Em Madrid, Kylian Mbappé concedeu uma entrevista exclusiva à redacção francesa da RFI. O jogador francês, que disputa a Bola de Ouro, reafirma o seu espírito competitivo, e projeta um futuro com Zinedine Zidane. Nesta entrevista traduzida para português, o capitão da selecção francesa fala da força das suas raízes argelinas e camaronesas e espera contar com o apoio do continente africano na sua corrida ao prémio Bola de Ouro. RFI : Kylian Mbappé. Bom dia. Kylian Mbappé: Bom dia. Bom dia. RFI : A Bola de Ouro é uma obsessão? Não, não, não. Acho que é um objectivo para qualquer jogador, penso que para qualquer competidor. Mas uma obsessão? Não, não penso que seja. RFI : Está numa campanha, considera que este ano pode ser o ano certo. Porquê? Porque tive um bom ano. Tive um grande ano a nível individual, sei que é o critério mais importante para a Bola de Ouro. Fui o melhor marcador em todas as grandes competições e penso que este pode ser um bom ano para mim e sinto-o. RFI : A competição nunca pareceu tão aberta. Sim, é o que se diz. Não sei. Não conheço toda a história da Bola de Ouro, mas é verdade que se fala muito de uma disputa aberta, por isso é agradável, é agradável ver, é agradável participar e penso que também diverte as pessoas. RFI : Ficaria desiludido se este não fosse o ano certo? É a nona vez. Claro, claro. Penso que, como disse, um competidor, quando não ganha, fica sempre desiludido. Portanto, a partir desse momento, penso que será mais a minha alma de competidor a ser afectada. Mas depois vamos ver como vai correr. RFI : Vemo-lo muito, ouvimo-lo muito, com declarações que lhe são próprias. Conhecemo-lo. "Fui sempre o escolhido. Não houve ninguém melhor do que eu na época passada". É o que diz. Sou eu. RFI : Compreende que isso possa talvez chocar algumas pessoas em França ou levá-las a dizer... Sim, claro, claro, claro. Depois, em França, há muitas coisas que chocam. Portanto, não tenho nenhum problema com isso. Nunca quis agradar a toda a gente, não sei o que isso é, não é possível. Mas eu não consigo ser outra pessoa, por isso não vou tentar aprender a ser outra pessoa. Tento ser eu próprio, com as minhas qualidades e os meus defeitos, com as minhas conquistas e os meus fracassos. E avanço assim. RFI : Voltemos à Bola de Ouro e à corrida pela Bola de Ouro. Estamos alguns meses depois do Campeonato do Mundo. Já digeriu este Campeonato do Mundo? Foi um sucesso individual perfeito, mas um pouco decepcionante a nível colectivo. Não diria que foi decepcionante. Porque, sabe, quando não ganhamos, ficamos sempre desiludidos. Mas penso que demos uma boa imagem do nosso país. Éramos uma equipa agradável de ver jogar e penso que as pessoas, os franceses, tiveram muito prazer em ver-nos jogar e penso que o mundo inteiro teve muito prazer em ver-nos jogar. Depois, só há uma equipa que ganha, é sempre assim. Tentámos dar o nosso melhor, mas não conseguimos. Desta vez, teremos de voltar a tentar a nossa sorte. RFI : A nível individual. Está no topo, à frente de Messi, e ainda tem, espero, mais um ou dois Campeonatos do Mundo pela frente. Não sei, mas... Mas é claro que é algo incrível ter essa sensação. É algo de que não me apercebi necessariamente, porque sabe, quando estamos no calor da acção, queremos simplesmente avançar para o próximo objectivo e jogar sempre o próximo jogo, marcar o próximo golo. Mas é verdade que, quando terminei e fui de férias, toda a gente só me falava disso, de ser o melhor marcador da história do Campeonato do Mundo. Percebe-se a importância que tem o Campeonato do Mundo enquanto competição! É a maior competição desportiva e marca as pessoas. RFI : E isso é importante na corrida pela Bola de Ouro. Evidentemente, é isso que é preciso destacar. Falava de competição, foi o melhor marcador, a Liga, a Liga dos Campeões... A Bola de Ouro é, para si, uma recompensa individual? Sim, penso que sim. Não sei quando é. É em outubro. Eles não vão anunciar uma equipa dentro do envelope. Vão anunciar um jogador. Portanto, penso que é um troféu individual e penso que é isso que deve prevalecer. Depois, claro, não se deve apagar tudo o resto, mas penso que a capacidade de ter um desempenho individual e de deslumbrar, é isso que marca as pessoas para um troféu como a Bola de Ouro. RFI : Então, também não se deve apagar Didier Deschamps, que esteve aqui durante quatro anos. Impossível. Impossível. RFI : Com um sucesso excepcional, grandes anos. Vai passar para outro selecionador, com um primeiro jogo contra a Turquia. É Zinédine Zidane. Está ansioso por reencontrar estes Bleus numa nova configuração? Claro, claro. Dar a César o que é de César. O que o Didier Deschamps fez na selecção francesa é incrível. Marcou a história. Voltou a colocar verdadeiramente a selecção francesa no lugar onde deve estar. Por isso, estaremos sempre gratos. Agora, é uma nova etapa, uma nova etapa com um novo treinador. Vamos ver como vai correr. E é sempre assim quando começa: é novo. Portanto, vamos ver, vamos ter de ganhar os nossos pontos de referência, mas depois vamos ser imediatamente postos à prova e vamos ter de voltar imediatamente a ganhar, porque é isso que as pessoas esperam de nós. RFI : Evidentemente, a selecção francesa é sempre esperada lá no topo. Vai agora ter Zinédine Zidane como seleccionador. Já falou com ele ou, para além de se terem cruzado, no âmbito destas novas funções? Não, vou esperar. Vou esperar para o ver em Clairefontaine. Penso que não há nada melhor do que vê-lo no castelo e falar realmente sobre aquilo que queremos. Estamos na mesma cidade, por isso já nos cruzámos várias vezes e já nos conhecíamos antes, mas estou mesmo à espera de chegar ao castelo para perceber realmente o que ele espera de nós enquanto equipa, o que espera de mim enquanto jogador, e depois veremos como vai correr RFI : Ele deixou um grande legado no Real Madrid. Ele deixou um grande legado em todo o lado. Mas sim, claro, faz parte dos grandes jogadores que passaram pelo Real Madrid e estamos muito contentes por ele ser francês e por ter transmitido aqui em Madrid essa imagem da França. RFI : Novo seleccionador e novo treinador. É um regresso com tudo novo para si? Tem José Mourinho aqui no Real. Também é uma personalidade que temos vontade de conhecer quando somos um jogador como o senhor. Sim, claro. É alguém que sempre quis ter como treinador. Sempre despertou a minha curiosidade. É um homem extremamente inteligente, que sabe muito bem o que tem de fazer. É um líder. E depois, como treinador, é um dos melhores treinadores da era moderna do futebol. Por isso, é sempre um prazer aprender e estar diariamente com pessoas desta dimensão. RFI : Está tudo bem, então. Sim, está tudo bem. Há coisas piores na vida. RFI : Falemos de África. Quais são os seus laços actualmente? Sabemos que a sua mãe é de origem argelina e o seu pai de origem camaronesa. É importante para si? É algo com que cresceu, com a sua educação, com as suas origens? São as minhas origens. Sempre tive uma educação com uma cultura africana, apesar de ter nascido em França e ter feito tudo em França. Nunca cortei a ligação às minhas raízes, às minhas origens. Penso que isso é importante porque, por um lado, também faz parte da pessoa que somos, dos valores que nos são transmitidos, e penso que isso é importante. Voltei aos Camarões há pouco tempo. Ia lá de três em três anos quando era pequeno. Foi realmente um momento fantástico. Passei um momento fantástico e, sempre que vou a África, sou sempre extremamente bem recebido. Sinto o carinho das pessoas e isso é realmente importante e muito gratificante, sentir o apoio de todo um continente desta forma. RFI : Vimo-lo também na CAN. Bom, aí estava com o seu amigo Achraf Hakimi. Mas fui ver a Costa do Marfim, os Camarões também. Um grande jogo. Foi em Marraquexe, mas eu gosto de ver os jogos e a CAN. Foi uma competição fantástica. Fiquei muito contente. Fui apoiar um amigo, claro, mas queria ver vários jogos. Penso que o nível hoje é excelente. É um nível muito elevado. Vemos as equipas. Também o vimos no Campeonato do Mundo. São equipas que olham todas as equipas nos olhos, olhos nos olhos. São agora das melhores equipas do mundo e penso que é um futebol que também gosto de ver. RFI : Eram dez as selecções africanas, pela primeira vez, no Campeonato do Mundo. Vamos voltar a falar, aliás, deste Campeonato do Mundo e do seu formato. Nove passaram a primeira fase, depois as coisas correram um pouco pior. Tivemos até uma declaração de Rudi Garcia, o treinador da Bélgica, que eliminou o Senegal, mais ou menos neste sentido: "Sim, sabemos como estas equipas jogam". O que pensa disso, destas caricaturas? Ou, para ser mais exacto, destes estereótipos? Penso que não é apenas em relação a África, é em todo o futebol. Toda a gente tem uma caricatura de toda a gente. Às vezes confirma-se, outras vezes não. Tudo o que sei é que, por ter jogado contra equipas africanas este verão e anteriormente, é muito difícil, é muito difícil. São equipas que são difíceis de contrariar e penso que ganharam muita confiança porque perceberam que podiam vencer qualquer pessoa. Por isso, jogam sem medo, sem receio. E, realmente, são equipas perigosas porque evoluíram muito, progrediram muito e hoje, para nós, é sempre um desafio jogar contra estas equipas. RFI : Que olhar tem sobre os jogadores binacionais? Vimos Ayoub Bouadi escolher Marrocos. Ibrahim Beye, com quem provavelmente se cruzou no PSG. Optou pelo Senegal. Tem um irmão que poderá vir a jogar pelos sub-21, que está no Lille. Talvez um dia possa escolher jogar pela Argélia ou pelos Camarões. Qual é a sua opinião, a sua posição? É pessoal, é algo muit