Em São Tomé e Príncipe, mais de 142 mil eleitores são chamados às urnas, este domingo, 19 de Julho, para escolher o próximo Presidente da República. Há quatro candidatos a concorrer ao escrutínio: Carlos Vila Nova (recandidato ao cargo) e ainda Eugénio Tiny, Nito D'Abreu e Miques João. A RFI fez um balanço da campanha eleitoral em São Tomé e Príncipe com o analista político são-tomense, Abílio Neto, radicado em Portugal, a quem começámos por perguntar qual dos candidatos chega ao fim da campanha eleitoral em melhor posição e porquê. RFI: Qual dos candidatos chega ao fim da campanha em melhor posição e porquê? Abílio Neto: Essa é uma pergunta muito complicada porque tem duas respostas. A primeira resposta é que, relativamente a quem poderá vir a ser o vencedor, eu tenho dúvidas de que possam existir certezas nessa altura. É evidente que o incumbente parte sempre como favorito. Entretanto, nós sabemos também que, de uma forma global, na política, hoje, os incumbentes, por via do desgaste, por via de uma série de situações específicas do momento que nós vivemos, os incumbentes têm estado a perder sucessivamente eleições. Não sei se São Tomé e Príncipe confirmará essa tendência global, mas desconfio profundamente que sim, que possa também fazer parte dessa tendência global. Mas também existe aqui uma outra situação, que é uma situação específica de São Tomé e Príncipe. Neste momento, vemos, mais do que nunca, uma espécie de polarização geral e generalizada, que deixa em aberto o resultado final. Portanto, entre os dois grandes favoritos, Miques João e o actual Presidente Vilanova, um deles vencerá as eleições. Eu não tenho a certeza de que existam, nesta altura, dados que nos possam indicar, com certeza e com rigor, os favoritos inquestionáveis. Agora, há aqui uma outra questão, que é saber quem pode vencer as eleições não ganhando as eleições. RFI: Há algum que se destaca nesse sentido? Abílio Neto: Há, sim senhora. Eu acho que o advogado Miques João, personagem um pouco complicada e complexa no nosso ambiente político, demasiado activista, demasiado interventor, demasiado polémico, demasiado, diria eu, até ziguezagueante, mas que, neste final de campanha, tem dado notas de alguma ponderação, de alguma compreensão do sistema e até de alguma moderação no discurso. Isso parece-me que é uma boa notícia porque começava-se a cair numa espécie de descrédito generalizado, em que se olhava para as candidaturas praticamente como uma espécie de acto de voluntarismo pessoal e individual, sem que houvesse substância que sustentasse esse ímpeto para se ser candidato. Agora começamos a perceber que todos eles, todos os quatro, têm qualidades para poderem ser presidentes de São Tomé e Príncipe, alguns com mais qualidades, outros com menos. RFI: Considera que durante a campanha foi dada mais visibilidade a Carlos Vila Nova do que a outros candidatos? Pergunto-lhe que hipóteses tiveram os outros candidatos para também se fazerem ouvir e falar com os eleitores? Abílio Neto: Em termos institucionais, o que tem que ver com o previsto na legislação eleitoral e também na Constituição de São Tomé e Príncipe, há uma certa ideia de igualdade de oportunidades políticas para todos os candidatos ou para todas as candidaturas. Isso parece que está mais ou menos a cumprir-se. Toda a gente tem acesso à comunicação social pública. Houve um debate entre os quatro. Houve entrevistas individualizadas com os candidatos na televisão de São Tomé e Príncipe. Houve, e tem estado a haver também na RTP África, entrevistas curtas, mas muito interessantes, com os quatro candidatos. A esse nível, não há grande questão. O problema está no financiamento das campanhas. Há, de facto, duas campanhas que se destacam, destacando-se ainda mais a campanha do actual Presidente da República. Eu acho que está a ser exagerada toda a capacidade financeira que tem para fazer campanha. Isso até começa a ser asfixiante para os próprios são-tomenses, que não querem e já nem sequer têm paciência para ver tanta ostentação de capacidade financeira por parte de uns candidatos, relativamente a outros candidatos. Em segundo, também vem o Nito Viegas d'Abreu, que é um candidato que vem de uma parte considerável da ADI, apoiado pelo Patrice Trovoada, o seu líder, que também mostra pujança financeira, comparando naturalmente com os outros dois candidatos, que têm muito menos recursos para o efeito. RFI: Na sua opinião, qual foi o tema que mais marcou a campanha? Temos conseguido falar com várias pessoas que se mostram revoltadas com a falta de combustível, a inflação, os apagões recorrentes, o mau estado das estradas. Para si, qual foi o tema mais marcante desta campanha? Abílio Neto: Bem, há aqui duas situações. A primeira, de uma forma geral, a campanha foi pouco rica do ponto de vista dos conteúdos políticos que definissem com clareza o que pensam os candidatos sobre uma série de assuntos que são assuntos de competência presidencial. Está na nossa Constituição as competências do Presidente da República num semi-presidencialismo de pendor parlamentar, como é o nosso, e gostaria de ouvir os candidatos a serem muito mais claros numa série de situações, que são situações limite e constam da nossa Constituição e que levantam e têm levantado muitos problemas. Sobretudo porque eu acho que é assim, e tem sido essa a nossa história democrática, tendo a Presidência um pouco como o foco da instabilidade política e governativa no país. Mais a Presidência do que o Parlamento e até do próprio Executivo. Sendo assim, sendo a Presidência o foco das crises políticas no país, o foco principal, eu gostaria de ouvir muito mais coisas dos candidatos sobre como eliminar esse foco. É evidente que existe essa coisa em São Tomé e Príncipe de não se conseguir distinguir a Presidência do Presidente, o que torna naturalmente o exercício do cargo muito mais personalizado e individualizado do que propriamente institucional. E daí a crise profunda da nossa democracia a partir da Presidência. Bem, isso é um caso. É o meu olhar. Agora, a questão é outra. O Presidente Vila Nova, que é o incumbente, fez um exercício terrível de recuo no nosso ambiente institucional e, sobretudo, no Constitucional. Ele demitiu um governo e promoveu um governo de iniciativa presidencial. Isso não existe na nossa Constituição, não existe na nossa legislação e nem sequer existe na lógica da ciência política que sustenta a nossa Constituição. RFI: Esse episódio de que está a falar gerou uma forte disputa política no país. Será que, depois desse período conturbado, estas eleições poderão representar um momento de estabilização, na sua opinião? Abílio Neto: Pode ser, e era aqui que eu queria chegar quando chamei esse momento, que foi um momento importantíssimo, na minha perspetiva porque é o momento em que o Presidente, ao contrário daquilo que o semi-presidencialismo aconselha, o Presidente junta-se ao executivo porque o executivo é um executivo dele. Foi ele que, para lá da Constituição e para lá daquilo que a Constituição lhe diz para fazer, ele cria um governo que é um governo seu. Portanto, aqui está o segundo ponto: se o governo não consegue ser performante, o Presidente é o principal responsável por aquilo que acontece no executivo. Não há outra forma de olhar. E é assim que a cidadania, que o povo, está a olhar para estas eleições e a olhar para o incumbente. Está também a avaliar o governo de iniciativa presidencial que ele propôs e impôs ao país. E o que é que esse governo tem de relevante? Tem de relevante que ele é muito impopular, e é muito impopular exactamente pelo quadro económico e social que a Stefanie Palma acabou de contextualizar e que é o real... A crise energética, a crise de acesso à água, uma série de crises que afectam o quotidiano da vida das pessoas e, naturalmente, também o encarecimento geral do poder de compra. Isso é evidente para todos. Portanto, quando as pessoas olham para o atraso no pagamento dos ordenados, etc., etc., e das reformas, enfim, uma série de problemas que o governo teve, que não tem necessariamente que ser responsabilidade do governo, podem ser responsabilidades até importadas e algumas delas efectivamente são importadas pela circunstância internacional que nós conhecemos. Mas muitas delas têm a ver com a atitude do governo e essa ligação intrínseca entre o Presidente e o actual governo. Qualquer são-tomense que vive no país ou fora do país e que olhe para a nossa política percebe exactamente isso que eu acabei de dizer aqui. RFI: Há muitas questões, de facto, em aberto. Pergunto-lhe agora até que ponto é que estas eleições presidenciais podem e vão influenciar as legislativas marcadas para o próximo mês de Setembro? Abílio Neto: Vão influenciar muito e, na minha perspectiva, vão influenciar muito porque todo o quadro político-partidário está fraccionado, está debilitado. Os partidos tradicionais estão todos eles a viver à base de conflictualidade intensa entre facções. O que é que isso quer dizer? Quer dizer que existe aqui uma possibilidade, uma abertura para serem partidos regeneradores, partidos que não tenham ligação ao sistema, que não têm ligação a agentes do sistema, que tenham toda uma linguagem e todo um discurso que ultrapasse, diria eu, os vícios do sistema. Para mim, essa é que é a perspectiva interessante: tentar perceber se, na sociedade civil são-tomense, se a cidadania são-tomense está capaz de propor alternativas, muito mais do que olhar para o quadro tradicional dos partidos políticos, onde não se vê que venha nada de novo nem nada de especialmente interessante.