Reportagem

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  1. 1h ago

    "O Arquivo" de Grada Kilomba dá lugar à "reflexão" e ao "vazio" deixado pelo genocídio no Ruanda

    A artista portuguesa Grada Kilomba é a autora do memorial de homenagem às vítimas e sobreviventes do genocídio de 1994 no Ruanda que foi inaugurado esta semana em Paris. Dois muros negros, triangulos no chão que representam as mil colinas do Ruanda e as palavras "lembrar, crescer, juntos" instalados nas margens do Sena, em Paris, relembram desde o início de Junho de 2026 o genocídio dos tutsis em 1994. Uma cerimónia oficial reuniu o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o Presidente ruandês, Paul Kagame, para a inaguração deste memorial criado pela artista portuguesa Grada Kilomba e que é mais um passo para o reconhecimento público do papel da França nos massacres, num altura em que Paris mantinha relações privilegiadas com o regime hutu. Grada Kilomba foi convidada a concorrer com outros quatro artistas internacionais para a concepção deste projecto e foi o seu monumento, minimalista e tocante, que se impôs. Para esta artista portuguesa, foram três anos de criação em que foi necessário representar o inimaginável, sem reproduzir a violência. Grada Kilomba criou assim "O Arquivo" para lembrar as vítimas e as suas famílias, constatar o vazio da inacção internacional face a um crime abominável e mostrar que só é possível preencher o espaço deixado pela dor através da nossa humanidade. "Representar o desumano sem reproduzir o desumano. Isso foi mesmo um processo constante durante o fazer da obra. As minhas obras geralmente lidam de facto com o incompreensível. O meu trabalho é muito focado em tentar compreender o que é a violência, o que é violência cíclica e o que é o conceito de repetição e como a violência histórica se repete. Portanto, isso já é um trabalho que eu tenho feito em outras obras e que me interessa muito. Depois, usar uma linguagem poética para não reproduzir a violência. Então a poesia, eu acho que é a beleza, são dois aspectos muito importantes para mim. Quando eu estou a fazer uma obra, apesar de lidar com temas extremamente violentos e com a morte também porque nós estamos a falar de um de um genocídio onde 1 milhão de pessoas que foram mortas durante 100 dias, interessa-me muito desenvolver obras em que, acima de tudo, são poéticas e humanas, onde as pessoas e o público entra para reflectir sobre a condição humana", descreveu Grada Kilomba. A artista portuguesa, com origens angolanas e são-tomenses, que tem vindo a tratar nas últimas duas décadas de temas ligados à violência racial e escravatura, utilizou neste monumento em Paris o seu estilo que é descrito como "minimalista pós-colonial" para representar o sofrimento dos tutsis e a inacção da comunidade internacional. Grada Kilomba é psicóloga e partiu no final dos anos 90 para Berlim onde realizou o seu doutoramento que deu origem ao livro "Memórias da Plantação", que tem sido editado em vários países. Desde aí, a artista tem multiplicado os seus meios de expressão quer seja através das artes plásticas, como a obra "O barco", ou através da dança, coreografando instalações. Numa altura em que em muitos países europeus e africanos - após um forte movimento nos Estados Unidos - se começa a questionar a toponomía das ruas e as estátuas que ocupam o espaço público, a artista defende que o espaço público é "extremamente poderoso" e é através desses espaço que as sociedades decidem quem deve ser homenageado. "Eu acho que é muito importante nós compreendermos o que é que o espaço público significa e o que é que significa arte no espaço público. Nós temos que compreender que o espaço público é extremamente poderoso. Talvez seja o lugar mais poderoso para uma artista mostrar uma obra, mais do que um museu, porque o espaço público está em constante diálogo com o público. E quando nós caminhamos numa cidade como Paris ou Lisboa ou Kigali e estamos rodeados de monumentos, de arquitectura, de arte pública, nós não estamos só rodeados de objetos arquitetónicos e artísticos. É importante compreender que nós estamos, acima de tudo, rodeados de formas de contar histórias. Então, a arte pública não é só arte, mas é uma forma de contar histórias. É uma forma de dizer o que é que nós devemos saber e o que é que nós não devemos saber, de quem é que nos devemos lembrar e de quem é que não nos devemos lembrar, quem é que nós celebramos, que nomes é que conhecemos, quem é que nós chorámos, a quem é que damos e devolvemos flores", defendeu a artista. O monumento de Grada Kilomba insere-se num "caminho de verdade" sobre o papel da França no genocídio no Ruanda, com o Presidente Emmanuel Macron a ter dito durante as cerimónias que se tratava de um marco em direcção ao futuro e com o seu homólogo ruandês, Paul Kagame, a reconhecer "a coragem" desta admissão de culpa. Após um período complicado na relação dos dois países, "O Arquivo" marca a reaproximação entre os dois Estados.

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  2. 1d ago

    Neusa e Silva: O futuro “está muito ancorado ao jornalismo local, independente e free-lance”

    O Mapa que Nasceu no Terreno é o livro que a jornalista angolana Neusa e Silva fez a pensar em quem ambiciona afirmar-se no jornalismo a nível internacional. A obra, que funciona como um guia para jornalistas, é também um instrumento para as ONG e investigadores. A partir da experiência de reportagem no terreno, consolidada ao longo de anos, Neusa e Silva apresenta um Método de Reportagem em Quatro Quadrantes que transforma o conhecimento local em narrativas globais de impacto. No livro, Neusa e Silva também quebra tabus ao expor a arquitectura do assédio laboral e apresentar ferramentas para diagnóstico, defesa jurídica e preservação da saúde mental. Para quem quer contar o mundo a partir do terreno, a autora criou um mapa que identifica como de sobrevivência, resistência e ascensão profissional. A RFI falou com Neusa e Silva em Portugal. A jornalista começa por explicar o que se pode encontrar na obra e como surgiu o livro O Mapa que Nasceu no Terreno. Neusa e Silva, jornalista: Eu agrego aqui todas as experiências no terreno da minha carreira como jornalista internacional ao longo de praticamente 15 anos. Ou seja, fiz um mapeamento de tudo o que eu precisei ao longo de 15 anos e não tive, e construí este livro para que outros jornalistas que estejam a iniciar a carreira no jornalismo internacional possam ter uma espécie de guia. Desde as questões de relacionamentos interpessoais, desde o assédio laboral, como abordar, como identificar, desde a abordagem a cadeias internacionais até a elaboração de pautas para cadeias internacionais. E, por fim, a cereja no topo do bolo é uma metodologia de produção de reportagens comprovada, que eu já apliquei em várias reportagens, que são produzidas no local e têm um alcance e impacto a nível global. Muitas das minhas peças foram publicadas em português ou em inglês e foram reproduzidas e traduzidas para várias línguas, algumas mesmo traduzidas para mais de sete idiomas e republicadas em quatro continentes. Então, neste livro eu tenho uma metodologia que fiz com base nestas peças e que sistematizam uma forma concreta de seleccionar fontes, como abordá-las e, depois, como construir a notícia para que ela seja feita a partir do local, tenha o local como âncora, como base, mas que consiga ter uma repercussão internacional. Essas reportagens aconteceram onde e que temas é que foram cobertos por essas reportagens? Uma das primeiras reportagens que eu produzi com este método foi em 2021, e intitula-se "A SADC (Southern African Development Community / Comunidade de Desenvolvimento da África Austral )  adopta Rand Sul-Africano como moeda de referência". Eu estava a trabalhar como correspondente de um órgão internacional, ou seja, estava baseada em Angola, a cobrir a região para um órgão europeu internacional. Esta reportagem foi reproduzida em vários locais. Ou seja, o órgão publicou e depois vários países da SADC e outros países retomaram a reportagem. Depois, o mesmo foi acontecendo com muitas outras peças, até que eu publiquei uma sobre diamantes. Esta sim, foi uma coisa inédita. Foi republicada em vários continentes dos Estados Unidos, no Médio Oriente, na Ásia, e hoje esta peça está a ser utilizada como fonte para teses na Itália, na Polónia, até no Japão. Várias instituições governamentais utilizam esta peça como uma das fontes para trabalhar em relatórios, alguns deles até financiados pela União Europeia. Então, este livro é um guia de abordagem ao terreno inspirado pelas experiências de Neusa e Silva no continente africano? Exactamente. Foram várias experiências, algumas resultaram, outras não resultaram. As que resultaram melhor eu compilei aqui neste livro. Um guia de experiências também a nível de relações interpessoais. Questões que normalmente são consideradas tabu, como assédio nas relações. Por exemplo já aconteceu eu ser contratada por um órgão internacional, chegar ao país, estar completamente distante da minha rede de apoio, e ter, por exemplo, um chefe que diz que para explicar a matéria tem que ir jantar com ele ou tem que fazer isto. Depois, quando a pessoa diz que não, que não é profissional, há tendência, sempre, de estar ali naquele país à mercê de situações. Ou seja, qualquer pessoa que se vê numa situação destas, tendo este livro, neste capítulo "A Arquitectura do Assédio", já vai poder identificar situações que tendencialmente podem colocá-la em perigo de assédio, perigo de bullying e também como recolher provas, como abordar estas situações caso a instituição decida proteger os infractores, que é o que infelizmente acontece muito. Portanto, aqui tem os três pilares da arquitectura do abuso, do assédio ou bullying, que são: o assédio hierárquico, o vertical, que acontece quando o poder formal é instrumentalizado para fins de coerção aos subordinados, aqui eu explico como é que acontece, que situações a pessoa pode identificar logo no início, as características, é a simetria acentuada de poder, abuso de autoridade, utilização de controlo sobre a carreira como mecanismo de pressão. Depois, tenho aqui alguns exemplos como solicitações inapropriadas sobre disfarce profissional, que aconteceram comigo e que acontecem com muitas outras pessoas. Depois  tenho aqui o assédio por procuração, que acontece quando um chefe dá o poder a um subordinado para que ele faça bullying com os demais colegas, gozando de determinada protecção. Então, este Mapa que Nasceu no Terreno não é um simples guia do passo-a-passo que um jornalista deve fazer para conseguir construir determinada reportagem ou conseguir abordar determinado tema. É também como lidar com uma quantidade de pressões que podem surgir no contexto profissional? Exactamente. Como disse, este é um mapa de que eu precisei e que não vi em lugar nenhum. Então, desde a entrada para o mundo profissional, desde as questões de relações interpessoais que na escola não nos ensinam, nem os nossos pais nos dizem que no trabalho vamos ter situações deste tipo ou daquele tipo, ninguém nos diz isso. Nós descobrimos quando acontece connosco, e acontece com todo mundo, em todo lado. Não é nem uma questão de se colocar na posição de vítima. Às vezes, até algumas pessoas que hoje estão na posição de vítima também já praticaram o assédio ou o bullying com outras pessoas. O livro O Mapa que Nasceu no Terreno, Guia de Sobrevivência ao Assédio Laboral, Jornalismo e o Método de Investigação do Local ao Global foi, para já, editado por uma editora internacional, uma editora alemã, e já foi também apresentado em ambiente universitário, os estudantes de jornalismo foram o público dessas apresentações. Como é que foi a reacção? Sim, a obra já foi publicada por uma editora alemã, internacional e académica, mas foi uma publicação apenas para licenciar o livro e proteger o método, a metodologia e tudo o que está aqui para garantir os meus direitos autorais e o licenciamento da obra para eu estar protegida. Proximamente será feita a edição comercial. Sim, já foi apresentado em universidades e a recepção por parte de coordenadores do curso de Comunicação Social e mesmo por parte dos estudantes foi muito boa. Vi colegas, jornalistas que participaram das actividades na apresentação desta metodologia de produção de reportagens do local ao global, a dizerem “eu nunca tinha ouvido falar disso”. Porque eu criei a metodologia de produção de reportagens Quatro Quadrantes que depois dá origem à Sinfonia das Fontes. Eu explico como tudo isso acontece e dou exemplos. Portanto, a metodologia está comprovada que funciona porque eu tenho várias reportagens que realmente estão disponíveis na internet em várias línguas e estão a servir de fontes para relatórios em Antuérpia, no Japão, na Polónia, na Itália. Então, de facto, é prático. Eu acho que este livro será pertinente. Pela reacção dos estudantes e do corpo docente, eu acho que estou satisfeita, a reacção tem sido muito, muito boa. Esta obra, produzida por uma jornalista angolana, desafia a história da produção do conhecimento e como o Ocidente o reconhece. No fundo, é uma produção de conhecimento vinda do Sul Global. Esta obra desafia a comunidade académica, em particular, e criadora de conhecimento a desmontar o pensamento estereotipado de que o Sul Global, em especial o sul de África, não produz conhecimento e propõe um caminho alternativo do jornalismo comunitário, autónomo e enraizado na realidade vivida no Sul Global. Mais do que uma proposta teórica, trata-se de uma reconfiguração epistemológica que coloca o conhecimento gerado na periferia global no centro do debate. Desafia também a Academia e o campo mediático a reconhecer o sul de África, ou África em si, não como objecto de estudo apenas, mas como um sujeito activo na produção do saber. Há sempre alguma resistência a aceitar o conhecimento produzido em África, a tendência é costumarmos ver África como objeto de estudo. Então, eu acho que seria também como uma descolonização da maneira como pensamos o conhecimento produzido, até mesmo o conhecimento tradicional, o conhecimento das pessoas que vivem no local como tão válido como o conhecimento produzido pela Academia, e ser considerado também como útil. Na medida em que há provas, pelo menos aqui, de que esta metodologia de produção em Quatro Quadrantes, e depois com a Sinfonia das Fontes, dá real resultado ancorando sempre a notícia no local. O que nós vemos muito agora é, com a crise nos média, as televisões, grandes televisões, vão reduzindo o pessoal vão fechando as suas instalações fora dos países. Então, quase que a produção é feita em estúdio com análise. Este livro quer recuperar um bocadinho a valorização da narrativa feita a partir do local atrav

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  3. 2d ago

    Moçambicanos relatam clima de medo e insegurança no regresso da África do Sul

    Moçambique recebeu nesta 4ª feira, 03 de Junho, perto de 600 cidadãos que fugiram da violência xenófoba na vizinha republica da África do Sul. A fronteira de Ressano Garcia, na província de Maputo, foi a porta de entrada dos cidadãos que relatam violência física, queima de residências, mortes e outros crimes de que foram alvo por parte dos cidadãos sul-africanos. O grito é de socorro… e vem de todos os lados da África do Sul  São cidadãos moçambicanos que temem pela sua vida, são cidadãos moçambicanos que fizeram da terra do Rand a sua pátria. Muitos residem neste país vizinho há décadas, outros nasceram nesse território e que hoje vêem-se confrontados com os movimentos anti-imigrantes que fixam atá ao dia 30 deste mês de Junho para abandonarem o país. Esta não é uma exigência feita só aos indocumentados diz Silva Valoi, que, apenas de mochila as costas regressou a Moçambique, como parte do primeiro grupo de moçambicanos repatriados numa acção coordenada pelo Governo.   “Disseram que eram contra pessoas que não têm papéis, mas eu tenho. O meu passaporte que está aqui comigo é válido, mas eles não queriam isso aí, estavam a destruir", descreveu, falando do que viu. “Incêndios de casas, mortes e muito muitas coisas aconteceram lá. Mataram pessoas, queimaram casas e roubaram as nossas coisas, e nós fugimos porque se não fugíssemos iam matar-nos”. A incerteza toma conta a cada dia e entre encarar a vida ou até morte prometida pelos movimentos anti-imigrantes, como March on March, muitos são os moçambicanos que começam a deixar o país e,  chegam à pátria amada com as mãos cheias de nada.  "Coisa que aconteceu lá é muito triste porque lá dizem que não querem mais estrangeiros porque nós levamos emprego deles, essas coisas assim já quando te encontram enquanto és estrangeiro matam-te, queimam casas, roubam coisas assim estamos a regressar sem nada, nem documento, nem nada”, disse outra pessoa que voltou da África do Sul. E é por Ressano Garcia, o maior posto de fronteira terrestre que separa Moçambique e a África do Sul, que chegam centenas de moçambicanos num movimento cada vez mais intenso. As autoridades governamentais moçambicanas, garantem que estão criadas todas as condições para receber os seus concidadãos diz Gabriel Monteiro, vice- presidente do Instituto Nacional de Gestão de Risco de Desastres INGD.  “O nosso consulado, a embaixada faz também a triagem lá e o que nós recebemos são compatriotas já, digamos, reencaminhados, vêm acompanhados pelos nossos colegas da África do Sul e quando chegam aqui a nossa obrigação é fazer de tudo para que o processo decorra com maior flexibilidade para mitigar o sofrimento. Há uma logística preparada para a sua viagem então receberão também um kit para as suas casas. Tudo isso é feito pelo Governo para mitigar este sofrimento que eles passaram ou vao passando neste processo todo”, explicou Gabriel Monteiro. O administrador do distrito da Moamba, Carlos Mussanhane lamenta que esta situação de xenofobia esteja mais uma vez a acontecer na África do Sul e já com o registo de várias mortes entre a comunidade moçambicana.  “Devemos, como continente, como mundo, termos uma abordagem mais ampla e mais integrada sob o ponto de vista como é que nós estruturamos as nossas sociedades para sermos sociedades de mãos abertas para podermos ter a capacidade de nos ampararmos”, indicou Carlos Mussanhane. E os transportadores de passageiros que ligam Mocambique a vários destinos da África do Sul ja sentem na pele o tratamento diferenciado nos postos de fronteira, diz o presidente da associação moçambicana - África do Sul transporte associados, Frederico Lopes.  "Do lado de Mocambique é excelente, não há duvida nenhuma. Pode chegar aí um autocarro, dois ou três autocarros haver uma filazita aí de 50 ou 100 ou mesmo 150 pessoas  em menos de 30 minutos as pessoas estão despachadas. Do outro lado é sinal de que não nos querem do outro lado. A pessoa chega a ficar na fila duas ou três horas  e há momentos quando vê que a fila é grande, aí ficam envergonhados, até chamam, mandam alguém dizer, quem tem passaporte sul-africano para se retirar da fila para poderem carimbar. Isso é quase todos os dias. Quando é fim de semana, a situação é pior”, indicou o líder dos transportes. O politico moçambicano Augusto Pelembe culpa o Governo moçambicano por tudo o que está a acontecer. “O maior problema é nosso como Moçambique. O que é que estamos a fazer desde a independência para que os jovens tenham emprego para que as pessoas não queiram ir para a África do Sul sofrer porque aquilo é um sofrimento. Se Mocambique tivesse abertura para que os jovens tivessem emprego nenhum moçambicano ia preferir ir para África do Sul sofrer. Agora, cabe a quem está a governar criar politicas acertadas para que Moçambique volte a ter uma indústria que possa absorver a maioria dos moçambicanos para terem oportunidade de emprego”, detalhou o político. A violência xenófoba atinge crianças, mulheres, idosos que regressaram ao país na 4ª feira, 03 de maio, num primeiro repatriamento programado pelo governo moçambicano. Cerca de 600 pessoas de acordo com a porta voz do INGD, Nelma de Araujo.   "Na sua maioria são da província de Gaza, com um total de 337 pessoas de Gaza, oito de Manica, 107 da província de Maputo e 17 da cidade de Maputo. Como INGD nós estivemos a trabalhar e a coordenar a atividade, o INGD não esteve sozinho, esteve também com o INACE , com a migração, com a saúde. Nós recebemos os repatriados, depois de se apresentarem aos serviços de migração fizemos o registo, tirando os seus dados, o contacto e que actividades estavam a desempenhar na vizinha África do Sul”, detalhou Nelma de Araujo. A África do Sul é vista como o El Dorado para muitos cidadãos moçambicanos. Residem neste pais vizinho mais de 300 mil cidadãos segundo dados oficiais, a sua maioria trabalha nas minas.

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  4. May 15

    Vier trouxe "Lúcido" ao Festival de cinema de Cannes

    O cineasta português Vier trouxe a curta metragem "Lúcido" à competição imersiva do Festival de cinema de Cannes. Uma viagem em realidade virtural ao sonho lúcido protagonizada por um casal gay. Boa tarde Vier. Bem-vindo ao Festival de Cinema de Cannes. É um prazer acolhê-lo. Vamos falar, nomeadamente da terceira edição de Cannes Imersivo, uma competição de nove experiências inéditas. E começaria mesmo por perguntar como é que é esta competição imersiva ? Nós sabemos que ela decorre num célebre hotel de Cannes, que implica frequentemente recurso a óculos especiais. Como é que está a viver isto e como é que isto se materializa? Esta nova competição imersiva começou em 2024. Tenta introduzir novas abordagens. relativamente ao cinema, que utiliza a realidade virtual, que utiliza projecção de vídeo que de alguma forma tentam incluir o participante ou o espectador dentro da própria experiência cinematográfica. Portanto, é uma obra inovadora...   Não há nada da inteligência artificial, realidade virtual, inteligência artificial são coisas completamente distintas. Quando falamos em realidade virtual, falamos de tecnologia que permite a uma pessoa entrar dentro do mundo digital e habitar este mundo em 360 graus, que ocupa toda a visão do espectador. As imagens são completamente criadas por mim. Aliás, são uma extensão do meu trabalho visual como pessoa que pinta, como pessoa que desenha.   Vamos falar disso precisamente. É uma colaboração entre seis estúdios, incluindo o português Cola Animation. Mas também há estúdios do Brasil, Colômbia, Espanha, Itália e Dinamarca. Como é que surgiu "Lúcido"?   Isto surgiu de um programa chamado Ibermedia Next, que é um fundo de apoio a colaborações entre países mediterrânicos e a América Latina. E a estrutura deste fundo fez-nos pensar em criarmos uma antologia de colaboração entre vários estudos, de forma a partilharmos o conhecimento que temos, nomeadamente no que diz respeito a realidade virtual. E a tentarmos, de alguma forma, criar uma estrutura na qual cada uma das experiências se inseriria. E ao mesmo tempo permitir muita liberdade no que diz respeito ao processo criativo. A antologia enquadra seis experiências de realidade virtual, todas muito distintas umas das outras, com estilos e realizadores diferentes. O que as une é precisamente essa colaboração na partilha de conhecimento e, de alguma forma, de todas as experiências estão relacionadas com a temática do sonho. Interpreta de formas muito distintas, mas há esse ponto de ligação.   Vamos falar da forma. Você falava da realidade virtual e isto estamos a falar da 3D. De que é que estamos a falar exactamente? Uma experiência a três dimensões. Difere dos filmes 3D precisamente pelo facto de estarmos dentro dele. Há relevo ! Há relevo. Há noção de perspectiva e a liberdade de movimento. No "Lúcido", a pessoa participante tem a capacidade de voar pelos ambientes oníricos onde a narrativa se passa. Interpretam ou não a personagem consoante ela está lúcida no sonho, naquele momento? Ou seja, eu uso o facto de a pessoa conseguir encarnar a personagem como uma ferramenta narrativa. Faz parte da história. Falando ainda um pouco da forma. Portanto, o projecto tem banda sonora do músico Filipe Raposo e vozes, nomeadamente na versão portuguesa dos actores Tadeu Faustino e Rafael Gomes. Como é que foi implicar esta gente toda? E depois há outros nomes para a versão em inglês para fazer "Lúcido" ?   Foi bastante interessante. O Filipe Raposo foi-me muito recomendado pelo Bruno Caetano e a nossa colaboração numa banda sonora foi uma experiência bastante feliz. No caso dos actores, foi uma busca interessante. Nós abrimos um casting para actores e quando eu ouvi o Tadeu e o Rafael interpretarem o texto pela primeira vez, foi imediata a decisão. Eu percebi logo que sim. Nem preciso quase de dirigir estas pessoas, elas já sabem a voz, a intenção destas personagens. O Tadeu tem uma voz deliciosamente simpática e querida e acolhe o participante na experiência, que é precisamente aquilo que eu queria com a personagem do namorado do Gil. E o Rafael tem esta doçura e profundidade na voz dele, que se traduz perfeitamente na personagem. Fiquei mesmo muito contente. Sinto que eles pegaram naquilo que era um texto que eu escrevi com 22 anos, já há quase mais de seis anos e dei-lhe uma profundidade que eu não imaginava que pudesse ter. Fez-me mesmo muito feliz. Acho que o nosso trabalho se expande muito pelas pessoas com quem trabalhamos. E faz-me sempre muito feliz pensar e ficar surpreendido com o que as outras pessoas conseguem trazer para os nossos projectos.   Obviamente, porquê "Lúcido" ?, Porque estamos aqui também numa espécie de limbo entre o estar acordado, o estar adormecido e a sonhar. Quando se está acordado está-se lúcido, por norma. Era aí que você queria chegar ?   Sim, a narrativa enquadra-se dentro de um sonho lúcido, que é um fenómeno peculiar da percepção humana, que é o fenómeno de percebermos que estamos a sonhar durante um sonho. Ou seja, ter essa realização que se chama o "sonho lúcido". Esta realização pode- nos dar poder sobre o sonho. Podemos de alguma forma conseguir controlar elementos do ambiente onírico ou não. Muitas vezes estamos lúcidos e não conseguimos controlar na mesma o que se passa à nossa volta. Mas essa dinâmica entre conseguir controlar ou não controlar o ambiente à nossa volta inspira-me. Tem um potencial narrativo muito forte. Este espectro de controlo relacionado diretamente com o que sabemos ou não sabemos. E fez-me perguntar quando é que queremos estar lúcido? Quais são estes momentos em que queremos realmente estar lúcidos? Mas também quais são os momentos em que preferimos estar a sonhar? Quais são os momentos em que preferimos acreditar naquilo que sabemos que não é real? Quando é que isso acontece? Quais são essas situações? Isso levou-me a pensar em luto, nos sonhos em que pessoas que perdemos nos visitam e como isso pode ser extremamente feliz e ao mesmo tempo cruel, porque lembra nos que as perdemos e, ao mesmo tempo, voltamos a esta memória feliz anterior. Daí nasceu a história do Lúcido. Desse sentimento específico, contraditório, da lucidez no sonho.   Então, fala-se aqui da família escolhida. Já fez referência ao Gil e ao namorado. Portanto, estamos a falar de um casal gay. O que é que lhes acontece a eles, grosso modo, para quem ainda não viu o filme ?   Vou já "spoilar" a história toda ? Posso dar a premissa. O Gil acorda de um sonho estranho, peculiar, misterioso, que o deixa de alguma forma incomodado com ele. Não percebemos bem até ao final, mas vou deixar isso em aberto. E o Briso, o namorado, do Gil, propõe-lhe aprender a ter sonhos lúcidos. Propõe-lhe aprender a controlar o sonho porque, de alguma forma, conseguir navegar aquilo que está a incomodar no sonho, no pesadelo que teve. E daí cria-se esta viagem que o Briso entra nos sonhos do Gil para o guiar, para o ensinar a controlá-los. * E o espectador encarna o Gil e vai, nesta viagem de progressivo acumular de poder. Mas esta viagem não é perfeita. O Gil vai perdendo o controlo sobre o sonho, vai perdendo lucidez. E nesses momentos em que perde lucidez, nós conseguimos ter estas vinhetas, estes pedacinhos da vivência do Briso, do Gil e também da outra personagem. Percebemos melhor a dinâmica da relação entre estas três pessoas.   Então, Lúcido, vais estar a competir com outros filmes provenientes do Reino Unido, da França, de Taiwan, da Itália, de Espanha, da Coreia do Sul, das Filipinas. Eu perguntar-lhe-ia qual o seu interesse pelas outras propostas que vão estar a competir com o seu filme ? Já as viu? Vai tentar ver ? O que é que pretende viabilizar durante a sua estada aqui em Cannes ?   Gostava de vê-los todos,  está a ser muito difícil conseguir arranjar bilhetes. Tem esgotado com uma rapidez fascinante em poucos segundos, deixa de haver. E a competição imersiva tem o desafio adicional de serem relativamente poucos locais quando comparado com o cinema. São muitos lugares para uma competição de VR comum, é um pavilhão de quase 100 lugares, mas 100 lugares num festival como Canne não é quase nada. O Lúcido vai estar exibido de três em três dias, por isso, em princípio, 300 pessoas vão ter a oportunidade de experimentar durante o festival. E eu gostava de conseguir experienciar as outras. Ainda não consegui bilhete para nenhuma. Vou ver se consigo mexer umas cordas para alguns dos participantes me cederem um bilhete, porque estou obviamente muito curioso para saber em que consiste o resto da competição.   E ao fim ao cabo, para quem não conhece a sua trajectória, você assina aqui então o "Lúcido". O que é que fez anteriormente? E, se calhar, sobretudo, o que é que pretendo fazer no futuro?   O meu primeiro filme, lancei em 2019, chama se "A Mãe de Sangue" e é uma animação experimental que também utiliza as imagens duplas que tem dominado grande parte do meu trabalho visual. Neste momento estou a realizar a minha próxima curta metragem. Chama-se "A Dança dos fanchonhos" e é uma narrativa que segue várias personagens queer durante a ditadura do Estado Novo, conta com a banda sonora das Fado Bicha. E é esta curta, experimental histórica, que mistura vivência real de pessoas durante o Estado Novo com fantasia, com lendas queer portuguesas mais antigas nesta dança que de alguma forma, e era o que eu gostava que acontecesse, mostrasse parte daquilo que foi a resistência queer durante a história de Portugal.   E em termos de referências cinematográficas que podem ser as suas. Sendo que vem de Portugal, o país, por exemplo, de onde vem também Pedro Rodrigues, que já esteve tantas vezes aqui em Cannes. É

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  5. May 8

    África Fashion: "Um gesto de liberdade onde memória e política se entrelaçam"

    A exposição "Africa Fashion" presente no museu do Quai Branly não se limita a mostrar roupa: percorre histórias, rupturas e continuidades do continente africano. Entre tecidos ancestrais e criações contemporâneas, a exposição revela a moda como linguagem de identidade e resistência. Para o artista guineense Nu Barreto, criar é um gesto de liberdade onde memória, política e futuro se entrelaçam. No museu do Quai Branly, "Africa Fashion" organiza-se como uma travessia. Não se entra para ver apenas roupa: entra-se para percorrer um continente em movimento. Tecidos que são manifestos, cortes que são tomadas de posição, silhuetas que se tornam gestos de soberania. A moda, aqui, não veste apenas corpos, veste também o tempo. Percorremos a exposição com o artista guineense, Nu Barreto, que avança devagar, com a atenção de quem não quer perder nada. Lê, observa, volta atrás. Há um gesto de reconhecimento em cada sala, como se aquela matéria fosse também memória. “Eu continuo a pensar que criar é constantemente motivar, criar é constantemente puxar o limite além”, diz, quase como para resumir o que acaba de ver. Insiste no facto de que criar não é um acto isolado nem ornamental é “ultrapassar momentos, solicitar ânsias, puxar pessoas, dinamizar as pessoas”. Nas suas palavras há uma ideia de criação como movimento, como força que empurra. E talvez seja isso que se sente ao longo da exposição: uma recusa da imobilidade. O que se acumula, fotografias, vídeos, peças, textos não é apenas produção estética. É energia. Nu Barreto fala disso como uma necessidade: “aniquilar a monotonia”. Como se criar fosse, antes de mais, recusar a estagnação. Não há, por isso, um passado estático. Há um presente que se prolonga. O próprio título da exposição, Africa Fashion, pode sugerir uma categoria, um rótulo, algo que se fixa. Mas Nu Barreto desvia-se dessa leitura. “É tornar algo perene, tornar algo definitivo”, diz. Não no sentido de fechar, mas de afirmar continuidade. “Houve, há e haverá.” A moda surge aqui como espelho, “uma espécie de espelho onde todos podemos constatar” essa linha que não se interrompe e, ao mesmo tempo, como actualização permanente. “Estamos actualizados, sempre estivemos actualizados.” A frase desmonta uma narrativa antiga: a de que África chega tarde à modernidade. Aqui, a modernidade não chega porque sempre esteve. Essa continuidade atravessa inevitavelmente o momento das independências. A exposição põe em destaque o ano de 1960, o chamado ano de África, quando 17 países se libertam do domínio colonial. A moda acompanha esse tempo como afirmação de identidade, como construção de um orgulho visual. Mas Nu Barreto recusa a ideia de ruptura total porque “embora parecesse parado no tempo, nunca parou”, diz. O essencial, para ele, está noutro plano: “enquanto a política tem o dia-a-dia das pessoas, a cultura, a arte está a trabalhar a mente das pessoas”. É aí que se joga uma transformação mais profunda. “Com isto nós moldamos o mundo.” As diferenças entre experiências coloniais, sejam elas francófonas, anglófonas, lusófonas não anulam essa leitura. “O fundo é a mesma coisa”, afirma. E esse fundo revelou-se resistente: “a cultura mostrou mais uma vez que permanece, prevalece e prevalecerá”. Durante muito tempo essa permanência não foi visível ou não foi reconhecida. O centro de decisão cultural estava noutro lugar, o que era contemporâneo, o que era legitimado, vinha do Ocidente. A exposição responde a isso sem estridência. “Não foi falado porque nunca se parou”, diz Nu Barreto. A criação existia, apenas não era escutada. O que se vê agora é, nas suas palavras, “uma resposta de que não conseguiram impedir”. Mas não há aqui uma lógica de confronto puro. Nu Barreto fala antes de circulação, de mistura inevitável: “o europeu consome o africano, o africano consome a cultura europeia”. O mundo, lembra, “sempre esteve em movimento”. E é nesse movimento que a moda se inscreve. Há peças que o tornam evidente. Tecidos com séculos de história, padrões que atravessaram gerações, técnicas que persistem. De repente, uma roupa deixa de ser apenas roupa. Torna-se arquivo, memória, símbolo. “É simplesmente uma obra de arte”, diz Barreto. Mas com uma diferença essencial: vive no corpo, circula e é usada. Não fica presa à contemplação. “Eles pegam naquilo que é cultural para incorporar dentro da própria sociedade”, explica. A arte, aqui, não está apenas exposta está em uso. Nalgumas salas, essa relação torna-se mais tensa, mais irónica. Surgem obras que cruzam referências africanas com marcas ocidentais, num jogo de apropriação e crítica. Nu Barreto reconhece o gesto de Hassan Hajjaj que muitas vezes “é provocação”. E lembra que a arte tem esse lugar “é provocativa”. A moda, mesmo quando mais discreta, participa desse gesto. Questiona, desloca, reinterpreta. Mas talvez o eixo mais persistente seja outro: a liberdade. “A moda é uma forma de contar quem somos”, diz e acrescenta que é também a “liberdade de ousar”. Num campo tantas vezes marcado por normas rígidas, essa ideia abre espaço. “Há de tudo para todos.” A frase é simples, mas carrega a ambição de querer tornar a moda um território inclusivo, onde cada corpo possa existir, mas, ainda assim, insuficiente. “Ainda podemos ir além”, diz. Essa vontade de ir além cruza-se com outra dimensão forte na exposição: a memória. A moda, aqui, não é apenas inovação.“Vai e vem, nunca para”, observa. Não se trata de repetição literal. Há adaptação, transformação e “tem que se adaptar”, explica Nu Barreto, acrescentando que há um processo de procura de imagem: “uma espécie de espiral”. Não se regressa ao mesmo ponto, avança-se, trazendo o passado consigo. No fim do percurso, o que fica não é apenas um conjunto de peças. É uma sensação mais difusa, a de que criar pode ser um acto de libertação. Para Nu Barreto, essa ideia atravessa tudo: “criar é constantemente puxar o limite além”.

    15 min
  6. Apr 10

    Guiné-Bissau: Primeira edição do Festival Kanta Na Kasa

    Cada vez mais inserida na chamada Música do Mundo, Karyna Gomes decidiu montar e liderar o festival que a própria baptizou de Kanta Na Kasa com o qual pretende juntar famílias de todas as idades, dentro da Mandjuandadi, uma filosofia bem guineense marcada pela partilha da música, da dança, da galhofa e de comes e bebes. Karyna Gomes quer com o Kanta Na Kasa colocar a Guiné-Bissau na rota de festivais que acontecem um pouco por toda África Ocidental nestas alturas do ano. Essa iniciativa vem numa necessidade de que temos na Guiné-Bissau independentemente da nossa situação conjuntural termos um festival de referência para fazer jus à dinâmica que existe na sub-região. A escolha do mês de Abril é propositada para que possamos entrar naquilo que eu chamo de rota de festivais de referência que acontecem em Cabo Verde, na Costa do Marfim e no Senegal e a Guiné-Bissau fazendo parte dessa geografia fica de fora com todo o potencial que tem independentemente de todas as circunstâncias que nós temos vivido. Com o patrocínio de um banco de Bissau, a primeira edição do festival Kanta na Kasa vai ter a mulher como o enfoque principal.  O que vai acontecer são dois dias de concertos, dois concertos por dia, quiosques com enfoque na mulher, no empreendedorismo feminino, para dinamizar não só as empreendedoras formais, mas também as informais. Realizamos concerto surpresa no mercado (central de Bissau) onde sorteamos alguns quiosques para dar oportunidade àquelas mulheres que vendem informalmente a terem também um negócio formalizado através da nossa parceira com o nosso principal patrocinador que é Ecobank que tem um projeto ligado à mulher que se chama elevar, Eleved, e com isso, consolidando essa primeira fase nós contamos continuar com o festival que conta ser anual, como já disse com esse objetivo de dinamizar esse sector. É alternativo porque nós sabemos que a Guiné tem tido um momento artístico, mas é um movimento artístico que eu vejo como positivo, mas é massificado e com o foco nos jovens e com um line up e a música jovem. Mas, há um outro mercado alternativo bastante potencializado nos países da sub-região que é o mercado do jazz, da world music e também da música que em parte é mainstream que é digamos assim pop, mas que está focado na performance ao vivo. Na execução ao vivo com músicos de qualidade. Então, nós queiramos oferecer essa alternativa também não só para esse público que não vai aos (concertos) nos estádios às 3 da manhã, mas um público que tem uma certa idade, quer crianças, quer idosos, que possam também, famílias inteiras, participar de um evento que começa num horário que dê para todas as idades, de todas as faixas etárias. A música faz parte do quotidiano do guineense desde sempre, mesmo durante a luta armada pela libertação, mesmo em momentos de combates ferozes, os guerrilheiros nunca deixaram de lado os bons momentos musicais. Karyna Gomes sabe que a Guiné-Bissau passa por momentos conturbados, mas ainda assim diz que um festival musical é bem-vindo. Faz todo o sentido porque nos momentos mais difíceis da vida pública guineense a música sempre fez parte, desde a época de José Carlos Schwarz quando nós vivíamos intensas batalhas nas matas foi através da música que se conseguiu duas coisas: entreter as massas e mobilizá-las também para as causas que nós precisamos lutar, as causas que nós precisamos nos basear para lutar, então eu acho que a música faz todo o sentido nestes contextos também como forma de reconciliação, de reconciliar as pessoas como forma de entreter as pessoas e como forma também de elevar a consciência nacional para a importância de sermos guineenses sobretudo. Tina é um dos géneros musicais característicos da cultura guineense. Karyna Gomes promete brindar o público que for ao festival cantares batidas de Tina produzidas pela própria. Com certeza, este festival é inspirado na filosofia das mandjuandadis que vai além da música. A mandjuandadi é ser guineense, é a nossa matriz da nossa nação, digamos assim. É nas mandjuandadis que aprendemos a lidar com quem é diferente de nós como um dos nossos, juntamos e caminhamos juntos há séculos. Este festival vai ter uma presença forte da Tina tocada por mim e presentear ao publico da Guiné-Bissau com aquilo que eu acho de mais característico que temos como guineenses. Ou seja, somos diferentes, mas somos um. Guilherme Sá Filipe, presidente da Sociedade Guineense de Atores saúda a iniciativa da Karyna Gomes, mas lamenta que a primeira edição do festival Kanta na Kasa esteja a acontecer em Bissau. Na verdade, falta espaço para mais festivais a nível da cidade de Bissau, quando digo à nível da cidade de Bissau deveria ser extensivo também a todas as regiões, porque não podemos dar ao luxo de tudo for bom, numa primeira iniciativa, que fique permanentemente em Bissau. As restantes regiões também merecem tudo do bom e do melhor. Por isso mesmo eu acho que vamos ter de parabenizar a iniciativa e que venham mais iniciativas desta natureza dos outros artistas guineenses Talvez a grande maioria de guineenses possa estar a pensar que o momento não será propício para festivais de música, Guilherme Sá Filipe tem outra opinião. Faz sempre sentido porque os festivais lavam as nossas almas. Cada um de nós tem uma parte humana com carne e osso, mas tem uma alma vivente e essa alma vivente só é acarinhada, é educada através de obras intelectuais. Quando digo isso significa que a música, a literatura, cinema e demais criações artísticas, literárias que favorecem a humanidade, favorecem o ímpeto criativo do homem, favorecem a vivência propriamente entre homens como seres dignos desse nome. Portanto é sempre bem-vindo. Onde a situação é complicada a poesia acalma, onde a situação é complicada, se o dirigente compreender, a música acalma, por isso mesmo é sempre bem-vinda iniciativas dessa natureza.

    8 min
  7. Apr 10

    Dina Salústio: “A nossa sociedade precisa de gente que incomode!”

    Dina Salústio escreveu "A Louca de Serrano". O icónico romance, que é considerado a primeira obra de ficção escrita por uma mulher em Cabo Verde, e já inspirou múltiplos estudos académicos em instituições de diferentes latitudes, conheceu a primeira edição em Cabo Verde no ano de 1998. Agora, A Louca de Serrano tem a edição portuguesa com a chancela da Rosa de Porcelana. A reconhecida e premiada autora cabo-verdiana Dina Salústio, que é membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras, está em Portugal para o lançamento da edição portuguesa de A Louca de Serrano. A RFI aproveitou a ocasião para entrevistar Dina Salústio. Um momento onde, entre outros temas, nos fala de Cabo Verde, da força da mulher cabo-verdiana, de crianças, da solidão, de machismo, de suicídio, de democracia, e de como conseguiu avançar na direcção de publicar a primeira obra. Dina Salústio: Em Cabo Verde não havia tradição da mulher publicar. O primeiro livro que foi publicado por uma mulher foi depois da Independência. Até lá não havia um livro assinado por uma mulher cabo-verdiana, em Cabo Verde. Nós não tínhamos essa tradição de escrever, de publicar. Eu já tinha visibilidade na literatura, porque eu trabalhava na rádio, tinha dois programas financiados pela Unesco, para temas diversos, apoio às crianças na aprendizagem do português. Eu aproveitava e tinha os meus textos todos na rádio e nos jornais também. Aquilo que sobretudo os homens queriam, um bocado de visibilidade, para mim já não fazia sentido, porque eu já estava. Entretanto, fiz o romance e apresentei a dois grandes amigos meus, dei o livro para ler. Eles disseram que gostaram, mas assim, aquele gosto que não te comprometes. Eu fiquei assim um bocado desiludida, mas não desisti, guardei o livro. Entretanto, uma editora, numa revista de Artes e Letras, Laritza Rodrigues, disse, “e se a gente publicasse em fascículos?” Eu disse, “olha, pode ser”, porque é uma tradição já dos escritores, publicar os seus livros em fascículos. E publicou a sinopse do primeiro capítulo. Entretanto, nós desistimos, não sei porquê, mas havia um hiato muito grande entre a saída do um número e o outro, nós desistimos dessa forma. Mais tarde, José Luís Hoppfer Almada e mais José Vicente Lopes, grandes amigos meus, donos de uma editora, conseguiram um financiamento, porque o problema do financiamento era muito grave em Cabo Verde. Conseguiram um financiamento e publicaram o meu livro, mas já muitos anos depois. A Louca de Serrano, como é que aparece? Eu não queria escrever sobre a loucura, claro, queria escrever sobre o isolamento, sobre a solidão, sobre o silêncio, sobretudo. Porque era um quadro que eu via muitas vezes, seja dentro de famílias, seja fosse nas comunidades, então eu resolvi escrever isso. Mas depois, já sabe, os personagens tomam conta do livro. E no fim, a meio, aliás, do livro, eu vi que já estava a falar sobre a loucura. E vim ver então como é que a loucura chega às páginas do meu livro. Era tudo resultado do silêncio, da solidão, da não fala, da exclusão, do machismo, da violência. Tudo isto levou à loucura. RFI: É uma loucura que é um pouco de um retrato da sociedade cabo-verdiana? Um pouco, um pouquinho, talvez, da sociedade cabo-verdiana. Mas também, neste momento em que nós estamos a falar de doenças mentais, de desequilíbrios, de anomalias, de pessoas que fogem rapidamente de uma margem para a outra, uma insegurança muito grande, eu acho que é um fenómeno mundial. Quer dizer, há um silêncio sempre a perseguir-nos, que está dentro de nós, por exclusão, por preconceito, por falta de atingir os objectivos. Nós estamos muito pouco resistentes a uma força interior que nos eleva para cima da loucura, que eu chamo loucura, mas não será loucura, claro, em termos médicos, em termos clínicos. É essa loucura de não se dominar o momento. Eu acho que a loucura preocupa toda a gente, porque nós, em princípio, nós queremos viver numa sociedade onde a gente se olha nos olhos e, quando estamos perturbados, não conseguimos enfrentar. Olhar nos olhos é enfrentar a vida, é enfrentar os problemas, é enfrentar sobretudo a nós mesmos. E a questão do suicídio, por exemplo, suicídio em jovens, eu penso que não será mesmo uma loucura identificada clinicamente, mas é uma fraqueza dos nossos jovens. Eu estou a falar do suicídio nos jovens aqui, em Cabo Verde, em qualquer lado. Em todos os lados nós estamos a ver isso, miúdos que, de repente, desistem. Eu acho que eu queria que os nossos jovens não desistissem, que a nossa sociedade se preocupasse mais com os filhos, com os alunos, com as pessoas, com os jovens, e que lhes desse essa esperança que está em nós. Nós habituámo-nos a um certo comodismo e esquecemo-nos de nos valorizarmos. Eu penso que isso é que está a levar um bocado, esse tipo de loucura, esse tipo de desistência que o livro fala. Entretanto, no livro, a louca de Serrano, essa louca é uma jovem que é a consciência do povoado de Serrano. Aquilo que as pessoas não querem ouvir, aquilo que elas não querem dizer, aquilo que elas não querem sentir, está sempre ali a louca de Serrano pronta para lhes dizer a verdade, para incomodar, para perturbar. A nossa sociedade precisa de gente que incomode! Precisa de gente que perturba o lar tranquilo. Este é o momento do lançamento em Portugal de uma obra que já tem alguns anos de editado em Cabo Verde. Há outros trabalhos para serem editados, já escritos? Sim, já tenho um trabalho escrito, um romance. Mas deu uma volta e eu parei. Parei porque acho que faltava qualquer coisa, que falta qualquer coisa no romance. Muitas vezes a gente escreve um romance e depois fica... diz porque é que eu fiz disso?” Não que eu tenha posto esta questão, o que é que eu fiz com estes personagens e com esta história. Mas deu uma volta e eu... Está à espera, eu sou uma mulher de espera. Mas pode revelar um pouco, o que é que esse romance nos vai trazer? Vai trazer memórias. Não minhas, mas memórias de uma sociedade. Tenho uma personagem, é uma mulher que cumpre o seu papel enquanto pessoa da sociedade. Ela não é referência, ela é uma anónima e está lá tranquila e ela vai contar a história de uma vida e vamos ver que essa vida percorre vários sítios, vários lugares. E daí constituiu a história de memórias, de reflexões. As mulheres são sempre um pilar, se não o pilar das obras que escreve. Sim! Claro, claro! Os protagonistas são mulheres, mas têm uma razão de ser, é que em Cabo Verde as mulheres são o pilar da sociedade. Quando você fala numa mulher, você automaticamente imagina uma família, imagina os velhos, imagina as crianças, imagina um companheiro, ou a ausência do companheiro. Imagina uma mulher que se levanta de manhã cedo para ir trabalhar e que só volta à noite e que não consegue ver os olhinhos dos seus filhos durante o dia, só apenas ao fim de semana. Portanto, quer dizer, ela é a protagonista, mas por ela passam os homens, passam as outras mulheres, passa a sociedade, a governação, passa a vida de todos os dias. O que é que procura quando escreve contos, livros infantis, poemas, romances? Eu sou professora primária de formação, a minha primeira formação é professora primária. Então, quando começo a escrever um livro infantil, por exemplo, eu penso nas crianças. Quando escrevo um livro para adultos, eu penso ainda nas crianças. Mas não é o pensar em termos de dedicar a ele, eu penso na evolução dessa criança. Enquanto escritora, eu penso que não tenho um papel definido. Eu escrevo porque quero, embora tenha sempre um objectivo prático. Eu sou pessoa de participação. Eu quero participar, eu escrevo. Eu quero contar, quero narrar, quero dizer, quero escrever Cabo Verde. Por isso é que sou escritora cabo-verdiana, eu escrevo Cabo Verde. Mas eu acho também que não tenho um papel na sociedade. Só que eu procuro ser honesta. Como qualquer profissional, nós queremos ser sempre honestos. E eu penso que aquilo que passo para o papel é uma forma sempre positiva. Sempre positiva da vida, sempre mostrando aquilo que eu penso ser um caminho possível de cruzar. O seu processo de escrita é um processo que leva tempo a respirar, porque as edições, os livros que apresenta, levam o seu tempo a aparecerem ao público. Está a pensar-se no leitor quando escreve? Eu, quando escrevo, penso no leitor. Até tenho fotografia do leitor comigo. Eu gosto de estar a escrever e olhar para o leitor, para a leitora, e dizer que ele vai gostar, isso servirá para ele. Eu faço sempre isso, aprendi isso no curso de jornalismo. Você, quando quer fazer uma notícia, põe a fotografia do hipotético ouvinte à sua frente. Eu faço isso com a escrita. Mas sabe, a escrita para mim é um hobby, não é uma profissão. Quando tenho um tempinho eu escrevo. Sou uma pessoa de muitos afazeres, de muita participação, de muita coisa. Então fica-me pouco tempo para escrever. Mas eu acho que estou sempre a escrever, só não publico (risos). Enquanto mulher cabo-verdiana, como é que vê a participação das outras mulheres cabo-verdianas na sociedade cabo-verdiana? A mulher cabo-verdiana é mais do que metade da sociedade cabo-verdiana. Nós somos a maioria. Pelo menos éramos. No aspecto social, económico, familiar, a mulher está sempre ali, sozinha muitas vezes. Por incompatibilidades, por posições machistas, por posições levianas, masculinas, a mulher encontra-se sempre muito só com a família. Por aí, 60% dos chefes de família era formada por mulheres. Mas isso não é uma questão que nos dê força. É triste, porque vemos que todo o peso cai sobre ela. Toda a responsabilidade cai sobre ela. E nós fomos pensar se teríamos uma sociedade diferente, se houvesse um companheiro a ajudar no dia-a-dia, com os filhos, com a

    14 min
  8. Apr 4

    Sandra Baldé afirma identidade africana no Back2Black em Paris

    O Back2Black estreou-se em Paris, no Théâtre du Châtelet, como um manifesto afro-brasileiro que cruza música, memória e identidade. Com artistas como Gilberto Gil e a DJ guineense Sandra Baldé, o movimento propôs uma leitura contemporânea das ligações históricas entre África e Brasil. “Todos os gestos culturais também são políticos”, afirma Connie Lopes, responsável pela organização. O Back2Black chegou a Paris com um posicionamento: mais do que um festival musical, pretende afirmar-se como um espaço de reflexão cultural e política sobre as ligações entre África e o Brasil. Criado em 2009 no Rio de Janeiro, o projecto tem vindo a consolidar-se como uma plataforma de circulação de artistas e de diálogo afro-diaspórico. Para Connie Lopes, responsável pela organização, esta edição parisiense foi pensada como um “manifesto afro-brasileiro”, centrado na valorização de uma herança histórica comum. “África é o primeiro grande país de onde o homem partiu e continua a influenciar a cultura contemporânea do mundo inteiro”, afirma. A produtora sublinha ainda o impacto da história da escravatura na formação cultural brasileira: “Recebemos quatro milhões de africanos, embora escravizados, e isso enraizou-se de forma muito forte no Brasil”. Essa herança, acrescenta, manifesta-se hoje numa “cultura negra muito pulsante”, particularmente visível em cidades como Salvador ou o Rio de Janeiro. A escolha de Paris como palco desta edição prende-se, segundo Connie Lopes, com a receptividade do público local. “O público francês já absorve há muito tempo a cultura africana e as culturas do mundo”, observa, considerando que essa abertura facilita a apresentação de propostas artísticas híbridas. O programa inclui encontros entre artistas de diferentes geografias, como Agnes Nunes e Blick Bassy, bem como a presença de Gilberto Gil, cuja participação é descrita como “uma dádiva”. “Ele representa tudo o que estamos a trazer aqui”, afirma a organizadora, destacando o simbolismo de contar com um dos nomes maiores da música brasileira, numa fase final da sua carreira. Entre os nomes em destaque esteve também Sandra Baldé, DJ guineense conhecida como Umafricana, cujo trabalho cruza géneros como afrobeat, funk e amapiano. A artista explica que a construção dos seus sets assenta nas ligações naturais entre estas sonoridades: “Apesar de serem continentes diferentes, há sempre elementos dentro desses géneros que acabam por se conectar”. Essa continuidade permite-lhe criar “transições de forma muito natural”. A escolha musical, acrescenta, é inseparável da sua identidade: “Faz parte daquilo que eu sou, do que escuto diariamente e dos artistas que me inspiram”. Para Sandra Baldé, tocar no Back2Black representa também uma oportunidade de representação: “Sinto-me muito grata por estar aqui a representar a cultura africana e trazer sonoridades que muitas pessoas não conhecem”. Actuar no Théâtre du Châtelet, um espaço emblemático da vida cultural parisiense, reforça essa dimensão. “É gratificante, porque sinto que estou a abrir portas para que mais disto aconteça”, afirma. A DJ sublinha ainda a importância de levar estas músicas a contextos menos habituais: “É uma honra e uma responsabilidade trazer estas sonoridades para espaços pouco vulgares”. Essa abertura a novos públicos é encarada como um processo de descoberta: “Na maior parte das vezes, as pessoas estão abertas a ouvir coisas diferentes”. Para além da dimensão artística, Sandra Baldé reconhece um papel político no seu trabalho. “O facto de eu existir nestes espaços e promover estas sonoridades já é político e reivindicador”, afirma. Num contexto internacional marcado por tensões sociais e identitárias, a música surge, na sua perspectiva, como ferramenta de resistência: “A música vai sempre salvar. É uma forma de expor problemas, injustiças e manter-nos motivados”. Referindo-se à actualidade na Guiné-Bissau, num momento em que o país está de luto pela morte do activista Vigário Luís Balanta, Umafricana considera que episódios de violência e silenciamento devem ser transformados em motivação: “São situações desmotivantes, mas também um incentivo para continuarmos a exigir aquilo a que temos direito”.

    13 min

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