Reportagem

Acompanhe os repórteres da RFI em conteúdos que ilustram o pulsar do mundo na sua diversidade.

  1. APR 10

    Guiné-Bissau: Primeira edição do Festival Kanta Na Kasa

    Cada vez mais inserida na chamada Música do Mundo, Karyna Gomes decidiu montar e liderar o festival que a própria baptizou de Kanta Na Kasa com o qual pretende juntar famílias de todas as idades, dentro da Mandjuandadi, uma filosofia bem guineense marcada pela partilha da música, da dança, da galhofa e de comes e bebes. Karyna Gomes quer com o Kanta Na Kasa colocar a Guiné-Bissau na rota de festivais que acontecem um pouco por toda África Ocidental nestas alturas do ano. Essa iniciativa vem numa necessidade de que temos na Guiné-Bissau independentemente da nossa situação conjuntural termos um festival de referência para fazer jus à dinâmica que existe na sub-região. A escolha do mês de Abril é propositada para que possamos entrar naquilo que eu chamo de rota de festivais de referência que acontecem em Cabo Verde, na Costa do Marfim e no Senegal e a Guiné-Bissau fazendo parte dessa geografia fica de fora com todo o potencial que tem independentemente de todas as circunstâncias que nós temos vivido. Com o patrocínio de um banco de Bissau, a primeira edição do festival Kanta na Kasa vai ter a mulher como o enfoque principal.  O que vai acontecer são dois dias de concertos, dois concertos por dia, quiosques com enfoque na mulher, no empreendedorismo feminino, para dinamizar não só as empreendedoras formais, mas também as informais. Realizamos concerto surpresa no mercado (central de Bissau) onde sorteamos alguns quiosques para dar oportunidade àquelas mulheres que vendem informalmente a terem também um negócio formalizado através da nossa parceira com o nosso principal patrocinador que é Ecobank que tem um projeto ligado à mulher que se chama elevar, Eleved, e com isso, consolidando essa primeira fase nós contamos continuar com o festival que conta ser anual, como já disse com esse objetivo de dinamizar esse sector. É alternativo porque nós sabemos que a Guiné tem tido um momento artístico, mas é um movimento artístico que eu vejo como positivo, mas é massificado e com o foco nos jovens e com um line up e a música jovem. Mas, há um outro mercado alternativo bastante potencializado nos países da sub-região que é o mercado do jazz, da world music e também da música que em parte é mainstream que é digamos assim pop, mas que está focado na performance ao vivo. Na execução ao vivo com músicos de qualidade. Então, nós queiramos oferecer essa alternativa também não só para esse público que não vai aos (concertos) nos estádios às 3 da manhã, mas um público que tem uma certa idade, quer crianças, quer idosos, que possam também, famílias inteiras, participar de um evento que começa num horário que dê para todas as idades, de todas as faixas etárias. A música faz parte do quotidiano do guineense desde sempre, mesmo durante a luta armada pela libertação, mesmo em momentos de combates ferozes, os guerrilheiros nunca deixaram de lado os bons momentos musicais. Karyna Gomes sabe que a Guiné-Bissau passa por momentos conturbados, mas ainda assim diz que um festival musical é bem-vindo. Faz todo o sentido porque nos momentos mais difíceis da vida pública guineense a música sempre fez parte, desde a época de José Carlos Schwarz quando nós vivíamos intensas batalhas nas matas foi através da música que se conseguiu duas coisas: entreter as massas e mobilizá-las também para as causas que nós precisamos lutar, as causas que nós precisamos nos basear para lutar, então eu acho que a música faz todo o sentido nestes contextos também como forma de reconciliação, de reconciliar as pessoas como forma de entreter as pessoas e como forma também de elevar a consciência nacional para a importância de sermos guineenses sobretudo. Tina é um dos géneros musicais característicos da cultura guineense. Karyna Gomes promete brindar o público que for ao festival cantares batidas de Tina produzidas pela própria. Com certeza, este festival é inspirado na filosofia das mandjuandadis que vai além da música. A mandjuandadi é ser guineense, é a nossa matriz da nossa nação, digamos assim. É nas mandjuandadis que aprendemos a lidar com quem é diferente de nós como um dos nossos, juntamos e caminhamos juntos há séculos. Este festival vai ter uma presença forte da Tina tocada por mim e presentear ao publico da Guiné-Bissau com aquilo que eu acho de mais característico que temos como guineenses. Ou seja, somos diferentes, mas somos um. Guilherme Sá Filipe, presidente da Sociedade Guineense de Atores saúda a iniciativa da Karyna Gomes, mas lamenta que a primeira edição do festival Kanta na Kasa esteja a acontecer em Bissau. Na verdade, falta espaço para mais festivais a nível da cidade de Bissau, quando digo à nível da cidade de Bissau deveria ser extensivo também a todas as regiões, porque não podemos dar ao luxo de tudo for bom, numa primeira iniciativa, que fique permanentemente em Bissau. As restantes regiões também merecem tudo do bom e do melhor. Por isso mesmo eu acho que vamos ter de parabenizar a iniciativa e que venham mais iniciativas desta natureza dos outros artistas guineenses Talvez a grande maioria de guineenses possa estar a pensar que o momento não será propício para festivais de música, Guilherme Sá Filipe tem outra opinião. Faz sempre sentido porque os festivais lavam as nossas almas. Cada um de nós tem uma parte humana com carne e osso, mas tem uma alma vivente e essa alma vivente só é acarinhada, é educada através de obras intelectuais. Quando digo isso significa que a música, a literatura, cinema e demais criações artísticas, literárias que favorecem a humanidade, favorecem o ímpeto criativo do homem, favorecem a vivência propriamente entre homens como seres dignos desse nome. Portanto é sempre bem-vindo. Onde a situação é complicada a poesia acalma, onde a situação é complicada, se o dirigente compreender, a música acalma, por isso mesmo é sempre bem-vinda iniciativas dessa natureza.

    8 min
  2. APR 10

    Dina Salústio: “A nossa sociedade precisa de gente que incomode!”

    Dina Salústio escreveu "A Louca de Serrano". O icónico romance, que é considerado a primeira obra de ficção escrita por uma mulher em Cabo Verde, e já inspirou múltiplos estudos académicos em instituições de diferentes latitudes, conheceu a primeira edição em Cabo Verde no ano de 1998. Agora, A Louca de Serrano tem a edição portuguesa com a chancela da Rosa de Porcelana. A reconhecida e premiada autora cabo-verdiana Dina Salústio, que é membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras, está em Portugal para o lançamento da edição portuguesa de A Louca de Serrano. A RFI aproveitou a ocasião para entrevistar Dina Salústio. Um momento onde, entre outros temas, nos fala de Cabo Verde, da força da mulher cabo-verdiana, de crianças, da solidão, de machismo, de suicídio, de democracia, e de como conseguiu avançar na direcção de publicar a primeira obra. Dina Salústio: Em Cabo Verde não havia tradição da mulher publicar. O primeiro livro que foi publicado por uma mulher foi depois da Independência. Até lá não havia um livro assinado por uma mulher cabo-verdiana, em Cabo Verde. Nós não tínhamos essa tradição de escrever, de publicar. Eu já tinha visibilidade na literatura, porque eu trabalhava na rádio, tinha dois programas financiados pela Unesco, para temas diversos, apoio às crianças na aprendizagem do português. Eu aproveitava e tinha os meus textos todos na rádio e nos jornais também. Aquilo que sobretudo os homens queriam, um bocado de visibilidade, para mim já não fazia sentido, porque eu já estava. Entretanto, fiz o romance e apresentei a dois grandes amigos meus, dei o livro para ler. Eles disseram que gostaram, mas assim, aquele gosto que não te comprometes. Eu fiquei assim um bocado desiludida, mas não desisti, guardei o livro. Entretanto, uma editora, numa revista de Artes e Letras, Laritza Rodrigues, disse, “e se a gente publicasse em fascículos?” Eu disse, “olha, pode ser”, porque é uma tradição já dos escritores, publicar os seus livros em fascículos. E publicou a sinopse do primeiro capítulo. Entretanto, nós desistimos, não sei porquê, mas havia um hiato muito grande entre a saída do um número e o outro, nós desistimos dessa forma. Mais tarde, José Luís Hoppfer Almada e mais José Vicente Lopes, grandes amigos meus, donos de uma editora, conseguiram um financiamento, porque o problema do financiamento era muito grave em Cabo Verde. Conseguiram um financiamento e publicaram o meu livro, mas já muitos anos depois. A Louca de Serrano, como é que aparece? Eu não queria escrever sobre a loucura, claro, queria escrever sobre o isolamento, sobre a solidão, sobre o silêncio, sobretudo. Porque era um quadro que eu via muitas vezes, seja dentro de famílias, seja fosse nas comunidades, então eu resolvi escrever isso. Mas depois, já sabe, os personagens tomam conta do livro. E no fim, a meio, aliás, do livro, eu vi que já estava a falar sobre a loucura. E vim ver então como é que a loucura chega às páginas do meu livro. Era tudo resultado do silêncio, da solidão, da não fala, da exclusão, do machismo, da violência. Tudo isto levou à loucura. RFI: É uma loucura que é um pouco de um retrato da sociedade cabo-verdiana? Um pouco, um pouquinho, talvez, da sociedade cabo-verdiana. Mas também, neste momento em que nós estamos a falar de doenças mentais, de desequilíbrios, de anomalias, de pessoas que fogem rapidamente de uma margem para a outra, uma insegurança muito grande, eu acho que é um fenómeno mundial. Quer dizer, há um silêncio sempre a perseguir-nos, que está dentro de nós, por exclusão, por preconceito, por falta de atingir os objectivos. Nós estamos muito pouco resistentes a uma força interior que nos eleva para cima da loucura, que eu chamo loucura, mas não será loucura, claro, em termos médicos, em termos clínicos. É essa loucura de não se dominar o momento. Eu acho que a loucura preocupa toda a gente, porque nós, em princípio, nós queremos viver numa sociedade onde a gente se olha nos olhos e, quando estamos perturbados, não conseguimos enfrentar. Olhar nos olhos é enfrentar a vida, é enfrentar os problemas, é enfrentar sobretudo a nós mesmos. E a questão do suicídio, por exemplo, suicídio em jovens, eu penso que não será mesmo uma loucura identificada clinicamente, mas é uma fraqueza dos nossos jovens. Eu estou a falar do suicídio nos jovens aqui, em Cabo Verde, em qualquer lado. Em todos os lados nós estamos a ver isso, miúdos que, de repente, desistem. Eu acho que eu queria que os nossos jovens não desistissem, que a nossa sociedade se preocupasse mais com os filhos, com os alunos, com as pessoas, com os jovens, e que lhes desse essa esperança que está em nós. Nós habituámo-nos a um certo comodismo e esquecemo-nos de nos valorizarmos. Eu penso que isso é que está a levar um bocado, esse tipo de loucura, esse tipo de desistência que o livro fala. Entretanto, no livro, a louca de Serrano, essa louca é uma jovem que é a consciência do povoado de Serrano. Aquilo que as pessoas não querem ouvir, aquilo que elas não querem dizer, aquilo que elas não querem sentir, está sempre ali a louca de Serrano pronta para lhes dizer a verdade, para incomodar, para perturbar. A nossa sociedade precisa de gente que incomode! Precisa de gente que perturba o lar tranquilo. Este é o momento do lançamento em Portugal de uma obra que já tem alguns anos de editado em Cabo Verde. Há outros trabalhos para serem editados, já escritos? Sim, já tenho um trabalho escrito, um romance. Mas deu uma volta e eu parei. Parei porque acho que faltava qualquer coisa, que falta qualquer coisa no romance. Muitas vezes a gente escreve um romance e depois fica... diz porque é que eu fiz disso?” Não que eu tenha posto esta questão, o que é que eu fiz com estes personagens e com esta história. Mas deu uma volta e eu... Está à espera, eu sou uma mulher de espera. Mas pode revelar um pouco, o que é que esse romance nos vai trazer? Vai trazer memórias. Não minhas, mas memórias de uma sociedade. Tenho uma personagem, é uma mulher que cumpre o seu papel enquanto pessoa da sociedade. Ela não é referência, ela é uma anónima e está lá tranquila e ela vai contar a história de uma vida e vamos ver que essa vida percorre vários sítios, vários lugares. E daí constituiu a história de memórias, de reflexões. As mulheres são sempre um pilar, se não o pilar das obras que escreve. Sim! Claro, claro! Os protagonistas são mulheres, mas têm uma razão de ser, é que em Cabo Verde as mulheres são o pilar da sociedade. Quando você fala numa mulher, você automaticamente imagina uma família, imagina os velhos, imagina as crianças, imagina um companheiro, ou a ausência do companheiro. Imagina uma mulher que se levanta de manhã cedo para ir trabalhar e que só volta à noite e que não consegue ver os olhinhos dos seus filhos durante o dia, só apenas ao fim de semana. Portanto, quer dizer, ela é a protagonista, mas por ela passam os homens, passam as outras mulheres, passa a sociedade, a governação, passa a vida de todos os dias. O que é que procura quando escreve contos, livros infantis, poemas, romances? Eu sou professora primária de formação, a minha primeira formação é professora primária. Então, quando começo a escrever um livro infantil, por exemplo, eu penso nas crianças. Quando escrevo um livro para adultos, eu penso ainda nas crianças. Mas não é o pensar em termos de dedicar a ele, eu penso na evolução dessa criança. Enquanto escritora, eu penso que não tenho um papel definido. Eu escrevo porque quero, embora tenha sempre um objectivo prático. Eu sou pessoa de participação. Eu quero participar, eu escrevo. Eu quero contar, quero narrar, quero dizer, quero escrever Cabo Verde. Por isso é que sou escritora cabo-verdiana, eu escrevo Cabo Verde. Mas eu acho também que não tenho um papel na sociedade. Só que eu procuro ser honesta. Como qualquer profissional, nós queremos ser sempre honestos. E eu penso que aquilo que passo para o papel é uma forma sempre positiva. Sempre positiva da vida, sempre mostrando aquilo que eu penso ser um caminho possível de cruzar. O seu processo de escrita é um processo que leva tempo a respirar, porque as edições, os livros que apresenta, levam o seu tempo a aparecerem ao público. Está a pensar-se no leitor quando escreve? Eu, quando escrevo, penso no leitor. Até tenho fotografia do leitor comigo. Eu gosto de estar a escrever e olhar para o leitor, para a leitora, e dizer que ele vai gostar, isso servirá para ele. Eu faço sempre isso, aprendi isso no curso de jornalismo. Você, quando quer fazer uma notícia, põe a fotografia do hipotético ouvinte à sua frente. Eu faço isso com a escrita. Mas sabe, a escrita para mim é um hobby, não é uma profissão. Quando tenho um tempinho eu escrevo. Sou uma pessoa de muitos afazeres, de muita participação, de muita coisa. Então fica-me pouco tempo para escrever. Mas eu acho que estou sempre a escrever, só não publico (risos). Enquanto mulher cabo-verdiana, como é que vê a participação das outras mulheres cabo-verdianas na sociedade cabo-verdiana? A mulher cabo-verdiana é mais do que metade da sociedade cabo-verdiana. Nós somos a maioria. Pelo menos éramos. No aspecto social, económico, familiar, a mulher está sempre ali, sozinha muitas vezes. Por incompatibilidades, por posições machistas, por posições levianas, masculinas, a mulher encontra-se sempre muito só com a família. Por aí, 60% dos chefes de família era formada por mulheres. Mas isso não é uma questão que nos dê força. É triste, porque vemos que todo o peso cai sobre ela. Toda a responsabilidade cai sobre ela. E nós fomos pensar se teríamos uma sociedade diferente, se houvesse um companheiro a ajudar no dia-a-dia, com os filhos, com a

    14 min
  3. APR 4

    Sandra Baldé afirma identidade africana no Back2Black em Paris

    O Back2Black estreou-se em Paris, no Théâtre du Châtelet, como um manifesto afro-brasileiro que cruza música, memória e identidade. Com artistas como Gilberto Gil e a DJ guineense Sandra Baldé, o movimento propôs uma leitura contemporânea das ligações históricas entre África e Brasil. “Todos os gestos culturais também são políticos”, afirma Connie Lopes, responsável pela organização. O Back2Black chegou a Paris com um posicionamento: mais do que um festival musical, pretende afirmar-se como um espaço de reflexão cultural e política sobre as ligações entre África e o Brasil. Criado em 2009 no Rio de Janeiro, o projecto tem vindo a consolidar-se como uma plataforma de circulação de artistas e de diálogo afro-diaspórico. Para Connie Lopes, responsável pela organização, esta edição parisiense foi pensada como um “manifesto afro-brasileiro”, centrado na valorização de uma herança histórica comum. “África é o primeiro grande país de onde o homem partiu e continua a influenciar a cultura contemporânea do mundo inteiro”, afirma. A produtora sublinha ainda o impacto da história da escravatura na formação cultural brasileira: “Recebemos quatro milhões de africanos, embora escravizados, e isso enraizou-se de forma muito forte no Brasil”. Essa herança, acrescenta, manifesta-se hoje numa “cultura negra muito pulsante”, particularmente visível em cidades como Salvador ou o Rio de Janeiro. A escolha de Paris como palco desta edição prende-se, segundo Connie Lopes, com a receptividade do público local. “O público francês já absorve há muito tempo a cultura africana e as culturas do mundo”, observa, considerando que essa abertura facilita a apresentação de propostas artísticas híbridas. O programa inclui encontros entre artistas de diferentes geografias, como Agnes Nunes e Blick Bassy, bem como a presença de Gilberto Gil, cuja participação é descrita como “uma dádiva”. “Ele representa tudo o que estamos a trazer aqui”, afirma a organizadora, destacando o simbolismo de contar com um dos nomes maiores da música brasileira, numa fase final da sua carreira. Entre os nomes em destaque esteve também Sandra Baldé, DJ guineense conhecida como Umafricana, cujo trabalho cruza géneros como afrobeat, funk e amapiano. A artista explica que a construção dos seus sets assenta nas ligações naturais entre estas sonoridades: “Apesar de serem continentes diferentes, há sempre elementos dentro desses géneros que acabam por se conectar”. Essa continuidade permite-lhe criar “transições de forma muito natural”. A escolha musical, acrescenta, é inseparável da sua identidade: “Faz parte daquilo que eu sou, do que escuto diariamente e dos artistas que me inspiram”. Para Sandra Baldé, tocar no Back2Black representa também uma oportunidade de representação: “Sinto-me muito grata por estar aqui a representar a cultura africana e trazer sonoridades que muitas pessoas não conhecem”. Actuar no Théâtre du Châtelet, um espaço emblemático da vida cultural parisiense, reforça essa dimensão. “É gratificante, porque sinto que estou a abrir portas para que mais disto aconteça”, afirma. A DJ sublinha ainda a importância de levar estas músicas a contextos menos habituais: “É uma honra e uma responsabilidade trazer estas sonoridades para espaços pouco vulgares”. Essa abertura a novos públicos é encarada como um processo de descoberta: “Na maior parte das vezes, as pessoas estão abertas a ouvir coisas diferentes”. Para além da dimensão artística, Sandra Baldé reconhece um papel político no seu trabalho. “O facto de eu existir nestes espaços e promover estas sonoridades já é político e reivindicador”, afirma. Num contexto internacional marcado por tensões sociais e identitárias, a música surge, na sua perspectiva, como ferramenta de resistência: “A música vai sempre salvar. É uma forma de expor problemas, injustiças e manter-nos motivados”. Referindo-se à actualidade na Guiné-Bissau, num momento em que o país está de luto pela morte do activista Vigário Luís Balanta, Umafricana considera que episódios de violência e silenciamento devem ser transformados em motivação: “São situações desmotivantes, mas também um incentivo para continuarmos a exigir aquilo a que temos direito”.

    13 min
  4. APR 3

    Afirmar a “Lisboa Africana” com passado, presente e futuro

    “Lisboa Africana” é uma web-série que nasce da vontade de partilhar a memória africana da capital portuguesa. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, a série produzida pela publicação digital Bantumen estabelece a ponte entre passado e presente, e desenha caminhos de futuro. A RFI falou com a jornalista e directora da Bantumen, Marisa Mendes Rodrigues. “Lisboa Africana” é uma web-série que nasce da vontade de partilhar a memória africana da capital portuguesa. Ao longo de 15 artigos e cinco vídeos, a série produzida pela publicação digital Bantumen estabelece a ponte entre passado e presente, e desenha caminhos de futuro. Como que numa sugestão de registo onde a História transdisciplinar é a catapulta, “Lisboa Africana” resgata e dá luz a elementos até então pouco ou nada valorizados. Os locais, as pessoas, os feitos, o singular e o plural, são reconhecidos nesta “Lisboa Africana” que se afirma desde as primeiras chegadas até à actualidade. A RFI falou com a jornalista e directora da Bantumen, Marisa Mendes Rodrigues, que começa por nos explicar o que é a web-série “Lisboa Africana”. Não tem nada a ver com revisionismo histórico, eu acho que é importante deixar isso claro, mas é um bocadinho partir desta cidade que nós conhecemos e ir à procura destas histórias que estão escondidas. Olhar um bocadinho mais a fundo para sítios, para toponímias, por onde nós passamos diariamente, e desvendar as histórias que estão aí por trás. É outra parte da história que eu não digo que esteja escondida, até porque temos evidências, mas que nem sempre é contada. É abrir espaço para que essas histórias possam existir também. Histórias relacionadas com a presença africana na capital portuguesa? Sim! Sim, sim! Já foram publicados três artigos, o primeiro artigo vai muito atrás, vai às origens. O primeiro artigo conta-nos as chegadas e traz-nos um recorte temporal e social também de quem eram estas pessoas que chegaram aqui, o que é que elas faziam. Nem todas eram escravas, havia muitas pessoas que eram os chamados forros, que contribuíam activamentepara a própria dinâmica da cidade. Então, o primeiro artigo vai a 1443, 1444, parte dali, até de um excerto de (Gomes) Eanes de Zurara, e é a partir daí que depois vamos olhando para a história e traçando a presença de pessoas africanas cá. Depois temos alguns apontamentos, algumas curiosidades, como o Parque de Estacionamento de Lagos, onde se descobriram ossadas, temos referências à Igreja do Rossio, que era uma confraria, que era aquilo que já na altura era chamado de comunidade, era um pequeno espaço que existia ali. Então, eu acho que o primeiro episódio é enquadrar de facto esta presença na cidade que não é de agora. Depois, com o segundo artigo, avançamos no tempo? Avança. Fala muito sobre o bairro do Mocambo, que é a actual Madragoa, que antes chamava Rua das Trinas do Mocambo, agora só Rua das Trinas, e é feita toda essa análise, traçamos tudo o que havia por lá, as varinas, também a forma como algumas mulheres negras já vendiam peixe, já estavam completamente envolvidas naquela que era a dinâmica económica da sociedade. Depois disso passamos para o terceiro artigo, que é a Casa dos Estudantes do Império, que eu acho que para nós, assim a nível de redacção, foi o “uau!”. Ele dá-nos a noção também da virada de chave e daquilo que a Casa dos Estudantes do Império representou, até para depois aquilo que veio a ser o processo de independência das antigas colónias. Ainda vão sair mais artigos, mas o terceiro tem um lugarzinho muito especial. Pode adiantar-nos um pouco daquilo que se encontra nesse terceiro artigo, que é tão apelativo? Sim. A Casa dos Estudantes do Império surge como uma forma de congregar no mesmo espaço estudantes que vinham das antigas colónias, a ideia inicial estava voltada para aquela que era a ideologia do Estado Novo e - anular o surgimento de - ideais protonacionalistas. Mas dá-se depois o reverso da medalha, que é aqueles estudantes, aquelas pessoas todas juntas, no qual temos nomes como Lúcio Lara, Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, o próprio Pepetela, que se juntam ali e começam a ver que têm ideais em comum e que esses ideais nada têm a ver com a ideologia do Estado Novo. Então, começa a surgir através da arte, da literatura, etc. começam ali a surgir os primeiros ideais revolucionários, com o jornal Mensagem a ter um peso muito importante depois também na difusão desses ideais. Antes da Casa dos Estudantes do Império, havia casas de estudantes onde estavam os estudantes vindos de cada uma das antigas colónias portuguesas, estavam separados. Mas a Casa dos Estudantes do Império acaba por juntar toda a gente e é aí que, entre aspas, o bolo fermenta e começa a crescer. No artigo até há uma parte em que nós dizemos que o feitiço se virou contra o feiticeiro, porque o que sai dali nada tem a ver com o que era o objectivo inicial. O artigo até diz, há um excerto que diz que a ideia era elegante. Foi muito bem pensado, só que não correu como esperado. Este é material em texto, mas depois há também material que vai ser publicado em vídeo. O que é que se pode esperar? O material em vídeo vai na mesma linha. O primeiro episódio em vídeo é igual ao primeiro episódio em texto e fala-nos sobre a chegada. É um episódio onde os nossos convidados olham para as chegadas e discutem entre eles, falam entre eles sobre o tema. Depois, os episódios seguintes são muito mais voltados não para o século XX, mas muito mais voltados já para os tempos de hoje. Para sermos justos na análise, para o período pós-independência, que é depois também onde se dá aquela vaga de imigração das antigas colónias para cá. Um dos episódios tem o foco nisso. A imigração, as casas autoconstruídas, como é que estas pessoas vieram, em que períodos vieram, como é que se fixaram. Temos o terceiro episódio que nos fala sobre os bairros sociais e a forma como eles acabaram por ser pólos culturais. Mesmo, às vezes, estando à margem daquilo que nós entendemos como sendo o centro, mas a forma como também ajudaram a preservar a cultura e certas tradições é aquilo que nós chamamos, se calhar, herança viva. Tínhamos muitos bairros, o bairro Seis de Maio, o bairro Estrela de África, Fontainhas, e eu estou a falar da Amadora porque é o que me é mais particular, porque as minhas tias moravam no bairro Seis de Maio. Mas temos exemplos que ainda existem, o bairro da Jamaica, a própria Cova da Moura. Então é feito um retrato destes bairros do que são e do que eles continuam a representar hoje, os que ainda estão de pé. Temos um episódio dedicado à música, aos sons e à forma como a cultura sempre nos salvou. Acho que isto não tem a ver só com a comunidade afrodescendente, eu acho que isto é um bocadinho no geral, eu acho que a cultura salva-nos. No caso da comunidade afrodescendente, a cultura sempre foi um veículo de expressão muito forte, que já existia também e que nós falámos no episódio das chegadas a propósito dos músicos da corte também. E depois temos a Lisboa do Futuro, que é o quinto e último episódio, que é um olhar para a cidade que nós temos hoje. Como é que estas culturas todas convivem, onde é que elas se tocam, onde é que elas se separam, o que podemos esperar daqui para a frente. Obviamente que, depois, essa análise nunca é desligada do tempo político em que vivemos. É uma análise projectada para a frente, mas tendo por base os tempos que vivemos hoje. Mas, no fundo, são conversas informais de pessoas que vivem esta realidade todos os dias ou que de certa forma ajudaram a moldar alguns destes tópicos, destes temas. Como é que foi produzir isto, juntar não sei quantas pessoas para produzir esta websérie? Foi só com Prata da Casa, foi só com a redacção da Bantumen? Como é que foi? Prata da Casa e muita Prata de Fora também, porque sozinhos não era tão fácil. É um projecto que é feito com o apoio da DG Artes. Toda a produção em vídeo é assegurada também pela Many Takes, o realizador é o Fábio Silva, que é uma pessoa que nós conhecemos, e os convidados vieram desta lista extensa de pessoas que nós tínhamos. Houve algumas que vieram logo de caras, houve outras que nós queríamos muito que estivessem, mas por compromissos de agenda não foi possível. Mas, no fundo, também é olhar para aquilo que a Bantumen já faz e para pessoas de que a Bantuman já fala, e entender que, ok, se calhar esta pessoa aqui consegue dar-nos um bom enquadramento deste tema. Mas é um trabalho feito com muitas mãos, muito mais que as mãos da Bantumen, são muitas mãos mesmo, e acho que de outra forma também não seria possível. Já é possível dizer-nos quando é que estarão disponíveis esses vídeos? Na verdade eles já deviam estar, nós estamos mesmo mesmo em fase final de produção. Tudo aponta para que nas próximas 3, 4 semanas os episódios venham ao ar. Em relação aos artigos escritos que se podem encontrar no site da Bantumen, qual é o próximo a ser publicado? Os artigos saem todas as segundas-feiras, o próximo a ser publicado é um artigo dedicado à Rua das Pretas. É olhar um bocadinho para o que era aquele espaço, qual era a dinâmica, e tentar entender o que é que lhe deu o nome, de onde é que veio aquele nome. Está em produção ainda, porque a bibliografia é extensa também, há muita informação, então estamos agora na fase final de ajustes, de filtros e tudo mais. Esta websérie da Bantuman está a ser publicada há sensivelmente um mês. Quais é que têm sido as reacções? Têm tido o feedback? Tem sido um feedback muito positivo, para o público no geral tem gostado. Obviamente que há sempre vozes mais discordantes, mas eu acho que até isso faz parte. Também ac

    16 min
  5. MAR 26

    Cosmologias africanas inspiram espectáculo Buluku de Djam Neguin

    Buluku é o mais recente espectáculo de Djam Neguin e teve estreia em Lisboa. O artista multidisciplinar cabo-verdiano criou um trabalho que sugere a reconfiguração do espaço imaginário e interpela as estruturas que moldam narrativas. Buluku é um espectáculo multidisciplinar e imersivo para crianças e famílias que combina dança, arte performativa, video mapping e design de som original para explorar cosmologias africanas. O trabalho apresenta uma personagem «afronauta» curiosa e brincalhona, que guia o público numa viagem cósmica, criando planetas e inventando danças.  Buluku estreou no Teatro do Bairro, na capital portuguesa, local onde  a RFI falou com Djam Neguin. O artista começa por revelar que Buluku surgiu da falta que sentiu, enquanto criança, de referências a personagens africanas em temáticas futuristas. O espectáculo Buluku surge de um processo de constatação. Quando eu era criança, eu cresci sem referências de personagens africanas que, de alguma forma, abordassem temáticas futuristas, relacionadas com a criação do mundo ou a exploração do universo, a visita no universo. O imaginário espacial ou extraterrestre é muito americanizado, não é? E, como eu venho investigando muito temáticas afro-futuristas, para mim fez sentido trazer esta personagem, criar este espectáculo. Como eu sei da importância de, desde a tenra idade, criar no imaginário das crianças referências, para elas poderem imaginar mundos possíveis, é duplamente para mim, para a minha criança interna, mas também para as crianças e todas as crianças que existem dentro de cada um de nós. Como é que foi o processo de criação deste espectáculo, em concreto? Este é um espectáculo para as famílias, ou seja, onde há uma especial atenção aos mais jovens, quando a experiência do Djam Neguin, maioritariamente, é direccionada a um outro público. Acho que tem muito a ver também com o se colocar nesse estado de brincar. Quando nós brincamos e permitimos voltar, outra vez, a ser crianças, lembrámos-nos de coisas, não é? Porque, como todos nós já fomos crianças, sabemos certos comportamentos, sabemos o que é que faz as crianças rirem, o que é que as faz sentirem medo. Todo esse repertório acaba por influenciar. Então, o processo criativo é sem dúvida lúdico. Ou seja, eu tenho de começar sempre a divertir-me e tenho esse lado meio “cartoonesco”. Ela é uma personagem muito “cartoonesca”, muito brincalhona. Então, tem muitos trejeitos bastante teatrais, muito cómicos, com bastante expressão corporal. Então, toda a composição dessa personagem vem dessa pesquisa, de como é que eu crio essa figura de um “afronauta” que é um brincalhão, um meninão. É um processo que passa, primeiramente, por uma pesquisa. Eu pesquisei muito sobre a questão dos mitos de criação do mundo a partir de vários povos africanos, mitos ancestrais. Esses mitos aparecem, de alguma forma, na linha dramatúrgica. Outros aparecem em vídeo, outros estão em alguns momentos. Alguns aparecem mais explicitamente, outros aparecem no subtexto. Então, o processo foi muito divertido. Mas, além da preocupação em trazer esses mitos de diferentes culturas africanas para o espectáculo, há também uma preocupação com o presente, com a questão ecológica. Sem dúvida. Para falarmos do futuro, temos que também falar do presente. Como é essa possibilidade de imaginar a criação do mundo, ou a preservação do mundo, a partir do cuidado, da questão sustentável, a questão de mesmo em termos de brincar. Nós estamos numa época em que a tecnologia está ao alcance das crianças. O brincar também já passa por uma questão de técnica. E como também voltar a esses objectos que são objectos domésticos, objectos sustentáveis. Porque essas bolas, no fundo, são bolas bastante acessíveis. As crianças, através da imaginação, conseguem dar vida a um objecto. Então, tenho aqui várias camadas. É um espectáculo curto, tem um roteiro bem definido. Não dá para ser tão denso em tantos temas. Mas eu acho que passa essa mensagem. Esse simbolismo acaba por passar. Não é aquela criança que brinca, que ordena o mundo. Mas que, a dada altura, percebe que não pode esquecer dos outros seres. Das árvores, dos animais. Isso faz parte da brincadeira dele também. Acho que passa um pouco isso para as crianças. O Djam Neguin é cabo-verdiano, vive em Cabo Verde. Falando um pouco mais do aspecto da produção, como é que foi o processo de conseguir trazer este espectáculo até Portugal, vir apresentá-lo em estreia aqui em Portugal? Eu já vivi em Portugal há uns anos atrás, dez anos em Braga. Cresci, basicamente, dos meus nove aos dezoito anos. Também estive em Lisboa, comecei a estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema em 2010. Depois interrompi, acabei por ir para Cabo Verde. E essa relação tem-se mantido até 2022, onde conheço a Clara Andermatt através de um casting para o espetáculo Pantera. E a nossa relação continuou após Pantera. Eu apresentei esta proposta à companhia (de Clara Andermatt), que é uma produtora também. A Clara gostou bastante da ideia e deu-me as cartas, abriu as portas da casa para eu construir o espetáculo. E estou, agora, com a produção da Clara Andermatt. É uma relação que se estabelece através dessa afinidade que começou com o espectáculo Pantera. Clara Andermatt, uma mulher da dança contemporânea portuguesa. Este é um espectáculo de dança ou de teatro? Como é que pode ser apresentado? Essa pergunta é sempre uma pergunta interessante, porque eu posso respondê-la também pensando do ponto de vista de várias tradições africanas, onde a arte não está subdividida nessas categorias. Ou seja, as manifestações artísticas não precisam de ser tão divididas em dança, teatro. Tem outros pensamentos. Então, acho que a própria arte contemporânea volta para esse lugar, volta para esse lado onde a dança se intercala com o teatro, com o vídeo, com a música. O artista traz os seus elementos. Como eu sou uma pessoa que vem da música, do teatro, da dança, trabalho com audiovisual, eu acho que o Buluku sou todo eu, em todas as minhas dimensões. Então, é isso. É difícil responder. Eu acho que é um espectáculo multidisciplinar. A dança e o movimento é o eixo central. O Buluku está sempre a brincar, sempre a se movimentar. E essa composição corporal vem do lugar da minha experiência como bailarino, porque é preciso ter algum repertório. Então, é difícil responder essa pergunta, mas vamos dizer que é um espectáculo de dança. Djam Neguin, como homem de Cabo Verde, qual é a imagem que nos pode dar da arte contemporânea em Cabo Verde? Qual é o seu olhar sobre aquilo que se vive em Cabo Verde? Cabo Verde, sendo um país jovem, tem vários desafios, mas também tem várias virtudes e vários criadores e artistas que estão na vanguarda. Nós temos um cinema. O cinema de Cabo Verde tem estado nos últimos anos em alta, em ponta, produtores contemporâneos a abordar questões contemporâneas. Temos artistas das artes performativas também, das artes visuais. A minha visão é que, se calhar, não conseguimos encontrar uma nova vaga. Talvez falta mais articulação de gerações que, de alguma forma, os artistas estão mais interligados e conseguem criar ali um movimento. Acho que ainda está a acontecer muito isoladamente. Mas que, sem dúvida, acho que temos artistas incríveis em todas as áreas. Mas, criticamente falando, acho que a falta é o colectivo. O colectivo que tem um movimento de ruptura geracional e que está, de alguma forma, a pensar em rede. Quanto mais a arte cabo-verdiana pensar em rede, mais crescemos também. A estreia deste espectáculo aconteceu em Lisboa. Quais são os palcos onde ainda poderemos encontrar este espetáculo? Vai para a Águeda, no momento do Dia Mundial do Teatro e do Festival Kontornu. Depois vamos ter uma apresentação em Cabo Verde, no mês de abril, muito possivelmente. Ainda não está confirmada. Depois teremos uma volta para Portugal, cinco e seis, no Teatro Circo em Braga. Temos perspectivas para 2027 e este ano, ainda estamos em algumas negociações. Depois deste espectáculo, o que é que segue? Portanto, para além de artista, sou produtor cultural. Estou, neste momento, na produção do Festival Kontornu, que é um festival internacional de dança e artes performativas que vai acontecer de 11 a 16 de maio na Ilha de Santiago. Também vamos a outras cidades. É uma grande produção, é um evento de uma semana que vai reunir mais de 60 pessoas, diferentes companhias de dança do mundo inteiro e artistas de Cabo Verde. É um dos maiores eventos das artes performativas de Cabo Verde. Portanto, eu também estou no outro lado da casa. Além da produção, eu tenho também uma criação que vai ter um processo de apresentação em outubro. Vai ser um projeto que vai ter a mentoria da Marlene Monteiro Freitas, que é uma parceria entre o Estúdio Vitor Córdon e a Gulbenkian, que vem acompanhando alguns artistas dos PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa] através de programas de apoio de mobilidade e bolsas de criação. E tenho outros espectáculos. Tenho algumas agendas, coisas que eu vou como produtor, outras vou como artista. Então, eu vou ocupando esses vários espaços e também contribuindo para o movimento, para a cena. Eu acredito muito que investir no colectivo faz com que individualmente nós cresçamos mais.

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  6. MAR 26

    Representatividade negra e força interior no livro infantil de Wilds Gomes

    A Girafa de Noah é um livro dedicado ao público infanto-juvenil sobre amor, saudade e a descoberta da força interior. A Girafa de Noah é também um livro onde as crianças negras se podem ver representadas e que se propõe contribuir para que todas as crianças aprendam a lidar com a perda.  A obra marca a estreia do jornalista e apresentador de TV Wilds Gomes no mundo literário e foi recentemente lançada em Portugal. Com uma história de vida ligada a Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, onde nasceu, Wilds Gomes vive em Portugal desde criança mas, em entrevista à RFI, não esconde o desejo que “A Girafa de Noah” venha a ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e outra em crioulo forro de São Tomé e Príncipe. Wilds Gomes começa por revelar que a obra, ilustrada por Ana Marta Huffstot, nasceu da vontade de contar histórias aos filhos. Wilds Gomes: (A Girafa de Noah) Nasce muito do facto de ser pai. Desde que me lembro de ser pai, que eu gosto de contar histórias, gosto de escrever. Então, quando comecei a ler para os meus filhos, comecei a perceber que havia falta de representatividade nos livros. Os meus filhos são crianças negras, tal como o pai, e eu via que não estavam e nem se sentiam representados nos livros que eu lia todas as noites. Porque sempre quis incutir aos meus filhos que ler é importante. Mas também, muito mais do que ler, é ouvir, saber ouvir. Então, foi quase que uma luta todas as noites o procurar uma história diferente, ou sempre que fosse comprar uma história para os meus filhos, procurar histórias de autores negros e com personagens negras. Então, comecei a pensar, porque não ser eu a mudar, de alguma forma, esse paradigma, o mudar eu essa narrativa de que não há. Se não há, vou criar ! Então, comecei a pensar no livro já faz mais de seis anos. Há quatro, comecei a pensar seriamente no livro depois de ter escrito algumas histórias. Falei com uma amiga, a Ana Marta, que é designer e também é ilustradora. - ‘Pá, porque não fazemos aqui os dois essa maluquice de escrever e ilustrar um livro para crianças? Um livro infantil-juvenil, para as crianças lerem, principalmente para as crianças negras se verem representadas. - Então, foi daí que começou o sonho. De que é que nos fala esta história, A Girafa de Noah? A Girafa de Noah é uma história, primeiramente, inspirada nos meus filhos, nas suas vivências e realidade. Portanto, A Girafa de Noah fala muito da perda, de perdermos alguma coisa; porque as crianças não são ensinadas a lidar com o facto de perderem alguma coisa. Quando falo de perder alguma coisa, não é só fisicamente, também muito espiritualmente. Como é que se pode lidar com isso? Então, a minha ideia, ao escrever um livro, é que cada livro tenha um ensinamento. Cada livro tem uma narrativa que serve para alguma coisa. Então, A Girafa de Noah é o Noah (filho de Wilds Gomes) que perde a girafa, que é algo muito importante para ele. Ele, desde que se conhece como gente, ou como criança, anda com a girafa o tempo todo. Há uma fase em que ele perde esse animal simbólico, que é a girafa, e não sabe como lidar. Então, a trama da história passa-se muito à volta de que ele perdeu, algo de que ele gostava mesmo muito e era muito importante para ele. Como é que ele aprendeu a lidar com aquilo e que fato é que aquilo realmente fez e que ensinamento aquilo passou? O livro foi lançado recentemente, já houve reacções? Como é que o livro está a ser aceite? O livro foi lançado oficialmente no dia 1 de março, aqui em Lisboa, na Livraria Menina e Moça. Estavam mais de 100 pessoas, sala completamente esgotada. Levei cento e poucos livros que ficaram esgotados naquele momento. E, desde então, as pessoas têm-me dado um feedback muito positivo, principalmente os adultos. Este livro remeteu-me muito a uma fase da minha vida em que eu perdi alguém muito importante para mim e tive que aprender a lidar com isso. Este livro ajudou-me também a curar de alguma forma aquilo que eu sentia naquela altura. Muitos pais disseram que as crianças gostaram muito da história. Primeiramente, porque se viram representadas naquele menino, que é o Noah, que é um menino negro, uma criança negra bonita, linda mesmo, e também o facto de terem também um brinquedo que muitos deles também, entretanto, perderam e não sabiam lidar com isso. Então, lerem uma história em que se vêem representados e de alguma forma os ajuda a curar de alguma coisa, para mim é a ceereja no topo do bolo. O Wilds Gomes junta raízes de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. Há alguma lembrança das histórias que ouvia dos avós, dos pais, enquanto criança, enquanto vivia em São Tomé e Príncipe? Sim. Eu vivi em São Tomé durante muito pouco tempo da minha vida, máximo até os 5 anos. Entretanto, vim para Portugal, mas tenho uma vaga ideia porque, lá está, é muito do que me contam e eu não sei até que ponto é que é real ou não, se é mesmo imaginação da minha cabeça. Mas a primeira coisa que eu me lembro é de ter um brinquedo na casa dos meus avós, que era um camião verde e rosa, é a melhor memória da infância que eu tenho, na minha infância em São Tomé e Príncipe. Depois disso, vêm muito as histórias da minha avó. A minha avó era daquelas pessoas que até hoje, eu estou com 34 anos, até hoje a minha avó, que é viva, quase com 90 anos, conta-me ainda as histórias da sua infância. Conta-me histórias da sua vida. Conta-me histórias do que aconteceu à volta de nós em São Tomé e também em Cabo Verde. É muito interessante que a minha avó é uma historiadora nata, muito oral, ela nunca leu nada para mim, é tudo muito da cabeça dela. Ela conta-me histórias de tudo o que se passava, tudo o que se passou, e eu tentar fazer uma imagem do que ela me conta acaba por ser muito bonito. E ao escrever este livro quase que recorri muito a essa nostalgia do que é presenciar algo pela segunda vez. O que é contar-me uma história agora, remetendo à minha infância, e eu lembrar-me do que aconteceu. Então, é muito bonito. É claro que a minha avó e os meus pais têm muita importância no facto de eu ter me tornado um autor hoje em dia. A avó do Wilds Gomes conta estas histórias em crioulo? Exactamente, a minha avó é cabo-verdiana, nascida e criada em Cabo Verde, já na fase adulta é que foi para São Tomé, numa época menos boa de Cabo Verde. Lá, sim, começou-me a contar histórias. Depois, entretanto, vim para Portugal. Eu vim primeiro, ela veio logo a seguir e até hoje a maior parte das suas histórias é sempre, sempre, sempre em crioulo de Cabo Verde. Eu acho que as histórias, quando são verdadeiras e quando são intensas, têm muito mais substância quando contadas na língua nativa. O que é que a minha avó faz? É contar-nos em crioulo a história da sua vida e também do seu envolvente. Mas o que é muito mais interessante também é o facto de a minha avó hoje em dia também contar histórias aos meus filhos em crioulo. Eles são pequeninos ainda, estão naquela fase de realmente começar a perceber e a entender o crioulo, uma das suas línguas maternas. Perceber que o sumo está lá, está lá. Aquela história com o sotaque de Cabo Verde, com a maresia de Cabo Verde, com a morabeza de Cabo Verde, é muito interessante sentirmos isso tudo. Quando é que vai surgir a versão em crioulo do livro “A Girafa de Noa”? Essa é uma boa questão. Não sei ainda, este livro foi lançado muito recentemente. Ainda estamos na fase de perceber se as pessoas estão a consumir de verdade. Preciso ter mais feedback. Preciso perceber se a mensagem foi realmente passada, se os adultos perceberam, se as crianças realmente perceberam o que eu quis dizer, se a mensagem foi mesmo clara e bem passada. Então é dar hora para o tempo e quiçá ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e também em crioulo-forro de São Tomé, porque eu sou sãotomense. Então também faz discussão também de ter uma das minhas línguas nativas, que é o crioulo de Santo Domingo, o fogo, crioulo-fogo. Depois desta história, há na gaveta outras histórias? Nos próximos anos vão ter histórias minhas, todas elas sempre dedicadas e influenciadas pelos meus filhos, as suas vivências, as suas realidades, as suas experiências enquanto crianças. Todas as histórias que eu vou lançar futuramente, tal como esta, têm um ensinamento, têm algo para mostrar, têm algo para dar. Portanto, a próxima será muito provavelmente do William, que é o meu filho que tem sete anos. É uma história dedicada a ele e às suas aventuras. Aventuras que as pessoas vão perceber o quanto é importante nós confiarmos nos outros e como é importante darmos a mão ao outro. Portanto, vão ter uma história bonita. Está a ser pensada a hipótese de vir a apresentar o livro “A girafa de Noah” num espaço para o público infantil? Sim, há claramente essa ideia. Há um plano, talvez o mais importante, ir às escolas, ir a bibliotecas apresentar o livro. É muito importante as crianças sentirem-se representadas neste livro. É um livro muito dedicado às crianças negras, porque podem-se ver representadas. Mas também quero que todas as outras crianças consigam ler e perceber a mensagem que está no livro. Porque, lá está, no final do dia quem são os verdadeiros juízes são as crianças. Sim, há claramente essa ideia. Há um plano, talvez o mais importante, ir às escolas, ir a bibliotecas apresentar o livro. É muito importante as crianças sentirem-se representadas neste livro. É um livro muito dedicado às crianças negras, porque podem-se ver representadas. Mas também quero que todas as outras crianças consigam ler e perceber a mensagem que está no livro. Porque, lá está, no final do dia quem são os verdadeiros juízes são as crianças. O plano é bibliotecas, girar por muitas escolas aqui em Lisb

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  7. MAR 13

    Autárquicas em França: Marselha, a cidade rebelde em reconstrução

    A cidade de Marselha está na moda. Numerosos rankings colocam-na nos lugares cimeiros das melhores cidades para viver e visitar na Europa, mas os habitantes locais continuam a confrontar-se com a realidade do dia a dia que inclui dificuldades na habitação, criminalidade e pobreza. Após 2.600 anos de história, Marselha continua rebelde, resistente e solidária. Em 2022, e depois da vitória da esquerda em Marselha 2020, apelidado de Primavera Marselhesa, Paris constata o estado das infra-estruturas em Marselha e põe em marcha um plano apoiado pelo Presidente Emmanuel Macron chamado Marselha em Grande. Este plano dá à cidade cinco mil milhões euros adicionais para investimento em escolas, transportes, segurança e habitação. Para isto contribuíram tragédias como os desmoronamentos de dois prédios da rue d’Aubagne em 2018, no centro da cidade, que fizeram oito mortos e deixaram dezenas de famílias na rua, mas também os ajustes de contas constantes entre gangues especialmente nos bairros Norte da cidade que levaram à morte de várias pessoas, incluindo adolescentes. Este foi um projecto que coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos em Paris, com as provas de vela e alguns jogos de futebol a serem realizados em Marselha. A prioridade para a utilização destes fundos foi desde logo as escolas, como conta Jorge Mendes, advogado franco-português instalado em Marselha e que apoia Benoit Payan, o candidato socialista. Mas com a revitalização da cidade, veio também um facto incontornável, Marselha está na moda. “Os bairros dessas escolas, também mudam com a nova escola, porque temos de relembrar que em 2020 as escolas aqui eram a vergonha da República. Era assim que se falava das escolas de Marselha. Nos jornais, na comunicação social, isso mudou. Claro que muda pouco a pouco, o projecto vai até 2039, portanto haverá muitos anos ainda pela frente. Estamos a falar de 460 escolas a refazer ou a construir totalmente. Portanto, as escolas mudaram e também houve um grande investimento no centro da cidade. Houve um investimento que permitiu à cidade de se abrir. Há esplanadas, há bares que abriram, há mais vida nocturna, há uma vida cultural, há saídas e há também uma moda. É preciso dizer que Marselha está na moda, em França e na Europa. É claro que isto também deu um sentimento de que é melhor viver aqui e isso é importante. Vê-se que as grandes avenidas mudaram, os apartamentos estão a ser reabilitados. O transporte mudou porque as linhas que existiam foram aumentadas. Portanto, são as mesmas linhas de metro e eléctrico, mas foram aumentadas. Está mais fácil hoje ir do norte ao centro já existe essa linha. Do Sul ao Norte também é possível ir de eléctrico do Sul ao Norte em 40 minutos. Mas isso é uma maravilha. Coisas que não existiam, portanto. As pessoas sentem que nada é como antes”, explicou. A partir de 2020, parisienses e os chamados nómadas digitais descobriram Marselha. Depois de anos de uma má reputação, que afastava habitantes das classes mais altas e investimento, Marselha brilha agora nos rankings de melhores destinos europeus. Depois dos gregos, dos romanos, dos visigodos, dos francos, dos italianos, dos corsos ou dos argelinos, chegaram agora os turistas à cidade. Se isto contribui para a revitalização especialmente do centro da cidade, há também um combate activo por parte da autarquia aos abusos cometidos no alojamento local que leva a que muitos marselheses não consigam alugar ou comprar casa na sua própria cidade. “Marselha tem a lei mais dura de França. É muito simples. Todos podem fazer Airbnb, alugar a casa se for a residência principal deles. E podem fazer 90 noites por ano, não mais. Há 6.000 pessoas que não respeitam a lei. E a Câmara Municipal está a atacar 6000 pessoas. Portanto, não é pouca coisa. Todas as semanas vamos a tribunal para fazer condenar as pessoas a uma multa de 100.000 € por apartamento. E é assim que se vai conseguir. É claro, sobre o porto, os cruzeiros, trata-se de uma economia para Marselha. É importante, mas temos de construir aqui hotéis, investir em hoteis e construir, como noutras cidades, um acolhimento turístico. E o Estado sobre isso também tem que vir ajudar. Sobre as grandes infraestruturas, fizemos um novo porto com os Jogos Olímpicos que houve em Marselha, mas parou aí. Então, sobre este novo porto, precisamos de hotéis, de bares, de tudo. Nós temos 57 quilómetros de mar em Marselha. Há quatro entradas de praia no centro da cidade. Isto tudo é preciso refazer. Portanto, há praias a construir, há hoteis a construir, há tudo a fazer e todos são bem vindos. Claro que é uma cidade específica, é uma cidade que foi criada por entidades estrangeiras que foram chegando como os italianos, os portugueses, os espanhóis, os argelinos, os marroquinos. E hoje a cidade tem essa especificidade. É uma cidade única. Nenhuma teve este acesso ao mar. Mas acho que também é o que faz a riqueza desta cidade. É a única em França. Se calhar nem na Europa”, disse o advogado. Este novo sopro em Marselha está também a atrair empresas e ajuda a fixar startups, argumentos utilizados por Franck Araújo, que dirige o Acelerador M, para convencer os CEO a escolherem a cidade. “As vantagens são várias. Uma delas é que há um porto. É uma cidade aberta no Mar Mediterrâneo. Essa é a primeira coisa. A segunda coisa é que também é um pólo universitário muito importante, com muitos pesquisadores. E outra coisa é também o facto de termos não sei quantos cabos agora porque já nem sei quantos são, mas temos aqueles cabos submarinos que nos ligam a mais de 3 mil mihões de pessoas. Isso faz com que Marselha seja um hub de telecomunicações e de dados, e sabemos muito bem que a economia de amanhã é uma economia baseada nos dados. Por isso é uma coisa. Só que há um facto também que foi relevante para levantar, pôr em pé essa cidade que estava mesmo até fins dos anos 90, está muito, muito empobrecida, muito criticada, etc. Foi a chegada do TGV em 2000, pôs Marselha a três horas e poucos minutos de Paris. Muito menos de Lyon e de várias outras cidades. Ora bem, há muitos parisienses e há muitas pessoas que moram nos arredores de Paris que decidiram vir para o Sul”, detalhou Franck Araújo. O Acelerador M já criou 250 postos de trabalho e atrai empresas dos dois lados do Mar Mediterrâneo. No entanto, e mesmo perante esta nova onda de interesse pela cidade, os problemas de Marselha persistem e é por isso que Bruna Ramos Alfama se lançou numa das listas candidatas à Câmara Municipal, a lista de Erwan Davoux, um dissidente de direita. “O essencial é ver as dificuldades de toda a gente aqui. Há drogas, há jovens que deixam os estudos aos 15, alguns mesmo aos 13 anos, temos de tentar que os jovens continuem a estudar e que tenham um futuro melhor e que todos tenhamos um trabalho digno. Eu estudei, em Portugal fiz gestão industrial e aqui não dão oportunidades”, declarou a candidata. O tráfico de droga continua a dominar os bairros Norte da cidade, tendo havido recentemente a detenção de cerca de 40 membros da máfia DZ, que lidera muitos dos pontos de tráfico na cidade. Em Novembro, uma morte em Marselha chocou a França. O irmão do activista Amine Kessaci, que lançou um livro a denunciar os meandros do tráfico de droga, foi morto por um atirador que passava de mota. Para combater a insegurança na cidade, aumentou o número de polícias municipais em Marselha, mas Jorge Mendes explica que há limitações em relação ao que a autarquia pode fazer. “É um problema da competência do Estado. Um presidente de Câmara Municipal não tem nenhum poder de polícia, judiciário, portanto, não tem a polícia na mão dele. Só tem a Polícia Municipal. Ou seja, que é normalmente a tranquilidade da segurança pública de todos os dias. Tudo o que é esse problema da insegurança de narcotráfico claro que é um problema de Estado e precisamos de reforço evidente. Mas acho que há aqui um acto simbólico. Amine Kessaci é o número três nesta desta campanha. E com um poder muito importante, que será o do acompanhamento das famílias das vítimas em bairros onde há tráfico de droga. E, portanto, ele vai ter aqui uma capacidade de acompanhamento social na luta contra o narcotráfico. Mas claro que o presidente Câmara Municipal não vai ter os poderes de meter um fim a esta guerra contra o tráfico de droga. É evidente", explicou Jorge Mendes. Mas, ao mesmo tempo, para quem vive nos bairros Norte e para quem é controlado constantemente pela polícia nacional ou municipal, a vida tornou-se mais difícil na cidade. Rachid, jovem acompanhado pela associação ARS, questiona se a polícia existe para proteger verdadeiramente a população. "Os jovens estão fartos de serem discriminados. Na verdade, estamos fartos porque, quando saímos à rua, são sempre os mesmo que são controlados e somos controlados todos os dias pela polícia, às vezes várias vezes por dia. É o nosso quotidiano. Esta é uma guerra deles, não é uma guerra nossa. A polícia devia proteger-nos, mas quando se cria uma força policial como fez Benoit Payan nos bairros do Norte é para quê? É para impedir as pessoas de saírem de lá. Claro que se a polícia vai para lá para fazer números, vai constatar infrações e impedir as pessoas de viver. E eles vão para lá para controlar árabes e negros. Quando eu era pequeno havia uma verdadeira polícia de proximidade, hoje a polícia municipal está armada. Antes falávamos de uma polícia que estava lá para nos proteger", argumentou Rachid. E a pobreza também não desapareceu. "Marselha não é a França. Quando vou a Bordéus eu vejo a França, quando vou a Bayonne eu vejo a França, quando vou a Biarritz, eu vejo a França. Quando eu digo isto é porque fui a esses sítios e não estou a

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  8. MAR 12

    Autárquicas em França: os jovens sentem-se abandonados em Marselha, mas não baixam os braços

    Os jovens adultos constituem uma parte importante da população de Marselha, mas também a mais afectada pelos problemas da cidade como a dificuldade em encontrar casa, a limitação dos transportes públicos e ainda a pobreza. Face a estes problemas, os jovens parecem afastados da vida política, com a abstenção a crescer, mas estão atentos aos candidatos e às suas propostas, esperando agora acção no terreno. Em França, mais de metade dos jovens não vota. Uma realidade que oscila consoante o tipo de eleição, mas, por exemplo, nas eleições legislativas de 2022,  quase 70% dos jovens entre os 18 e os 24 anos decidiram abster-se. Este é um fenómeno que ocorre em todo o território francês, mas em Marselha, onde os jovens acumulam problemas como a dificuldade de encontrar casa, uma taxa de desemprego elevado e uma precariedade sistémica, as eleições municipais não estão no topo das prioridades. Rachid, um jovem marselhês, explicou à RFI as razões deste desinteresse. “Já viu algum dos candidatos a Marselha a falar sobre os jovens? Eles estão apenas a tomar conta dos seus próprios interesses e nós, os jovens, sofremos. Somos uma geração que já entendeu que é preciso trabalhar para economizar. É só isso que nos vai salvar, porque sem trabalho não temos casa nem recursos, nem umas calças de ganga a 10 euros podemos comprar. Percebemos muito rápido que no fim da escola, quando acabamos os nossos estudos, estamos por nossa conta. E mesmo se tivermos um contrato, vimos dos bairros Norte de Marselha, outros vêm de África, outros da Líbia, outros do Afeganistão, e não vemos qualquer mudança. O que queríamos é que trabalhássemos todos juntos. Vocês, os jornalistas, nós, os jovens, os políticos, de forma a avançar. Por exemplo, avançar habitação e, depois, aqui não é como diz o Macron, não atravessamos a estrada e encontramos um trabalho, muitos de nós trabalhamos fora da cidade de Marselha”, explicou Rachid. Rachid é acompanhado há sete anos pela ARS, uma associação em Marselha que apoia cerca de 60 jovens no processo de readaptação social, especialmente entre os 18 e os 25 anos. A ajuda vai desde alojamento, até mostrar como se preenche a primeira declaração de impostos. Mas mais do que isso, a ARS permite a estes jovens, muitos vindos dos bairros mais pobres de Marselha ou imigrantes que chegaram ainda menores de idade à cidade, de não ficarem sozinhos, como explica Kingoma, também acompanhado pela ARS. “Quando cheguei, não sabia bem o que era a ARS. Estava um pouco perdido em relação a como fazer os meus papéis. Aos poucos, fui descobrindo todas as actividades aqui e encontrei o meu caminho, porque me envolvi aqui na associação e comecei a sentir-me capaz de ver as coisas com mais clareza e a projectar como será a minha vida depois. Nós vivemos muitas dificuldades aqui e eu estava a falar com um amigo no outro dia sobre como vamos fazer depois, porque aqui temos alojamento durante algum tempo, mas temos de ser nós a fazer esforços para nos prepararmos psicologicamente para a próxima fase da nossa vida e isso não é fácil”, disse o jovem. Marselha está dividida em 16 bairros, havendo uma distinção muito forte entre os bairros do Sul, mais ricos e onde vive a população mais abastada, e os bairros do Norte, onde nalguns quase 40% dos habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza. Para os jovens de Marselha, a política é feita longe das ruas que percorrem todos os dias e há um grande sentimento de abandono.  “Eu não me interesso por aí além pela política, mas às vezes é preciso ser político para progredir na vida, porque as pessoas que votam somos nós, somos nós os cidadãos, caso contrário, eles falam e nós só ouvimos, mas nós temos que ser ouvidos. Só que às vezes parece que eles vivem num mundo paralelo, como se nós vivêssemos em Marselha e eles noutra cidade qualquer. Eles não veem a realidade das coisas. Não é a mesma coisa alguém que está fechado num escritório o dia todo e alguém que circula na cidade. Por isso, nós sentimo-nos abandonados. E não é que não nos esforcemos para encontrar trabalho, mas não é a mesma coisa”, indicou Rachid. Para dar mais informação aos jovens sobre as eleições e também mais poder de decisão em momentos chave como as eleições municipais que se aproximam, Alexandre Pastor, também marselhês, criou em 2022 a associação Melting Pot que tem como missão dar as ferramentas cívicas necessárias para que os jovens sintam que a sua intervenção na cidade e no país conta. “Partimos da observação de que a abstenção só aumenta a cada eleição, seja ela local, nacional ou europeia. Achamos que há dois motivos para isso: a desconfiança dos jovens em relação às instituições e aos representantes eleitos e, acima de tudo, a falta de conhecimento dessas instituições. Porque sempre que conversei com jovens da minha idade ou mais jovens, eles não sabiam a diferença entre o conselho distrital, o conselho regional, a câmara municipal e, portanto, tudo se confunde. Quando eu era mais jovem, se eu não entendia alguma coisa, era difícil envolver-me ou interessar-me por isso. Por isso, na associação partimos da premissa de que dando a todos um nível básico de informações e todos ficamos em pé de igualdade, de modo a que todos pudéssemos dizer: OK, agora eu entendi, então posso envolver-me ou não, e assim lutar contra a abstenção”, detalhou Alexandre Pastor. Rachid, tal como a maior parte dos jovens acompanhados pela ARS, trabalha, mas é muito difícil para estes jovens encontrar casa devido ao aumento das rendas na cidade e são também muitas vezes discriminados devido à cor da pele e ao facto de não terem famílias que ajudem nas garantias pedidas pelos senhorios. Quanto ao trabalho, muitos só encontram emprego fora do centro da cidade em sectores precários. Franck Araújo dirige o Acelerador M, um acelerador de startups no centro da cidade e admite que a criação de empregos em Marselha é difícil, sobretudo porque as empresas precisam de capital disponível quando querem crescer na cidade. “Claro que a taxa de desemprego é a mais importante aqui do que noutros sítios do território metropolitano. Mas fazendo a média do território não é assim tão diferente em relação a outras regiões francesas. Mas pronto, a situação é essa. Em Marselha é verdade que é mais complicado porque há uma espécie de separação entre sul e norte da cidade. Não se passa a mesma coisa a sul e a norte da cidade. No entanto, o que precisariam as startups para se fixarem aqui? Primeiro, temos falta de capital de risco. Precisam de pessoas bem formadas. Isso também há aqui e noutros sítios. Porque hoje é muito fácil recrutar. Agora, o gás, o dinheiro e as participações e os mercados não estão aqui. Não estão cá. Não estão em Marselha, nem aqui na região. Então é worldwide. Ou então em Paris ou em Berlim, ou então em Londres, ou então na América do Norte e por aí fora. E então torna-se muito difícil conseguir metê-las cá”, detalhou. Também os transportes tornam difícil os trajectos diários. Alguns dos jovens da associação contaram à RFI que demoram entre duas a três horas para chegar ao trabalho, acabando muitas vezes por voltar a pé quando se trata de empregos no sector da restauração já que os turnos acabam tarde. Jorge Mendes, advogado que apoia o actual autarca e recandidato à sua eleição, o socialista Benoit Payan, reconhece que os transportes são um grande problema da cidade, mas que, até agora, não dependiam só do autarca, já que os subsídios vêm de outras instâncias regionais, muitas vezes lideradas por forças políticas antagónicas. “De facto, o problema dos transportes em Marselha é uma vergonha. A segunda cidade francesa tem um metro que acaba às 21:30, tem uma população jovem e é preciso quarenta quilómetros para vir do Norte da cidade até ao centro da cidade. São quarenta quilómetros, portanto é preciso ver o que é uma cidade desta dimensão, com duas linhas de metro e com poucos autocarros de dia e que param à meia noite. Claro que é uma situação que nunca se vê numa cidade cosmopolita e moderna em França, mas Marselha sofre disso. É uma competência de metrópole. Mas é preciso saber que esta campanha eleitoral não é só uma campanha de presidência da Câmara Municipal. Quem ganhará a Marselha vai também ganhar a metrópole e, portanto, vai recuperar a competência dos transportes. O Estado permitiu, de facto, agora investimento estes três últimos anos para o transporte. Mas o que é que foi feito? Foi feito um eléctrico e que tem exactamente a mesma linha que o metro, portanto é só um metro. Os jovens não conseguem sair dos bairros onde eles estão, não conseguem vir trabalhar para o centro da cidade, onde há trabalho e também não conseguem sair à noite porque não consegue voltar para casa, não consegue ter acesso à cultura. É uma situação que não se deve admitir numa cidade como Marselha”, disse o advogado. Para além do problema dos horários dos transportes, muitos jovens da ARS que precisam destes meios de locomoção para começar a sua vida profissional, vêm os seus salários penhorados devido a multas por no primeiro mês em que vão trabalhar não terem dinheiro para comprar o passe dos transportes. Muitos candidatos prometem a gratuidade dos transportes até aos 26 anos de forma a resolver esta questão. Mesmo se Rachid diz que a política está longe do seu quotidiano, este jovem marselhês diz votar em branco e conhece os percurso dos vários candidatos. Pede é acção concreta para a vida de todos os marselheses. “Nós dizemos fora a quem não vier fazer coisas concretas por nós. Isto aqui não é o cinema. Eu voto em branco porque essa é a minha escolha, porque desde que estou em Ma

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