Bonga é um dos nomes maiores da música angolana reconhecido em palcos de todo o mundo e uma referência da cultura de Angola. Com mais de meio século de percurso artístico, Bonga começou por ganhar projecção com o primeiro trabalho discográfico Angola 72, editado no exílio, em Roterdão, após fugir da ditadura em Portugal. Se 1972 é o ano de nascimento de Bonga Kuenda, enquanto artista, Angola 72 é um marco na carreira de Bonga, na música de Angola, na resistência contra o fascismo e colonialismo, na luta pela liberdade e independência de Angola. Da mesma forma que usou a voz e o génio musical como simbolo de unidade de um povo contra o colono, Bonga não se deixou silenciar após independência e não poupa críticas a todos os dirigentes angolanos que ao longo dos anos têm deixado o povo angolano em sofrimento. Agora, com 83 anos e pai de um casal de gémeos, o artista que nasceu José Adelino Barceló de Carvalho, e trocou Luanda por Lisboa para, com a camisola do Benfica, ser atleta de alta competição e conquistar o título de campeão dos 400 metros, continua a subir ao palco e, tal como vimos do Festival MED, em Loulé, entregar as mensagens que a realidade impõe, sempre com um ritmo frenético que faz vibrar multidões. Bonga falou com a RFI antes de subir ao palco principal do Festival MED. Na entrevista, onde, entre outros temas, nos fala das primeiras experiências como músico em companhia do pai, da vinda para Portugal, da fuga para Roterdão, do primeiro disco, das resistências políticas, do 27 de maio de 1977, do sofrimento do povo angolano, Bonga começa por nos revelar o que o motiva a usar a música para enviar recados aos dirigentes de Angola. Bonga Kuenda: É a vivência que nós temos com as coisas mais evoluídas do planeta, a democracia, a liberdade, a amizade, na verdade, o aconchego, a família. Tudo isso faz com que eu já seja um responsável dessas lides de há muito tempo esta parte. Continu-o a ser, porque resultou, resulta, e de que maneira, não é verdade? E é sempre agradável, é sempre agradável, eu já faço disso um ritual, desejado por todas as pessoas, nacionais e estrangeiras, seja qual for o país. É muito bonito, é bom, é óptimo, e a gente se sente como o peixe na água, não se afoga. Bonga, 50 anos de independência de Angola. Olhando para trás e para o seu país, como é que sente a Angola de hoje? É o lado triste que nós temos, que tentamos, através da música, através da poesia, através da vivência que temos com as pessoas, diminuir um pouco esta carga negativa que representou e que representa ainda, quer dizer, as más direcções. Não é verdade? Enfim, uma situação complicada, mas não foram só os angolanos que sofreram com isso, foram os angolanos, foram os estrangeiros nossos amigos, e não são poucos. Não quero falar daqueles que só lucram com a Angola, quero falar sobretudo das pessoas que nos aconselham também, e que estão connosco, e que nos desejam coisas maravilhosas e que participam também, enfim, e dão-nos ajudas, ajudas àquele povo que ficou como ficou, como está. Eu estou ao corrente de tudo isso, por essa razão me manifesto. Na verdade, gostaria que fosse melhor. Sinceramente, nunca ninguém pensou que Angola ia ficar como está ficando. Isto é inquietante e complicado porque leva tempo a mudar para melhor, e como leva tempo a melhorar, enquanto isso, como se diz na brincadeira, enquanto o lobo não vem, o que é que o lobo está a fazer? E o lobo está ali e já fez, já fez muitas coisas que não deviam ter sido feitas. pela negativa. Por isso é que o povo sofreu, sofre, e continua a desejar que melhores dias venham. Nós músicos, artistas, enfim, estamos aí a dar o nosso contributo, com as cantigas. De um lado a informar, e do outro lado a tornar leve o sofrimento do quotidiano daquele grande povo a que pertencemos. Mas, quer dizer, dizendo de Angola, a gente fala dos outros sítios. É o aspecto humano que está em causa, nós somos humanistas e, como tal, quantas vezes não tivemos que participar em outras cenas do mesmo teor negativo e dar a nossa solidariedade. E estamos sempre prontos. O que é que o fez mudar para Portugal? Como é que foi a vinda para Portugal? Bem, ainda era jovenzinho, o pai tocava uma concertina em casa, e eu, dos nove irmãos que éramos, eu é que o acompanhava com aquilo que chamam o reco-reco, nós chamamos-a de dikanza, num estilo musical que era a rebita, que é uma música que existe, e eu é que acompanhava. Portanto, a música já começa aí. Depois havia as turmas dos bairros, os bairros típicos da cidade de Luanda, onde a gente convivia, e a partir daí a gente fazia música, mas eu não cantava, quem cantava eram os outros. Porque comecei a cantar na igreja e o padre proibiu-me porque era uma voz rouca. Eu, se fosse daqueles de me frustrar, seria frustrado e nunca haveria o Bonga na música. O que é certo é que eu dei continuidade e hoje sou o que sou graças à persistência, na verdade. Mas foi exactamente com a música, com o meu pai, em casa, porque ele tocava só em casa, só em casa mesmo, nas festividades, nas almoçaradas e tudo mais com a família, e eu acompanhava com aquele reco-reco ali, aquela dikanza, acompanhava o cota ali a tocar, e tudo bem. Só depois, claro, é que aparece o desporto. Mas o desporto também começa em Angola, as corridas, não é ? Dei-me conta que era um grande velocista, e a partir daí nunca mais parei, tanto que o Sport Lisboa e Benfica, foi-me buscar a Angola, e trouxe-me para Portugal assumindo a responsabilidade de tudo. Os velhos ficaram contentes, primeiro porque o meu pai é do Benfica, disse-me: "Vai, sim senhora, vai, não ficas aqui a fazer nada, vai-te embora." E vim, pois posto aqui, claro que o clima não era o mesmo de Angola. Em Angola, a vivência, a solidariedade, a harmonia, a música, a vizinhança e não sei o quê, completamente diferente daquilo que havia aqui, tanto que eu no dia seguinte queria me ir embora. Eu disse assim: "É pá! Espera aí! Mas as pessoas na rua não se falam, pá? Isso é complicado, pá! Como é que vai ser, pá?" Depois, aqui há poucos indivíduos e tal, que se prezam uns com os outros, e depois não há os contactos de famílias com famílias e tudo mais, é cada qual por si, Deus para todos. Não posso viver assim ! Pois, tive que me adaptar e a adaptação foi muito rígida, foi complicada. E depois treinar todos os dias. Aquele treino de todos os dias, … opá! Aquilo complicou-me um bocadinho, quer faça chuva, quer faça calor. Aquilo era treinar debaixo de chuva, treinar debaixo do granizo, frio. Epá! A adaptação foi complicada, mas a força de vontade valeu muito mais e deu-me incentivo. E, olha, bati o recorde do Portugal dos 4 por 400, os 200 metros, quer dizer, era o campeão. Depois fui a Espanha, bater o recorde de Portugal dos 400. Havia uma rivalidade tremenda entre Portugal e Espanha, era um caso sério. Depois dei-me conta que a amizade entre os atletas era algo muito importante, e aquilo contribuiu para a minha estabilidade em Portugal, de outra forma tinha sido complicado. O Bonga veio para Portugal com que idade? 23 anos. Na altura, quando veio para Portugal, Portugal ainda vivia em ditadura. Como é que foi viver esse período? Teve situações complicadas? Sim, claro. Então, eu sendo amigo do Zeca Afonso, do Adriano Corrêa de Oliveira e muitos outros que se ocupavam com a música de intervenção. Nós íamos tocar com esta gente toda, maravilhosa, consciente. Eu assisti, presenciei, tomei parte de algumas manifestações na altura, mas eu era o Barceló de Carvalho, conhecido, amigo do Eusébio, daquele pessoal todo da bola, os desportistas. Aliás, quando se juntavam com os estudantes, com os funcionários públicos, era bastante bom, a nossa vivência. A convivência era fantástica, mas a gente apercebia-se de muita coisa, de muita miséria que acontecia aqui, e ninguém gostava daquilo, a gente repudiava, como é natural. Mas começámos também a ter contactos, os nossos contactos. São esses contactos que me fazem sair de Portugal, porque tinha ligações com outros indivíduos que estudavam em outros sítios e participavam com os movimentos de libertação das Áfricas. Aliás, foi nessa contingência que eu zarpei, dei o salto. Como é que se passou esse processo? Olha, isso foi assim, eu trabalhava com um núcleo que vinha constantemente a Portugal, e, nesse constantemente, a gente se encontrava, passavam-se mensagens, redobravam-se mensagens, recados e tudo mais. Porque não podia ser às claras, porque a PIDE daquele tempo, ai, ai, ai, Jesus ! Enfim, mas faziam, quer dizer, era igual na maneira do tratamento que tinham os daqui como os lá. O que é certo é que, quando me deram o recado que os meus amigos já estavam presos, quase todos, eu pensei para comigo, só falto eu ! Só não fui ainda, porque, de facto, estou no Benfica, ainda sou preciso, sou conhecido. Enquanto eles se distraíram com isso aí, naquela de vai, não vai, eu zarpei. Quer dizer, passei ali pelo aeroporto, ainda me perguntaram: Barceló, e não sei o quê? "Sim, vou comprar discos à Holanda, volto já." Isso é que era bom! Fiz o manguito com a mão fechada, já no avião, lá em cima, porque o avião não ia voltar, e pronto, foi assim a minha saída. Tempestiva mas benéfica, na medida em que fui para outra actividade, na clandestinidade, efectivamente, e daí nasceu o Bonga, o Bonga Kuenda nasceu. Eu já tinha um contacto, era Roterdão, mesmo. Estávamos em que ano? Em 1972. Foi nesse ano exactamente que se dá a fuga, e nesse ano mesmo eu realizo o tal disco com os cabo-verdianos, Djunga de Biluca da Morabeza Records, fantástico! Mas, quando a gente acabou de gravar o Angola 72, eu disse para o meu amigo Djunga de Biluca, que era o proprietá