se uniram para sediar a maior Copa da história sobre o mapa de um tratado que atravessa sua revisão mais incerta, e o desafio analítico, para o Brasil e para qualquer observador externo, está em medir qual das duas forças prevalece no médio prazo, a que pede a fronteira aberta do torneio ou a que reintroduz o filtro, porque é dessa medida que dependerá tanto o rumo da América do Norte quanto o peso real que se deve atribuir às promessas que dela vierem.

  6. Jul 6

    O falso dilema da 'escolha difícil' na eleição presidencial francesa de 2027

    Um possível duelo entre extrema-direita e esquerda radical nas eleições de 2027 reacende o debate sobre normalização do lepenismo e falsas equivalências. Thomás Zicman de Barros, analista político Falta menos de um ano para a eleição presidencial francesa de 2027, e o tema ocupa cada vez mais o noticiário do país. O curioso é que, apesar disso, ninguém sabe ainda exatamente quem serão os principais candidatos. Nesse mar de incertezas, uma hipótese aparece cada vez mais nas conversas políticas: um segundo turno entre o Rassemblement National (Reunião Nacional), partido de extrema direita de Marine Le Pen, e Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical francesa. A primeira grande incógnita está justamente na extrema direita. Nesta terça-feira, 7 de julho, Marine Le Pen aguarda uma decisão da Justiça que pode definir se ela poderá disputar a presidência pela quarta vez. Acusada de desvio de recursos públicos no caso dos assistentes parlamentares fantasma no Parlamento Europeu, ela foi condenada à inelegibilidade em primeira instância e corre o risco de ver a sentença confirmada. Essa incerteza, porém, é apenas parcial. Um possível impedimento de Le Pen não reduziria necessariamente a força do seu partido nem seu favoritismo para chegar ao segundo turno. A própria Le Pen já indicou que, se ficar fora da disputa, será substituída por Jordan Bardella, o jovem presidente do partido. É verdade que, apesar de carismático e popular nas redes sociais, Bardella tem menos experiência e robustez política do que Le Pen, há quem diga que, se fosse eleito presidente, Marine seria sua “tutora”. Mas o fato é que nunca antes a extrema direita francesa começou uma corrida presidencial tão forte nas pesquisas, independentemente do candidato. A questão é que outro político que tem aparecido bem nas sondagens surge justamente do lado oposto do espectro político: Jean-Luc Mélenchon. O líder da esquerda dita "radical" já aparece em condições de disputar uma vaga no segundo turno – uma hipótese reforçada pelo fato de que, historicamente, suas candidaturas acabaram sendo subestimadas pelas pesquisas. Esquerda dividida O resto da esquerda francesa continua dividida. Socialistas, ecologistas e comunistas discutem alternativas. Muitos gostariam de superar Mélenchon. Mas, hoje, ele é o único candidato claramente colocado nesse campo político. Já iniciou sua campanha com um comício reunindo dezenas de milhares de pessoas em Saint-Denis, cidade da periferia de Paris governada por Baly Bagayoko, popular prefeito de seu partido. Mélenchon tem uma militância organizada e um programa definido que tem pautado boa parte do debate à esquerda. Mesmo adversários reconhecem a força de uma campanha até agora sem falhas. Nesse cenário, enquanto o campo macronista tenta encontrar um sucessor – muitas vezes com dificuldade para defender o próprio legado de dez anos de Emmanuel Macron –, cresce a possibilidade que muitos no mainstream dizem temer: uma disputa direta entre a extrema direita e Mélenchon. E começa a surgir na França um discurso que os brasileiros infelizmente conhecem bem: a ideia de que estaríamos diante de uma “escolha muito difícil”. A frase parece apenas expressar uma rejeição aos "extremos". E é verdade que tanto o partido de Le Pen quanto o movimento de Mélenchon se apresentam como “antissistema” e costumam ser classificados como “populistas”. Contudo, a força desse discurso, que constrói uma simetria entre os dois e apresenta a eleição como uma escolha entre polos igualmente perigosos, revela uma transformação preocupante da política francesa. Há dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo. De um lado, o Rassemblement National vive há mais de quinze anos um processo de normalização. Desde que assumiu o partido fundado por seu pai, Marine Le Pen tentou apagar a imagem extremista da antiga Frente Nacional. Mudou o nome, suavizou o discurso e buscou apresentar a extrema direita como uma alternativa comum de governo. Mesmo o antissemitismo histórico do partido foi escondido debaixo do tapete, com a instrumentalização do apoio a Israel. Como já indiquei aqui no passado, essa normalização também acompanha uma transformação do ambiente midiático francês, cada vez mais dominado pelos temas e pelo vocabulário da própria extrema direita, sobretudo em torno da imigração, da identidade nacional e da segurança. Do outro lado, Mélenchon passa pelo movimento inverso: uma crescente demonização. Seu estilo confrontacional, sua estratégia política e algumas de suas posições são criticadas inclusive dentro da esquerda. Mas o problema começa quando essas críticas, e a falsa equivalência que produzem, nos fazem perder de vista o abismo que separa Mélenchon da extrema direita. Falsa equivalência Uma coisa é contestar instituições defendendo mais redistribuição econômica, participação popular e reconhecimento de desigualdades historicamente ignoradas. Outra é construir um projeto político baseado na oposição entre nacionais e estrangeiros e na ideia de que parte da população representa uma ameaça à identidade do país. Aliás, parte do incômodo provocado por Mélenchon vem justamente do fato de ele tocar em temas que a França muitas vezes prefere evitar: desigualdades sociais profundas, discriminações e racismo estrutural. Já a extrema direita responde frequentemente a essas tensões reforçando as próprias divisões que as produzem. A França já foi vista como um exemplo a ser seguido. Quando a extrema direita estava às portas do poder no Brasil, lembrava-se que, nas três vezes em que ela chegou ao segundo turno na França – em 2002, 2017 e 2022 – houve a formação de uma “frente republicana” para barrá-la. Mas há uma diferença importante: nessas três ocasiões, a extrema direita enfrentava candidatos vindos da direita ou do centro, Jacques Chirac em 2002 e Emmanuel Macron nas duas últimas eleições. O que se vê agora é como, quando a alternativa à extrema direita surge da esquerda, sobretudo em um ambiente de normalização de ideias reacionárias, crescem as hesitações, os discursos sobre “escolhas muito difíceis” e até aqueles que defendem que a frente republicana deveria ser feita contra a esquerda – apresentada como o verdadeiro perigo. Ainda faltam vários meses para as eleições francesas, e o espírito resistente deste país ainda pode despertar. Mas, diante da degradação do debate público, temos motivos para nos preocupar.

  7. Jun 29

    Copa 2026 expõe fissuras do tratado comercial entre EUA, México e Canadá

    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na FIFA planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio é disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado. Thiago de Aragão, analista político O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática. Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um território contínuo. A premissa do megaevento é a integração, e é precisamente essa premissa que a política comercial e migratória do principal anfitrião vem relativizando ao longo do último ano, à medida que tarifas e controles de fronteira retornam ao vocabulário das relações regionais. A dimensão histórica torna o contraste ainda mais interessante, e poucos se lembram dela. Em 11 de março de 1983, quando a Colômbia desistiu de sediar a Copa de 1986 alegando dificuldades financeiras, foram exatamente três países que se apresentaram para assumir a vaga: México, Estados Unidos e Canadá, com o México escolhido em 20 de maio daquele ano. Os mesmos três protagonistas que em 1983 competiam entre si por um torneio dividem agora a organização de outro, o que sugere que a vizinhança norte-americana é uma constante de longa duração, enquanto o que efetivamente oscila, de uma década para outra, é o grau de confiança e de previsibilidade que sustenta a cooperação entre eles. O quadro atual ilustra bem essa oscilação. Ao longo do último ano, as travessias terrestres entre os três países passaram a operar com triagem biométrica e tecnologia de comparação facial funcionando no limite da capacidade nos principais portos de entrada, o que revela um anfitrião que, no mesmo gesto, abre as portas para o maior espetáculo esportivo do planeta e reforça o escrutínio sobre quem circula dentro dele. A leitura analítica que interessa não é moral, e sim estrutural: o evento exige fluidez, ao passo que a política regional caminha na direção do filtro, e essa divergência entre o que o calendário esportivo pede e o que a agenda econômica oferece é o dado central a observar. Vocação original comprometida A contradição que merece ser nomeada, porque é dela que decorre tudo o mais, está na própria natureza do tratado que une os anfitriões. O acordo nasceu para permitir que mercadorias e pessoas circulassem com o mínimo de fricção, e a revisão tarifária em curso opera em sentido contrário a essa vocação original, de modo que a Copa, ao exigir circulação intensa entre as três jurisdições, acaba expondo na prática a distância entre o discurso da integração e a realidade da fragmentação. Os três países demonstram que conseguem coordenar a logística do maior evento esportivo do mundo, e demonstram, simultaneamente, que coordenar a manutenção do tratado que deveria uni-los é tarefa de outra ordem de dificuldade. Para o México, a posição é particularmente delicada, na medida em que o país é coanfitrião e, ao mesmo tempo, o alvo mais direto tanto da pressão tarifária quanto do endurecimento da retórica de fronteira, o que produz a imagem de uma nação que recebe jogos em três de suas cidades enquanto vê seus cidadãos submetidos a controles reforçados para assistir às partidas do outro lado da linha. Para o Canadá, o desconforto é menos visível, porém igualmente concreto, já que Toronto e Vancouver sediam jogos ao mesmo tempo em que Ottawa absorve tarifas e processa uma retórica de Washington que oscila entre a parceria e a rivalidade, convivendo com a tarefa de organizar em conjunto um torneio com o vizinho de quem depende e do qual, ao mesmo tempo, busca se proteger. Controle e desconfiança É nesse ponto que a análise interessa diretamente a quem investe e observa a região de fora, e é também onde o Brasil entra. O que a Copa de 2026 revela, para o capital, é que a América do Norte deixou de funcionar como o bloco previsível que o investidor leu durante três décadas, aquele espaço econômico integrado de regras estáveis, cadeia produtiva costurada e fronteira funcional, e passou a operar sob uma camada de aparente continuidade institucional que esconde uma dinâmica real de desconfiança, tarifa e controle. A diferença é decisiva para quem aloca recursos, porque um bloco genuinamente integrado se planeja com horizonte de uma década, enquanto um bloco que oscila entre cooperação e atrito precisa ser navegado trimestre a trimestre, com prêmios de risco e horizontes de decisão inteiramente distintos. Daí a lição que o Brasil pode extrair, e que tem valor estratégico evidente. O país que aposta na previsibilidade da relação com os Estados Unidos, seja em comércio, em minerais críticos ou em cooperação de segurança, precisa incorporar à sua análise o fato de que mesmo os sócios formais do USMCA, vinculados por um tratado em vigor, estão sujeitos a revisões tarifárias e a controles de fronteira mais rígidos a depender do ciclo político de Washington. Se a estabilidade da regra oscila até para quem assinou o acordo, é razoável que o Brasil, que sequer dispõe de um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, calibre suas expectativas e trate qualquer entendimento bilateral como uma variável sensível ao calendário político americano, e não como um dado permanente sobre o qual se possa planejar a longo prazo. Mudança geopolítica Essa é, no fundo, a mensagem geopolítica que a Copa de 2026 oferece a quem souber ler além do placar. A integração regional ganhou um caráter mais cerimonial do que estrutural, o tratado funciona hoje tanto como moldura simbólica quanto como instrumento operante, e o país que organiza o evento mais universal do mundo o faz num momento em que a previsibilidade das próprias regras regionais se tornou ela mesma objeto de negociação. A imagem que fica não exige estádio para ser compreendida, porque três países se uniram para sediar a maior Copa da história sobre o mapa de um tratado que atravessa sua revisão mais incerta, e o desafio analítico, para o Brasil e para qualquer observador externo, está em medir qual das duas forças prevalece no médio prazo, a que pede a fronteira aberta do torneio ou a que reintroduz o filtro, porque é dessa medida que dependerá tanto o rumo da América do Norte quanto o peso real que se deve atribuir às promessas que dela vierem.

  8. Jun 22

    Como a China trocou a dependência pelo protagonismo estratégico na economia do futuro

    Visto da China, o G7 parecia girar em torno de uma questão: será que as economias mais avançadas do Ocidente podem reduzir sua dependência de Pequim? Thomás Zicman de Barros, analista político Foi-se o tempo em que os carros chineses pareciam feitos de papelão. Em Xangai, a regra são os modernos veículos elétricos que cruzam silenciosamente as avenidas da cidade. Ao mesmo tempo, milhões de pagamentos são feitos por QR Code e trens de alta velocidade ligam metrópoles distantes em poucas horas. O presente chinês parece, de fato, coisa do futuro. Foi dessa China que acompanhei as notícias do G7 – o clube das economias mais avançadas do Ocidente – reunido em Évian, na França. Sim, mesmo estando longe de Paris, onde moro, continuo falando da atualidade francesa. Mas agora a observo pelo olhar chinês. Oficialmente, a China não era o tema central do encontro. Mas ela estava presente em quase todas as conversas. A principal iniciativa econômica anunciada pelos líderes do G7 foi o reforço da cooperação para reduzir dependências em áreas consideradas estratégicas, especialmente os minerais críticos e as chamadas terras raras, indispensáveis para baterias, carros elétricos, semicondutores e equipamentos militares. O comunicado do G7 evitou apontar um alvo. Ainda assim, ninguém teve dúvidas sobre quem estava sendo discutido. A China ocupa uma posição dominante em diversas etapas da cadeia de produção desses materiais. Para a Europa, sobretudo, o equilibro não é fácil: diante da administração errática na Washington de Donald Trump, os europeus observam a China, por um lado, como parceiro mais confiável do que os Estados Unidos, mas com o qual se estabelece cada vez mais uma relação de dependência. Nos últimos meses, restrições impostas por Pequim às exportações de alguns deles aumentaram a preocupação de governos e empresas ocidentais. O objetivo do G7 é simples: reduzir vulnerabilidades e diminuir a dependência em relação à China. Neste imbróglio, a reação de Pequim foi clara. Autoridades chinesas acusaram o G7 de politizar questões econômicas e defenderam seus controles de exportação como uma prática legítima para proteger interesses nacionais. O episódio revela uma inversão histórica interessante Durante décadas, a ascensão chinesa foi interpretada como consequência de sua integração a uma ordem econômica internacional dominada pelo Ocidente. A rigor, se formos mais atrás na história, a China parecia ocupar uma posição subalterna no arranjo das nações desde as Guerras do Ópio, em meados do século XIX, que inauguraram o chamado Século das Humilhações. Derrotas militares, tratados desiguais e intervenções estrangeiras reduziram drasticamente a autonomia do país diante das potências ocidentais. Mesmo nas últimas décadas, a China dependia dos mercados externos, dos investimentos estrangeiros e do acesso às cadeias globais de comércio para sustentar seu desenvolvimento. A ironia é observar, em Évian, o que parece ser uma inversão de papéis. As potências que durante muito tempo moldaram as regras da economia internacional discutem hoje como reduzir sua dependência em relação à China. Pequim não substituiu o Ocidente no comando do mundo, mas conquistou uma posição estratégica em setores considerados essenciais para a economia do futuro. Observando os carros elétricos que cruzam as ruas chinesas, fica difícil não pensar que essa é uma das questões centrais do nosso tempo. Não apenas quem produz mais ou quem cresce mais, mas quem depende de quem.

About

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

More From RFI Brasil

You Might Also Like