Reportagem

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  1. 6d ago

    Guiné-Bissau: Campanha de castanha de caju supera expectativas

    A campanha de comercialização de caju de 2026 está a superar as expectativas iniciais. Segundo o Director-Geral do Comércio Externo da Guiné-Bissau, Lassana Fati, apesar de um início pessimista devido às alterações climáticas, a campanha decorreu globalmente bem. Além da tradicional liderança do mercado indiano, o país abriu portas para a China que deve importar cerca de 20 mil toneladas este ano e para o Vietname. A Guiné-Bissau consolida-se como o 4.º maior produtor em África de castanha de caju e mantém a ambição de reforçar a transformação local nos próximos anos. Lassana Fati, Director Geral do Comércio Externo, adianta que na campanha de 2026, o preço ao produtor subiu para 650 francos CFA por quilo na capital, e os contratos FOB atingiram o valor de 1500 dólares por cada tonelada à exporter. Praticamente já não há stock no interior do país. Relativamente à campanha 2026, dados iniciais eram de pessimismo, para ser sincero. No início tivemos problema sério em termos de dados de produção, mas pronto, no meio do caminho constatamos de que não é tão mau, porque devido à mudança climática que afectou algumas regiões do país, felizmente a zona leste teve mais sorte esse ano. Conseguimos uma quantidade considerável, falando em termos globais daquilo que o país produziu e escoou para Bissau, estamos a falar de 235 mil toneladas. E até nesse momento já exportámos quase 210 mil toneladas. Isso demonstra claramente que vamos ultrapassar os números de ano passado. No ano passado conseguimos exportar 210 mil toneladas, até nesse momento, no mês de agosto, já estamos com quase a mesma média do ano passado. E relativamente ao preço ao produtor, houve uma subida considerável, porque o preço de referência era de 410 (francos CFA) por tonelada, ou seja, por quilo, e já estamos a comercializar aqui em Bissau com um preço muito elevado de 650 (francos CFA) por cada quilograma. Isso demonstra que, se comparamos com o ano passado, onde o preço médio era de 500 francos, esse ano estamos com um preço médio de 525 francos por cada quilograma. E em termos de preço FOB que é (o preço de) exportação, há melhoria considerável em termos de contratos que foram assinados, estamos a falar de 1400 dólares a 1500 dólares FOB Bissau, isso demonstra que os exportadores também conseguiram assinar bons contratos e, em termos globais, podemos dizer que estamos a ter uma campanha em crescimento. Se comparamos os últimos 4 anos, o país conseguiu realizar campanhas positivas em termos de comercialização e exportação da castanha de caju. Ainda há castanha no interior da Guiné-Bissau? Não, não, não. Pelos dados que dispomos das nossas delegações regionais, estamos a falar de menos de mil toneladas que podem estar em diferentes zonas do país, mas devido ao preço que está a ser aplicado nesse momento, não há condições para manter a castanha no interior do país. Penso que há pouca quantidade da castanha a nível interior. O caju vai essencialmente para a Índia, mas o governo tem tentado nos últimos anos abrir novos mercados. Conseguiu? Sim, conseguimos abrir o mercado chinês, devido à essa tarifa zero que está a ser aplicada pelo governo chinês, há uma solicitação considerável dos empresários chineses. Também temos o mercado do Vietname que, devido à facilidade que foi criada pelo governo norte-americano este ano, há vários compradores que vieram também do Vietname. A Índia mantém-se como principal mercado de exportação da nossa castanha. A China vai comprar alguma quantidade considerável? Tem ideia de quanta quantidade?   Sim, penso que cerca de 20 mil toneladas vai para a China ainda nesse ano 2026. O governo sempre tem tentado a transformação local. Como é que está esse processo? Está num bom caminho, acabamos de visitar o CPA, que é um centro de produção agrícola, que está na zona industrial de Bra, onde são embaladas castanhas já transformadas a nível nacional. Há um projecto em curso de transformação de cerca de 30 mil toneladas que eu penso que daqui a dois anos vai ser uma realidade. Há também um financiamento de parte do Banco Africano para o Desenvolvimento, que financiou uma empresa local que está a tentar transformar cerca de 5 mil toneladas. Isso demonstra que há uma dinâmica... E esse ano vai ser difícil 5 mil toneladas, mas penso que vão fazer 2 a 3 mil toneladas. Há uma dinâmica interessante nesse sentido, penso que uma cooperação também que pretendemos assinar com o governo ivoiriense, neste caso com a Costa do Marfim, no sentido de apoiar tecnicamente e financeiramente as empresas nacionais no sentido de transformar uma quantidade considerável. Já está prevista uma visita oficial do ministro (do Comércio) à Costa do Marfim no sentido de tentar explorar o mercado ivoiriense em termos de nova tecnologia, em termos de financiamento, para ver como dar um novo impulso ao setor de transformação local da nossa castanha. Em termos de resultados monetários para o país, quanto é que o país poderá arrecadar este ano com a campanha de caju? É difícil dizer os números com exatidão, mas penso que cerca de 300 a 400 milhões de dólares conseguimos ter ao longo desse processo de comercialização e exportação da castanha de caju, mas o relatório final da campanha vai revelar os números reais que circularam ao longo desse processo. A Guiné-Bissau situa-se entre os principais produtores do caju. Em que lugar é que estamos neste momento? Eu continuo a defender que estamos em quarta posição a nível do continente africano, depois da Costa do Marfim, Tanzânia, Moçambique, de seguida vem a Guiné-Bissau. Mas pronto, são dados que ainda carecem de confirmação, mas da nossa parte estamos seguros de que o país continua a ter castanha de grande quantidade e também em termos de qualidade, penso que somos o número um a nível do mundo. Como é que ocorreu este ano a questão de transbordo da castanha de caju na fronteira? Felizmente que este ano conseguimos fazer um trabalho extraordinário, porque em termos de Conselho de ministros houve decisões que foram tomadas, que foram cumpridas. Estou a falar de uma comissão interministerial que engloba o Ministério do Comércio, o Ministério do Interior, Defesa, toda essa corporação foram implicadas nesse processo, também houve um recrutamento considerável dos fiscais, ainda inspetores do Ministério do Comércio, isso facilitou em certa medida um controlo da nossa zona transfronteiriça. E também há sanções pesadas que foram aplicadas, tudo isso diminuiu de certa forma o contrabando. Este ano posso afirmar de que o país, o governo teve controlo, não a 100%, mas de 90 a 95% daquilo que é o território nacional em termos de contrabando da castanha de caju. A Guiné-Bissau tem capacidade para produzir quanta quantidade de caju? Estamos a falar de cerca de 300 mil toneladas de castanha de caju que o país consegue produzir, se fomos ver aquilo que é consumir a nível interno, transformar, exportar e também a quantidade que devido a nossa fragilidade em termos da linha fronteiriça que são contrabandadas, mas penso que o país consegue produzir 300 mil toneladas.

  2. Aug 27

    Angola/Portugal: Bonga: “É preciso intervir!”

    Bonga é um dos nomes maiores da música angolana reconhecido em palcos de todo o mundo e uma referência da cultura de Angola. Com mais de meio século de percurso artístico, Bonga começou por ganhar projecção com o primeiro trabalho discográfico Angola 72, editado no exílio, em Roterdão, após fugir da ditadura em Portugal. Se 1972 é o ano de nascimento de Bonga Kuenda, enquanto artista, Angola 72 é um marco na carreira de Bonga, na música de Angola, na resistência contra o fascismo e colonialismo, na luta pela liberdade e independência de Angola. Da mesma forma que usou a voz e o génio musical como simbolo de unidade de um povo contra o colono, Bonga não se deixou silenciar após independência e não poupa críticas a todos os dirigentes angolanos que ao longo dos anos têm deixado o povo angolano em sofrimento. Agora, com 83 anos e pai de um casal de gémeos, o artista que nasceu José Adelino Barceló de Carvalho, e trocou Luanda por Lisboa para, com a camisola do Benfica, ser atleta de alta competição e conquistar o título de campeão dos 400 metros, continua a subir ao palco e, tal como vimos do Festival MED, em Loulé, entregar as mensagens que a realidade impõe, sempre com um ritmo frenético que faz vibrar multidões. Bonga falou com a RFI antes de subir ao palco principal do Festival MED. Na entrevista, onde, entre outros temas, nos fala das primeiras experiências como músico em companhia do pai, da vinda para Portugal, da fuga para Roterdão, do primeiro disco, das resistências políticas, do 27 de maio de 1977, do sofrimento do povo angolano, Bonga começa por nos revelar o que o motiva a usar a música para enviar recados aos dirigentes de Angola. Bonga Kuenda:   É a vivência que nós temos com as coisas mais evoluídas do planeta, a democracia, a liberdade, a amizade, na verdade, o aconchego, a família. Tudo isso faz com que eu já seja um responsável dessas lides de há muito tempo esta parte. Continu-o a ser, porque resultou, resulta, e de que maneira, não é verdade? E é sempre agradável, é sempre agradável, eu já faço disso um ritual, desejado por todas as pessoas, nacionais e estrangeiras, seja qual for o país. É muito bonito, é bom, é óptimo, e a gente se sente como o peixe na água, não se afoga.   Bonga, 50 anos de independência de Angola. Olhando para trás e para o seu país, como é que sente a  Angola de hoje?   É o lado triste que nós temos, que tentamos, através da música, através da poesia, através da vivência que temos com as pessoas, diminuir um pouco esta carga negativa que representou e que representa ainda, quer dizer, as más direcções. Não é verdade? Enfim, uma situação complicada, mas não foram só os angolanos que sofreram com isso, foram os angolanos, foram os estrangeiros nossos amigos, e não são poucos. Não quero falar daqueles que só lucram com a Angola, quero falar sobretudo das pessoas que nos aconselham também, e que estão connosco, e que nos desejam coisas maravilhosas e que participam também, enfim, e dão-nos ajudas, ajudas àquele povo que ficou como ficou, como está. Eu estou ao corrente de tudo isso, por essa razão me manifesto. Na verdade, gostaria que fosse melhor. Sinceramente, nunca ninguém pensou que Angola ia ficar como está ficando. Isto é inquietante e complicado porque leva tempo a mudar para melhor, e como leva tempo a melhorar, enquanto isso, como se diz na brincadeira, enquanto o lobo não vem, o que é que o lobo está a fazer? E o lobo está ali e já fez, já fez muitas coisas que não deviam ter sido feitas. pela negativa. Por isso é que o povo sofreu, sofre, e continua a desejar que melhores dias venham. Nós músicos, artistas, enfim, estamos aí a dar o nosso contributo, com as cantigas. De um lado a informar, e do outro lado a tornar leve o sofrimento do quotidiano daquele grande povo a que pertencemos. Mas, quer dizer, dizendo de Angola, a gente fala dos outros sítios. É o aspecto humano que está em causa, nós somos humanistas e, como tal, quantas vezes não tivemos que participar em outras cenas do mesmo teor negativo e dar a nossa solidariedade. E estamos sempre prontos.   O que é que o fez mudar para Portugal? Como é que foi a vinda para Portugal?   Bem, ainda era jovenzinho, o pai tocava uma concertina em casa, e eu, dos nove irmãos que éramos, eu é que o acompanhava com aquilo que chamam o reco-reco, nós chamamos-a de dikanza, num estilo musical que era a rebita, que é uma música que existe, e eu é que acompanhava. Portanto, a música já começa aí. Depois havia as turmas dos bairros, os bairros típicos da cidade de Luanda, onde a gente convivia, e a partir daí a gente fazia música, mas eu não cantava, quem cantava eram os outros. Porque comecei a cantar na igreja e o padre proibiu-me porque era uma voz rouca. Eu, se fosse daqueles de me frustrar, seria frustrado e nunca haveria o Bonga na música. O que é certo é que eu dei continuidade e hoje sou o que sou graças à persistência, na verdade. Mas foi exactamente com a música, com o meu pai, em casa, porque ele tocava só em casa, só em casa mesmo, nas festividades, nas almoçaradas e tudo mais com a família, e eu acompanhava com aquele reco-reco ali, aquela dikanza, acompanhava o cota ali a tocar, e tudo bem. Só depois, claro,  é que aparece o desporto. Mas o desporto também começa em Angola, as corridas, não é ? Dei-me conta que era um grande velocista, e a partir daí nunca mais parei, tanto que o Sport Lisboa e Benfica, foi-me buscar a Angola, e trouxe-me para Portugal assumindo a responsabilidade de tudo. Os velhos ficaram contentes, primeiro porque o meu pai é do Benfica, disse-me: "Vai, sim senhora, vai, não ficas aqui a fazer nada, vai-te embora." E vim, pois posto aqui, claro que o clima não era o mesmo de Angola. Em Angola, a vivência, a solidariedade, a harmonia, a música, a vizinhança e não sei o quê, completamente diferente daquilo que havia aqui, tanto que eu no dia seguinte queria me ir embora. Eu disse assim: "É pá! Espera aí! Mas as pessoas na rua não se falam, pá? Isso é complicado, pá! Como é que vai ser, pá?" Depois, aqui há poucos indivíduos e tal, que se prezam uns com os outros, e depois não há os contactos de famílias com famílias e tudo mais, é cada qual por si, Deus para todos. Não posso viver assim ! Pois, tive que me adaptar e a adaptação foi muito rígida, foi complicada. E depois treinar todos os dias. Aquele treino de todos os dias, … opá! Aquilo complicou-me um bocadinho, quer faça chuva, quer faça calor. Aquilo era treinar debaixo de chuva, treinar debaixo do granizo, frio. Epá! A adaptação foi complicada, mas a força de vontade valeu muito mais e deu-me incentivo. E, olha, bati o recorde do Portugal dos 4 por 400, os 200 metros, quer dizer, era o campeão. Depois fui a Espanha, bater o recorde de Portugal dos 400. Havia uma rivalidade tremenda entre Portugal e Espanha, era um caso sério. Depois dei-me conta que a amizade entre os atletas era algo muito importante, e aquilo contribuiu para a minha estabilidade em Portugal, de outra forma tinha sido complicado.   O Bonga veio para Portugal com que idade? 23 anos.   Na altura, quando veio para Portugal, Portugal ainda vivia em ditadura. Como é que foi viver esse período? Teve situações complicadas?   Sim, claro. Então, eu sendo amigo do Zeca Afonso, do Adriano Corrêa de Oliveira e muitos outros que se ocupavam com a música de intervenção. Nós íamos tocar com esta gente toda, maravilhosa, consciente. Eu assisti, presenciei, tomei parte de algumas manifestações na altura, mas eu era o Barceló de Carvalho, conhecido, amigo do Eusébio, daquele pessoal todo da bola, os desportistas. Aliás, quando se juntavam com os estudantes, com os funcionários públicos, era bastante bom, a nossa vivência. A convivência era fantástica, mas a gente apercebia-se de muita coisa, de muita miséria que acontecia aqui, e ninguém gostava daquilo, a gente repudiava, como é natural. Mas começámos também a ter contactos, os nossos contactos. São esses contactos que me fazem sair de Portugal, porque tinha ligações com outros indivíduos que estudavam em outros sítios e participavam com os movimentos de libertação das Áfricas. Aliás, foi nessa contingência que eu zarpei, dei o salto.   Como é que se passou esse processo?   Olha, isso foi assim, eu trabalhava com um núcleo que vinha constantemente a Portugal, e, nesse constantemente, a gente se encontrava, passavam-se mensagens, redobravam-se mensagens, recados e tudo mais. Porque não podia ser às claras, porque a PIDE daquele tempo, ai, ai, ai, Jesus ! Enfim, mas faziam, quer dizer, era igual na maneira do tratamento que tinham os daqui como os lá. O que é certo é que, quando me deram o recado que os meus amigos já estavam presos, quase todos, eu pensei para comigo, só falto eu ! Só não fui ainda, porque, de facto, estou no Benfica, ainda sou preciso, sou conhecido. Enquanto eles se distraíram com isso aí, naquela de vai, não vai, eu zarpei. Quer dizer, passei ali pelo aeroporto, ainda me perguntaram: Barceló, e não sei o quê? "Sim, vou comprar discos à Holanda, volto já." Isso é que era bom! Fiz o manguito com a mão fechada, já no avião, lá em cima, porque o avião não ia voltar, e pronto, foi assim a minha saída. Tempestiva mas benéfica, na medida em que fui para outra actividade, na clandestinidade, efectivamente, e daí nasceu o Bonga, o Bonga Kuenda nasceu. Eu já tinha um contacto, era Roterdão, mesmo.   Estávamos em que ano?   Em 1972. Foi nesse ano exactamente que se dá a fuga, e nesse ano mesmo eu realizo o tal disco com os cabo-verdianos, Djunga de Biluca da Morabeza Records, fantástico! Mas, quando a gente acabou de gravar o Angola 72, eu disse para o meu amigo Djunga de Biluca, que era o proprietá

  3. Aug 21

    Guiné-Bissau: Governo determinado na redução do preço do pescado

    No passado mês de Abril, o governo de transição na Guiné-Bissau e os operadores rubricaram um acordo para baixar o preço do pescado, mas a implementação nos mercados está a gerar debates intensos entre fiscais, pescadores e as "bideiras" (revendedoras). Para aliviar o custo de vida da população, o Executivo liderado pelo Primeiro-Ministro Ilídio Vieira Té implementou um pacote de medidas extraordinárias. O objectivo é fazer com que o peixe chegue de forma acessível às mesas de famílias guineenses em Bafatá, Biombo, Gabu e em todo o território nacional. O acordo para a baixa do preço existe, mas o Director-Geral de Portos de Pesca da Guiné-Bissau, Fidelis Biombo Cá, diz que tem havido alguma resistência para a sua implementação. O responsável explicou à RFI que desde Dezembro de 2025 que o Governo de transição tem tentado alcançar um entendimento com os actores da fileira, tendo reduzido taxas como licença de navegação, licença de pesca artesanal, custo do combustível de pesca e ainda o preço do gelo de conservação do pescado.   Houve uma redução drástica no que concerne ao preço das licenças das pescas, assim como na licença de circulação ou de navegação através do Instituto Marítimo. Houve a coparticipação ou subvencionamento no que concerne à aquisição do combustível junto do Petromar (empresa privada que importa e distribui combustíveis na Guiné-Bissau). Nós negociámos directamente, como é óbvio, as fábricas de gelo que aqui temos, são privadas. O governo negociou directamente com os proprietários dessas fábricas e esses, por sua vez, reduziram o preço do gelo, que era de 2.500 francos CFA, para 1.250 francos CFA. E para além dessas reduções, foi dado um período moratória, ou seja, um período a partir do mês de janeiro até abril, de 4 meses, os pescadores pescaram sem pagar nem sequer um franco CFA. Depois de serem atendidas essas preocupações, o governo chamou de novo esses actores intervenientes no sector das pescas, nesse caso, a Associação dos Pescadores e a Associação das Mulheres Bideras e Transformadoras do Pescado, e em conjunto, solicitaram-nos no sentido de apresentarem uma proposta formal do precário dos pescados. E eles, sendo pessoas de bem, fizeram a questão de apresentar uma proposta e nós discutimos isso. E no dia 9 de abril, foi assinado um memorando de entendimento entre a Associação dos Pescadores e a Associação das Mulheres Bideras e representado pelo governo, representado nessa cerimónia através da Ministra das Pescas e Economia Marítima. Bom, depois de serem assinados esses acordos, como é óbvio, o acordo é para cumprir, tendo em conta aquilo que dissemos, "pacta sunt servanda". Quando é acordo, é para cumprir. A partir daí, foi criado uma comissão conjunta de fiscalização da exequibilidade do preço estipulado não pelo governo, ou estipulado pelo governo, mas proposto pela Associação dos Pescadores e a Associação das Mulheres. E nessa comissão foi dado o mandato de seguir o precário, e levantar as questões que posteriormente possam surgir como obstáculo à implementação desse precário. A partir daí, ao longo desse período, nós internamente criamos uma comissão, foi instituída uma comissão de fiscalização do preço. E essa comissão, na sua primeira actividade, fez uma apreensão de 350 quilos de peixe, aqui no mercado, porque nessa primeira fase é só para os mercados do centro da cidade. A segunda fase será alargada para todo o território nacional. Bom, depois marcámos um encontro, convocámos um encontro com as associações dos pescadores e das mulheres, para podermos fazer um balanço em conjunto, da qual foi levantado as questões de que, se calhar tem a ver com questões do desconhecimento da existência do memorando. Bom, nós aqui alegámos que, na verdade, a pessoa não pode ser, ou seja, a pessoa não pode andar na impunidade, alegando que desconhece a existência de uma norma, porque normalmente quem deve procurar saber se existe ou não uma norma é o interessado, nesse caso, as bideras e os pescadores. Ora, estando no incumprimento, nós, como autoridade, temos que actuar como autoridade. Porque, na verdade, nós não podemos fazer com que o Estado fique de joelhos.   De acordo com o Director-Geral de Portos de Pesca da Guiné-Bissau, a redução nos preços finais ao consumidor, de certas espécies do pescado, ronda os 30% a 40%. O Estado da Guiné-Bissau actualmente perde mensalmente quase 4 biliões de francos CFA. E esses 4 biliões devem-se reflectir diretamente na vida quotidiana do seu povo. Agora, como é que pode reflectir? Perdendo isso com essas isenções, isso quer dizer que, com essas isenções, com essas percas, esse valor de 4 biliões deve refletir no preço do pescado, para que, efectivamente, um cidadão de Tchokmon, um cidadão de Bafatá, um cidadão de Biombo, um cidadão de Gabu esteja em condições de poder comprar, pelo menos, 1 quilo de peixe para o seu agregado familiar. Isto é o propósito dessa isenção do parte do governo. Ora, se essas isenções não estão a refletir na vida quotidiana do povo da Guiné-Bissau, como dono do peixe, com certeza que o governo deverá tomar as suas medidas. Desde o início das operações de fiscalização dos mercados de revenda do peixe em Bissau, as autoridades já apreenderam mais de 1500 quilos de peixe fresco. O Director Geral dos Portos de Pesca Artesanal diz que a fiscalização vai continuar em Bissau e será brevemente alargada para os mercados do interior do país. Foi dada uma ordem expressa de que o Estado não pode estar a perder quase 4 biliões mensais sem que tenha reflexo na vida quotidiana do seu povo. E se assim for, temos a ordem de que quem estiver no incumprimento dos preços estipulados na tabela pelo governo, essa pessoa deve ser expulsa do mercado e apreendido o seu pescado. Foi o que aconteceu, e foram destacadas as forças de defesa e segurança para todos os mercados do centro da cidade. Logo, na primeira apreensão, como tinha dito, houve apreensão de 350 quilos, isso quando? Ah, porque a operação começou logo no primeiro dia deste mês, dia 1 deste mês. E no segundo dia, houve apreensão de 794 quilos de peixe (peixe fresco, estou a dizer peixe fresco). Terceira apreensão, 82 quilos; quarta apreensão, 151 quilos e na quinta apreende, 22 quilos. E de lá para cá, não houve mais apreensão. Isso quer dizer que as pessoas estão a cumprir paulatinamente, de acordo com os preços estipulados pelo governo. A Associação dos Pescadores Artesanais reconhece o esforço inédito do governo. Adulai Leny, presidente da associação, diz que é a primeira vez que um governo da Guiné-Bissau toma medidas concretas para baixar o preço do pescado ao consumidor.   Apesar dos desafios, todos os pescadores a nível nacional reconhecem este governo por ser o primeiro a tomar medidas concretas para reduzir o preço do pescado no país. Nós também temos de colaborar. O governo perguntou-nos até quanto podíamos reduzir no preço do pescado, uma vez que somos nós que trabalhamos para trazê-lo ao mercado nacional. Em certas espécies, das mais consumidas no país, reduzimos o preço até 42%, permitindo que a bidera (revendedora) acrescente a sua margem para alcançar um lucro de 500 francos CFA. Foi com base nestes termos que assinámos o memorando de entendimento no dia 9 de abril para ser cumprido. Por ser um processo novo no sector da Guiné-Bissau, e podemos dizer que até a nível mundial, é um exercício difícil e é natural que haja resistência por parte daqueles que não querem que a medida vingue. Costumamos reunir os nossos associados antes de qualquer decisão para passar a mensagem correta, e já realizamos várias reuniões para debater esta resistência e informar os pescadores sobre o que está a acontecer no sector.   Foi decretada a redução do preço do pescado, sim, mas a grande dor de cabeça para os pescadores artesanais continua a ser o uso das redes de monofilamento, conhecidas localmente como "tchaas". Embora a sua utilização seja proibida e alvo de multas, os pescadores questionam o porquê de o material continuar a entrar livremente no país pelas fronteiras e a ser comercializado com a autorização da Alfândega. As multas pelo uso dessa rede também acabam por impactar o preço do peixe ao consumidor, diz Adulai Leny:   Há dez anos que enfrentamos este estrangulamento. O governo exige que pesquemos com outras redes, mas não existem alternativas disponíveis no mercado guineense. A própria rede de monofilamento que proíbem entra no país pela fronteira, passa pela Alfândega e a sua venda é autorizada no mercado. No entanto, quando o pescador utiliza essa mesma rede, a fiscalização apreende-a. O primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té, ao ser informado sobre a situação, disse que isso não podia continuar, visto que é o próprio Estado que autoriza a entrada dessa rede no mercado.   E nos mercados de peixe, como está a vivência diária das mulheres bideiras, o elo final que faz a ponte entre o mar e a panela do cidadão? Fenda Turé, vendedora de pescado no movimentado Porto de Pesca de Bandim, nos subúrbios de Bissau, disse à RFI que a baixa de preços do pescado decretada pelo governo não abrange todos os segmentos da pesca artesanal. Fenda Turé reconhece, contudo, que o preço do peixe é alto nos mercados do país. Sabemos que o preço do peixe é elevado, mas o peixe é o produto mais consumido aqui na Guiné-Bissau. Contudo, o peixe mais consumido, que é o pescado com anzol, não foi contemplado nesta baixa de preços. O peixe capturado com rede é consumido, sim, mas deteriora-se rapidamente: se não for consumido dentro de 24 a 48 horas, estraga-se. O que a população mais consome é, de facto, o peixe de anzol. Além disso, esta facilidade

  4. Aug 20

    Marcelo Evelin e a coreografia da revolução por um Novo Mundo

    Andorinha Só Não Faz a Primavera é o espectáculo que marcou o final do PACAP 9 , um programa avançado de criação em artes performáticas do Fórum Dança de Lisboa. A edição de 2026 teve a curadoria do coreógrafo e investigador Marcelo Evelin que, com a colaboração de Bruno Moreno, seleccionou um conjunto de artistas para fazerem intervenções, trazerem as suas práticas, as suas investigações. Tendo como ideia central do programa o trabalho conjunto, o estar em colectivo, durante os seis meses de programa aconteceu a tentativa de abrir a percepção ao que surge de maneira misteriosa. O espectáculo Andorinha Só Não Faz Primavera, criado por Marcelo Evelin em co-criação com os artistas do programa,  “evoca um corpo que é em si uma multidão de formas em desaparecimento, numa cosmologia de mortos e vivos”. Para ficarmos a perceber melhor como se desenvolveu todo o processo, a RFI falou com o curador Marcelo Evelin e com o artista Abdulay Bragança Dias, de São Tomé e Príncipe, um dos treze artistas participantes do PACAP 9. Marcelo Evelin começa por explicar como se desenrola o método de candidatura. Marcelo Evelin, coeógrafo e curador do PACAP 9 :   Normalmente, o Fórum Dança abre uma convocatória aberta a todo mundo, toda e qualquer pessoa, em qualquer país, de qualquer idade. O único critério é que seja uma pessoa que já tem algum trabalho, que não sejam iniciantes, mas que já tenham uma trajetória. Essas pessoas aplicam através de um questionário, onde, no nosso caso, a gente queria saber muito sobre o que motivava essas pessoas a trabalhar, como é que eles se sentiam em estar juntos, e nós seleccionámos 13 pessoas que, por acaso, mas talvez não tão por acaso, são pessoas que vêm mais das periferias do mundo. Ou seja, claro, tem cinco brasileiros, porque eu, sendo brasileiro e curando o programa, muitos brasileiros, conhecendo o meu trabalho, se interessaram em vir, então, entre os 13, são cinco brasileiros, mas também tem do Chile, Uruguai, Irão, Hungria, Espanha, Portugal e São Tomé e Príncipe. Foi uma coincidência, mas foi uma coincidência aceite, porque eu acredito muito nas periferias do mundo, nos lugares que estão em volta, de uma ideia de centralidade colonial, europeia. Eu fiquei muito feliz de poder manejar um pouco um conhecimento que vem das beiras do mundo e tentar trazer esse conhecimento junto, porque eu acredito que seja, de alguma maneira, uma parte dessa revolução por um novo mundo.   O que é que o trabalhar com essas periferias permitiu neste espectáculo e poderá ser consolidado no futuro? Marcelo Evelin:   Eu acho que a gente está trazendo outras lógicas, outras lógicas de estar junto, outras lógicas de habitar o mundo, de reconhecer a vida no mundo. É um trabalho também que, de alguma maneira, se expande para outras formas de vida. Nós não estamos falando só do humano, mas da vida em muitas formas diferentes, inclusive a vida que já não está mais aqui. Os mortos, no caso, que também ainda continuam a existir e a serem importantes dentro do nosso conhecimento, dentro do que a gente entende como mundo. Eu sinto que existem novas lógicas, novas ideias, novos propósitos para o mundo que estão vindo justamente desses lugares mais invisibilizados. Acho que existe no mundo, hoje em dia, um trabalho que deve ser feito, e já está sendo feito, de reparação, de descentralização de ideias, de conceitos que até então se formam de uma forma rígida. Eu acho que existem outras maneiras de pensar e estar no mundo. Talvez esse espectáculo, de alguma maneira, traga isso.   É esse um papel da arte? É um papel do criador mostrar esses caminhos a uma ou outra parte do mundo? Marcelo Evelin: Eu acho que esse é um papel de todo e qualquer cidadão, de toda e qualquer pessoa que pensa e que tem um mínimo de decência e que tem um coração aberto. Acho que essas pessoas já devem reconhecer que nós vivemos num mundo violento, num mundo manipulado, num mundo em guerra em muitos lugares. Então, certamente, a arte tem um papel no sentido de abrir uma reflexão sobre o mundo em que a gente vive. Mas eu acho que é o dever de toda e qualquer pessoa reconhecer as formas de vida, preservar a vida e tentar acreditar num mundo melhor. Este espectáculo é um espetáculo intenso, arrepia, provoca coisas que o racional não tem como controlar e é o lado mais humano de nós que vem ao de cima. Qual o papel destes 13 bailarinos? Foi uma co-criação entre o Marcelo Evelin e os 13 bailarinos.   Marcelo Evelin:   Esse material veio dos 13 bailarinos, mas também material que foi digerido por 21 outros artistas que passaram pelo programa, que trouxeram seus processos, suas investigações e, de alguma maneira, os 13 bailarinos seleccionaram lógicas ou aspectos dessas pesquisas e trouxeram, colocaram em cima da mesa como material que a eles interessava trabalhar. Esse material foi trazido, foi visto e organizado por mim. Então, basicamente, é um material que vem deles. Nós passamos por muitas questões, muitos dos artistas que intervieram no PACAP trouxeram a ideia de ancestralidade, a ideia de outras formas de vida, a ideia de fantasmas, a ideia de considerar os mortos como também uma população, pensando-se em colectivo. Todos eles trabalharam com uma lógica de colectividade, de comum. O que é que temos em comum? E eu fico vendo que o que temos em comum é justamente essa emoção que nos deixa sem palavras, essa emoção que às vezes nos faz chorar, essa emoção que a gente não consegue explicar o que está sentindo. Para mim, eu acho que um espectáculo de dança, ele consegue chegar muito mais longe se ele acessa as pessoas nesse lugar, nesse lugar de não saber o que dizer, num lugar de estar movido, atravessado por alguma coisa que, quiçá, está por vir.   Uma outra sensação que me foi transmitida pelo espectáculo é a sensação da valorização do individual dentro do colectivo. Marcelo Evelin:   Que coisa boa que você viu isso, que coisa bonita ! Porque eu acredito em colectivo como um lugar onde a autonomia e a individualidade, se faz ainda mais forte. Para mim, colectivo não é consenso e nem é apagamento dos aspectos individuais, ela é um reforço, uma potência das autonomias colocadas juntas, às vezes até em dissenso, porque democracia é feita de dissenso para existir como um lugar comum. Então, que bom que você viu isso, porque eu acredito que um colectivo só pode ser pensado quando existe autonomia individual !   Marcelo, qual é o futuro deste espectáculo? Fica por aqui? Marcelo Evelin: A princípio, sim. O PACAP é um programa de seis meses, específico. No ano que vem tem um outro PACAP, com outros curadores, com outro grupo de artistas seleccionados, com quem sabe, outras ideias. Mas eu acredito muito que o que a gente viveu colectivamente nesses seis meses vá dar frutos, vá-se expandir, se multiplicar, talvez de outras formas. Eu acho que um espectáculo nunca está fechado em si, ele sempre tem alguma coisa que gera, como uma pequena semente que pode gerar outras coisas, e eu acho isso o mais bonito da ideia de um espectáculo, um espectáculo que não se encerra, que não se fecha em si mesmo, mas que está aberto para produzir, se multiplicar, florescer em outros lugares e de outras maneiras. Abdulay Bragança Dias, até à apresentação do espectáculo foi um processo que durou seis meses, com workshops, com diferentes criadores, além do Marcelo, que é o responsável pela curadoria. Como é que foi esse processo desses seis meses de trabalho? Abdulay Bragança Dias: Não foi fácil, principalmente nos primeiros meses. Eu cheguei, não estou habituado com o frio, e para mim foi um bocado aquela adaptar ao frio e tudo isso, também aos workshops. Nas primeiras semanas estivemos sempre em grupo, estávamos todos juntos, então foi um bocado mais quente, nesse caso, estávamos todos juntos. Mas o programa, desde lá até cá, tem sido bom, só tenho boas coisas, boas memórias de todos os artistas que passaram, aprendi imensamente com eles. A participação do Abdulay e dos outros doze bailarinos, não foi só como bailarinos, participaram na criação, foram co-criadores do espectáculo. O que é que o Abdulay procurou trazer para este espectáculo? Abdulay Bragança Dias: Eu trouxe as danças tradicionais do meu país para o espectáculo. Eu já tinha feito um solo, durante o workshop nós fizemos vários projectos, solos, mas em conjunto. Mas houve uma semana específica que nós trabalhámos só individualmente, alguma coisa que nós queríamos mostrar, e foi disso que eu criei, um solo, com base nele e nas danças de São Tomé. Eu trouxe algumas danças de São Tomé especificamente para esse espectáculo.   Um espectáculo que vai em crescendo e que termina nesse momento em que o Abdulay, os intervenientes, chamam, evocam pessoas, umas que já não estão presentes na nossa vida, na vossa vida, outras ainda. Como é que foi viver esse momento e colocá-lo, no fundo, perante todos os espectadores?   Abdulay Bragança Dias:   Esse é um dos momentos que eu acho que foi um bocado mais difícil de colocar em prática. Nós tínhamos que chamar aquelas pessoas que já não estão mais presentes, também algumas que estão presentes em nossas vidas ainda, ainda não faleceram, mas são pessoas que nós trazemos de forma a partilhar um palco connosco. Ao chamarmos por essas pessoas, nós estamos a dar vida a elas mesmas. Elas não estando cá presentes, mas nós as carregamos nos nossos corpos. Então, é uma forma de homenagear essas pessoas e dar, assim, um outro ênfase à criação.   Abdulay, este trabalho está concluído. Após estes seis meses e a apresentação deste espectáculo, que não deixa ninguém indiferente, como é que este processo o vai ajudar, quando regre

  5. Aug 14

    Falta um milhão de enfermeiras obstetras /parteiras para salvar 4,3 milhões de vidas por ano

    O mundo tem falta de quase um milhão de enfermeiras obstetras/parteiras. A evidência, apresentada pela Confederação Internacional de Parteiras (International Confederation of Midwives) mostra que com mais um milhão de enfermeiras obstetras / parteiras seria possível evitar 67% das mortes maternas, 64% das mortes neonatais e 65% dos nados mortos, e, assim, salvar até 4,3 milhões de vidas por ano até 2035. Para responder a este desafio, o 34.º Congresso Trienal da Confederação Internacional de Parteiras, o maior encontro mundial de enfermeiras obstetras /parteiras, juntou mais de três mil profissionais do sector em Lisboa. No evento organizado pela Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, durante cinco dias, enfermeiras obstetras/parteiras, investigadores, educadores, decisores políticos e parceiros de todo o mundo estiveram reunidos para partilhar conhecimento e evidência científica, discutir desafios de saúde à escala global, fortalecer a profissão de enfermeira obstetra /parteira, promover a saúde sexual, reprodutiva, materna, neonatal e adolescente. Para nos ajudarem a perceber a situação que se vive em Portugal e na Guiné-Bissau, a RFI falou com a vice-presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), Isabel Ferreira, e com a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstetras da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes. Se em relação a Portugal, apesar da excelente formação das enfermeiras obstetras, é apontada a existência de uma vontade dos decisores políticos para reduzir os cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde e empurrar os utentes para fora do SNS, fazendo crescer o negócio de privados; em relação à Guiné-Bisssau, as situações sócio-política e económica do país são indicadas como elementos que impossibilitam que os profissionais prestem melhores cuidados de saúde materna, neonatal ou infantil. A vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira, começa por nos explicar quais as regiões do planeta onde a falta de enfermeiros obstetras / parteiras tem um impacto maior. Vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira:   Se pensarmos em termos de mortalidade materna e infantil, a situação assim mais intensa, estamos a falar dos países subdesenvolvidos, e, essencialmente, ali na região da Ásia, África, são as regiões mais afectadas e que faria mais diferença. Mas outros países e outras regiões têm outro tipo de desafios. Então, também precisamos de mais parteiras, se calhar não tanto em quantidade, mas, às vezes, até em termos mais de autonomia das suas funções, por exemplo. Porque alguns países como Portugal e muitos países aqui da Europa, enfrentam o problema do excesso de medicalização, que está inclusive agora a trazer questões graves de morbilidade e até de mortalidade. Por exemplo, aqui em Portugal, estamos a assistir a um crescimento da taxa de mortalidade materna, o que nos assusta. Portanto, tem sido sustentado nos últimos anos e estamos ainda à procura das causas, mas acredita-se muito que o excesso de medicalização poderá estar na gênese deste aumento. Aqui, o trabalho dos enfermeiros obstetras poderia ser muito diferenciador.     Qual é, então, o retrato que nos pode fazer da condição dos enfermeiros obstetras em Portugal? Isabel Ferreira:   A profissão de parteira, de enfermeiro obstetra, está ligada inicialmente à enfermagem. Portanto, são 4 anos de enfermagem, depois 2 anos a trabalhar como enfermeiro e depois tira-se uma formação de mais 2 anos para se aceder, então, à formação diferenciada de formação de enfermeiro obstetra. Então, é uma formação altamente diferenciada, o enfermeiro obstetra é preparado para diversas situações em autonomia. O que acontece é que, depois, na prática, quando vamos para os diferentes locais, nem sempre lhe é permitido exercer essas funções. Então, temos locais do país em que as mulheres têm a sorte de ter um profissional que consegue oferecer-lhes toda a diversidade de serviços, foi preparado para isso, e outros locais em que os próprios hospitais ou instituições limitam a autonomia do enfermeiro obstetra, não lhes permitem trabalhar em tudo aquilo que eles estão preparados para trabalhar. Aqui, esta limitação da autonomia, esta falha na gestão de cuidados, está a fazer com que, se calhar, por exemplo, há serviços hospitalares, como aqui na região de Lisboa, que estão a ser encerrados, estão a negar acesso às grávidas em trabalho de parto, quando têm lá profissionais altamente qualificados para as receber e que são impedidos de o fazer, que são os enfermeiros obstetras.   Qual a razão para não ser permitido aos enfermeiros obstetras trabalharem? Isabel Ferreira: Tem a ver com este modelo biomédico e hierarquizado dos nossos sistemas de saúde. Portanto, estamos a tentar já há alguns anos alterar e trabalhar mais em equipa, em interdisciplinaridade, mas o sistema está muito focado ainda no poder médico e, portanto, há uma dificuldade em reconhecer as competências dos outros profissionais que não médicos. E não é só a questão dos enfermeiros obstetras, é a questão dos enfermeiros no geral, a questão dos psicólogos, dos nutricionistas e, portanto, temos que agora ultrapassar isso, esta questão dos egos e dos poderes e começarmos todos a trabalhar em interdisciplinaridade com as forças de cada um. Porque todos têm muito para oferecer e, se nós trabalharmos com as forças de cada um, vamos ter muito mais tempo para fazer o nosso trabalho. Não andamos a fazer o trabalho dos outros, cada um fazendo o seu trabalho, quem vai ganhar vão ser as mulheres, vão ser os nascidos e vai ser a população em geral. Os meios de comunicação social, de algum tempo a esta parte, têm dado conhecimento de uma quantidade de partos que acontecem em ambulâncias. A que é que isso se deve? Isabel Ferreira:   Nos últimos dois anos foi dramático o aumento dos partos que acontecem efectivamente em trânsito nas ambulâncias, o que implica um risco muito grande. Às vezes, vão para a comunicação social dizer que os bombeiros estão preparados, os bombeiros estão tão preparados para acompanhar um parto como eu estou preparada para apagar um incêndio. Também tenho formação, mas obviamente que não se compara com os bombeiros, não se pode comparar um bombeiro com uma enfermeira obstetra. Portanto, está a ameaçar a saúde das mulheres. O que é que está a acontecer? O que aconteceu é que aumentaram o número mínimo de médicos que se considera essencial para manter o serviço aberto. Então, agora têm menos médicos e estão a fechar serviços, que ainda que tenham médicos, fecham os serviços porque não têm aquele número que eles acham que é o mínimo, o que não faz sentido. Então, para isso mais valia criarmos unidades de cuidados na maternidade, por exemplo, unidades só com enfermeiros obstetras que recebem pelo menos as mulheres que não têm complicações e que não têm que viajar 100 quilómetros ou andar a bater à porta de 3 ou 4 hospitais até serem admitidas finalmente no serviço, que é isso que está a acontecer. As mulheres ligam para o SNS 24, às vezes leva um tempo enorme para ser respondido, às vezes enganam-se a orientar e às vezes é só a terceira vez é que encontram um hospital onde vão ter o seu bebé.   E claro, nesta procura e em trabalho de parto, às vezes o parto acontece nas condições que não são devidas, que são em ambulâncias. Isto não faz sentido em termos de experiência de nascimento, que também é uma coisa muito importante, mas também implica riscos acrescidos. Portanto, temos que repensar nas nossas políticas de saúde, e aqui os enfermeiros obstetras em Portugal, claramente poderão fazer uma diferença muito grande para ajudar a eliminar o problema que estamos a viver.   Esses serviços que são encerrados, condicionantes que são colocadas às famílias, às grávidas, não haverá depois pessoas que perante essas dificuldades vão procurar serviços privados? Isabel Ferreira:   Sim, neste momento, principalmente na Grande Lisboa, estamos a ver essa clivagem. Estamos a ver claramente que as pessoas que têm seguros de saúde, com estas dificuldades todas, ... Quer dizer, eu entro em trabalho de parto, nem sequer sei para onde é que vou. Esta instabilidade está a fazer com que as pessoas vão essencialmente para os hospitais privados. O hospital, neste momento, que tem mais partos do país é um hospital privado e aqui da região de Lisboa. Portanto, no público, principalmente aqui nesta região centro, no público vão essencialmente as pessoas que têm menos capacidades económicas, que têm mais dificuldades ou dificuldades sociais ou então as pessoas que ainda que tendo dinheiro têm, por exemplo, uma patologia grave. Porque, ainda assim, o público é aquele que oferece acompanhamento mais diferenciado. Portanto, o privado mediante uma grande complicação vai encaminhar para o hospital público. Então, estamos com uma sobrecarga muito grande do público. Só tem grandes situações de grandes complicações e de grandes emergências ou então situações de questões sociais também mais intensas.   Podemos dizer que existe um desenho político nas opções que estão a ser tomadas? Isabel Ferreira:   Eu não tenho dúvida nenhuma e nota-se uma grande diferença com as variações políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. Estamos a falar da saúde da população, não devia ter cor, a população, as pessoas deviam estar em primeiro lugar e não os ideais e os poderes. Portanto, isto é importante falar, tirar o elefante da sala. Vamos estar todos juntos e tentar solucionar este problema que está a tornar-se muito, muito grave. Estamos a falar do momento em que a mulher dá à luz, em que as crianças chegam a este mundo, mas o

  6. Aug 14

    Guiné-Bissau: Psicóloga francesa vela pela saúde mental dos guineenses

    Elise Bidault é uma psicóloga francesa que exerce em Bissau e está a ajudar os guineenses a enfrentar parte das chamadas doenças modernas, nomeadamente o stress crónico, a ansiedade e os traumas de infância.   Elise Bidault chegou à Guiné-Bissau em 2020. Inicialmente, o país não fazia parte do seu horizonte geográfico habitual, mas motivos pessoais impulsionaram a mudança.  Então, eu vim à Guiné-Bissau em 2020, há seis anos, depois da pandemia da COVID e depois de acabar o meu mestrado. Bom, para ser transparente, no início, não conhecia mesmo a Guiné-Bissau, porque, como francesa, conhecemos mais o Senegal, o Mali, a Costa do Marfim, todos os países francófonos. Mas posso dizer que foi por motivo pessoal. Não quero entrar nos detalhes, mas foi um motivo pessoal, e, neste momento, em 2020, a minha vida pessoal fez com que eu chegasse aqui à Guiné-Bissau e, graças a Deus, felizmente, consegui ficar até hoje. Quando decidiu fixar-se na Guiné-Bissau, Elise viu-se na contingência de melhorar o seu português. O recurso foi a contratação de uma professora brasileira em Bissau. O português da Elise é hoje fluente tal como o seu crioulo guineense.   Também a história do crioulo começa de forma pessoal, porque, no início, não comecei a trabalhar como psicóloga. Comecei a trabalhar numa escola francesa, então não era tão importante ou obrigatório falar o crioulo. Mas eu penso profundamente que, quando chegamos a um país para viver, é importante aprender a língua. Primeiro para a integração; para mim, faz parte da base quando chegamos a um país, integrarmo-nos e aprendermos os costumes e a vida das pessoas, através da língua também. E também para me sentir bem, porque, sem conseguir falar com as pessoas, fiquei um pouco triste, sem conseguir expressar-me ou participar nas conversas. Então, aprendi assim pouco a pouco, no dia a dia, em casa, com a família, na feira, no restaurante. Assim aprendi coisas básicas e, pouco a pouco, o meu crioulo cresceu, até hoje, que acho que o meu crioulo está fluente. Ao abordar a saúde mental na Guiné-Bissau, Elise contesta a ideia de que os africanos evitam falar da sua vida pessoal com quem não tem muita afinidade ou cumplicidade. A questão, diz a médica francesa, reside na confiança e no sigilo profissional, num ambiente onde "todos se conhecem". Acho que tudo tem a ver com a confiança; dentro da palavra confiança, está a palavra confia. E as pessoas têm de se sentir confiantes e seguras para depois se abrirem. Com certeza, há aqui uma cultura e uma educação que não impulsionam a vontade de partilhar algumas coisas privadas, mas acho também que tem a ver com a falta de sigilo profissional que posso observar, mesmo dentro do nível da saúde aqui na Guiné-Bissau, e também porque Bissau é muito pequeno, então todos se conhecem. Às vezes, se me vou abrir com uma pessoa, não quero que os meus problemas ou os meus traumas cheguem a uma outra pessoa que conheço e que eu não quero que saiba dos meus problemas. 70% dos pacientes da Elise Bidault buscam ajuda por ansiedade, stress crónico, depressão ou luto, além de questões profissionais como burnout. No entanto, a médica francesa enfrenta um panorama crítico: o país conta com pouquíssimos centros de atendimento para estas problemáticas. Ainda assim, Elise tem dois grandes objectivos: Arranjar dinheiro para abrir uma clínica maior em Bissau e atender mais homens. Não vou mentir, recebo mais mulheres, mas acho que mundialmente com os psicólogos é assim. Contudo, posso dizer que tenho cerca de 10% de clientela masculina e, para mim, é um dos meus objetivos para os próximos meses e anos continuar a trabalhar com os homens, fazer tudo para que os homens confiem também e venham aqui ao consultório. Porque, quando vemos os dados, não há muitos dados em África, mas quando vemos os dados mundiais sobre saúde mental, os homens sofrem muito mais do que as mulheres. E quando falamos de suicídio, por exemplo, os homens cometem-no muito mais do que as mulheres. Então os homens também precisam de um espaço de escuta e, sobretudo, eu acho que aqui neste contexto cultural africano, onde o homem tem um papel muito importante, tem muita responsabilidade financeira, responsabilidade da família, responsabilidade de muitas coisas... tudo isto é muita pressão e temos de saber como gerir tudo isso. A terapeuta gaulesa atende pacientes de várias nacionalidades, desde que não sejam pessoas conhecidas. Sim, já recebi várias nacionalidades: portugueses, franceses, libaneses, mauritanos, guineenses de Conacri, bissau-guineenses... Com certeza, eu não tenho nenhuma limitação. A única limitação é a língua, porque falo francês, português e crioulo, e arranho um pouco de inglês, mas acho que para fazer terapia não é suficiente. Então, se não for pela questão da língua, posso receber qualquer tipo de pessoa que ache que precisa de apoio psicológico, sim, com certeza. A outra limitação, para mim, prende-se com um enquadramento de trabalho muito claro: não posso receber pessoas que conheço pessoalmente, sejam francesas, guineenses ou de qualquer outra nacionalidade. Sempre reencaminho para outro profissional quando é alguém do meu círculo pessoal. Elise Bidault faz atendimentos diários de até quatro pacientes, mas também recorre às redes sociais como TikTok e Instagram, onde, em crioulo guineense, faz o que a própria chama de psicoeducação.  Porque acho que, se queremos mudar esta consciência colectiva sobre a saúde mental, temos de fazer psicoeducação. Esse é o objetivo principal do meu canal de TikTok; também uso o Instagram e o Facebook, embora com as mesmas publicações. A ideia é falar de saúde mental, desmistificá-la e tentar fazer com que as pessoas percebam que a saúde mental faz parte do nosso dia a dia. Em cada coisa que vivemos, todos os dias, há uma componente de saúde mental, e todos nós somos seres humanos com saúde mental, tal como temos saúde física. O objetivo é mesmo normalizar a saúde mental nas nossas vidas e ajudar as pessoas que precisam de apoio, mas que talvez não saibam que este tipo de cuidado existe. E traumas de infância? Não tem tratado disso?   Sim, com certeza. Todos nós, como adultos e mesmo enquanto crianças dependendo do trauma... não mencionei isto antes, mas também recebo muitas pessoas que sofrem ou sofreram de violência sexual, por exemplo. Posso dizer que quase 80% da minha clientela sofreu algum tipo de violência sexual. Portanto, como psicólogos, trabalhamos sempre os traumas de infância; são eles que moldam aquilo que somos hoje. A ideia é trabalhar no sentido de compreender o porquê, quais são as consequências desses traumas na vida adulta, como lidar com eles, como avançar e ganhar consciência sobre os mesmos, porque por vezes os traumas ficam escondidos dentro de nós. O objetivo é ajudar as pessoas a compreender o seu próprio funcionamento e os padrões de comportamento que estão ligados a esses traumas de infância. A saúde mental tem de ser uma prioridade. Entendo perfeitamente que existam outras prioridades, mas a saúde mental é uma necessidade diária. Temos de resolver, a nível pessoal e profissional, a necessidade que os guineenses têm de apoio, de escuta e de cuidados básicos de saúde mental. Porque, quando tratamos destas problemáticas logo no início, evitamos que gerem consequências muito graves lá mais à frente. Vemos todos nós pessoas a andar pela rua e notamos que têm um problema, mas não têm nenhum espaço para onde ir ou alguém que as ajude. Por isso, acho que tem de ser uma prioridade.

  7. Jul 13

    Brasil traz Verão "ousado" e descoberta de novas marcas a Paris

    O Brasil é convidado da loja de luxo parisiense, Samaritaine, para um Verão "ousado" na moda, na arte e no design. Marcas e criadores brasileiros estiveram em Paris para o lançamento desta iniciativa que visa dar a conhecer o Brasil contemporâneo aos franceses. O Brasil chegou de malas e bagagens à Samaritaine, uma loja multimarcas de luxo no centro de Paris, para um Verão ousado e de descoberta. Até 26 de agosto, os parisienses e turistas podem descobrir numa loja pop up no centro da Samaritaine, marcas brasileiras, mas também artistas e influências que chegam do outro lado do oceano. Mais do que cores ousadas ou motivos tropicais, uma associação óbvia ao Brasil, Lúcio Fonseca, director criativo de moda brasileiro instalado em Paris e organizador desta pop up, quis trazer até à capital francesa o Brasil contemporâneo. "Trabalho já em Paris há mais de dez anos, entre semanas de moda e essa ligação França Brasil sempre me moveu muito. Agora, como eu trouxe meu escritório para aqui há quatro anos, sou muito influenciado pela França. Eu também queria trazer um pouco dessa influência brasileira, mas com design bold. Por isso que se chama Brasil - Bold Summer Edition. Então, assim, as peças que eu trouxe desde os acessórios, elas têm essa assinatura bold, uma assinatura de design. Trazemos um Brasil que nem todo mundo conhece. A gente tem marcas de biquini como agua de coco, a Farm Rio, que são o nosso ADN, o tropical brasileiro, o beachwear que é mundialmente famoso. Mas eu também quis fazer uma curadoria de outras marcas, marcas menores, marcas internacionais que já são conhecidas e também trazer a nossa arte, design contemporâneo", detalhou Lúcio Fonseca. Tal como o próprio Brasil, também este Bold Summer traz então uma mistura de marcas bem conhecidas do público, como a Farm Rio, com marcas ainda menos divulgadas em França, como Glorinha Paranaguá, uma marca que faz malas e acessórios a partir de bambu, palha e couro. Lavínia Góes, artista e responsável pela plataforma Conversas com Arte, explica a importância desta mistura. "É uma mistura das duas coisas, porque existem marcas já estabelecidas aqui, como a Granado que já é uma marca estabelecida, a Dengo que é uma marca estabelecida, então a Farm também é uma marca estabelecida. Mas ela quis participar desse movimento aqui dentro da Samaritaine. E essa colaboração entre artistas, designers e a moda é um pouco do espírito que vem do modernismo", considerou. Entre os artistas que participam nesta mostra do Brasil contemporâneo está Pedro Yossef, que criou uma instalação de triângulos alados que caem do tecto da loja, numa alusão aos pássaros do Brasil ou ainda o Estúdio de Criação Papelaria que utiliza o papel como matéria prima. Até Paris, os criadores Fabíola e Christian Pentagna trouxeram algumas obras emblemáticas, como o Jardim, uma ilusão de plantas, árvores e vegetação todas construídas em papel. Christian Pentagna fala-nos mais sobre a Papelaria. "A nossa intenção como o estúdio é exactamente tirar o papel de um lugar comum e tratá-lo como um objecto com a importância que ele tem. Assim, por exemplo, o jardim, que são esculturas. Estamos sempre acostumados a ver o papel na horizontal. A gente nunca olhou para o papel na vertical. Então, essa é a principal ideia. Como é que a gente olha para o papel de uma forma diferente e sabendo que o papel é uma matéria prima que se trabalha muito bem, ela se deforma. Ela reage com o tempo. Então essa é a nossa pesquisa de como papel se comporta num lugar que ele não é habitualmente usado", detalhou o artista. Em frente à ponte Neuf, a Samaritaine, propriedade do grupo LVMH, ergue-se como um dos símbolos do luxo máximo em Paris. Clemence Claudine Eagle, gestora de compras e marketing da Samaritaine, explica a criação do conceito Bold Summer com o Brasil. "Esta ideia de fazer algo com o Brasil surgiu de uma primeira viagem que fiz ao Brasil, onde descobri toda a criatividade que existe por lá, os designers e também um lado muito inovador, seja na moda, na música ou na arte. E, a partir dessa viagem, quis incorporar um pouco disso ao meu dia a dia e desenvolver essa ideia aqui em França. E, trabalhando na Samaritaine, tive a oportunidade de conhecer o Lucio e, a partir daí, quisemos desenvolver este conceito e apresentar aos clientes da Samaritaine novas marcas e marcas mais contemporâneas. Acho que a percepção sobre o Brasil evoluiu bastante, porque, de qualquer forma, o turismo no Brasil explodiu nos últimos anos. E, justamente, acho que estamos a ter uma nova visão do país. Essa tal criatividade está a ser cada vez mais reconhecida e os brasileiros são hoje cada vez mais reconhecidos por essa inovação, por terem uma visão diferente das coisas, muito revigorante, eu diria. Devido a tudo isto, acho que em França temos uma ideia cada vez mais real e justa do que é o Brasil actualmente", indicou Clemence Claudine Eagle. Em frente à Ponte Neuf, a Samaritaine, propriedade do grupo LVMH, ergue-se como um dos símbolos do luxo máximo em Paris. Clémence Claudine Higle, gestora de compras e marketing da Samaritaine, explica como a criação do conceito Bold Summer com o Brasil. Lavinia Goes fala sobre a história e correspondência entre os dois países. "Obviamente, a gente tem essa referência dos modernistas, como Niemeyer com com o partido, a sede do Partido Comunista aqui em França. Existe o Lúcio Costa, que fez a Maison su Brésil, mas nos anos 60. Então a gente está restabelecendo essa relação e mostrando o que está se fazendo de novo no Brasil e mostrando para a França. A gente pode apresentar muita coisa. No ano passado, no ano do Brasil, na França, muitas marcas puderam vir para cá, mas agora vieram de uma forma muito mais divertida, eu diria. E colaborativa", detalhou. O pop up BRASIL NA SAMARITAINE – BOLD SUMMER vai decorrer até dia 26 de Agosto, em Paris.

  8. Jun 26

    Cabo Verde: Mulheres que fazem florescer o Planalto Leste de Santo Antão

    No coração do Planalto Leste, na ilha de Santo Antão, um grupo de mulheres desafia diariamente as limitações impostas pela seca e pelas alterações climáticas. Fundada em 2005, a Associação das Mulheres do Planalto Leste reúne actualmente cerca de três dezenas de associadas e tem desenvolvido projectos de desenvolvimento sustentável, apostando na agro-floresta, na preservação da flora endémica, na formação de agricultores e no turismo rural.   É no viveiro agro-ecológico da associação que começa a visita guiada pela presidente, Josefa Sousa. O espaço integra um projecto desenvolvido em parceria com a Associação de Defesa do Património de Mértola, de Portugal, e financiado por várias entidades internacionais. "Este viveiro começou com o projecto da agro-floresta, mas hoje já trabalhamos também com a flora endémica, plantas medicinais e outras iniciativas. O projecto tem-nos ensinado a criar a nossa própria água", explica.     Uma das soluções encontradas é a captação do nevoeiro, uma tecnologia simples que transforma a humidade do ar em água para irrigação.   "Quando há nevoeiro, as gotas ficam presas na rede, escorrem pelos tubos até ao reservatório e depois usamos essa água para regar as plantas do viveiro", mostra Josefa Sousa.   No viveiro crescem espécies endémicas, plantas medicinais e árvores florestais, como o pinheiro. O objetivo é conservar espécies ameaçadas e reforçar a recuperação ambiental da região. "Queremos cuidar daquilo que já existe e aumentar a população das plantas que estão em risco de desaparecer. Também preservamos plantas medicinais e ensinamos as pessoas sobre as suas utilizações."     Outro dos princípios aplicados no campo experimental é a cobertura do solo com matéria orgânica, uma técnica que ajuda a conservar a humidade e a enriquecer naturalmente a terra. "A matéria morta protege o solo do sol e do vento. À medida que se decompõe, transforma-se em alimento para a terra. Primeiro temos de alimentar a terra para depois ela nos alimentar a nós." A reutilização dos recursos faz igualmente parte das práticas implementadas. Em vez de recorrer apenas à água para irrigação, utilizam plantas como aloé vera e cactos para libertar lentamente humidade junto das raízes. "São técnicas de sobrevivência para a agricultura de sequeiro que fomos aprendendo ao longo dos projectos. Funcionam muito bem e dão sustentabilidade à nossa agricultura." No campo experimental testam-se ainda diferentes culturas, associações entre espécies e sistemas de protecção contra o vento e o excesso de sol. "Este projecto funciona como uma escola. Experimentamos diferentes técnicas e observamos quais resultam melhor em cada zona. Depois transmitimos esse conhecimento aos agricultores, que muitas vezes não têm condições para correr o risco de perder uma produção."     Mesmo perante condições extremas, Josefa Sousa garante que é possível produzir.   "Aqui há parcelas que praticamente não recebem rega. Sobrevivem graças ao corta-vento, à cobertura do solo e à associação das plantas."   Além da agricultura, a associação tem vindo a diversificar as suas actividades para criar novas fontes de rendimento para as famílias. "O nosso objectivo sempre foi criar alternativas para melhorar a educação, a saúde e a habitação das mulheres. Nem tudo foi possível, mas já conseguimos muita coisa."     Entre essas conquistas estão um alojamento local gerido pelas associadas, um centro de transformação de produtos locais, onde são produzidos doces e licores, e um banco de sementes destinado à preservação de espécies agrícolas e florestais.   "Antes perdíamos muita fruta durante a época das colheitas. Hoje conseguimos transformá-la em doces e licores que podem ser vendidos. Também recolhemos sementes para preservar espécies e aumentar a floresta." Apesar dos avanços, Josefa Sousa reconhece que o trabalho associativo continua a enfrentar vários desafios. "A maior dificuldade é quando o trabalho acaba por ficar concentrado em duas ou três pessoas. Assim torna-se muito difícil fazer a associação funcionar." A presidente aponta ainda uma situação que considera injusta: a impossibilidade de os dirigentes das associações serem remunerados pelos projectos que coordenam.   "Os presidentes trabalham gratuitamente. Eu muitas vezes faço o trabalho sozinha, mas depois tenho de procurar outro emprego para garantir o meu sustento. Se pudesse dedicar-me exclusivamente à associação, conseguiríamos fazer muito mais." Para Josefa Sousa, esta realidade coloca em causa o futuro do associativismo. "Se esta regra não mudar, chega uma altura em que ninguém vai querer assumir a presidência de uma associação. As pessoas dão muito de si, mas também precisam de viver." Num território onde a água é escassa, o conhecimento tornou-se um dos recursos mais valiosos. E é precisamente essa partilha de saberes que a Associação das Mulheres do Planalto Leste procura cultivar todos os dias, transformando dificuldades em oportunidades e mostrando que, mesmo nas zonas mais áridas de Cabo Verde, é possível fazer crescer vida.

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