Rendez-vous cultural

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

  1. 3d ago

    Museu da História de Paris faz 160 anos com pesquisa jovem e mediação que desafiam narrativa oficial

    O Museu Carnavalet celebra 160 anos em outubro de 2026 com uma programação que projeta o passado como ferramenta de leitura do presente. Criado em 1866, durante as reformas urbanas conduzidas por Haussmann, que redesenharam Paris no século 19, o museu revisita sua missão ao incorporar novas narrativas, pesquisas emergentes e mediações contemporâneas. O aniversário reúne jovens pesquisadores, visitas temáticas, mediações queer, objetos insólitos e experiências oníricas. O Museu Carnavalet, o mais antigo da capital francesa, completa 160 anos em um momento em que Paris volta a ser discutida como objeto histórico e laboratório urbano. A instituição, que nasceu para registrar as transformações do século 19, organiza uma celebração que busca atualizar essa vocação. A programação de outubro de 2026 não pretende apenas marcar uma data, mas reposicionar o museu diante de debates contemporâneos sobre memória, pesquisa e mediação cultural. O aniversário reúne iniciativas que vão da pesquisa acadêmica à experimentação artística, passando por formatos de visita que deslocam o olhar tradicional sobre a cidade. A escolha por atividades gratuitas e de acesso livre reforça a intenção de ampliar o público e diversificar as formas de aproximação com o acervo. O Carnavalet chega a essa comemoração depois de uma década marcada por mudanças estruturais. A renovação concluída em 2021 reorganizou o percurso expositivo, ampliou a acessibilidade e atualizou a narrativa histórica. A celebração dos 160 anos se insere nesse processo de revisão institucional, que busca integrar temas antes periféricos na história oficial de Paris. O museu ocupa dois edifícios históricos no Marais: o Hôtel Carnavalet, construído entre 1548 e 1560 e ampliado por François Mansart, e o Hôtel Le Peletier Saint-Fargeau, de 1688, incorporado ao conjunto apenas em 1989. A trajetória dos prédios, marcada por usos distintos ao longo dos séculos, reforça a ideia de que a história urbana é feita de camadas que se sobrepõem. Com mais de 640 mil obras, o acervo cobre períodos que vão da Pré-História à atualidade. Desde a reabertura, o museu recebeu mais de 5 milhões de visitantes. Novas formas de ler a cidade O festival “Paris à la loupe”, realizado nos dias 2 e 3 de outubro, é o eixo intelectual da celebração. A iniciativa reúne mais de 40 jovens pesquisadores de 12 áreas distintas, em parceria com instituições municipais de memória e documentação. A proposta é apresentar recortes que ampliem o repertório de temas associados à história de Paris. O evento reforça a ideia de que a história urbana não é estática e depende de revisões constantes. Ao colocar jovens pesquisadores no centro da programação, o museu sinaliza que pretende incorporar novas abordagens ao seu trabalho de mediação. O fim de semana “Rêver Paris” ("Sonhar Paris"), concebido pelo Comitê de Jovens Adultos, propõe uma aproximação menos convencional com as coleções. A escolha do tema onírico não busca criar uma atmosfera fantasiosa, mas testar formas alternativas de circulação pelo acervo. A iniciativa nasceu de um processo participativo desenvolvido pelo museu com jovens entre 18 e 26 anos. “Nós imaginamos uma festa, um fim de semana festivo em vários momentos, pensado e construído para e com um público de jovens adultos. Trabalhamos durante algum tempo para chegar a isso. E um primeiro elemento importante foi ter associado a essa festa o comitê de jovens adultos do museu, para colocar em prática um projeto de participação cidadã no qual 50 jovens de 18 a 26 anos se envolvem e participam das escolhas de orientação da instituição. Durante um ano, eles estiveram conosco em intervalos regulares, e nós os consultamos. Foi muito importante para nós ouvi-los e ver como eles imaginavam o futuro do museu e, de certa forma, o futuro de Paris”, afirma Néguine Matthieux, conservadora de Patrimônio do Museu Carnavalet. Leia tambémMuseu Carnavalet mergulha na relação de Proust com Paris para celebrar os 150 anos do escritor Mais do que um tema festivo, a proposta procura explorar a imaginação como ferramenta de reflexão sobre a cidade. “Nós queríamos introduzir um pouco de sonho, de imaginação. É verdade que o cotidiano e a realidade andam muito presentes, e, às vezes, são um pouco difíceis. E existe essa ideia de que também precisamos escapar um pouco dessa realidade para compreender melhor o presente e a nós mesmos, para conseguir nos projetar no futuro e, talvez, para não nos impor limites. Também precisamos dizer a nós mesmos que podemos imaginar coisas para além dos modelos atuais e das dificuldades do presente, e que precisamos buscar invenção, criatividade e coisas diferentes para nos construirmos individualmente ou coletivamente a Paris de amanhã”, diz. A noite de 3 de outubro inclui um jogo imersivo criado pelo coletivo “Sculpteurs de Rêves” (“Escultores de Sonhos”), que ocupa as salas com intervenções pontuais. Nos jardins, o grupo NODZ apresentará um concerto de inspiração jazzística, acompanhado de performances e DJ set. “Teremos uma experiência ao mesmo tempo imersiva e enigmática. A proposta é viver uma noite que revisita 160 anos de sonhos parisienses, colocando também o universo dos sonhos, da celebração e, talvez, da utopia e da imaginação no centro de tudo. Porque também precisamos disso para nos projetarmos e imaginarmos outras possibilidades. Imaginamos um jogo que reflete isso, que acompanha essa ideia. Teremos noites musicais e visitas inusitadas, singulares, criativas e até divinatórias, sempre de forma divertida”, afirma Matthieux. Leia tambémExposição em Paris revisita Madame de Sévigné e o poder feminino nos salões da França do 'Rei Sol' Narrativas alternativas A celebração inclui visitas que abordam temas pouco explorados na história oficial da cidade. Entre elas, “Paris-ci par-là”, dedicada ao século 19, e “Os objetos insólitos do museu”, que apresentam peças raras e curiosas capazes de revelar aspectos menos conhecidos da vida parisiense. As visitas divinatórias, conduzidas pela cartomante Léone Metayer, utilizam o tarot de Marselha como ferramenta de interpretação simbólica das obras. A proposta não substitui a leitura histórica, mas oferece um percurso que combina jogo e observação. As visitas “Paris Queer”, realizadas pela Queer Tours France, iluminam trajetórias LGBTQIA+ que moldaram a vida cultural e política da capital. O Bingo Drag, animado pela Kings Factory, vai apresentar as práticas das cenas drag king parisienses, reforçando a dimensão comunitária da programação. A abertura do Centro de Recursos, prevista para o primeiro trimestre de 2027, marca uma nova fase para o Carnavalet. O espaço permitirá consultar documentação, biblioteca e arquivos, além de oferecer acesso às coleções em reserva — incluindo artes gráficas, fotografias, numismática e objetos de memória. A iniciativa pretende estimular a pesquisa sobre Paris e facilitar o diálogo entre especialistas, estudantes e público geral, reforçando a ideia de que o museu não é apenas um espaço de exposição, mas também de produção e circulação de conhecimento.

  2. Sep 17

    Exposição inédita em Paris coloca o desenho como centro da obra de Andy Warhol

    Recém-inaugurada no Museu do Luxemburgo, a mostra A linha e a imagem reúne cerca de 150 desenhos de de Andy Warhol e propõe uma nova leitura da trajetória do artista americano, a partir da relação entre gesto, imagem e reprodução. Uma oportunidade única, já que muitos dos desenhos pertencem a coleções particulares e quase nunca foram expostos ao público em geral. Tatiana Ávila, da RFI em Paris É quase inevitável falar em Andy Warhol sem pensar nas serigrafias coloridas de Marilyn Monroe, nas latas de sopa Campbell ou nas garrafas de Coca-Cola. Mas antes de se tornar um dos nomes centrais da Pop Art, Warhol foi ilustrador. E continuou desenhando ao longo de praticamente toda a sua carreira, inclusive nos períodos em que a pintura, o cinema e, mais tarde, a foto-serigrafia ocuparam o centro de sua produção. É essa dimensão menos conhecida de sua obra que está no centro de Andy Warhol. A linha e a imagem, exposição inaugurada em 16 de setembro no Museu do Luxemburgo, em Paris, que permanece em cartaz até 10 de janeiro de 2027. Com cerca de 150 desenhos, além de pinturas, serigrafias sobre papel, fotografias e documentos de arquivo, a mostra percorre a trajetória do artista a partir de um eixo diferente do habitual: o desenho como ponto de partida e matriz de seu pensamento visual. “O título diz muita coisa. A Linha e a Imagem é uma forma de pensar o trabalho do desenho, que é essencialmente contorno”, explica o curador Alain Cueff. Para ele, a simplicidade da linha é fundamental para compreender a estratégia de Warhol. “Há pouquíssimo modelado nos desenhos de Warhol, ou nenhum. Isso significa que um dos temas de Warhol é o empobrecimento da imagem, a ideia de fazer com que a imagem, reduzida aos seus dados essenciais, se torne mais legível e mais persuasiva. No fundo, encontramos o mesmo processo na foto-serigrafia, porque a partir dela ele esvazia a imagem de parte de sua substância para conservar apenas o contorno”, explica. A exposição parte de um primeiro autorretrato, de 1942, e chega aos desenhos em acrílica realizados para sua série sobre A Última Ceia, em 1986, pouco antes de sua morte. No intervalo, aparecem retratos, caricaturas, cenas, ilustrações publicitárias e trabalhos de autopromoção. Reprodução de imagens Warhol encontrou no desenho uma ferramenta de experimentação e, sobretudo, de reprodução. Assim, mais do que uma etapa preliminar da pintura, o desenho já continha uma das questões fundamentais da produção de Warhol: como transformar uma imagem em algo que possa ser reproduzido. “Warhol recebeu uma formação voltada para reproduzir imagens, portanto o valor intrínseco do desenho não é uma preocupação. O que importa para ele é poder reproduzi-lo. A imagem está sempre destinada a outra função. Essa dimensão é fundamental”, destaca o curador Alain Cueff. Uma das técnicas que melhor traduz essa relação é a chamada blotted line, uma espécie de decalque manual produzido a partir da transferência da linha para outra superfície. Desenvolvida e utilizada intensamente por Warhol nos anos 1950, a técnica permitia ao artista produzir imagens que preservavam a aparência do gesto manual, mas que já nasciam orientadas para a multiplicação. Carimbos, estênceis, colagens e, posteriormente, a foto-serigrafia fazem parte desse método. Exposição em cinco etapas A exposição se organiza em cinco núcleos temáticos. O primeiro acompanha os anos iniciais de Warhol como ilustrador publicitário. Os demais abordam a importância da escrita manual, sua fascinação por rostos e máscaras, a iconografia gay que durante muito tempo permaneceu confidencial e a presença da morte em sua obra, uma obsessão que se intensificou depois do atentado de 1968, quando o artista foi baleado e quase morreu. Cueff explica que a escolha da curadoria da mostra também rompe com a organização cronológica tradicional. Ele conta que preferiu colocar trabalhos de momentos diferentes em contato, buscando relações que atravessam décadas. “Eu me afastei da cronologia, portanto é uma retrospectiva um pouco particular, que busca valorizar continuidades temáticas e técnicas, mais do que uma continuidade estritamente temporal.” O resultado é uma exposição que procura apresentar não necessariamente obras desconhecidas, mas trabalhos que raramente são vistos. Parte importante dos desenhos vem de coleções particulares. Há também empréstimos de instituições como o Andy Warhol Museum, em Pittsburgh, cidade natal do artista, e o MoMa, o Museum of Modern Art, de Nova York. “O que me interessava era reunir desenhos um pouco inesperados, pouco vistos, e sobretudo colocá-los em diálogo uns com os outros, criando um contexto que permitisse compreender questões essenciais, inclusive certas contradições que atravessam o trabalho de Warhol e que são muito importantes para ele”, explica Cueff. Entre essas contradições está justamente a relação entre a mão e a máquina. Warhol construiu uma imagem pública associada à produção mecânica, à repetição e à reprodução em escala quase industrial. Ao mesmo tempo, seus desenhos revelam uma relação persistente com o gesto manual. É por isso que Cueff considera o desenho não apenas uma técnica entre outras, mas uma espécie de princípio organizador da produção do artista. “Minha intenção foi considerar o desenho como a matriz do trabalho de Warhol, como o paradigma, de modo que o desenho se manifeste em inúmeras formas, inclusive com vídeo, sombra e luz”, diz. Obras revisitadas Alain Cueff explica que na segunda metade da carreira de Warhol, o desenho ganha ainda outra função. Depois de produzir pinturas, serigrafias e papéis de parede relacionados a imagens como as de Mao Tsé-Tung, o artista volta repetidamente a elas. Reproduz, retoca e modifica as imagens, como se precisasse retornar continuamente ao mesmo motivo. “Warhol passa a retocar imagens tanto no sentido de corrigir, às vezes de forma muito sutil, quanto no sentido tátil de voltar a tocar a imagem, de restabelecer contato com ela.” Para o curador, esse retorno permanente revela uma característica central do artista. “Esse aspecto me interessa particularmente porque revela o espírito obsessivo de Warhol e sua investigação permanente não da verdade, mas da eficácia da imagem.” O desenho também permite compreender como Warhol chegou a algumas das soluções mais radicais de sua pintura. Antes de apresentar uma lata de sopa ou uma garrafa de Coca-Cola isolada, fora de contexto e sem a estetização tradicional da pintura, o artista experimentou diferentes possibilidades no papel. Na exposição, conjuntos de desenhos de garrafas de Coca-Cola e latas de sopa mostram justamente esse momento de investigação. As imagens aparecem inicialmente em composições mais complexas, muitas vezes baseadas em fotografias. Depois, Warhol reduz os elementos até chegar à representação direta do objeto, sem comentário ou ornamento. Para Cueff, é nesse movimento que o desenho deixa de ser apenas um meio de preparar a obra e passa a participar diretamente da invenção de sua linguagem. “Existe essa dimensão experimental do desenho, que o ajuda, acredito, a chegar a soluções muito mais radicais em sua pintura.” A mostra do Museu do Luxemburgo propõe, assim, olhar novamente para um artista cuja obra parece, à primeira vista, conhecida demais. Ao deslocar o foco das imagens mais célebres para a linha, a exposição sugere que por trás da repetição, da reprodução e da aparente impessoalidade de Warhol havia uma investigação contínua sobre como uma imagem nasce, se transforma e se torna capaz de ser reproduzida infinitamente. “O desenho é a base da arte de Warhol”, finaliza Cueff.

  3. Sep 11

    Visa pour l’Image: o fotojornalismo resiste entre a guerra, o narcotráfico e a inteligência artificial

    Há 38 anos, durante duas semanas, Perpignan, cidade catalã no sul da França, transforma-se na capital internacional do fotojornalismo. Criado por Jean-François Leroy, o festival Visa pour l’Image nasceu com a missão de defender uma profissão cada vez mais frágil: a do jornalista fotográfico. Patrícia Moribe, enviada especial a Perpignan Ao longo das décadas, o festival tornou-se um ponto de encontro entre veteranos e novos nomes da fotografia documental. As exposições, espalhadas por diferentes espaços da cidade, são gratuitas, e os fotógrafos participam de encontros com o público e de visitas guiadas. A proposta é aproximar os espectadores não apenas das imagens, mas também de quem esteve por trás delas. Neste ano, um dos trabalhos apresentados é Sangre Blanca – A Geografia da Cocaína, do dinamarquês Mats Nissen, um projeto que o fotógrafo desenvolve há cerca de dez anos. A reportagem acompanha diferentes etapas da cadeia internacional da cocaína: dos campos de produção na Colômbia, passando pelos cartéis mexicanos, até chegar aos consumidores na Europa. Para Nissen, a principal dificuldade de um trabalho de longa duração como esse é conseguir acesso às pessoas e aos lugares. Para isso, ele conta com uma rede de profissionais e moradores locais. “O que foi mais difícil ao realizar este trabalho foi o acesso, abrir as portas. Trabalho muito com pessoas locais – jornalistas, fotógrafos, defensores dos direitos humanos, pessoas envolvidas em programas para jovens – que têm me ajudado a abrir essas portas”, contou o fotógrafo.  Mas conseguir entrar é apenas o primeiro passo. O desafio seguinte, segundo o fotógrafo, é estabelecer uma relação de confiança com as pessoas fotografadas. “Uma vez que a porta é aberta, você precisa permanecer ali e abrir o coração das pessoas, o que, às vezes, é ainda mais difícil”, relatou Nissen.  Entrevistado por Isabelle Marinetti, da RFI, Nissen define a empatia como sua principal ferramenta de trabalho. Não como uma técnica, mas como uma postura diante dos personagens. “É simplesmente ser um ser humano muito transparente e honesto, sem segundas intenções, com um interesse sincero e genuíno pela vida das pessoas.” A tentativa de compreender sem necessariamente justificar é, para ele, fundamental para entrar em universos muitas vezes distantes da experiência do fotógrafo. “Essa empatia significa tentar compreender a vida que elas levam, as razões pelas quais fazem o que fazem, sem justificar suas ações, mas simplesmente tentando, de coração aberto, imaginar que você está no lugar delas.” Veterano do fotojornalismo internacional e vencedor de importantes prêmios, Mats Nissen ficou também conhecido por uma imagem realizada em São Paulo durante a pandemia de Covid-19. A fotografia, vencedora do World Press Photo em 2021, mostra uma mulher idosa recebendo seu primeiro abraço em cinco meses através de uma cortina plástica de proteção. Síria pós-Assad Outro destaque desta edição é o francês Philémon Barbier, que apresenta dois trabalhos: um sobre o Ebola na República Democrática do Congo e outro sobre a Síria no período posterior à queda de Bashar al-Assad. Este último recebeu o prêmio de melhor reportagem do festival, concedido por um júri formado por editores internacionais. Barbier começou a acompanhar a Síria após a queda de Assad e, entre o início de janeiro de 2025 e o final de fevereiro de 2026, passou entre sete e oito meses no país, em diferentes períodos. Inicialmente trabalhando como freelancer, o fotógrafo posteriormente recebeu encomendas e apoio de grandes veículos de imprensa, entre eles o jornal Le Figaro. Para Barbier, apresentar o trabalho em Perpignan significa ampliar o alcance de uma reportagem que normalmente circularia sobretudo entre leitores da imprensa. “Apresentar este trabalho aqui é, antes de tudo, uma ótima visibilidade para o projeto, tanto no âmbito profissional quanto, principalmente, para o público”, diz. “É um festival em que todas as exposições são gratuitas, então é extremamente acessível. Para mim, isso é algo muito importante, porque acho fundamental que todo mundo possa ter acesso a essas histórias”, acrescenta o jovem fotojornalista, de 25 anos.  O festival também mantém uma forte programação voltada às escolas da região, com visitas acompanhadas de alunos. “É muito bom poder alcançar pessoas que nem sempre leem a imprensa, que nem sempre veem essas fotografias nos meios de comunicação.” Inteligência artificial Mas, em 2026, a discussão sobre o futuro da profissão passa também pela inteligência artificial. A tecnologia esteve presente nos debates do festival e levanta questões sobre direitos autorais, utilização de arquivos fotográficos e o próprio papel do fotógrafo. Para Philémon Barbier, um dos principais problemas está na utilização de imagens e do trabalho de profissionais por grandes empresas de tecnologia para alimentar modelos de inteligência artificial, sem remuneração aos autores. “Geralmente são grandes empresas privadas que utilizam os dados e o trabalho, principalmente de fotógrafos, para enriquecer seus modelos de treinamento de IA e que, aliás, não remuneram por direitos autorais nem os fotógrafos, nem ninguém mais – nem escritores, nem artistas, nem ilustradores.” Barbier reconhece que a inteligência artificial traz ferramentas que precisarão ser compreendidas e incorporadas. “Há coisas novas na IA que precisam ser exploradas, porque, de qualquer maneira, ela existe. Vamos ter que nos adaptar.” Mas estabelece um limite quando se trata do jornalismo de campo. “Na nossa profissão, a IA não poderá substituir um jornalista de campo. E precisamos nos agarrar a isso para não sermos engolidos.” Sua posição é clara: a utilização da inteligência artificial deve ser evitada no jornalismo e, especialmente, no fotojornalismo. “É importante preservar o rigor, a dinâmica humana e também o olhar humano.” Homenagens A 38ª edição do Visa pour l’Image foi marcada ainda por uma ausência. Jean-François Leroy, fundador do festival e uma das figuras mais importantes na defesa do fotojornalismo, morreu no dia 31 de agosto, de câncer.  Sua morte provocou comoção entre fotógrafos, jornalistas e profissionais que construíram suas trajetórias com apoio do festival. Mas a mensagem deixada por sua equipe foi justamente a de continuidade: apesar das transformações tecnológicas, das dificuldades econômicas da imprensa e da precarização da profissão, o fotojornalismo continua vivo.

  4. Sep 4

    Mostra em Paris revela força do legado de Tintoretto, gigante da pintura veneziana do Renascimento

    Perspectivas vertiginosas, efeitos dramáticos de luz, pinceladas rápidas e uma liberdade criativa que desconcertava seus contemporâneos. Em cartaz a partir de 11 de setembro no Museu Jacquemart-André, em Paris, a exposição Tintoretto Eterno revisita a trajetória de Jacopo Robusti, um dos grandes nomes da Renascença. Com cerca de 40 obras, a mostra demonstra como o artista permaneceu uma referência para sucessivas gerações de pintores e por que sua obra continua surpreendentemente atual. Entre os gigantes da pintura italiana do século 16, Tintoretto ocupa uma posição singular. Admirado por alguns, criticado por outros, ele construiu uma obra marcada pela velocidade de execução, pela teatralidade das composições e por uma liberdade formal que frequentemente escapava às convenções de seu tempo. Mais de quatro séculos após sua morte, essa mesma capacidade de desconcertar continua no centro da exposição Éternel Tintoret (Tintoretto Eterno), que o Museu Jacquemart-André apresenta entre setembro de 2026 e janeiro de 2027. A mostra reúne cerca de 40 pinturas e obras gráficas provenientes de coleções francesas, italianas e internacionais e propõe um panorama amplo da carreira de Jacopo Robusti, nascido em Veneza em 1518 ou 1519. Conhecido pelo apelido Tintoretto, derivado da profissão de tintureiro exercida por seu pai, o artista se tornaria uma das figuras centrais da Renascença veneziana, autor de alguns dos mais ambiciosos ciclos decorativos do período e responsável por levar a pintura da cidade a um de seus momentos de maior intensidade criativa. Para Neville Rowley, curador da exposição, o principal mérito da iniciativa é justamente recolocar Tintoretto no centro da narrativa. “É a primeira exposição que volta a oferecer um panorama completo da arte de Tintoretto na França”, explica. Segundo ele, embora o artista tenha sido tema de mostras importantes em Veneza, Roma ou Madri, e embora uma exposição dedicada ao jovem Tintoretto tenha sido apresentada em Paris em 2018, o pintor veneziano frequentemente aparece diluído em exposições coletivas dedicadas aos grandes mestres da Sereníssima. “Durante muito tempo ele foi apresentado ao lado de seus rivais, Ticiano ou Veronese. Aqui, o objetivo é explicar ao público francês a arte de Tintoretto e mostrar aspectos de sua produção que nem sempre são conhecidos.” A escolha faz sentido em um país que mantém uma longa relação com sua obra. Como lembra Rowley, o pintor era apreciado na França desde o século 17. Luís XIV possuía obras suas na coleção real, e parte desse diálogo histórico reaparece ao longo do percurso expositivo. O artista que se recusava a obedecer Se há uma palavra capaz de resumir Tintoretto, talvez seja independência. A exposição recupera uma observação célebre de Giorgio Vasari, que definiu o veneziano como “o espírito mais terrível que a pintura jamais conheceu”. A frase pode soar exagerada, mas ajuda a entender a reputação construída pelo artista entre seus contemporâneos. Para Rowley, Tintoretto era alguém que se recusava a seguir modelos estabelecidos, mesmo quando os modelos eram os maiores artistas de seu século. “Ele tinha diante de si duas referências gigantescas. De um lado, Ticiano, que provavelmente foi seu mestre por um breve período. De outro, Michelangelo, que ele admirava profundamente. Mas, em vez de seguir qualquer um deles, decidiu fazer tudo à sua maneira.” O curador observa que a ruptura não era apenas estética. Tratava-se também de uma atitude diante da própria prática artística. “Ele queria pintar mais rápido, de maneira mais livre, em formatos maiores que os de Ticiano. E copiava Michelangelo do jeito dele, reinterpretando o mestre segundo sua própria lógica. Isso era algo que Vasari simplesmente não conseguia aceitar.” Essa independência se tornou uma marca de toda a sua trajetória. Enquanto outros artistas buscavam equilíbrio e acabamento, Tintoretto avançava em direção "ao excesso, à velocidade e à experimentação". A velocidade como assinatura Uma das características mais comentadas de sua produção era a chamada prestezza, termo italiano utilizado para descrever a rapidez de sua execução. Os críticos da época viam essa velocidade com desconfiança. Alguns interpretavam a pincelada livre como sinal de descuido. Tintoretto, porém, jamais alterou sua maneira de trabalhar. “Um amigo de Ticiano chegou a reconhecer que ele pintava muito bem, mas sugeriu que talvez devesse desacelerar um pouco”, conta Rowley. “Tintoretto nunca desacelerou”. O resultado foi uma produtividade rara, mesmo para os padrões da Renascença. “São aproximadamente 650 pinturas conhecidas, provavelmente mais. É uma produção excepcional.” Para o curador, essa energia quase inesgotável explica parte da reação provocada por sua obra. Quando surgia uma encomenda monumental, Tintoretto não demonstrava qualquer hesitação. “Havia projetos gigantescos, telas de mais de 20 metros de largura, e sua reação era simplesmente dizer: ‘Sem problema, eu faço’.” Essa audácia ajudou a construir uma imagem de artista indomável, incapaz de se enquadrar nos parâmetros valorizados pelos setores mais conservadores da pintura italiana. Um pintor teatral Vista hoje, a obra de Tintoretto impressiona pela sensação constante de movimento. Personagens parecem atravessar o espaço em diagonais abruptas, corpos se projetam em profundidade e a luz corta a cena como um refletor teatral. Não por acaso, Rowley identifica uma forte dimensão cenográfica em sua produção. “Suas pinturas estão profundamente ligadas à ideia de encenação”, afirma. Segundo o curador, Tintoretto elaborava pequenas maquetes, montava figuras em miniatura e construía composições tridimensionais antes de transferi-las para a tela. “Isso permitia refletir sobre a posição dos personagens e sobre a organização do espaço.” O resultado continua surpreendendo o espectador contemporâneo. Ao mesmo tempo, a modernidade de sua obra não reside apenas na composição, mas também na superfície da pintura. As pinceladas visíveis, os contornos por vezes imprecisos e a sensação de inacabamento chamaram a atenção de artistas séculos depois. “Essa maneira extremamente livre de pintar foi justamente o que encantou os artistas franceses do século 19”, observa Rowley. “Delacroix, Manet e Cézanne acabaram encontrando em Tintoretto uma liberdade que parecia muito mais próxima de suas preocupações do que de muitos pintores de sua própria época.” A segunda parte da exposição explora exatamente essa recepção francesa do artista, mostrando como seu legado atravessou gerações e influenciou alguns dos nomes centrais da modernidade. Um artista impossível de aprisionar A permanência de Tintoretto no imaginário contemporâneo talvez esteja ligada também à dificuldade de reduzi-lo a uma única interpretação. Diferentemente de muitos intelectuais da Renascença, ele não deixou tratados nem textos explicando sua visão da arte. “Tintoretto não deixou escritos. Ele pensava por imagens”, resume Rowley. Para o curador, essa ausência de teoria abre espaço para múltiplas leituras. Em suas cenas mitológicas e representações femininas, por exemplo, convivem erotismo, ironia e ambiguidades difíceis de resolver. “Podemos olhar essas obras como imagens eróticas, nas quais a mulher aparece como objeto de desejo. Mas há sempre alguma coisa que devolve o olhar ao espectador, que o coloca em questão. É o gênio de Tintoretto embaralhar as pistas.” Segundo Rowley, é justamente essa capacidade de desafiar interpretações definitivas que explica a permanência do artista ao longo dos séculos. “Ele fascina pessoas interessadas em coisas às vezes contraditórias. Seus quadros têm uma instabilidade que dá a impressão de que estamos descobrindo a pintura no exato momento em que a observamos.” Essa característica chamou a atenção até de Jean-Paul Sartre. O filósofo francês dedicou páginas importantes à obra do veneziano e chegou a identificar nela uma dimensão quase existencialista. “É uma leitura anacrônica, evidentemente, mas revela algo importante: Tintoretto continua falando ao olhar moderno.” A exposição fica em cartaz no Museu Jacquemart-André, em Paris, até 24 de janeiro de 2027.

  5. Aug 26

    Com The Cure no headline, festival parisiense Rock en Seine realiza uma de suas edições mais roqueiras

    A capital francesa vive a sua semana mais roqueira do ano: o Rock en Seine começa na noite desta quarta‑feira (26) e cerca de 80 de bandas sobem nos quatro palcos do festival até domingo (30). Realizado há 23 anos em Saint-Cloud, na região parisiense, o evento acolhe, a cada edição, cerca de 150 mil expectadores.    No line‑up, uma seleção de peso: Nick Cave and the Bad Seeds, Franz Ferdinand, The Black Keys, Interpol, Deftones, Slowdive, Wet Leg, entre dezenas de outros artistas e bandas. O headliner desta edição, no entanto, é o mítico grupo britânico The Cure, que completou neste ano 50 anos de carreira. A banda encerra aqui em Paris sua turnê de 2026, com um show que promete ser grandioso. Após várias tentativas de diversificar a oferta musical do festival, o Rock en Seine oferece neste ano uma de suas edições mais rock dos anos 2020. Segundo o diretor do Rock en Seine, Mathieu Ducos, a decisão foi tomada após reivindicações dos frequentadores, tradicionalmente interessados no gênero musical que dá nome ao evento. "Foi uma escolha proposital. Fazemos a programação a partir das oportunidades que aparecem, com artistas e grupos que estão em turnê e que estão disponíveis nas datas do festival", diz. "Mas, neste ano lançamos o desafio de fazer uma programação mais ancorada na estética rock e tivemos a sorte de conseguir agendar muitos artistas que adoramos. Alguns deles já vieram ao Rock en Seine e marcaram a história do festival. Por isso, não hesitamos em fazer um fim de semana bem rock, para que todos os tipos de rock encontrem o seu espaço", reitera. A proposta agrada o público e atrai frequentadores cativos e novatos. É o caso da crítica de cinema franco-brasileira Letícia Alassë, que mora há oito anos em Paris, mas irá pela primeira vez ao Rock en Seine, para prestigiar quatro de suas bandas favoritas na sexta-feira (28). "Vai ter Nick Cave and the Bad Seeds, Black Keys, Franz Ferdinand e Wilco. Acho que esse dia vai ser especial por ter exatamente esses quatro grandes shows", prevê. "Eu vou realmente para prestigiar as músicas que eu já conheço e para cantar junto. Tenho boas expectativas principalmente para o show de Franz Ferdinand. Eu espero que eles cantem as músicas do início dos anos 2000. E, óbvio, Nick Cave, estou esperando a música da abertura do seriado de Peaky Blinders." Cinco dias de festival Em sua 23a edição, o Rock en Seine conserva o formato adotado nos últimos quatro anos, com os dois primeiros dias dedicados a um público mais fã de pop e rap, com Lorde e Tyler The Creator no line-up. Mas Ducos lembra que nem só de grandes nomes vive um festival, e o evento também segue firme e forte em sua iniciativa de promover jovens artistas e bandas, com o projeto Club Avant Seine. "É verdade que, a cada ano, temos vontade de fazer o nosso público descobrir artistas nacionais ou internacionais emergentes", reconhece. "Para mim, festival rima com descoberta, com tomada de risco, tanto da parte dos programadores quanto do público, que vai poder descobrir artistas e grupos sobre sobre os quais, às vezes, não sabe nada. Na minha opinião, é isso o que torna um festival interessante", observa.  Nos circuitos dos festivais, o Rock en Seine também é famoso por registrar momentos históricos, como a separação do Oasis, antes de subir no palco do evento, em 2009, uma apresentação épica sob uma chuva torrencial de Arcade Fire no encerramento do festival, em 2010, a passagem da pira olímpica de Paris 2024 ou a tentativa fracassada de políticos locais de cancelar o show do trio norte-irlandês Kneecap, que realizou uma apresentação memorável em 2025. Neste ano, Mathieu Ducos não tem dúvidas que o show de The Cure, no domingo, será mágico. "A presença do The Cure é, para nós, uma enorme felicidade. E, para mim, pessoalmente, porque é uma banda que eu venero e que acompanhou toda a minha adolescência e a minha vida adulta até hoje", explica. Também sabemos que as oportunidades de ver o grupo no palco vão se tornar cada vez mais raras. Sem que isso tenha sido anunciado formalmente, essa é uma mensagem subjacente que já aparece claramente nas falas do cantor Robert Smith", aponta.  A banda britânica  sobe no principal palco do Rock en Seine na noite de domingo, encerrando esta edição do festival. O show, marcado para as 20h55 pelo horário local terá transmissão ao vivo pelo canal France 4.  "Acho que vai ser um grande momento. The Cure provou, ao longo da turnê neste verão, que no palco continua absolutamente fabuloso — e Robert Smith é um cantor no auge de suas capacidades", conclui Ducos.

  6. Aug 14

    Maior exposição de grafite e arte urbana do mundo apresenta em Paris 50 anos de contracultura

    Nascido nos vagões do metrô nova-iorquino e durante décadas associado à ilegalidade, o grafite ocupa hoje museus, galerias e grandes exposições internacionais sem abandonar o debate sobre suas origens. Em cartaz até 23 de agosto na Grande Halle de La Villette, em Paris, Beyond the Streets reúne mais de cem artistas e cinco décadas de produção para mostrar como uma prática marginal transformou a arte contemporânea, influenciou a música, a moda, o design e a cultura visual em escala global.   Márcia Bechara, da RFI em Paris De um lado, vagões de metrô cobertos por assinaturas feitas às pressas durante a madrugada. De outro, instalações monumentais, obras preservadas em coleções e artistas expostos em instituições culturais de prestígio. Poucas formas de expressão percorreram um caminho tão improvável quanto o grafite. É justamente essa transformação que a exposição Beyond the Streets propõe investigar na Grande Halle de La Villette, onde mais de cem artistas ocupam 3.600 metros quadrados com obras, fotografias, documentos raros, esculturas e ambientes imersivos dedicados à história das culturas urbanas. Apresentada anteriormente em Los Angeles, Nova York, Londres e Xangai, a mostra chega pela primeira vez à capital francesa sob a curadoria de Roger Gastman, um dos principais historiadores do grafite nos Estados Unidos. A edição parisiense foi concebida como uma homenagem à relação singular da cidade com a arte urbana, sem perder de vista a ambição de traçar uma narrativa internacional desse movimento que atravessou fronteiras e influenciou diferentes campos da produção cultural. Para Gastman, Paris nunca foi apenas mais uma parada na circulação internacional da exposição.“Queríamos vir para Paris desde a primeira edição da mostra, em Los Angeles. É uma cidade central para a história da arte urbana e para a história da arte na Europa de forma geral.” Leia tambémStreet art conquista museus e galerias pelo mundo, mas ainda é alvo de "políticas de apagamento" O curador afirma que a presença da mostra na França faz parte de um projeto antigo. Segundo ele, apenas faltavam o local e as condições adequadas para concretizar a edição parisiense. “Paris não é uma reflexão posterior. Paris é uma cidade importante e continua sendo uma cidade importante. Estamos felizes em vir para cá e contar muitas histórias de Paris misturadas às histórias globais que Beyond the Streets se tornou conhecida por apresentar.” A exposição procura demonstrar que a história da intervenção urbana na França antecede em muito o surgimento do grafite contemporâneo associado aos metrôs de Nova York. Ao comentar a cena francesa, Gastman recorda o trabalho do fotógrafo Brassaï, que documentou inscrições anônimas encontradas nos muros de Paris entre as décadas de 1930 e 1940. As imagens realizadas pelo artista franco-húngaro deram origem, em 1956, a uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), frequentemente apontada como uma das primeiras iniciativas institucionais a olhar para o grafite como objeto de interesse artístico. “A cena francesa do grafite e da arte urbana é muito ativa, e sempre foi", afirma. Para ele, a própria paisagem subterrânea da cidade ajuda a compreender essa continuidade histórica. “As catacumbas têm uma história extremamente rica de inscrições nas paredes. São um marco da cidade e uma espécie de cápsula do tempo dos artistas em geral, não apenas do grafite e da arte urbana. Dos cartazes dos protestos ao grafite tradicional, tudo isso está aqui. Em Paris, não é preciso procurar muito. Essas histórias estão aqui e continuam aqui para ser celebradas", reflete. A edição da exposição apresentada em La Villette incorpora esse contexto local. Além de destacar artistas franceses contemporâneos, o percurso estabelece conexões entre a tradição urbana parisiense, a cultura hip-hop e os desdobramentos internacionais do grafite ao longo dos últimos 50 anos. Leia tambémArte urbana brasileira leva cores e raízes ao festival Latinograff em Toulouse Vandalismo? Apesar da crescente presença do grafite em museus e galerias, a discussão sobre a natureza dessa prática continua aberta. A tensão entre reconhecimento institucional e transgressão permanece no centro do debate. Gastman não procura suavizar essa contradição. Ao contrário de parte do discurso que busca separar o grafite de suas origens, o curador insiste que a dimensão ilegal constitui um elemento fundamental da cultura que a exposição aborda. “O grafite, em sua definição verdadeira, sempre será ilegal e sempre irritará algumas pessoas. O grafite, em sua essência, é vandalismo. E o que mostramos em Beyond the Streets certamente celebra o vandalismo.” A afirmação pode soar provocadora em uma grande instituição cultural, mas ajuda a entender a lógica da mostra. Em vez de reproduzir a experiência da rua dentro do museu, o projeto procura evidenciar os caminhos percorridos por artistas que partiram da ocupação ilegal do espaço urbano e desenvolveram trajetórias reconhecidas no circuito artístico. “A primeira palavra do título é ‘beyond’. Estamos mostrando como muitos desses artistas pegaram a energia e o aprendizado adquiridos nas ruas para se tornarem grandes artistas.” Segundo ele, a pergunta sobre a legitimidade do grafite continua sendo formulada, mas a própria evolução do movimento oferece uma resposta. “As pessoas ainda perguntam por que isso está em um museu. O tempo continua respondendo a essa pergunta. E o tempo está mostrando que isso funciona e que isso é real.” Mais do que uma exposição sobre grafite A ambição de Beyond the Streets é mais ampla do que a de apresentar obras em paredes. O percurso procura reconstruir um ecossistema cultural que engloba música, fotografia, design, moda, skate, ativismo político e cultura hip-hop. Entre os participantes estão pioneiros do grafite nova-iorquino, nomes decisivos para a documentação do movimento e artistas que posteriormente alcançaram projeção internacional. O conjunto reúne figuras como TAKI 183, FUTURA 2000, Lady Pink, Crash, Zephyr, Martha Cooper, Henry Chalfant, Keith Haring, JR, Invader, JonOne, Shepard Fairey, André Saraiva, Vhils e Damien Hirst. A mostra também incorpora personagens ligados a outros territórios da cultura urbana, caso dos Beastie Boys, Fab 5 Freddy, Maripol e Jean-Charles de Castelbajac, reforçando a ideia de que o grafite exerceu influência muito além dos muros das cidades. Ao destacar alguns dos núcleos da edição parisiense, Gastman menciona uma grande instalação dedicada aos Beastie Boys, construída a partir de letras manuscritas e instrumentos da banda, uma intervenção de grande formato assinada por Shepard Fairey, uma loja de discos integrada ao percurso, ambientes imersivos, um panorama da cultura hip-hop francesa e obras criadas especialmente para a etapa parisiense. “É uma exposição diferente de qualquer coisa que as pessoas já experimentaram.” Mas é a reação do público que mais chama a atenção do curador. “Uma das minhas coisas favoritas é o público que está vindo à exposição. É um público muito diverso. Muitas famílias, muitas gerações diferentes.” Segundo ele, a recepção demonstra que o grafite deixou de interessar apenas aos iniciados. “As pessoas não saem daqui me dizendo: obrigado, foi uma grande exposição de grafite. Elas dizem: obrigado, foi uma fantástica exposição sobre cultura”, sublinha Gastman.  Grafite, pichação e street art brasileira Questionado sobre a cena brasileira, Gastman aponta que o Brasil desenvolveu uma linguagem própria dentro da história global do grafite, distante de simples reproduções dos modelos surgidos nos Estados Unidos ou na Europa. “A história da streetart no Brasil é diferente de qualquer cidade ou país que eu já tenha explorado ou estudado. É um estilo completamente original”, diz o curador. A análise inclui tanto o universo da pixação quanto a produção muralista que ajudou a projetar internacionalmente artistas brasileiros nas últimas décadas. E embora reconheça a crescente notoriedade internacional dessa produção, o curador avalia que boa parte dessa história ainda carece de documentação adequada. “Ela ainda é muito nova, muito pouco documentada. É uma história extremamente rica e importante, que espero continuar vendo ser contada.” Fã de longa data d’Os Gêmeos, com quem colaborou em projetos anteriores, Gastman revela que a participação de artistas brasileiros chegou a ser considerada para a edição parisiense. A ideia acabou esbarrando em limitações práticas. Segundo ele, a montagem da mostra foi realizada em apenas três meses e meio, prazo considerado excepcionalmente curto para um projeto da dimensão de Beyond the Streets. E as dificuldades logísticas para o transporte internacional de obras influenciaram a decisão. “Analisamos incluir alguns artistas brasileiros, mas o cronograma não funcionou. E a questão do transporte tornava isso pouco realista.” Apesar disso, ele afirma que uma futura edição da mostra em território brasileiro não está descartada. “Nós conversamos sobre isso. Já estudamos essa possibilidade.” Por enquanto, a etapa parisiense oferece até o dia 23 de agosto um retrato abrangente de uma cultura que nasceu à margem das instituições e hoje ocupa uma posição central no imaginário visual contemporâneo, procurando mostrar como essa linguagem alterou a maneira de olhar para a cidade e, aos poucos, redefiniu o próprio conceito de arte pública.

  7. Aug 7

    Exposição em Paris revisita Madame de Sévigné e o poder feminino nos salões da França do 'Rei Sol'

    Símbolo da literatura francesa, Madame de Sévigné costuma ser lembrada pelas cartas que escreveu à filha ao longo do século XVII. Uma nova exposição no Museu Carnavalet, em Paris, propõe uma releitura dessa figura histórica. Em vez da escritora isolada, a mostra apresenta uma mulher inserida em uma rede de aristocratas, intelectuais e anfitriã magnânima de salões que desafiaram as convenções de sua época.  "Esse é justamente o objetivo da exposição", explica o curador David Simonneau. Apoiada em três décadas de pesquisas universitárias, a mostra procura revisitar uma figura que ocupa um lugar quase monumental na literatura francesa. "Hoje percebemos que Madame de Sévigné não estava isolada. Ela fazia parte de uma rede de mulheres cultas e extraordinárias, que durante muito tempo permaneceram invisibilizadas pela história." Durante séculos, essas mulheres ficaram associadas ao termo "preciosas", popularizado principalmente pela sátira. Simonneau lembra, porém, que a palavra nasceu como uma forma de desqualificação. "Era um termo usado para depreciá-las", afirma. Os historiadores preferem atualmente a expressão "círculos galantes", ambientes frequentados por homens e mulheres da aristocracia parisiense onde se discutiam literatura, artes e ciência. Mais do que simples encontros mundanos, esses salões revelavam uma ambição intelectual e social. Segundo o curador, eles surgiram em uma época ainda marcada pela violência das guerras religiosas e pelas práticas de uma nobreza acostumada aos duelos e às demonstrações de força. "Havia uma verdadeira vontade de tornar as relações entre homens e mulheres mais pacíficas", explica. Para as anfitriãs desses encontros, os salões também constituíam um espaço de formação permanente, onde as mulheres podiam continuar aprendendo, lendo e participando de debates intelectuais. A trajetória de Madame de Sévigné atravessa diferentes momentos da monarquia francesa. Nascida em 1626 e morta em 1696, ela testemunhou tanto a regência de Ana da Áustria quanto o longo reinado de Luís XIV, o famoso "Rei Sol". Essa duração excepcional de vida permite acompanhar, por meio de suas cartas, transformações profundas da sociedade francesa. Os mecanismos da corte, da regência ao "Rei Sol" Segundo Simonneau, existe um contraste importante entre os primeiros anos da juventude de Sévigné e a sociedade que se consolidou sob o Rei Sol. Durante a regência, os círculos galantes ainda ocupavam um papel central na vida aristocrática. Com Luís XIV, os mecanismos de poder tornaram-se mais rígidos e os conflitos entre cortesãos mais intensos. É justamente nesse contexto que surge uma das características mais fascinantes da escritora. Embora frequentasse regularmente a corte, Madame de Sévigné jamais exerceu um cargo oficial junto à família real. Para o curador, essa posição relativamente independente acabou se transformando em uma vantagem. Livre das obrigações que limitavam outros observadores, ela desenvolveu um olhar particularmente agudo sobre o funcionamento do poder. "Ela observa tudo com grande distância e muito humor", resume Simonneau. Em suas cartas, os conflitos políticos aparecem frequentemente sob a forma de relatos ácidos e irônicos das rivalidades entre nobres, ministros e favoritos reais. O resultado é um retrato vivo das disputas que agitavam os bastidores da monarquia mais poderosa da Europa. Essa dimensão faz com que suas cartas transcendam o valor puramente literário. Durante muito tempo, a correspondência foi lida como uma espécie de crônica elegante do reinado de Luís XIV. A exposição propõe uma visão mais ampla. Para Simonneau, a autora possuía uma verdadeira consciência de seu trabalho de escrita. "Ela tinha formação para escrever. Não escrevia simplesmente ao sabor dos acontecimentos", explica. "Havia uma intenção literária muito clara." Leia tambémUm roteiro de charme pelos castelos e histórias das amantes dos reis franceses Ligações perigosas Mas a importância de sua correspondência também reside na qualidade das informações que circulavam por sua rede de relações. Cercada por personagens próximos do centro do poder, a marquesa registrou episódios que muitas vezes escapavam às publicações da época. O exemplo mais célebre envolve Nicolas Fouquet, poderoso superintendente das finanças do reino e amigo próximo de Madame de Sévigné. Preso por ordem de Luís XIV, Fouquet foi submetido a um julgamento realizado a portas fechadas. Embora boa parte da população dependesse das informações oficiais divulgadas pelas gazetas, a escritora conseguiu obter relatos sobre o desenrolar do processo. "Vou lhe contar o que as gazetas não contam", escreveu ela à filha em uma das cartas citadas na exposição. A frase ajuda a compreender porque sua correspondência continua despertando tanto interesse entre historiadores. Ao lado dos grandes acontecimentos políticos, as missivas revelam aspectos da vida cotidiana, dos costumes, das sociabilidades e das emoções de uma elite que moldou a França do século XVII. Museu foi residência de Madame de Sévigné A escolha do local da exposição reforça esse diálogo entre personagem e história. O Museu Carnavalet ocupa justamente o Hôtel Carnavalet, residência onde Madame de Sévigné viveu durante cerca de 20 anos, de 1677 até sua morte. Instalado no coração do Marais, bairro que concentrava grande parte da aristocracia parisiense da época, o edifício conserva uma ligação íntima com a escritora. Segundo Simonneau, foi precisamente essa associação que levou, no século XIX, à escolha do local para abrigar o museu dedicado à história de Paris. A mostra procura explorar essa proximidade. Em vez de se limitar à apresentação das cartas, reúne retratos, esculturas, objetos de uso cotidiano e obras de arte capazes de reconstruir o universo material da marquise. Os curadores recorreram inclusive ao inventário elaborado após sua morte para reconstituir ambientes e sugerir a atmosfera que cercava sua vida no Hôtel Carnavalet. Ao mesmo tempo, a exposição funciona como uma porta de entrada para o próprio museu, ainda pouco conhecido por muitos visitantes estrangeiros. Dedicado exclusivamente à história da capital francesa, o Carnavalet é o mais antigo museu municipal de Paris. Instalado em dois hôtels particuliers históricos unidos por uma galeria, ele reúne cerca de 3.800 obras que percorrem a trajetória da cidade, desde a pré-história até os dias atuais. Renovado em 2021, o museu conserva desde painéis renascentistas e salões aristocráticos inteiros até objetos ligados à Revolução Francesa, fotografias, cartazes e testemunhos da vida cotidiana parisiense. Um percurso que ajuda a compreender a cidade onde Madame de Sévigné viveu, escreveu e construiu um dos mais extraordinários retratos da França de seu tempo. A exposição Madame de Sévigné, Cartas parisienses fica em cartaz no Museu Carnavalet até o dia 23 de agosto de 2026.

  8. Jul 17

    Teatro: Tiago Rodrigues projeta os próximos 80 anos de Avignon e convida o Brasil ao debate

    Primeiro estrangeiro a dirigir o Festival de Avignon, Tiago Rodrigues conduz a edição dos 80 anos em meio a um contexto dominado pela urgência de garantir acesso democrático à cultura. Com uma programação majoritariamente feminina, que inclui Christiane Jatahy, Lia Rodrigues e Carolina Bianchi, ele destaca a força da cena brasileira e propõe novas alianças. O diretor português afirma que o futuro de Avignon depende das perguntas que ainda precisamos formular e convida o Brasil ao debate. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A programação deste ano, pela primeira vez majoritariamente feminina, inclui três artistas brasileiras em posições centrais: Christiane Jatahy, Lia Rodrigues e Carolina Bianchi, lançada por Avignon em 2023. Para Tiago, essa presença não é apenas simbólica, mas um componente estrutural da presença brasileira no festival. “Eu considero que o Brasil tem grandes artistas, e isso é o essencial. Mais do que definir o que é o teatro brasileiro ou o que é a dança brasileira, eu acho que há enormes artistas brasileiros”. Ele destaca Carolina Bianchi como “uma artista imensa de teatro, de performance, uma grande autora de teatro, uma grande escritora, uma poeta da cena”. A diversidade brasileira, segundo ele, é decisiva para o futuro das artes cênicas. “Carolina Bianchi é um exemplo dessas singularidades que podemos encontrar no teatro brasileiro, porque a cultura brasileira é de uma enorme diversidade. Também podemos encontrar no teatro brasileiro a anti-Carolina Bianchi.” Para Tiago, essa amplitude estética e intelectual precisa ainda ser “cuidada, acolhida, promovida”, sobretudo porque “grupos invisibilizados e oprimidos não tiveram ainda a oportunidade de chegar às ferramentas da criação”. Leia tambémChristiane Jatahy leva Ibsen ao tribunal de Avignon em debate sobre verdade ao lado de Wagner Moura A edição de 2026 marca também a primeira colaboração teatral entre Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. O projeto parte de uma ideia que, segundo Tiago, “nos seduziu muito – justamente por não ser uma adaptação, mas uma continuação”. Ele explica: “O que acontece depois do fim de Um Inimigo do Povo, de Ibsen?” A estreia mundial em Salvador, seguida por apresentações no Rio de Janeiro (e posteriormente em Lisboa e Amsterdã), reforça a intenção de fortalecer a circulação da obra de Jatahy no Brasil. “Os parceiros europeus de Christiane Jatahy desejaram também contribuir para que seu trabalho estivesse mais presente no Brasil, e que [o espetáculo] fosse criado no Brasil”, afirma o diretor, que também destaca o interesse de festivais como Edimburgo e Holland Festival, coprodutores da peça, na ideia de "coesão social por meio das artes". Uma diretiva que, para ele, não se constrói por consenso, mas pela contraposição de ideias. “Como podemos reunir pessoas em torno das artes e ajudar na coesão social? Mas colocando perguntas, sem exigir pensamento único, sem exigir que todos concordem – e, assim, iniciar um debate?” O ponto de interrogação e os próximos 80 anos O ponto de interrogação que domina toda a comunicação gráfica do festival sintetiza essa postura. Tiago o escolheu como símbolo das perguntas que ele considera essenciais para os próximos 80 anos de Avignon. “Uma multidão de questões”, diz. Ele começa pelas mais urgentes: “Será que o Festival de Avignon vai poder existir ainda por 80 anos com este calor, com este clima, com a crise climática? O que vamos fazer para continuar vivendo festivais como Avignon, em meio ao calor provocado pelas mudanças climáticas? O que nos leva a nos fascinar, mesmo nós, artistas, pela questão do mal, pelos déspotas, pelos violentos? Que fascinação é essa pelo mal?”. A reflexão se estende ao tema do suicídio assistido: “Como pode a sociedade se organizar para acompanhar aqueles que decidem pôr fim à própria vida porque acham que a vida deve terminar – porque estão doentes, porque estão em sofrimento? Como podemos, socialmente, humanamente, mas também juridicamente, acompanhar essa decisão?”, questiona Rodrigues. As questões propostas por Christiane Jatahy e Wagner Moura também interpelam o festival. “Nesta sociedade da opinião pública rápida, que condena publicamente, qual é o lugar da justiça naquilo que são as nossas vidas? E como podemos participar dessa justiça e nos dar o tempo de reflexão que a justiça merece?”, sublinha o diretor. Leia tambémLia Rodrigues conduz jovens artistas em formação e amplia escuta pela diversidade em Avignon Primeiro estrangeiro a dirigir o Festival de Avignon, Tiago Rodrigues afirma que a história do evento impõe uma responsabilidade que não pode ser negociada. Ele lembra que o festival nasceu em 1947, no pós-guerra, criado por Jean Vilar e por antigos resistentes à ocupação nazista, e que essa origem define o presente. "O código genético deste festival, fundado em 1947 depois da Segunda Guerra Mundial por Jean Vilar, com ajuda de antigos resistentes contra a ocupação nazista. Seria uma traição à responsabilidade histórica deste festival e aos seus valores colaborar com a extrema direita. Esse é o meu entendimento, e é a minha responsabilidade tomar essa decisão enquanto diretor de um festival que é progressista, republicano, democrático e, portanto, nos dias de hoje, ecologista, feminista, antirracista, antifascista.” O Festival de Avignon segue em cartaz no sul da França até 25 de julho.

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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

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