A Girafa de Noah é um livro dedicado ao público infanto-juvenil sobre amor, saudade e a descoberta da força interior. A Girafa de Noah é também um livro onde as crianças negras se podem ver representadas e que se propõe contribuir para que todas as crianças aprendam a lidar com a perda. A obra marca a estreia do jornalista e apresentador de TV Wilds Gomes no mundo literário e foi recentemente lançada em Portugal. Com uma história de vida ligada a Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, onde nasceu, Wilds Gomes vive em Portugal desde criança mas, em entrevista à RFI, não esconde o desejo que “A Girafa de Noah” venha a ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e outra em crioulo forro de São Tomé e Príncipe. Wilds Gomes começa por revelar que a obra, ilustrada por Ana Marta Huffstot, nasceu da vontade de contar histórias aos filhos. Wilds Gomes: (A Girafa de Noah) Nasce muito do facto de ser pai. Desde que me lembro de ser pai, que eu gosto de contar histórias, gosto de escrever. Então, quando comecei a ler para os meus filhos, comecei a perceber que havia falta de representatividade nos livros. Os meus filhos são crianças negras, tal como o pai, e eu via que não estavam e nem se sentiam representados nos livros que eu lia todas as noites. Porque sempre quis incutir aos meus filhos que ler é importante. Mas também, muito mais do que ler, é ouvir, saber ouvir. Então, foi quase que uma luta todas as noites o procurar uma história diferente, ou sempre que fosse comprar uma história para os meus filhos, procurar histórias de autores negros e com personagens negras. Então, comecei a pensar, porque não ser eu a mudar, de alguma forma, esse paradigma, o mudar eu essa narrativa de que não há. Se não há, vou criar ! Então, comecei a pensar no livro já faz mais de seis anos. Há quatro, comecei a pensar seriamente no livro depois de ter escrito algumas histórias. Falei com uma amiga, a Ana Marta, que é designer e também é ilustradora. - ‘Pá, porque não fazemos aqui os dois essa maluquice de escrever e ilustrar um livro para crianças? Um livro infantil-juvenil, para as crianças lerem, principalmente para as crianças negras se verem representadas. - Então, foi daí que começou o sonho. De que é que nos fala esta história, A Girafa de Noah? A Girafa de Noah é uma história, primeiramente, inspirada nos meus filhos, nas suas vivências e realidade. Portanto, A Girafa de Noah fala muito da perda, de perdermos alguma coisa; porque as crianças não são ensinadas a lidar com o facto de perderem alguma coisa. Quando falo de perder alguma coisa, não é só fisicamente, também muito espiritualmente. Como é que se pode lidar com isso? Então, a minha ideia, ao escrever um livro, é que cada livro tenha um ensinamento. Cada livro tem uma narrativa que serve para alguma coisa. Então, A Girafa de Noah é o Noah (filho de Wilds Gomes) que perde a girafa, que é algo muito importante para ele. Ele, desde que se conhece como gente, ou como criança, anda com a girafa o tempo todo. Há uma fase em que ele perde esse animal simbólico, que é a girafa, e não sabe como lidar. Então, a trama da história passa-se muito à volta de que ele perdeu, algo de que ele gostava mesmo muito e era muito importante para ele. Como é que ele aprendeu a lidar com aquilo e que fato é que aquilo realmente fez e que ensinamento aquilo passou? O livro foi lançado recentemente, já houve reacções? Como é que o livro está a ser aceite? O livro foi lançado oficialmente no dia 1 de março, aqui em Lisboa, na Livraria Menina e Moça. Estavam mais de 100 pessoas, sala completamente esgotada. Levei cento e poucos livros que ficaram esgotados naquele momento. E, desde então, as pessoas têm-me dado um feedback muito positivo, principalmente os adultos. Este livro remeteu-me muito a uma fase da minha vida em que eu perdi alguém muito importante para mim e tive que aprender a lidar com isso. Este livro ajudou-me também a curar de alguma forma aquilo que eu sentia naquela altura. Muitos pais disseram que as crianças gostaram muito da história. Primeiramente, porque se viram representadas naquele menino, que é o Noah, que é um menino negro, uma criança negra bonita, linda mesmo, e também o facto de terem também um brinquedo que muitos deles também, entretanto, perderam e não sabiam lidar com isso. Então, lerem uma história em que se vêem representados e de alguma forma os ajuda a curar de alguma coisa, para mim é a ceereja no topo do bolo. O Wilds Gomes junta raízes de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. Há alguma lembrança das histórias que ouvia dos avós, dos pais, enquanto criança, enquanto vivia em São Tomé e Príncipe? Sim. Eu vivi em São Tomé durante muito pouco tempo da minha vida, máximo até os 5 anos. Entretanto, vim para Portugal, mas tenho uma vaga ideia porque, lá está, é muito do que me contam e eu não sei até que ponto é que é real ou não, se é mesmo imaginação da minha cabeça. Mas a primeira coisa que eu me lembro é de ter um brinquedo na casa dos meus avós, que era um camião verde e rosa, é a melhor memória da infância que eu tenho, na minha infância em São Tomé e Príncipe. Depois disso, vêm muito as histórias da minha avó. A minha avó era daquelas pessoas que até hoje, eu estou com 34 anos, até hoje a minha avó, que é viva, quase com 90 anos, conta-me ainda as histórias da sua infância. Conta-me histórias da sua vida. Conta-me histórias do que aconteceu à volta de nós em São Tomé e também em Cabo Verde. É muito interessante que a minha avó é uma historiadora nata, muito oral, ela nunca leu nada para mim, é tudo muito da cabeça dela. Ela conta-me histórias de tudo o que se passava, tudo o que se passou, e eu tentar fazer uma imagem do que ela me conta acaba por ser muito bonito. E ao escrever este livro quase que recorri muito a essa nostalgia do que é presenciar algo pela segunda vez. O que é contar-me uma história agora, remetendo à minha infância, e eu lembrar-me do que aconteceu. Então, é muito bonito. É claro que a minha avó e os meus pais têm muita importância no facto de eu ter me tornado um autor hoje em dia. A avó do Wilds Gomes conta estas histórias em crioulo? Exactamente, a minha avó é cabo-verdiana, nascida e criada em Cabo Verde, já na fase adulta é que foi para São Tomé, numa época menos boa de Cabo Verde. Lá, sim, começou-me a contar histórias. Depois, entretanto, vim para Portugal. Eu vim primeiro, ela veio logo a seguir e até hoje a maior parte das suas histórias é sempre, sempre, sempre em crioulo de Cabo Verde. Eu acho que as histórias, quando são verdadeiras e quando são intensas, têm muito mais substância quando contadas na língua nativa. O que é que a minha avó faz? É contar-nos em crioulo a história da sua vida e também do seu envolvente. Mas o que é muito mais interessante também é o facto de a minha avó hoje em dia também contar histórias aos meus filhos em crioulo. Eles são pequeninos ainda, estão naquela fase de realmente começar a perceber e a entender o crioulo, uma das suas línguas maternas. Perceber que o sumo está lá, está lá. Aquela história com o sotaque de Cabo Verde, com a maresia de Cabo Verde, com a morabeza de Cabo Verde, é muito interessante sentirmos isso tudo. Quando é que vai surgir a versão em crioulo do livro “A Girafa de Noa”? Essa é uma boa questão. Não sei ainda, este livro foi lançado muito recentemente. Ainda estamos na fase de perceber se as pessoas estão a consumir de verdade. Preciso ter mais feedback. Preciso perceber se a mensagem foi realmente passada, se os adultos perceberam, se as crianças realmente perceberam o que eu quis dizer, se a mensagem foi mesmo clara e bem passada. Então é dar hora para o tempo e quiçá ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e também em crioulo-forro de São Tomé, porque eu sou sãotomense. Então também faz discussão também de ter uma das minhas línguas nativas, que é o crioulo de Santo Domingo, o fogo, crioulo-fogo. Depois desta história, há na gaveta outras histórias? Nos próximos anos vão ter histórias minhas, todas elas sempre dedicadas e influenciadas pelos meus filhos, as suas vivências, as suas realidades, as suas experiências enquanto crianças. Todas as histórias que eu vou lançar futuramente, tal como esta, têm um ensinamento, têm algo para mostrar, têm algo para dar. Portanto, a próxima será muito provavelmente do William, que é o meu filho que tem sete anos. É uma história dedicada a ele e às suas aventuras. Aventuras que as pessoas vão perceber o quanto é importante nós confiarmos nos outros e como é importante darmos a mão ao outro. Portanto, vão ter uma história bonita. Está a ser pensada a hipótese de vir a apresentar o livro “A girafa de Noah” num espaço para o público infantil? Sim, há claramente essa ideia. Há um plano, talvez o mais importante, ir às escolas, ir a bibliotecas apresentar o livro. É muito importante as crianças sentirem-se representadas neste livro. É um livro muito dedicado às crianças negras, porque podem-se ver representadas. Mas também quero que todas as outras crianças consigam ler e perceber a mensagem que está no livro. Porque, lá está, no final do dia quem são os verdadeiros juízes são as crianças. Sim, há claramente essa ideia. Há um plano, talvez o mais importante, ir às escolas, ir a bibliotecas apresentar o livro. É muito importante as crianças sentirem-se representadas neste livro. É um livro muito dedicado às crianças negras, porque podem-se ver representadas. Mas também quero que todas as outras crianças consigam ler e perceber a mensagem que está no livro. Porque, lá está, no final do dia quem são os verdadeiros juízes são as crianças. O plano é bibliotecas, girar por muitas escolas aqui em Lisb