Reportagem

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  1. 5D AGO

    Cosmologias africanas inspiram espectáculo Buluku de Djam Neguin

    Buluku é o mais recente espectáculo de Djam Neguin e teve estreia em Lisboa. O artista multidisciplinar cabo-verdiano criou um trabalho que sugere a reconfiguração do espaço imaginário e interpela as estruturas que moldam narrativas. Buluku é um espectáculo multidisciplinar e imersivo para crianças e famílias que combina dança, arte performativa, video mapping e design de som original para explorar cosmologias africanas. O trabalho apresenta uma personagem «afronauta» curiosa e brincalhona, que guia o público numa viagem cósmica, criando planetas e inventando danças.  Buluku estreou no Teatro do Bairro, na capital portuguesa, local onde  a RFI falou com Djam Neguin. O artista começa por revelar que Buluku surgiu da falta que sentiu, enquanto criança, de referências a personagens africanas em temáticas futuristas. O espectáculo Buluku surge de um processo de constatação. Quando eu era criança, eu cresci sem referências de personagens africanas que, de alguma forma, abordassem temáticas futuristas, relacionadas com a criação do mundo ou a exploração do universo, a visita no universo. O imaginário espacial ou extraterrestre é muito americanizado, não é? E, como eu venho investigando muito temáticas afro-futuristas, para mim fez sentido trazer esta personagem, criar este espectáculo. Como eu sei da importância de, desde a tenra idade, criar no imaginário das crianças referências, para elas poderem imaginar mundos possíveis, é duplamente para mim, para a minha criança interna, mas também para as crianças e todas as crianças que existem dentro de cada um de nós. Como é que foi o processo de criação deste espectáculo, em concreto? Este é um espectáculo para as famílias, ou seja, onde há uma especial atenção aos mais jovens, quando a experiência do Djam Neguin, maioritariamente, é direccionada a um outro público. Acho que tem muito a ver também com o se colocar nesse estado de brincar. Quando nós brincamos e permitimos voltar, outra vez, a ser crianças, lembrámos-nos de coisas, não é? Porque, como todos nós já fomos crianças, sabemos certos comportamentos, sabemos o que é que faz as crianças rirem, o que é que as faz sentirem medo. Todo esse repertório acaba por influenciar. Então, o processo criativo é sem dúvida lúdico. Ou seja, eu tenho de começar sempre a divertir-me e tenho esse lado meio “cartoonesco”. Ela é uma personagem muito “cartoonesca”, muito brincalhona. Então, tem muitos trejeitos bastante teatrais, muito cómicos, com bastante expressão corporal. Então, toda a composição dessa personagem vem dessa pesquisa, de como é que eu crio essa figura de um “afronauta” que é um brincalhão, um meninão. É um processo que passa, primeiramente, por uma pesquisa. Eu pesquisei muito sobre a questão dos mitos de criação do mundo a partir de vários povos africanos, mitos ancestrais. Esses mitos aparecem, de alguma forma, na linha dramatúrgica. Outros aparecem em vídeo, outros estão em alguns momentos. Alguns aparecem mais explicitamente, outros aparecem no subtexto. Então, o processo foi muito divertido. Mas, além da preocupação em trazer esses mitos de diferentes culturas africanas para o espectáculo, há também uma preocupação com o presente, com a questão ecológica. Sem dúvida. Para falarmos do futuro, temos que também falar do presente. Como é essa possibilidade de imaginar a criação do mundo, ou a preservação do mundo, a partir do cuidado, da questão sustentável, a questão de mesmo em termos de brincar. Nós estamos numa época em que a tecnologia está ao alcance das crianças. O brincar também já passa por uma questão de técnica. E como também voltar a esses objectos que são objectos domésticos, objectos sustentáveis. Porque essas bolas, no fundo, são bolas bastante acessíveis. As crianças, através da imaginação, conseguem dar vida a um objecto. Então, tenho aqui várias camadas. É um espectáculo curto, tem um roteiro bem definido. Não dá para ser tão denso em tantos temas. Mas eu acho que passa essa mensagem. Esse simbolismo acaba por passar. Não é aquela criança que brinca, que ordena o mundo. Mas que, a dada altura, percebe que não pode esquecer dos outros seres. Das árvores, dos animais. Isso faz parte da brincadeira dele também. Acho que passa um pouco isso para as crianças. O Djam Neguin é cabo-verdiano, vive em Cabo Verde. Falando um pouco mais do aspecto da produção, como é que foi o processo de conseguir trazer este espectáculo até Portugal, vir apresentá-lo em estreia aqui em Portugal? Eu já vivi em Portugal há uns anos atrás, dez anos em Braga. Cresci, basicamente, dos meus nove aos dezoito anos. Também estive em Lisboa, comecei a estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema em 2010. Depois interrompi, acabei por ir para Cabo Verde. E essa relação tem-se mantido até 2022, onde conheço a Clara Andermatt através de um casting para o espetáculo Pantera. E a nossa relação continuou após Pantera. Eu apresentei esta proposta à companhia (de Clara Andermatt), que é uma produtora também. A Clara gostou bastante da ideia e deu-me as cartas, abriu as portas da casa para eu construir o espetáculo. E estou, agora, com a produção da Clara Andermatt. É uma relação que se estabelece através dessa afinidade que começou com o espectáculo Pantera. Clara Andermatt, uma mulher da dança contemporânea portuguesa. Este é um espectáculo de dança ou de teatro? Como é que pode ser apresentado? Essa pergunta é sempre uma pergunta interessante, porque eu posso respondê-la também pensando do ponto de vista de várias tradições africanas, onde a arte não está subdividida nessas categorias. Ou seja, as manifestações artísticas não precisam de ser tão divididas em dança, teatro. Tem outros pensamentos. Então, acho que a própria arte contemporânea volta para esse lugar, volta para esse lado onde a dança se intercala com o teatro, com o vídeo, com a música. O artista traz os seus elementos. Como eu sou uma pessoa que vem da música, do teatro, da dança, trabalho com audiovisual, eu acho que o Buluku sou todo eu, em todas as minhas dimensões. Então, é isso. É difícil responder. Eu acho que é um espectáculo multidisciplinar. A dança e o movimento é o eixo central. O Buluku está sempre a brincar, sempre a se movimentar. E essa composição corporal vem do lugar da minha experiência como bailarino, porque é preciso ter algum repertório. Então, é difícil responder essa pergunta, mas vamos dizer que é um espectáculo de dança. Djam Neguin, como homem de Cabo Verde, qual é a imagem que nos pode dar da arte contemporânea em Cabo Verde? Qual é o seu olhar sobre aquilo que se vive em Cabo Verde? Cabo Verde, sendo um país jovem, tem vários desafios, mas também tem várias virtudes e vários criadores e artistas que estão na vanguarda. Nós temos um cinema. O cinema de Cabo Verde tem estado nos últimos anos em alta, em ponta, produtores contemporâneos a abordar questões contemporâneas. Temos artistas das artes performativas também, das artes visuais. A minha visão é que, se calhar, não conseguimos encontrar uma nova vaga. Talvez falta mais articulação de gerações que, de alguma forma, os artistas estão mais interligados e conseguem criar ali um movimento. Acho que ainda está a acontecer muito isoladamente. Mas que, sem dúvida, acho que temos artistas incríveis em todas as áreas. Mas, criticamente falando, acho que a falta é o colectivo. O colectivo que tem um movimento de ruptura geracional e que está, de alguma forma, a pensar em rede. Quanto mais a arte cabo-verdiana pensar em rede, mais crescemos também. A estreia deste espectáculo aconteceu em Lisboa. Quais são os palcos onde ainda poderemos encontrar este espetáculo? Vai para a Águeda, no momento do Dia Mundial do Teatro e do Festival Kontornu. Depois vamos ter uma apresentação em Cabo Verde, no mês de abril, muito possivelmente. Ainda não está confirmada. Depois teremos uma volta para Portugal, cinco e seis, no Teatro Circo em Braga. Temos perspectivas para 2027 e este ano, ainda estamos em algumas negociações. Depois deste espectáculo, o que é que segue? Portanto, para além de artista, sou produtor cultural. Estou, neste momento, na produção do Festival Kontornu, que é um festival internacional de dança e artes performativas que vai acontecer de 11 a 16 de maio na Ilha de Santiago. Também vamos a outras cidades. É uma grande produção, é um evento de uma semana que vai reunir mais de 60 pessoas, diferentes companhias de dança do mundo inteiro e artistas de Cabo Verde. É um dos maiores eventos das artes performativas de Cabo Verde. Portanto, eu também estou no outro lado da casa. Além da produção, eu tenho também uma criação que vai ter um processo de apresentação em outubro. Vai ser um projeto que vai ter a mentoria da Marlene Monteiro Freitas, que é uma parceria entre o Estúdio Vitor Córdon e a Gulbenkian, que vem acompanhando alguns artistas dos PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa] através de programas de apoio de mobilidade e bolsas de criação. E tenho outros espectáculos. Tenho algumas agendas, coisas que eu vou como produtor, outras vou como artista. Então, eu vou ocupando esses vários espaços e também contribuindo para o movimento, para a cena. Eu acredito muito que investir no colectivo faz com que individualmente nós cresçamos mais.

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  2. 5D AGO

    Representatividade negra e força interior no livro infantil de Wilds Gomes

    A Girafa de Noah é um livro dedicado ao público infanto-juvenil sobre amor, saudade e a descoberta da força interior. A Girafa de Noah é também um livro onde as crianças negras se podem ver representadas e que se propõe contribuir para que todas as crianças aprendam a lidar com a perda.  A obra marca a estreia do jornalista e apresentador de TV Wilds Gomes no mundo literário e foi recentemente lançada em Portugal. Com uma história de vida ligada a Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, onde nasceu, Wilds Gomes vive em Portugal desde criança mas, em entrevista à RFI, não esconde o desejo que “A Girafa de Noah” venha a ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e outra em crioulo forro de São Tomé e Príncipe. Wilds Gomes começa por revelar que a obra, ilustrada por Ana Marta Huffstot, nasceu da vontade de contar histórias aos filhos. Wilds Gomes: (A Girafa de Noah) Nasce muito do facto de ser pai. Desde que me lembro de ser pai, que eu gosto de contar histórias, gosto de escrever. Então, quando comecei a ler para os meus filhos, comecei a perceber que havia falta de representatividade nos livros. Os meus filhos são crianças negras, tal como o pai, e eu via que não estavam e nem se sentiam representados nos livros que eu lia todas as noites. Porque sempre quis incutir aos meus filhos que ler é importante. Mas também, muito mais do que ler, é ouvir, saber ouvir. Então, foi quase que uma luta todas as noites o procurar uma história diferente, ou sempre que fosse comprar uma história para os meus filhos, procurar histórias de autores negros e com personagens negras. Então, comecei a pensar, porque não ser eu a mudar, de alguma forma, esse paradigma, o mudar eu essa narrativa de que não há. Se não há, vou criar ! Então, comecei a pensar no livro já faz mais de seis anos. Há quatro, comecei a pensar seriamente no livro depois de ter escrito algumas histórias. Falei com uma amiga, a Ana Marta, que é designer e também é ilustradora. - ‘Pá, porque não fazemos aqui os dois essa maluquice de escrever e ilustrar um livro para crianças? Um livro infantil-juvenil, para as crianças lerem, principalmente para as crianças negras se verem representadas. - Então, foi daí que começou o sonho. De que é que nos fala esta história, A Girafa de Noah? A Girafa de Noah é uma história, primeiramente, inspirada nos meus filhos, nas suas vivências e realidade. Portanto, A Girafa de Noah fala muito da perda, de perdermos alguma coisa; porque as crianças não são ensinadas a lidar com o facto de perderem alguma coisa. Quando falo de perder alguma coisa, não é só fisicamente, também muito espiritualmente. Como é que se pode lidar com isso? Então, a minha ideia, ao escrever um livro, é que cada livro tenha um ensinamento. Cada livro tem uma narrativa que serve para alguma coisa. Então, A Girafa de Noah é o Noah (filho de Wilds Gomes) que perde a girafa, que é algo muito importante para ele. Ele, desde que se conhece como gente, ou como criança, anda com a girafa o tempo todo. Há uma fase em que ele perde esse animal simbólico, que é a girafa, e não sabe como lidar. Então, a trama da história passa-se muito à volta de que ele perdeu, algo de que ele gostava mesmo muito e era muito importante para ele. Como é que ele aprendeu a lidar com aquilo e que fato é que aquilo realmente fez e que ensinamento aquilo passou? O livro foi lançado recentemente, já houve reacções? Como é que o livro está a ser aceite? O livro foi lançado oficialmente no dia 1 de março, aqui em Lisboa, na Livraria Menina e Moça. Estavam mais de 100 pessoas, sala completamente esgotada. Levei cento e poucos livros que ficaram esgotados naquele momento. E, desde então, as pessoas têm-me dado um feedback muito positivo, principalmente os adultos. Este livro remeteu-me muito a uma fase da minha vida em que eu perdi alguém muito importante para mim e tive que aprender a lidar com isso. Este livro ajudou-me também a curar de alguma forma aquilo que eu sentia naquela altura. Muitos pais disseram que as crianças gostaram muito da história. Primeiramente, porque se viram representadas naquele menino, que é o Noah, que é um menino negro, uma criança negra bonita, linda mesmo, e também o facto de terem também um brinquedo que muitos deles também, entretanto, perderam e não sabiam lidar com isso. Então, lerem uma história em que se vêem representados e de alguma forma os ajuda a curar de alguma coisa, para mim é a ceereja no topo do bolo. O Wilds Gomes junta raízes de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. Há alguma lembrança das histórias que ouvia dos avós, dos pais, enquanto criança, enquanto vivia em São Tomé e Príncipe? Sim. Eu vivi em São Tomé durante muito pouco tempo da minha vida, máximo até os 5 anos. Entretanto, vim para Portugal, mas tenho uma vaga ideia porque, lá está, é muito do que me contam e eu não sei até que ponto é que é real ou não, se é mesmo imaginação da minha cabeça. Mas a primeira coisa que eu me lembro é de ter um brinquedo na casa dos meus avós, que era um camião verde e rosa, é a melhor memória da infância que eu tenho, na minha infância em São Tomé e Príncipe. Depois disso, vêm muito as histórias da minha avó. A minha avó era daquelas pessoas que até hoje, eu estou com 34 anos, até hoje a minha avó, que é viva, quase com 90 anos, conta-me ainda as histórias da sua infância. Conta-me histórias da sua vida. Conta-me histórias do que aconteceu à volta de nós em São Tomé e também em Cabo Verde. É muito interessante que a minha avó é uma historiadora nata, muito oral, ela nunca leu nada para mim, é tudo muito da cabeça dela. Ela conta-me histórias de tudo o que se passava, tudo o que se passou, e eu tentar fazer uma imagem do que ela me conta acaba por ser muito bonito. E ao escrever este livro quase que recorri muito a essa nostalgia do que é presenciar algo pela segunda vez. O que é contar-me uma história agora, remetendo à minha infância, e eu lembrar-me do que aconteceu. Então, é muito bonito. É claro que a minha avó e os meus pais têm muita importância no facto de eu ter me tornado um autor hoje em dia. A avó do Wilds Gomes conta estas histórias em crioulo? Exactamente, a minha avó é cabo-verdiana, nascida e criada em Cabo Verde, já na fase adulta é que foi para São Tomé, numa época menos boa de Cabo Verde. Lá, sim, começou-me a contar histórias. Depois, entretanto, vim para Portugal. Eu vim primeiro, ela veio logo a seguir e até hoje a maior parte das suas histórias é sempre, sempre, sempre em crioulo de Cabo Verde. Eu acho que as histórias, quando são verdadeiras e quando são intensas, têm muito mais substância quando contadas na língua nativa. O que é que a minha avó faz? É contar-nos em crioulo a história da sua vida e também do seu envolvente. Mas o que é muito mais interessante também é o facto de a minha avó hoje em dia também contar histórias aos meus filhos em crioulo. Eles são pequeninos ainda, estão naquela fase de realmente começar a perceber e a entender o crioulo, uma das suas línguas maternas. Perceber que o sumo está lá, está lá. Aquela história com o sotaque de Cabo Verde, com a maresia de Cabo Verde, com a morabeza de Cabo Verde, é muito interessante sentirmos isso tudo. Quando é que vai surgir a versão em crioulo do livro “A Girafa de Noa”? Essa é uma boa questão. Não sei ainda, este livro foi lançado muito recentemente. Ainda estamos na fase de perceber se as pessoas estão a consumir de verdade. Preciso ter mais feedback. Preciso perceber se a mensagem foi realmente passada, se os adultos perceberam, se as crianças realmente perceberam o que eu quis dizer, se a mensagem foi mesmo clara e bem passada. Então é dar hora para o tempo e quiçá ter uma versão em crioulo de Cabo Verde e também em crioulo-forro de São Tomé, porque eu sou sãotomense. Então também faz discussão também de ter uma das minhas línguas nativas, que é o crioulo de Santo Domingo, o fogo, crioulo-fogo. Depois desta história, há na gaveta outras histórias? Nos próximos anos vão ter histórias minhas, todas elas sempre dedicadas e influenciadas pelos meus filhos, as suas vivências, as suas realidades, as suas experiências enquanto crianças. Todas as histórias que eu vou lançar futuramente, tal como esta, têm um ensinamento, têm algo para mostrar, têm algo para dar. Portanto, a próxima será muito provavelmente do William, que é o meu filho que tem sete anos. É uma história dedicada a ele e às suas aventuras. Aventuras que as pessoas vão perceber o quanto é importante nós confiarmos nos outros e como é importante darmos a mão ao outro. Portanto, vão ter uma história bonita. Está a ser pensada a hipótese de vir a apresentar o livro “A girafa de Noah” num espaço para o público infantil? Sim, há claramente essa ideia. Há um plano, talvez o mais importante, ir às escolas, ir a bibliotecas apresentar o livro. É muito importante as crianças sentirem-se representadas neste livro. É um livro muito dedicado às crianças negras, porque podem-se ver representadas. Mas também quero que todas as outras crianças consigam ler e perceber a mensagem que está no livro. Porque, lá está, no final do dia quem são os verdadeiros juízes são as crianças. Sim, há claramente essa ideia. Há um plano, talvez o mais importante, ir às escolas, ir a bibliotecas apresentar o livro. É muito importante as crianças sentirem-se representadas neste livro. É um livro muito dedicado às crianças negras, porque podem-se ver representadas. Mas também quero que todas as outras crianças consigam ler e perceber a mensagem que está no livro. Porque, lá está, no final do dia quem são os verdadeiros juízes são as crianças. O plano é bibliotecas, girar por muitas escolas aqui em Lisb

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  3. MAR 13

    Autárquicas em França: Marselha, a cidade rebelde em reconstrução

    A cidade de Marselha está na moda. Numerosos rankings colocam-na nos lugares cimeiros das melhores cidades para viver e visitar na Europa, mas os habitantes locais continuam a confrontar-se com a realidade do dia a dia que inclui dificuldades na habitação, criminalidade e pobreza. Após 2.600 anos de história, Marselha continua rebelde, resistente e solidária. Em 2022, e depois da vitória da esquerda em Marselha 2020, apelidado de Primavera Marselhesa, Paris constata o estado das infra-estruturas em Marselha e põe em marcha um plano apoiado pelo Presidente Emmanuel Macron chamado Marselha em Grande. Este plano dá à cidade cinco mil milhões euros adicionais para investimento em escolas, transportes, segurança e habitação. Para isto contribuíram tragédias como os desmoronamentos de dois prédios da rue d’Aubagne em 2018, no centro da cidade, que fizeram oito mortos e deixaram dezenas de famílias na rua, mas também os ajustes de contas constantes entre gangues especialmente nos bairros Norte da cidade que levaram à morte de várias pessoas, incluindo adolescentes. Este foi um projecto que coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos em Paris, com as provas de vela e alguns jogos de futebol a serem realizados em Marselha. A prioridade para a utilização destes fundos foi desde logo as escolas, como conta Jorge Mendes, advogado franco-português instalado em Marselha e que apoia Benoit Payan, o candidato socialista. Mas com a revitalização da cidade, veio também um facto incontornável, Marselha está na moda. “Os bairros dessas escolas, também mudam com a nova escola, porque temos de relembrar que em 2020 as escolas aqui eram a vergonha da República. Era assim que se falava das escolas de Marselha. Nos jornais, na comunicação social, isso mudou. Claro que muda pouco a pouco, o projecto vai até 2039, portanto haverá muitos anos ainda pela frente. Estamos a falar de 460 escolas a refazer ou a construir totalmente. Portanto, as escolas mudaram e também houve um grande investimento no centro da cidade. Houve um investimento que permitiu à cidade de se abrir. Há esplanadas, há bares que abriram, há mais vida nocturna, há uma vida cultural, há saídas e há também uma moda. É preciso dizer que Marselha está na moda, em França e na Europa. É claro que isto também deu um sentimento de que é melhor viver aqui e isso é importante. Vê-se que as grandes avenidas mudaram, os apartamentos estão a ser reabilitados. O transporte mudou porque as linhas que existiam foram aumentadas. Portanto, são as mesmas linhas de metro e eléctrico, mas foram aumentadas. Está mais fácil hoje ir do norte ao centro já existe essa linha. Do Sul ao Norte também é possível ir de eléctrico do Sul ao Norte em 40 minutos. Mas isso é uma maravilha. Coisas que não existiam, portanto. As pessoas sentem que nada é como antes”, explicou. A partir de 2020, parisienses e os chamados nómadas digitais descobriram Marselha. Depois de anos de uma má reputação, que afastava habitantes das classes mais altas e investimento, Marselha brilha agora nos rankings de melhores destinos europeus. Depois dos gregos, dos romanos, dos visigodos, dos francos, dos italianos, dos corsos ou dos argelinos, chegaram agora os turistas à cidade. Se isto contribui para a revitalização especialmente do centro da cidade, há também um combate activo por parte da autarquia aos abusos cometidos no alojamento local que leva a que muitos marselheses não consigam alugar ou comprar casa na sua própria cidade. “Marselha tem a lei mais dura de França. É muito simples. Todos podem fazer Airbnb, alugar a casa se for a residência principal deles. E podem fazer 90 noites por ano, não mais. Há 6.000 pessoas que não respeitam a lei. E a Câmara Municipal está a atacar 6000 pessoas. Portanto, não é pouca coisa. Todas as semanas vamos a tribunal para fazer condenar as pessoas a uma multa de 100.000 € por apartamento. E é assim que se vai conseguir. É claro, sobre o porto, os cruzeiros, trata-se de uma economia para Marselha. É importante, mas temos de construir aqui hotéis, investir em hoteis e construir, como noutras cidades, um acolhimento turístico. E o Estado sobre isso também tem que vir ajudar. Sobre as grandes infraestruturas, fizemos um novo porto com os Jogos Olímpicos que houve em Marselha, mas parou aí. Então, sobre este novo porto, precisamos de hotéis, de bares, de tudo. Nós temos 57 quilómetros de mar em Marselha. Há quatro entradas de praia no centro da cidade. Isto tudo é preciso refazer. Portanto, há praias a construir, há hoteis a construir, há tudo a fazer e todos são bem vindos. Claro que é uma cidade específica, é uma cidade que foi criada por entidades estrangeiras que foram chegando como os italianos, os portugueses, os espanhóis, os argelinos, os marroquinos. E hoje a cidade tem essa especificidade. É uma cidade única. Nenhuma teve este acesso ao mar. Mas acho que também é o que faz a riqueza desta cidade. É a única em França. Se calhar nem na Europa”, disse o advogado. Este novo sopro em Marselha está também a atrair empresas e ajuda a fixar startups, argumentos utilizados por Franck Araújo, que dirige o Acelerador M, para convencer os CEO a escolherem a cidade. “As vantagens são várias. Uma delas é que há um porto. É uma cidade aberta no Mar Mediterrâneo. Essa é a primeira coisa. A segunda coisa é que também é um pólo universitário muito importante, com muitos pesquisadores. E outra coisa é também o facto de termos não sei quantos cabos agora porque já nem sei quantos são, mas temos aqueles cabos submarinos que nos ligam a mais de 3 mil mihões de pessoas. Isso faz com que Marselha seja um hub de telecomunicações e de dados, e sabemos muito bem que a economia de amanhã é uma economia baseada nos dados. Por isso é uma coisa. Só que há um facto também que foi relevante para levantar, pôr em pé essa cidade que estava mesmo até fins dos anos 90, está muito, muito empobrecida, muito criticada, etc. Foi a chegada do TGV em 2000, pôs Marselha a três horas e poucos minutos de Paris. Muito menos de Lyon e de várias outras cidades. Ora bem, há muitos parisienses e há muitas pessoas que moram nos arredores de Paris que decidiram vir para o Sul”, detalhou Franck Araújo. O Acelerador M já criou 250 postos de trabalho e atrai empresas dos dois lados do Mar Mediterrâneo. No entanto, e mesmo perante esta nova onda de interesse pela cidade, os problemas de Marselha persistem e é por isso que Bruna Ramos Alfama se lançou numa das listas candidatas à Câmara Municipal, a lista de Erwan Davoux, um dissidente de direita. “O essencial é ver as dificuldades de toda a gente aqui. Há drogas, há jovens que deixam os estudos aos 15, alguns mesmo aos 13 anos, temos de tentar que os jovens continuem a estudar e que tenham um futuro melhor e que todos tenhamos um trabalho digno. Eu estudei, em Portugal fiz gestão industrial e aqui não dão oportunidades”, declarou a candidata. O tráfico de droga continua a dominar os bairros Norte da cidade, tendo havido recentemente a detenção de cerca de 40 membros da máfia DZ, que lidera muitos dos pontos de tráfico na cidade. Em Novembro, uma morte em Marselha chocou a França. O irmão do activista Amine Kessaci, que lançou um livro a denunciar os meandros do tráfico de droga, foi morto por um atirador que passava de mota. Para combater a insegurança na cidade, aumentou o número de polícias municipais em Marselha, mas Jorge Mendes explica que há limitações em relação ao que a autarquia pode fazer. “É um problema da competência do Estado. Um presidente de Câmara Municipal não tem nenhum poder de polícia, judiciário, portanto, não tem a polícia na mão dele. Só tem a Polícia Municipal. Ou seja, que é normalmente a tranquilidade da segurança pública de todos os dias. Tudo o que é esse problema da insegurança de narcotráfico claro que é um problema de Estado e precisamos de reforço evidente. Mas acho que há aqui um acto simbólico. Amine Kessaci é o número três nesta desta campanha. E com um poder muito importante, que será o do acompanhamento das famílias das vítimas em bairros onde há tráfico de droga. E, portanto, ele vai ter aqui uma capacidade de acompanhamento social na luta contra o narcotráfico. Mas claro que o presidente Câmara Municipal não vai ter os poderes de meter um fim a esta guerra contra o tráfico de droga. É evidente", explicou Jorge Mendes. Mas, ao mesmo tempo, para quem vive nos bairros Norte e para quem é controlado constantemente pela polícia nacional ou municipal, a vida tornou-se mais difícil na cidade. Rachid, jovem acompanhado pela associação ARS, questiona se a polícia existe para proteger verdadeiramente a população. "Os jovens estão fartos de serem discriminados. Na verdade, estamos fartos porque, quando saímos à rua, são sempre os mesmo que são controlados e somos controlados todos os dias pela polícia, às vezes várias vezes por dia. É o nosso quotidiano. Esta é uma guerra deles, não é uma guerra nossa. A polícia devia proteger-nos, mas quando se cria uma força policial como fez Benoit Payan nos bairros do Norte é para quê? É para impedir as pessoas de saírem de lá. Claro que se a polícia vai para lá para fazer números, vai constatar infrações e impedir as pessoas de viver. E eles vão para lá para controlar árabes e negros. Quando eu era pequeno havia uma verdadeira polícia de proximidade, hoje a polícia municipal está armada. Antes falávamos de uma polícia que estava lá para nos proteger", argumentou Rachid. E a pobreza também não desapareceu. "Marselha não é a França. Quando vou a Bordéus eu vejo a França, quando vou a Bayonne eu vejo a França, quando vou a Biarritz, eu vejo a França. Quando eu digo isto é porque fui a esses sítios e não estou a

    14 min
  4. MAR 12

    Autárquicas em França: os jovens sentem-se abandonados em Marselha, mas não baixam os braços

    Os jovens adultos constituem uma parte importante da população de Marselha, mas também a mais afectada pelos problemas da cidade como a dificuldade em encontrar casa, a limitação dos transportes públicos e ainda a pobreza. Face a estes problemas, os jovens parecem afastados da vida política, com a abstenção a crescer, mas estão atentos aos candidatos e às suas propostas, esperando agora acção no terreno. Em França, mais de metade dos jovens não vota. Uma realidade que oscila consoante o tipo de eleição, mas, por exemplo, nas eleições legislativas de 2022,  quase 70% dos jovens entre os 18 e os 24 anos decidiram abster-se. Este é um fenómeno que ocorre em todo o território francês, mas em Marselha, onde os jovens acumulam problemas como a dificuldade de encontrar casa, uma taxa de desemprego elevado e uma precariedade sistémica, as eleições municipais não estão no topo das prioridades. Rachid, um jovem marselhês, explicou à RFI as razões deste desinteresse. “Já viu algum dos candidatos a Marselha a falar sobre os jovens? Eles estão apenas a tomar conta dos seus próprios interesses e nós, os jovens, sofremos. Somos uma geração que já entendeu que é preciso trabalhar para economizar. É só isso que nos vai salvar, porque sem trabalho não temos casa nem recursos, nem umas calças de ganga a 10 euros podemos comprar. Percebemos muito rápido que no fim da escola, quando acabamos os nossos estudos, estamos por nossa conta. E mesmo se tivermos um contrato, vimos dos bairros Norte de Marselha, outros vêm de África, outros da Líbia, outros do Afeganistão, e não vemos qualquer mudança. O que queríamos é que trabalhássemos todos juntos. Vocês, os jornalistas, nós, os jovens, os políticos, de forma a avançar. Por exemplo, avançar habitação e, depois, aqui não é como diz o Macron, não atravessamos a estrada e encontramos um trabalho, muitos de nós trabalhamos fora da cidade de Marselha”, explicou Rachid. Rachid é acompanhado há sete anos pela ARS, uma associação em Marselha que apoia cerca de 60 jovens no processo de readaptação social, especialmente entre os 18 e os 25 anos. A ajuda vai desde alojamento, até mostrar como se preenche a primeira declaração de impostos. Mas mais do que isso, a ARS permite a estes jovens, muitos vindos dos bairros mais pobres de Marselha ou imigrantes que chegaram ainda menores de idade à cidade, de não ficarem sozinhos, como explica Kingoma, também acompanhado pela ARS. “Quando cheguei, não sabia bem o que era a ARS. Estava um pouco perdido em relação a como fazer os meus papéis. Aos poucos, fui descobrindo todas as actividades aqui e encontrei o meu caminho, porque me envolvi aqui na associação e comecei a sentir-me capaz de ver as coisas com mais clareza e a projectar como será a minha vida depois. Nós vivemos muitas dificuldades aqui e eu estava a falar com um amigo no outro dia sobre como vamos fazer depois, porque aqui temos alojamento durante algum tempo, mas temos de ser nós a fazer esforços para nos prepararmos psicologicamente para a próxima fase da nossa vida e isso não é fácil”, disse o jovem. Marselha está dividida em 16 bairros, havendo uma distinção muito forte entre os bairros do Sul, mais ricos e onde vive a população mais abastada, e os bairros do Norte, onde nalguns quase 40% dos habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza. Para os jovens de Marselha, a política é feita longe das ruas que percorrem todos os dias e há um grande sentimento de abandono.  “Eu não me interesso por aí além pela política, mas às vezes é preciso ser político para progredir na vida, porque as pessoas que votam somos nós, somos nós os cidadãos, caso contrário, eles falam e nós só ouvimos, mas nós temos que ser ouvidos. Só que às vezes parece que eles vivem num mundo paralelo, como se nós vivêssemos em Marselha e eles noutra cidade qualquer. Eles não veem a realidade das coisas. Não é a mesma coisa alguém que está fechado num escritório o dia todo e alguém que circula na cidade. Por isso, nós sentimo-nos abandonados. E não é que não nos esforcemos para encontrar trabalho, mas não é a mesma coisa”, indicou Rachid. Para dar mais informação aos jovens sobre as eleições e também mais poder de decisão em momentos chave como as eleições municipais que se aproximam, Alexandre Pastor, também marselhês, criou em 2022 a associação Melting Pot que tem como missão dar as ferramentas cívicas necessárias para que os jovens sintam que a sua intervenção na cidade e no país conta. “Partimos da observação de que a abstenção só aumenta a cada eleição, seja ela local, nacional ou europeia. Achamos que há dois motivos para isso: a desconfiança dos jovens em relação às instituições e aos representantes eleitos e, acima de tudo, a falta de conhecimento dessas instituições. Porque sempre que conversei com jovens da minha idade ou mais jovens, eles não sabiam a diferença entre o conselho distrital, o conselho regional, a câmara municipal e, portanto, tudo se confunde. Quando eu era mais jovem, se eu não entendia alguma coisa, era difícil envolver-me ou interessar-me por isso. Por isso, na associação partimos da premissa de que dando a todos um nível básico de informações e todos ficamos em pé de igualdade, de modo a que todos pudéssemos dizer: OK, agora eu entendi, então posso envolver-me ou não, e assim lutar contra a abstenção”, detalhou Alexandre Pastor. Rachid, tal como a maior parte dos jovens acompanhados pela ARS, trabalha, mas é muito difícil para estes jovens encontrar casa devido ao aumento das rendas na cidade e são também muitas vezes discriminados devido à cor da pele e ao facto de não terem famílias que ajudem nas garantias pedidas pelos senhorios. Quanto ao trabalho, muitos só encontram emprego fora do centro da cidade em sectores precários. Franck Araújo dirige o Acelerador M, um acelerador de startups no centro da cidade e admite que a criação de empregos em Marselha é difícil, sobretudo porque as empresas precisam de capital disponível quando querem crescer na cidade. “Claro que a taxa de desemprego é a mais importante aqui do que noutros sítios do território metropolitano. Mas fazendo a média do território não é assim tão diferente em relação a outras regiões francesas. Mas pronto, a situação é essa. Em Marselha é verdade que é mais complicado porque há uma espécie de separação entre sul e norte da cidade. Não se passa a mesma coisa a sul e a norte da cidade. No entanto, o que precisariam as startups para se fixarem aqui? Primeiro, temos falta de capital de risco. Precisam de pessoas bem formadas. Isso também há aqui e noutros sítios. Porque hoje é muito fácil recrutar. Agora, o gás, o dinheiro e as participações e os mercados não estão aqui. Não estão cá. Não estão em Marselha, nem aqui na região. Então é worldwide. Ou então em Paris ou em Berlim, ou então em Londres, ou então na América do Norte e por aí fora. E então torna-se muito difícil conseguir metê-las cá”, detalhou. Também os transportes tornam difícil os trajectos diários. Alguns dos jovens da associação contaram à RFI que demoram entre duas a três horas para chegar ao trabalho, acabando muitas vezes por voltar a pé quando se trata de empregos no sector da restauração já que os turnos acabam tarde. Jorge Mendes, advogado que apoia o actual autarca e recandidato à sua eleição, o socialista Benoit Payan, reconhece que os transportes são um grande problema da cidade, mas que, até agora, não dependiam só do autarca, já que os subsídios vêm de outras instâncias regionais, muitas vezes lideradas por forças políticas antagónicas. “De facto, o problema dos transportes em Marselha é uma vergonha. A segunda cidade francesa tem um metro que acaba às 21:30, tem uma população jovem e é preciso quarenta quilómetros para vir do Norte da cidade até ao centro da cidade. São quarenta quilómetros, portanto é preciso ver o que é uma cidade desta dimensão, com duas linhas de metro e com poucos autocarros de dia e que param à meia noite. Claro que é uma situação que nunca se vê numa cidade cosmopolita e moderna em França, mas Marselha sofre disso. É uma competência de metrópole. Mas é preciso saber que esta campanha eleitoral não é só uma campanha de presidência da Câmara Municipal. Quem ganhará a Marselha vai também ganhar a metrópole e, portanto, vai recuperar a competência dos transportes. O Estado permitiu, de facto, agora investimento estes três últimos anos para o transporte. Mas o que é que foi feito? Foi feito um eléctrico e que tem exactamente a mesma linha que o metro, portanto é só um metro. Os jovens não conseguem sair dos bairros onde eles estão, não conseguem vir trabalhar para o centro da cidade, onde há trabalho e também não conseguem sair à noite porque não consegue voltar para casa, não consegue ter acesso à cultura. É uma situação que não se deve admitir numa cidade como Marselha”, disse o advogado. Para além do problema dos horários dos transportes, muitos jovens da ARS que precisam destes meios de locomoção para começar a sua vida profissional, vêm os seus salários penhorados devido a multas por no primeiro mês em que vão trabalhar não terem dinheiro para comprar o passe dos transportes. Muitos candidatos prometem a gratuidade dos transportes até aos 26 anos de forma a resolver esta questão. Mesmo se Rachid diz que a política está longe do seu quotidiano, este jovem marselhês diz votar em branco e conhece os percurso dos vários candidatos. Pede é acção concreta para a vida de todos os marselheses. “Nós dizemos fora a quem não vier fazer coisas concretas por nós. Isto aqui não é o cinema. Eu voto em branco porque essa é a minha escolha, porque desde que estou em Ma

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  5. MAR 11

    Autárquicas em França: Perpinhã e Marselha são laboratórios políticos para as presidenciais de 2027

    Marselha tem quase nove vezes mais população do que Perpinhã e as duas cidades têm trajectórias muito diferentes na História de França. No entanto, esta eleição aproxima-as com disputas acesas por parte dos candidatos de extrema-direita e problemas partilhados como criminalidade, alojamento e pobreza. Louis Aliot é recandidato à Câmara de Perpinhã. Tem face a ele um candidato de direita, Bruno Nougayrède, e três candidaturas de esquerda, uma de Mathias Blanc, socialista que não recebeu o apoio do partido, Agnes Langevine, socialista com o apoio do PS e ainda Mickael Idrac, candidato da França Insubmissa. Na corrida está também uma lista do partido Luta dos Trabalhadores. Segundo as sondagens, na primeira volta, Louis Aliot deve conseguir posicionar-se entre os 43 ou 44%, algo considerado normal para um autarca que se estreou nas lides locais. No entanto, Louis Aliot vai a eleições com um potencial novo mandato já em risco. O candidato de extrema-direita foi condenado em Março de 2025 a três anos de inelegibilidade e 18 meses de prisão, de entre os quais 12 de pena suspensa, no caso dos assistentes parlamentares fantasma que o seu partido empregou durante uma década no Parlamento Europeu. Aliot está acusado de ter contratado um assistente com o qual trocou uma chamada telefónica e oito e-mails durante 11 meses. O autarca de Perpinhã não perdeu logo o seu mandato autárquico em 2025 porque fez um recurso, tal como Marine le Pen, e o resultado deve ser conhecido no dia 7 de Julho. Mesmo com estes problemas na justiça, Louis Aliot continua a recolher apoios e aliou-se mesmo a uma parte da direita da cidade. E como mostram as sondagens, também os seus eleitores parecem não se importar com a situação, como explica o politólogo Domique Sistach. “Ele tem realmente hipótese de ganhar novamente. No segundo mandato de um autarca eleito há quase automaticamente um bónus para cabeça de lista. Isto é muito específico às eleições autárquicas. E, acima de tudo, tal aconteceu em 2020, a esquerda está totalmente dividida e a direita está a ser absorvida pela extrema-direita, havendo assim poucos candidatos ou propostas ideológicas para uma oferta política que possa enfrentar a máquina Aliot. E no caso de Louis Aliot ser definitivamente condenado em recurso, estou convicto de que os eleitores da União Nacional não se importam, porque eles dizem que, de qualquer forma, o presidente da Câmara colocará alguém de sua confiança e a cidade será bem administrada. É como um cheque em branco”, explicou o académico. E tal como o próprio Louis Aliot já disse, e o seu colaborador próximo, Anthony Guerreiro repete, o líder da extrema-direita nunca estará muito longe. "Caso esse processo tenha como decisão final que Louis Aliot não possa ser presidente da Câmara, ele vai continuar a servir a cidade. Caso ele não possa exercer o mandato, se não for ele, será alguém da equipa dele e eles não podem tirar essa forma de ajudar, mesmo que seja nos bastidores. Louis Aliot vai ficar em Perpinhã, vai ajudar Perpinhã e vai continuar a servir a cidade porque ele gosta desta cidade, é uma cidade que ele respeita, respeita a sua história e é por isso que ele vai ajudar Perpinhã até ao fim", garantiu Anthony Guerreiro. Para quem intervém no meio social e da solidariedade, a cidade precisa nos próximos anos de um diálogo profundo de forma a recriar um entendimento e uma partilha que se perderam nas últimas décadas. Magalie Grand, que preside a associação Entrai’des Roussillon, gostava que as associações tivessem maior intervenção já que conhecem os problemas das pessoas da cidade. “Que a solidariedade não seja só uma palavra vã, esvaziada de conteúdo, que sejamos apoiados porque sem as associações cria-se um círculo vicioso na cidade. A questão da segurança é bastante urgente na cidade, mas as coisas poderiam ser muito piores se nós não estivéssemos aqui, as associações, para ajudar. Uma parte da delinquência surge porque as pessoas não têm nada para comer. Quem é que me diz que caso me faltasse comida, eu não faria a mesma coisa? Então as pessoas veem um modelo de sociedade que é baseado em ter e consumir mais, mas onde se faz muito pouco para ajudar o indivíduo. E nós, as associações, olhamos para o indivíduo e queremos fazer parte da vida da cidade, das discussões e tentar melhorar a vida das pessoas”, explicou. E como uma cidade não se faz sem jovens, o estudante de Sociologia, Hidad Ashraf, também gostava de ver uma mudança efectiva em Perpinhã. “Vamos começar com algumas coisas muito simples e muito básicas: a atractividade da própria região. Não há muito para manter os jovens aqui. É uma questão de ajudas muito simples. Por exemplo, no centro da cidade não temos onde comprar roupa, só vai a certas lojas quem tem carta de condução e nem todos têm carro. Em Paris ou noutras cidades, há muito mais mobilidade através dos transportes públicos, com comboios, eléctricos, autocarros. Aqui não há ajudas para os passes e os transportes terminam muito cedo. E isto são desigualdades. Também deveria ser alargada a oferta de cursos na universidade e precisamos de representantes eleitos que realmente nos representem e que não correspondam só ao estereótipo do homem branco. Precisamos de maior representação da diversidade cultural em Perpinhã”, disse. Com a extrema-direita em destaque, a direita a aliar-se à extrema-direita e a esquerda dividida, Perpinhã é um laboratório para as ideias da União Nacional, mas também um espelho do país, já que as sondagens mostram Marine Le Pen, ou o seu sucessor Jordan Bardella destacados, ficando apenas Jean-Luc Melenchon, líder da extrema-esquerda, em posição de combater pelas presidenciais de 2027. Nos últimos dias, as maiores figuras da política francesa passaram por Perpinhã e esta vinda não é por acaso. “Estamos a ver que a cidade de Perpinhã é um laboratório político, porque estamos a demonstrar na prática que não se trata apenas de sugar os votos das classes mais baixas que até aqui votavam à direita e à esquerda. Como podemos ver aqui em Perpinhã, os bairros de classe média, da classe trabalhadora, os bairros residenciais, votam da mesma forma que os bairros mais ricos e gentrificados do Leste da cidade. E sim, sendo uma cidade com assimetrias, representa de uma certa forma a França. Uma França mais pobre do que aquela que temos actualmente. Perpinhã é um laboratório para uma França mais pobre e mais dividida. Numa eleição nacional, há sempre três, quatro ou cinco cidades que serão os testes para as forças políticas e Perpinhã é uma delas”, considerou Dominique Sistach. Tempo então de partirmos para Marselha, mais uma das cidades teste destas autárquicas... Aqui, na segunda maior cidade de França, a luta trava-se entre a esquerda, no poder nos últimos seis anos, e a extrema-direita que sobe nas sondagens. Também aqui os temas como a segurança, habitação e pobreza são chave para os habitantes, no entanto, o duelo com a extrema-direita torna-se mais surpreendente já que Marselha sempre foi conhecida como uma cidade aberta ao Mundo e, sobretudo, uma cidade rebelde. Para Jorge Mendes, advogado franco-português e apoiante do actual presidente da Câmara e recandidato, Benoit Payan, a cidade tornou-se nos últimos anos um alvo da extrema-direita. “A segunda cidade francesa foi escolhida para esta luta, Benoit Payan não escolheu esta luta. Só que a direita aqui foi uma direita que não compreendeu que não podia imitar à extrema direita, senão não havia qualquer diferença entre as duas. E os eleitores iam preferir então não a cópia, mas o original, ou seja, a extrema-direita. E, portanto, de facto, esta eleição é uma eleição que vai ter uma segunda volta entre dois candidatos: entre o socialismo e a esquerda e a extrema direita. Claro que é um exemplo, especialmente a um ano da próxima eleição presidencial. Sabendo que falamos de 1 milhão de habitantes, é um exemplo do que se vai passar daqui a um ano nas presidenciais. Mas acho também que é uma sorte, não é? Também é uma sorte para ganhar esta luta. Acho que todos podem aderir a esta luta contra a extrema-direita, que nesta cidade que é tão cosmopolita, tão diversa, com uma história totalmente rebelde, de pessoas que vêm de vários países, seria totalmente impossível ter a extrema direita no poder na Câmara Municipal de Marselha. Acho que esta luta vai começar segunda-feira, depois da primeira volta que vai unir muitas pessoas de Marselha, mesmo se não votam à esquerda, porque a direita desapareceu. Portanto, essas pessoas de direita que são contra o racismo vão votar connosco. Tenho a certeza disso. Marselha, nos anos 80, foi a primeira, foi daqui que começou a marcha contra o racismo de Marselha, que eles começaram a andar até Paris contra o racismo. E tenho a certeza que vai recomeçar a mesma coisa na segunda-feira”, mostrou-se confiante Jorge Mendes. Mesmo numa cidade aberta, virada para o Mediterrâneo e cujo porto há mais de 2 mil anos serve de abrigo a quem atravessa tormentas, o diálogo inter-cultural está cada vez mais difícil, como relata Sandra Lima Rocha, franco-cabo-verdiana e presidente da associação Cap Vert l’Avenir que presta apoio aos cabo-verdianos instalados em Marselha. “O mais importante é voltar à atmosfera que existiu em Marselha. Porque em Marselha, seja nas relações entre judeus, muçulmanos ou cristãos, elas sempre foram muito boas. Quero dizer, nosso bispo em particular, Monsenhor Aveline, trabalha muito com o diálogo inter-religioso. Acho que o problema no momento é realmente a falta de diálogo entre as várias comunidades. E em Marselha, até agora, isso não tem sido muito perceptível. O mesmo acontece noutras cidades, sei que em Lyon há divisõ

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  6. MAR 10

    Autárquicas em França: Louis Aliot, a extrema-direita no poder em Perpinhã

    Nos dias 15 e 22 de Março, os franceses vão às urnas para as eleições municipais. Há seis anos, e após várias tentativas, Louis Aliot tornou-se presidente da Câmara de Perpinhã. Os seus partidários defendem que a cidade está mais segura e mais limpa, enquanto os seus opositores denunciam uma cidade abandonada e a tentativa de imprimir na cidade uma ideologia de extrema-direita. Em 2020, as eleições autárquicas em França aconteceram em circunstâncias extraordinárias devido à pandemia de covid-19. Esta é uma eleição com duas voltas, em que passam à segunda volta os candidatos que conseguem mais de 10% dos votos. Ou seja, entre as duas voltas há acordos, mais ou menos surpreendentes, de forma a permitir vitórias mais alargadas ou duelos entre múltiplas linhas políticas. Ora em 2020, a primeira volta aconteceu no dia 15 de Março, já envolta em polémica devido ao perigo da pandemia, e logo no dia 17 de Março, a França decidiu iniciar um confinamento muito rigoroso que durou até à Primavera. Logo, a segunda volta só aconteceu em Junho desse ano. As eleições foram então marcadas por uma grande abstenção. Em Perpinhã, mais de 60% da população não votou na primeira volta e cerca de 52% também se absteve na segunda, o que para Kevin Courtois, membro da representação local da organização SOS Racismo, explica o resultado da extrema-direita. “Acho que a eleição de Louis Aliot em 2020 ocorreu num contexto muito especial. Em primeiro lugar, havia a Covid-19 na época, que era uma questão importante e complicada naquele momento. E ele venceu porque havia um sistema em vigor há muito tempo com o antigo autarca, Jean-Marc Pujol. E, de facto, as pessoas votaram contra Jean-Marc Pujol porque isso deveria significar o fim de um reinado, o fim da estagnação e de um período sem projectos estruturantes para a cidade. Por isso, as pessoas preferiram votar contra Jean-Marc Pujol. Essa é a tragédia desta história”, lamentou o activista. No entanto, há duas décadas que Louis Aliot, originário de Toulouse, tentava ganhar destaque em Perpignan, tendo já concorrido em eleições autárquicas passadas. Aliot é actualmente vice-presidente da União Nacional e já foi deputado, assim como deputado europeu. Foi também uma figura próxima de Jean-Marie Le Pen, tendo desempenhado funções como seu secretário. Esta proximidade à cúpula do partido e o investimento feito localmente, fez com que a sua eleição em 2020 não fosse uma surpresa para o politólogo Dominique Sistach. “Não foi uma surpresa porque Louis Aliot estava a tentar ganhar Perpinhã há vários anos e as suas raízes na cidade estavam cada vez mais profundas. E, acima de tudo, não foi uma surpresa devido à falta de resposta da direita e da esquerda aos problemas da cidade. Em outras palavras, não foi tanto Louis Aliot que conquistou esta cidade, mas esta cidade ofereceu-se a Louis Aliot. É a lógica inversa e um forte declínio da direita e da esquerda em Perpinhã que levou ao sucesso de Aliot”, detalhou Dominique Sistach. Ao implementar-se na cidade, Louis Aliot começou a ganhar apoiantes. Anthony Guerreiro é um jovem franco-português que apoiou o homem forte da extrema-direita desde o início. “Comecei a apoiar Louis Aliot devido a um interesse pessoal na política, mas também porque os meus pais têm um restaurante e Louis Aliot não conseguia encontrar nenhum comércio para organizar uma conferência de imprensa e os primeiros a dizer sim foram os meus pais. As pessoas não se queriam associar a ele porque ele tem uma etiqueta de extrema direita. Como para os meus pais todos são iguais e temos que ajudar todos, eu comecei a entrar nesse mundo da política muito jovem, a ver o Louis Aliot e depois a aprender essas coisas”, explicou Anthony Guerreiro, que trabalha com o autarca. Se a União Nacional, antigo Frente Nacional, foi marcada por declarações extremas ligadas ao racismo, xenofobia ou antisemismo proferidas por Jean-Marie Le Pen durante décadas, a passagem de testemunho para a filha, Marine Le Pen, levou a uma suavização do discurso. Um dos arquitectos desta normalização do partido foi exactamente Louis Aliot. “Pode-se dizer que ele é mais um homem de direita num partido de extrema-direita. Esse é um ponto positivo, podemos dizer assim, mas claro que ele sempre foi um homem de extrema direita. Ele foi secretário particular de Jean-Marie Le Pen e sempre foi membro de um partido cujo principal objetivo é excluir os estrangeiros. Portanto, ele é um personagem bastante complexo na política e, de qualquer forma, um de seus pontos fortes é que ele pode falar tão bem com a extrema-direita, da qual ele faz parte, quanto com a direita republicana e tradicional”, analisou o politólogo. Para a organização SOS Racismo, o mandato de Louis Aliot não trouxe nada de positivo à cidade. As idas frequentes até Paris, a cerca de cinco horas de comboio, e a dificuldade em combater a pobreza e a desigualdade na cidade levam Kevin Courtois, que figura numa das listas de esquerda que concorrem à Câmara Municipal, a afirmar que Perpinhã precisa de um plano Marshall. “Sim, as diferenças entre ricos e pobres aumentaram na cidade. É quase como se a cidade não tivesse tido ninguém a dirigi-la porque o presidente da Câmara nunca cá está. E as suas acções são o resultado da sua inacção. E assim, é claro, Perpinhã afunda-se. Temos o bairro de Bas-Vernet, um dos mais pobres da Europa, temos índices de desigualdade enormes nesta cidade. Precisamos de uma espécie de Plano Marshall para a cidade. O que nós precisamos fazer é produzir riqueza e ter uma acção municipal efectiva, para que os negócios se instalem aqui, é preciso dinamismo. E essa é a melhor forma de combater a insegurança que aumenta na cidade, tendo lojas e uma economia dinâmica”, defendeu. Para Anthony Guerreiro, cuja família está instalada em Perpinhã há duas gerações, a mudança na cidade desde 2020 é óbvia, desde logo passando pela limpeza da cidade, mas também a segurança, já que Louis Aliot aumentou para 200 o número de polícias municipais - uma polícia de proximidade, sem as mesmas competências do que a polícia nacional, usada por muitos autarcas para reforçar o cumprimento de regras nas cidades, já que cabe ao Estado central a distribuição da polícia nacional e da polícia militar no território. “Aqui, nestes seis anos de cidade, mudaram muitas coisas já, como a segurança, ele aumentou o número de polícias municipais. Ele fez seis esquadras de polícia abertas 24 por dia. Isso antigamente não tinha. Para uma vila de 120.000 habitantes é muito importante. Ele fez a mediateca. Até a nível de limpeza, ele investiu mais de um milhão para renovar o material todo, porque estava tudo avariado. Meteu mais empregos para o centro, vilas, os bares fora. Ele ajudou muito também a nível nacional, porque ele é conhecido e tem o poder de mudar as coisas”, explicou. Após seis anos a viver sob o jugo da extrema-direita, a SOS Racismo contesta o facto que mais polícia signifique mais segurança, até porque os dados mostram um aumento de 10% da delinquência na cidade, especialmente no que diz respeito ao tráfico de droga. Deste mandato, para Kevin Courtois, ficam as tentativas de estender à cidade a ideologia da extrema-direita.  “Observámos vários indicadores de extrema-direita, mesmo se como presidente da Câmara não há grande balanço a fazer. Foi organizado um festival chamado ‘Primavera da Liberdade de Expressão’ que trouxe à cidade várias figuras nacionais de extrema-direita e isso foi financiado com o nosso dinheiro. Também tentou dar o nome de uma praça da cidade de Pierre Sergent, um ex-membro do departamento de Oise, responsável por actos terroristas na França e por mais de 50 mortes, portanto são ataques que visam perturbar da ordem pública e isso poderia gerar uma ofensa à sensibilidade da memória viva, ou seja, às pessoas que foram vítimas desse homem, desses actos terroristas”, declarou. Pierre Sergent nasceu em Perpinhã começou por integrar a resistência francesa durante a II Guerra Mundial, mas integrou depois a guerra da Argélia tendo-se depois desvinculado do Exército francês e integrando organizações subversivas que defendiam a manutenção da Argélia sob domínio francês e que levaram a cabo vários actos terroristas.  Outra mudança na cidade, foi a mudança da sua divisa. Devido à proximidade geográfica, à língua e à partilha de tradições com a vizinha Catalunha, Perpinhã era conhecida como a catalã. Desde a chegada de Louis Aliot, o autarca decidiu que a cidade deveria passar a ser designada como a radiante. Para Kevin Courtois este é também um sinal da vontade da extrema-direita de apagar a histórica multicultural de Perpinhã. “É profundamente chocante porque Perpinhã, a radiante, foi construída sobre nada. Ao passo que Perpinhã, a catalã, faz parte de uma memória e história compartilhadas. E tudo isto custou dinheiro, porque houve um investimento na mudança da imagem e do logotipo da cidade. Quer dizer, é uma loucura. Temos os bairros mais pobres de França. Acho que esse dinheiro poderia ser usado de outra forma”, defendeu o activista. Para Dominique Sistach houve várias tentativas de acção simbólica de extrema-direita, mas que não foram eficazes. “Em Perpinhã, isso não foi feito em grande escala, porque cada vez que a União Nacional tem o poder, tenta levar a cabo uma ação simbólica a favor ou em linha com a ideologia extremista. Foi feita essa tentativa da Praça Pierre Sergent,um ativista de extrema-direita e o tribunal administrativo pediu que fosse retirado. Portanto, houve uma acção, mas ela foi imediatamente frustrada pelo que chamamos as instituições republicanas, logo, falamos de acções não tão fortes como costumava ser qua

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  7. MAR 9

    Autárquicas em França: Perpinhã, a cidade radiante que a pobreza encostou à extrema-direita

    As eleições autárquicas em França, nos dias 15 e 22 de Março, são o último grande escrutínio antes das muito antecipadas eleições presidenciais de 2027, às quais Emmanuel Macron não se vai poder candidatar. Estas eleições locais ganham assim uma importância nacional, mostrando muitas das tendências políticas no país, assim como as preocupações dos franceses e as soluções locais possíveis face aos desafios globais. A RFI esteve no Sul da França para perceber como as eleições se vão desenrolar em duas cidades diferentes. A primeira paragem da RFI foi Perpinhã, uma cidade junto à fronteira com a Espanha, no Sul da França, onde desde 2020 é o partido de extrema-direita, a União Nacional, que detém a Câmara Muncipal, fazendo desta cidade de 120 mil habitantes, a maior metrópole controlada pelas forças de Marine Le Pen. No entanto, segundo o politólogo Dominique Sistach, autor do livro “Perpignan, déclassement et droitisation”, algo como desclassificação e alinhamento à direita em português, esta adesão da cidade às ideias de direita começou há mais de 60 anos, aquando o fim da guerra na Argélia e acentuou-se mais tarde com o fim das indústrias locais e a falta de emprego qualificado. “Perpinhã foi uma cidade da Resistência, uma cidade comunista, uma cidade de esquerda até 1958, até ao início da descolonização na Argélia. É por isso que falar sobre o movimento de direita não é apenas uma palavra vazia, é um facto real. Passámos de uma sociedade de classe trabalhadora, uma sociedade radical, socialista e comunista, para uma sociedade que gradualmente se tornou de direita e centro-direita e agora extrema direita”, explicou Dominique Sistach. Apesar de uma posição geográfica privilegiada, a poucos minutos de algumas das mais belas praias de França e o pico do Canigó, uma montanha com quase 3 mil metros de altitude, Perpinhã está entre as cidades mais pobres do país e o Observatório das Desigualdades classificou em 2024 três bairros da cidade, Bas-Vernet Ancien, Rois De Majorque e Champs De Mars, como os mais pobres de França. Estima-se que 33% da população desta cidade do Sul viva abaixo do limiar da pobreza. Esta é uma realidade bem conhecida pelas associações solidárias da cidade, como a Entrai’des Roussillon, uma associação criada há 30 anos e que detém duas lojas solidárias onde roupas e objectos usados são vendidos a preços simbólicos, contribuindo para a criação de postos de trabalho e inserção social, mas também para a inter-ajuda entre os que mais precisam. A presidente da associação, Magalie Grand, diz que as necessidades na cidade são grandes. “Infelizmente, o empobrecimento da população é óbvia, já que somos o segundo distrito mais pobre de França. Temos uma taxa de desemprego bastante alta. Podemos ver que as necessidades são realmente grandes. A habitação em Perpinhã é um grande problema, há filas de espera para ter um alojamento social, e pode demorar entre dois a três anos. Muitas casas são insalubres, portanto também há essa questão que, claro, leva a problemas de saúde, porque não se pode viver de forma digna numa casa com humidade. Felizmente há associações como a nossa que estão presentes, mas podemos ver que com a redução das ajudas públicas, algumas pequenas associações estão a fechar portas e muitas delas têm utilidade social para a população. Nós resistimos porque estamos quase a completar 30 anos de existência, o que não é pouca coisa, mas sentimos um aperto no peito, já que a nossa associação tem funcionários, temos de pagar os salários e as contribuições sociais ao Estado, pagamos rendas. Temos muitas despesas”, explicou a líder associativa. A taxa de desemprego em Perpinhã chega quase aos 22%, o que torna difícil mesmo para os jovens que estudam na cidade - há cerca de 10 mil estudantes na universidade de Perpinhã - de se fixarem. Hidad Ashraf tem 21 anos, está no terceiro ano de Sociologia, e tal como muitos dos seus colegas pensa deixar a cidade assim que terminar a sua licenciatura. “Francamente, Perpinhã é uma cidade muito virada para as pessoas que já estão na reforma. Eu, como jovem estudante, sei que não há realmente nenhuma perspectiva de futuro em Perpinhã, a não ser para as pessoas que querem ir para a agricultura e outros sectores muito específicos. Tanto eu, como os meus colegas, como inquéritos que levei a cabo durante os meus estudos mostram que os estudantes estão só à espera de poderem terminar os estudos para deixar a cidade. E esse é o meu caso. Quem quer ficar é porque vem de famílias onde há negócios ou heranças que permitem uma certa estabilidade. Para quem quer ter um futuro aqui é complicado”, detalhou o estudante. Aos poucos, e devido às escolhas políticas dos últimos 30 anos, com presidentes da Câmara que permaneceram no poder durante vários anos enquanto acumulavam cargos de poder nacionais como deputados ou senadores - algo actualmente proibido pela lei -, as zonas comerciais, tal como noutras cidades médias em França, foram saindo do centro da cidade e os comércios foram sofrendo. Uma tendência alimentada pelo esvaziamento da cidade, como constata Dominique Sistach. “A cidade foi esvaziada de lojas e habitantes. E, como sempre, quando uma cidade perde a sua diversidade social, tudo o que resta são os moradores mais pobres, aqueles com menos recursos para se locomover. E a cidade é visivelmente mais pobre hoje do que era em 2020. Por outro lado, esta cidade também precisa de uma identidade colectiva que seria algo ligado a uma maior actividade industrial, ao turismo, mas não há uma actividade dominante. Não há nenhuma atividade dominante. Assim, para aqueles que vivem aqui, além da pobreza que é consensual, não há nada de positivo para a dar à cidade. E acredito que esse seja um dos principais problemas do mandato de Aliot, mas também do mandato do anterior, Jean-Marc Pujol”, detalhou o académico. A RFI deslocou-se ao bairro de Saint-Jacques, um bairro muito próximo do centro da cidade, mas conhecido por albergar pessoas com dificuldades sociais e marcado pela insegurança. Os comerciantes preferiram não fazer quaisquer declarações gravadas, mas garantem que há décadas sentem uma diferença de tratamento por servirem comunidades maioritariamente magrebinas, lamentando a falta de policiamento, o desinteresse e a pouca presença das autoridades locais.  As desigualdades acentuam-se ainda mais consoante as origens da população, sendo uma cidade onde 13% da população não é francesa. Entre as principais origens está a Argélia e também Portugal. Para Hidad Ashraf, que veio da Bélgica e tem origens marroquinas e paquistanesas, a desigualdade da cidade chocou-o profundamente. “Na verdade, estas desigualdades doem porque não estamos à espera. Sei que quando cheguei a Perpihã, a primeira coisa que notei foi a enorme quantidade de diáspora que há na cidade. Temos todos os tipos de pessoas: espanhóis, ciganos, norte-africanos, todos os tipos de pessoas do continente africano, e foi surpreendente ver isso. Eu achava que seria uma cidade feita para, entre aspas, acolher os imigrantes. E, de facto, no final, deparei-me com muitas desigualdades, em termos de acesso à educação, não necessariamente para mim, mas noutros casos. Discriminaçõa em relação a outros colegas de curso também, ou  dos seus pais que tiveram de lidar com discriminação racial. Então, na verdade, tudo se resume a desigualdades. Então, são coisas com as quais temos que lidar todos os dias. E até mesmo nos discursos de alguns políticos de Perpignan, que, por exemplo, dizem que o povo de Perpignan não sofre discriminação. É extremamente violento dizer coisas desse tipo, quando nós mesmos que somos discriminados, não conseguimos entender isso. E generalizar essa frase deslegitima as desigualdades e as pessoas que são discriminadas”, disse o estudante. Para Dominique Sistach foi o quadro de empobrecimento e de desigualdade da cidade que permitiu a subida da União Nacional e a vitória de Louis Aliot nas eleições municipais de 2020. “Uma das chaves para entender a relação entre o extremismo de direita é o empobrecimento generalizado, ou seja, a União Nacional só pode estabelecer-se se o nível de pobreza for constante. Assim que o nível de riqueza se torna muito alto, a União Nacional torna-se um partido muito menos apelativo”, concluiu.

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  8. MAR 5

    Moçambique: A luta em prol do braille e da inclusão dos cegos e amblíopes

    As pessoas com deficiência visual enfrentam desafios no processo de aprendizagem e comunicação pela linguagem braille em Moçambique.  A constatação é do Presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Moçambique, (ACAMO) Domingos Neves para quem muito ainda precisa ser feito para que o seguimento populacional nesta condição se sinta incluída e não discriminada.  Nem sempre frequentar uma sala de aulas nestas condições em Moçambique , onde a interacção: o professor e o aluno estão em perfeita harmonia, diz em nome de muitos, Baptista Avelino de 27 anos que iniciou os estudos primários em 2009, graças ao suporte de um missionário brasileiro.  Eu puder começar a estudar foi graças ao suporte ou ao apoio de um pastor, missionário brasileiro chamado Elias. Então, comecei a estudar, em 2009 e tive logo a chance de passar para a primeira, no mesmo ano, e em 2010 também tive mais uma passagem automática isso já de segunda para a terceira classe então, foi mesmo um período de sucesso para mim. O desempenho e o esforço assume Baptista Avelino, factores que jogaram um papel decisivo para o alcance do sucesso escolar ao nível primário, secundário e universitário onde na frequência da licenciatura em filosofia na Universidade Eduardo mondlane recorreu aos livros electrónicos para a sua aprendizagem ainda assim , nada foi facil é que era igualmente difícil aceder a estes manuais adaptados à sua condição.  A própria leitura. há livros que eu não podia conseguir ler e por causa do formato, há livros que para eu ler de forma independente teria que deixar o livro, ler página por página até alcançar aquela informação que eu quisesse. então são esses desafios mas mesmo assim, fiz esforço , foi um momento marcante , foi a partir daqui, da filosofia mesmo que consegui sair para estudar na Polónia, em uma mobilidade e, foi a partir desse curso que depois comecei a estagiar no WFP, PMA (PAM) nesse caso, foi interessante o estágio então, valeu a pena. O braille para mim é bastante importante, bastante interessante porque ele permite o individuo ter contacto com as letras.  As massificação do braille para as pessoas cegas e com baixa visão é uma necessidade urgente mas muitas vezes ignorada diz o  presidente da Associacao dos cegos e amblíopes de Moçambique, Domingos Neves, por aqueles que tem o dever de prover.   O braille não é só para as pessoas com deficiência visual. Aliós como se chama em Mocambique, o braille tem sido dado nos institutos de formação dos professores, isto é para permitir exactamente que os professores formados possam também quando forem encontrar crianças com deficiência  visual nas suas escolas possam exactamente atender para que nao haja estigma , para que nao haja discriminação. O braille é para todos, o braille não é só para as pessoas com deficiência visual. As necessidade no campo do ensino e aprendizagem diz Domingos Neves são imensas a começar pela insuficiência de material didáctico.    Estou a falar dos computadores em formato de aúdio NVDA, estou a falar também das pautas com sons , máquinas braille  ou Perkins , dos orbites readers entre outros. Veja que este tipo de meios , este tipo de materiais não estão disponíveis no país. Sempre que alguém de boa vontade, um doador queira nos ajudar recorremos ao mercado internacional este que é o grande problema.  Um problema que agrava ainda mais a situação é o fim do contrato ocorrido a 31 de dezembro do ano passado entre as associações dos cegos e amblíopes de Mocambique e da Noruega.  Esta associação ajudou a ACAMO desde 1995 data em que a ACAMO foi criada até este momento . Ajudou-nos bastante, fizemos muitas coisas , refiro-me exactamente a promoção dos direitos da pessoa com deficiência neste país e, tudo o que tem principio tem fim , e o contrato termina e, neste momento estamos sem doador, sem financiador, significa que tanta coisa que vai ficar sem a materialização, sem a concretização e, não teremos fundos para lutarmos para defendermos, para protegermos e para promovermos os direitos da pessoa com deficiência visual em Moçambique. Dificuldades acrescidas se esperam mas, diz Rafael José - formador de 27 anos e a três anos afecto ao Instituto de formação de professores de Chibata que pretende dar o seu contributo para que as pessoas com deficiência visual transponham a barreira na comunicação escrita.  E com muito prazer eu tenho aqui essa honra posso assim dizer de formar futuros professores com a ferramenta do braille lá inclusiva para poder servir as crianças que precisam da inclusão , as crianças com deficiência , talvez algumas que procuram por estes serviços mas também outras que se encontram talvez presas nos seus próprios destinos , presas nos seus próprios sonhos por não acreditar que podem estudar mesmo com a deficiência. E, falando do meu sonho , eu como pessoa também como formador , o meu maior sonho é ver Moçambique e o mundo mais inclusivo daquilo que ele é hoje. Estou a dizer que o acesso às oportunidades de emprego e em outras áreas da vida que seja acessível e que não olhem para a deficiência visual de forma concreta como impedimento nem para que a criança e o jovem adolescente possa sorrir e ser feliz com a vida. Então, eu auguro e almejo um Moçambique cada vez mais inclusivo.  O espírito de entre ajuda ganha cada vez mais intervenientes na sociedade moçambicana o que move o sonho de Baptista Avelino abrir uma escola de Braille, ainda no segredo dos deuses.   Futuramente gostaria de ajudar as pessoas com deficiência assim como sem deficiência com a escola do Braille. A escola do Braille ele é um outro sonho , esse sim , já é um projecto digamos assim, já está no papel já está a caminhar, já estou a procura de financiamentos para poder colocar esse sonho a funcionar porque eu gostaria que o braille fosse visto como uma caneta.  Todos para que possam ter a oportunidade de aprender . Eu acho que a inclusão só será possível quando todos nós, quer os indivíduos, toda a sociedade melhor dizendo tenha conhecimento da própria inclusão. Se toda ela tiver por exemplo conhecimento do braille isso vai ser muito importante para ajudar a pessoa com deficiência por exemplo que estiver nas zonas recônditas para que ele possa ter conhecimento do braille e , possa ingressar no ensino primário. Exemplo, mesmo os que perderem a visão para que não seja necessário sempre que o individuo possa ir para instituições longas, que estão a longa distancia aprender para se tornar alguma coisa. Eu acho que o estudo é bastante importante , ele possibilita ao individuo alcançar uma dignidade. O dia mundial do Braille assinala -se a 4 de janeiro de cada ano e, em Mocambique a Associação dos cegos e ambliopes de Mocambique, Acamo, com 21 mil membros inscritos recorda que são objectivos da agremiação a defesa e proteção dos direitos da pessoa com deficiência visual no país.

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