Recém-inaugurada no Museu do Luxemburgo, a mostra A linha e a imagem reúne cerca de 150 desenhos de de Andy Warhol e propõe uma nova leitura da trajetória do artista americano, a partir da relação entre gesto, imagem e reprodução. Uma oportunidade única, já que muitos dos desenhos pertencem a coleções particulares e quase nunca foram expostos ao público em geral. Tatiana Ávila, da RFI em Paris É quase inevitável falar em Andy Warhol sem pensar nas serigrafias coloridas de Marilyn Monroe, nas latas de sopa Campbell ou nas garrafas de Coca-Cola. Mas antes de se tornar um dos nomes centrais da Pop Art, Warhol foi ilustrador. E continuou desenhando ao longo de praticamente toda a sua carreira, inclusive nos períodos em que a pintura, o cinema e, mais tarde, a foto-serigrafia ocuparam o centro de sua produção. É essa dimensão menos conhecida de sua obra que está no centro de Andy Warhol. A linha e a imagem, exposição inaugurada em 16 de setembro no Museu do Luxemburgo, em Paris, que permanece em cartaz até 10 de janeiro de 2027. Com cerca de 150 desenhos, além de pinturas, serigrafias sobre papel, fotografias e documentos de arquivo, a mostra percorre a trajetória do artista a partir de um eixo diferente do habitual: o desenho como ponto de partida e matriz de seu pensamento visual. “O título diz muita coisa. A Linha e a Imagem é uma forma de pensar o trabalho do desenho, que é essencialmente contorno”, explica o curador Alain Cueff. Para ele, a simplicidade da linha é fundamental para compreender a estratégia de Warhol. “Há pouquíssimo modelado nos desenhos de Warhol, ou nenhum. Isso significa que um dos temas de Warhol é o empobrecimento da imagem, a ideia de fazer com que a imagem, reduzida aos seus dados essenciais, se torne mais legível e mais persuasiva. No fundo, encontramos o mesmo processo na foto-serigrafia, porque a partir dela ele esvazia a imagem de parte de sua substância para conservar apenas o contorno”, explica. A exposição parte de um primeiro autorretrato, de 1942, e chega aos desenhos em acrílica realizados para sua série sobre A Última Ceia, em 1986, pouco antes de sua morte. No intervalo, aparecem retratos, caricaturas, cenas, ilustrações publicitárias e trabalhos de autopromoção. Reprodução de imagens Warhol encontrou no desenho uma ferramenta de experimentação e, sobretudo, de reprodução. Assim, mais do que uma etapa preliminar da pintura, o desenho já continha uma das questões fundamentais da produção de Warhol: como transformar uma imagem em algo que possa ser reproduzido. “Warhol recebeu uma formação voltada para reproduzir imagens, portanto o valor intrínseco do desenho não é uma preocupação. O que importa para ele é poder reproduzi-lo. A imagem está sempre destinada a outra função. Essa dimensão é fundamental”, destaca o curador Alain Cueff. Uma das técnicas que melhor traduz essa relação é a chamada blotted line, uma espécie de decalque manual produzido a partir da transferência da linha para outra superfície. Desenvolvida e utilizada intensamente por Warhol nos anos 1950, a técnica permitia ao artista produzir imagens que preservavam a aparência do gesto manual, mas que já nasciam orientadas para a multiplicação. Carimbos, estênceis, colagens e, posteriormente, a foto-serigrafia fazem parte desse método. Exposição em cinco etapas A exposição se organiza em cinco núcleos temáticos. O primeiro acompanha os anos iniciais de Warhol como ilustrador publicitário. Os demais abordam a importância da escrita manual, sua fascinação por rostos e máscaras, a iconografia gay que durante muito tempo permaneceu confidencial e a presença da morte em sua obra, uma obsessão que se intensificou depois do atentado de 1968, quando o artista foi baleado e quase morreu. Cueff explica que a escolha da curadoria da mostra também rompe com a organização cronológica tradicional. Ele conta que preferiu colocar trabalhos de momentos diferentes em contato, buscando relações que atravessam décadas. “Eu me afastei da cronologia, portanto é uma retrospectiva um pouco particular, que busca valorizar continuidades temáticas e técnicas, mais do que uma continuidade estritamente temporal.” O resultado é uma exposição que procura apresentar não necessariamente obras desconhecidas, mas trabalhos que raramente são vistos. Parte importante dos desenhos vem de coleções particulares. Há também empréstimos de instituições como o Andy Warhol Museum, em Pittsburgh, cidade natal do artista, e o MoMa, o Museum of Modern Art, de Nova York. “O que me interessava era reunir desenhos um pouco inesperados, pouco vistos, e sobretudo colocá-los em diálogo uns com os outros, criando um contexto que permitisse compreender questões essenciais, inclusive certas contradições que atravessam o trabalho de Warhol e que são muito importantes para ele”, explica Cueff. Entre essas contradições está justamente a relação entre a mão e a máquina. Warhol construiu uma imagem pública associada à produção mecânica, à repetição e à reprodução em escala quase industrial. Ao mesmo tempo, seus desenhos revelam uma relação persistente com o gesto manual. É por isso que Cueff considera o desenho não apenas uma técnica entre outras, mas uma espécie de princípio organizador da produção do artista. “Minha intenção foi considerar o desenho como a matriz do trabalho de Warhol, como o paradigma, de modo que o desenho se manifeste em inúmeras formas, inclusive com vídeo, sombra e luz”, diz. Obras revisitadas Alain Cueff explica que na segunda metade da carreira de Warhol, o desenho ganha ainda outra função. Depois de produzir pinturas, serigrafias e papéis de parede relacionados a imagens como as de Mao Tsé-Tung, o artista volta repetidamente a elas. Reproduz, retoca e modifica as imagens, como se precisasse retornar continuamente ao mesmo motivo. “Warhol passa a retocar imagens tanto no sentido de corrigir, às vezes de forma muito sutil, quanto no sentido tátil de voltar a tocar a imagem, de restabelecer contato com ela.” Para o curador, esse retorno permanente revela uma característica central do artista. “Esse aspecto me interessa particularmente porque revela o espírito obsessivo de Warhol e sua investigação permanente não da verdade, mas da eficácia da imagem.” O desenho também permite compreender como Warhol chegou a algumas das soluções mais radicais de sua pintura. Antes de apresentar uma lata de sopa ou uma garrafa de Coca-Cola isolada, fora de contexto e sem a estetização tradicional da pintura, o artista experimentou diferentes possibilidades no papel. Na exposição, conjuntos de desenhos de garrafas de Coca-Cola e latas de sopa mostram justamente esse momento de investigação. As imagens aparecem inicialmente em composições mais complexas, muitas vezes baseadas em fotografias. Depois, Warhol reduz os elementos até chegar à representação direta do objeto, sem comentário ou ornamento. Para Cueff, é nesse movimento que o desenho deixa de ser apenas um meio de preparar a obra e passa a participar diretamente da invenção de sua linguagem. “Existe essa dimensão experimental do desenho, que o ajuda, acredito, a chegar a soluções muito mais radicais em sua pintura.” A mostra do Museu do Luxemburgo propõe, assim, olhar novamente para um artista cuja obra parece, à primeira vista, conhecida demais. Ao deslocar o foco das imagens mais célebres para a linha, a exposição sugere que por trás da repetição, da reprodução e da aparente impessoalidade de Warhol havia uma investigação contínua sobre como uma imagem nasce, se transforma e se torna capaz de ser reproduzida infinitamente. “O desenho é a base da arte de Warhol”, finaliza Cueff.