Convidado

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

  1. 2h ago

    Venezuela: “Enquanto continuarem as buscas, acreditamos que é possível encontrar pessoas com vida”

    Uma semana depois do duplo sismo que abalou a Venezuela, socorristas de todo o mundo tentam ajudar o país a enfrentar a emergência provocada pelos terramotos. Oficialmente, mais de 1.700 pessoas morreram, mais de 5.000 ficaram feridas e cerca de 50 mil continuam desaparecidas. A NASA estima que cerca de 58.870 edifícios tenham sido danificados ou destruídos em toda a zona afectada, com base em imagens de satélite. No estado de La Guaira, no norte do país e o mais duramente atingido pela catástrofe, “a escassez de alimentos é generalizada, os serviços básicos colapsaram e as comunicações encontram-se, em grande parte, interrompidas. As tensões entre as comunidades estão a aumentar, enquanto o acesso à ajuda continua limitado”, alertou esta terça-feira, 30 de Junho, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). "Quase todo o estado de La Guaira ficou destruído. Há centenas de edifícios, casas, negócios e espaços públicos afectados. É uma verdadeira tragédia", afirmou Marcos Ramos Jardim, jornalista luso-venezuelano. A dimensão da destruição levou à mobilização de dezenas de países. Segundo as Nações Unidas, 27 países já enviaram mais de 40 equipas de socorro para o terreno, num total superior a dois mil operacionais e mais de 160 cães de busca e salvamento. Portugal enviou uma missão humanitária composta por elementos dos bombeiros, Protecção Civil e GNR, que se encontram a colaborar nas operações de resgate e assistência às populações afectadas. A tragédia atingiu particularmente a numerosa comunidade portuguesa residente em La Guaira, onde vivem milhares de emigrantes e luso-descendentes. Carlos Pestana, dirigente associativo luso-venezuelano, descreve um cenário dramático: "Em La Guaira viviam muitos portugueses. Há famílias inteiras que perderam as suas casas, os seus negócios e, em alguns casos, familiares próximos. A maioria ficou sem habitação. É uma catástrofe". Um dos espaços afectados é o Centro Luso Venezuelano de La Guaira. Freddy Quintal relatou danos estruturais significativos e várias vítimas mortais entre os sócios: "O clube sofreu bastantes danos na estrutura do salão, muitas fendas. Na parte de cima, tínhamos as duas salas onde eram leccionados os cursos de português, isso tudo desabou, as televisões, as carteiras, o videoprojector... tudo isso caiu. Mais de 20 sócios morreram. Estou à procura do meu sobrinho, cuja mãe também morreu. Não o encontramos em lado nenhum.” Carlos Pestana, membro da associação “Os parceiros da Nau sem Rumo” testemunhou momentos de enorme aflição durante os sismos: "Abracei a minha esposa e gritámos. Pensámos que era o nosso fim. Foi algo muito forte. Depois veio outro problema: durante horas não conseguimos contactar familiares nem amigos. Foi terrível". Apesar das dificuldades, destaca a mobilização da comunidade portuguesa, do consulado e da embaixada de Portugal. "A comunidade portuguesa está a fazer tudo o que pode para ajudar. Existem vários centros de recolha de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. Estamos a apoiar-nos uns aos outros". Marcos Ramos Jardim refere igualmente que instituições portuguesas, incluindo o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, a Missão Católica Portuguesa e várias associações luso-venezuelanas, têm servido de pontos de apoio para os afectados. Enquanto as equipas de resgate continuam a procurar sobreviventes, cresce também a contestação à resposta das autoridades venezuelanas. Muitos habitantes denunciam a lentidão das operações de socorro, sobretudo em localidades mais afastadas de Caracas e La Guaira, onde durante horas os próprios moradores foram obrigados a procurar vítimas entre os escombros apenas com as mãos. "A população está dividida entre a esperança de encontrar mais sobreviventes e a incerteza sobre o destino de milhares de desaparecidos", explica Marcos Ramos Jardim. "Mas a solidariedade do povo venezuelano tem sido extraordinária. Estudantes, empresários, igrejas e associações estão a unir-se para ajudar quem mais precisa." A situação agravou-se ainda mais com uma réplica de magnitude 4,6 registada na segunda-feira, que voltou a provocar momentos de pânico entre os sobreviventes. Apesar da devastação, a esperança mantém-se viva entre as famílias que continuam à espera de notícias dos seus entes queridos. "Tenho amigos de quem ainda não sei nada", afirma Carlos Pestana. "Mas a esperança é a última coisa que se perde. Enquanto continuarem as buscas, acreditamos que ainda será possível encontrar pessoas com vida."

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  2. 1d ago

    Onda de calor em França: "O governo não vai poder mudar as coisas tão rapidamente"

    Depois de quase quinze dias de forte onda de calor pela Europa e nomeadamente aqui em França que conheceu o segundo episódio deste tipo desde Maio, o governo faz um primeiro balanço da gestão desta crise, numa reunião interministerial nesta segunda-feira. De acordo com dados provisórios da Agência de Saúde Pública francesa, foram registados cerca de mil mortos suplementares comparativamente à média registada no mesmo período em anos anteriores. Ao longo destes dias, foram numerosas as unidades de saúde a encontrar dificuldades perante o afluxo massivo de utentes com problemas provocados ou agravados por temperaturas que rondaram ou ultrapassaram os 40 graus. Perante esta crise que reaviva a lembrança ainda muito presente dos mais de 10 mil mortos da onda de calor de Agosto de 2003 aqui em França, o governo tem sido acusado pela oposição de não ter sido suficientemente proactivo no domínio da saúde, com um investimento nesse sector a diminuir de ano para ano. Foi neste contexto que Paulo da Silva Moreira, médico e antigo eleito local na região da Yonne, a sul de Paris, fez um primeiro balanço destes últimos dias. RFI: Qual é o primeiro balanço que faz da gestão desta crise? Paulo da Silva Moreira: Durante estes últimos dias, o Estado ainda não contabilizou completamente as pessoas que faleceram, porque há sempre um tempo entre o momento em que as declarações são feitas e em que elas são analisadas. Mas pode-se dizer que por já houve mortos, Não houve tantos mortos como nas anteriores fases de calor. O que foi feito ao nível da saúde foi anular tudo o que era concertos, exposições, manifestações de rua, e também prevenir a população, o que aconteceu efectivamente desde o princípio, com 'spots' na televisão e no rádio, informando as pessoas sobre as boas práticas com ondas de calor. Estamos informados que vai repetir-se três ou quatro vezes no ano com a mudança do tempo. Temos que repetir essas medidas cada vez. Vai haver sempre mortes, porque essa fase é sempre difícil para pessoas que estão em fases de doenças crónicas mal estabilizadas. Mas também os jovens não têm cuidado. Por exemplo, as pessoas que vão mergulhar numa água fria e vão ter uma paragem cardíaca, pessoas que ficam muito tempo ou que vão correr ao sol ou andar de bicicleta. Há sempre pessoas que falecem. RFI: Há já alguns dados que começam a sair. Em termos oficiais e em termos provisórios, calcula-se que houve pelo menos mais 1000 mortos do que no mesmo período no ano passado. Há quem considere que estas mortes eram evitáveis. Paulo da Silva Moreira: Quando se conta as pessoas que morreram, na realidade, quando se vê que são pessoas que são frágeis, que têm doenças crónicas, instáveis, a probabilidade de terem morrido nos meses seguintes é forte. O que conta é ver quem é que morreu. Pessoas que estavam em estabelecimentos, isso reduziu muito, porque os estabelecimentos que fazem acolhimento de pessoas idosas estão preparados para essas situações. As câmaras têm todas uma "lista branca", que é uma lista das pessoas que estão sozinhas e que não têm ajuda, ou que vão ter falta de água ou estimulação, para que alguém se ocupe delas, e também, claro, as crianças, as pessoas que estão a trabalhar nas obras e trabalhar nos campos e estão todas informadas com essas situações. O mais importante é não só dizer '1000 mortos', é preciso ver o que é que vai acontecer nos 15 dias que se seguem. Talvez os números de mortos fiquem abaixo da média habitual. RFI: O governo tem sido alvo de ataques por parte da oposição relativamente a tudo o que tem a ver com a activação de planos para efectivamente fazer frente a esta situação. Pensa que estas críticas são injustas? Paulo da Silva Moreira: Penso que são manobras políticas e que estes ataques são injustos porque os meios de combater os efeitos da onda de calor existem. Eles são postos em movimento quando são precisos. Mas infelizmente, há sempre manobras políticas para recuperar essas situações. Vai sempre morrer pessoas não devem morrer, milhares e milhares e milhares, mas vão sempre morrer pessoas com problemas crónicas, da mesma forma que pessoas que morrem no fim do período do inverno. Às vezes há períodos do ano em que há pessoas que morrem mais do que outros. Portanto, são fases que temos que aceitar. As ondas de calor agora são muito focalizadas, são muito contabilizadas. Agora, acusar o governo de que pessoas mais uma vez com doenças crónicas tenham falecido agora, em vez de falecerem daqui a dois ou três ou seis meses, É preciso ser justo. RFI: Ao fim de quase duas semanas de onda de calor em França, o Primeiro-ministro anunciou encomendar alguns dispositivos de climatização para os hospitais. Julga que isto não foi uma medida um pouco tardia, que isto podia ter sido antecipado? Paulo da Silva Moreira: É preciso saber que nem no meu estabelecimento é equipado de sistemas de refrigeração, porque não era o clima que nós tínhamos antes. Essas medidas que foram anunciadas, claro que são insuficientes e é preciso equipar todos os hospitais franceses, porque o problema existe em todos os estabelecimentos, por toda a França. RFI: Qual é a situação neste momento dos hospitais perante esta onda de calor e os efeitos que tem sobre a saúde das pessoas que vão parar às urgências à conta desta situação? Paulo da Silva Moreira: É complicado, as urgências, porque já há sempre muita gente que vem nesse período, sem falar da temperatura do ar no hospital ou nas urgências. É preciso hidratá-las. É preciso fazer uma selecção do que é urgente e não é urgente. É preciso examiná-las, é preciso instalá-las em qualquer sítio. O problema é não ter lugar, nem ter instalações próprias para poder receber tanta gente. De repente, é evidente que todas as pessoas que têm doenças crónicas, estão mais inquietas e vão consultar mais facilmente, porque todos os anúncios do Estado dizem 'se tiver vertigens, dores, alucinações, cansaço anormal, inchaço de pernas, vá às urgências'. E o problema também não é só a temperatura. Têm que se manter num sistema sem refrigeração. Estas pessoas todas podem passar seis, sete ou oito horas sem ser tratadas, por exemplo. E também há o problema dos serviços de reanimação com aparelhos eléctricos que produzem imenso calor. Portanto, as temperaturas chegam a estar relativamente altas nesses serviços. E o problema é sempre de refrescar o ar. E não é o mais fácil de fazer, porque muitas vezes os hospitais têm arquitecturas modernas. Pensa-se mais no frio, e não no calor, na arquitectura dos hospitais em França. RFI: Há gente suficiente nos hospitais em França para fazer frente a esta situação? Paulo da Silva Moreira: Não há gente suficiente. Quando há situações assim, em que há um monte de gente que chega às urgências, há falta de gente nas urgências, não há capacidade de recolher tanta gente. É o efeito dos anúncios que alertam e que enviam as pessoas às urgências. Tem um efeito preventivo, mas também tem um efeito assustador. E há muita gente que vem às urgências e que não são necessárias de lá irem porque, por exemplo, o inchaço das pernas, tem as pernas um pouco inchadas, mas têm a impressão que o inchaço é importante. Estão cansados, mas não estão assim tão cansados. Podem respirar correctamente e têm a impressão que não podem. Há sempre também muita gente que está em pânico e que vai às urgências com medo. RFI: Apesar da forte onda de calor e apesar de, por exemplo, ter havido eventos que foram cancelados por causa da onda de calor, houve uma série de outras actividades que foram mantidas, por exemplo, exames escolares. Nestes últimos dias, o ministro do Trabalho disse que 'o país não pode parar quando se chega aos 30 graus'. Como é que se pode conciliar o imperativo de proteger a saúde dos cidadãos e, ao mesmo tempo, continuar a actividade? Paulo da Silva Moreira: Acho que há uma diferença entre passar um exame numa sala de exames, num estabelecimento, seja num liceu ou colégio, e um sistema de saúde que recolhe pessoas doentes ou frágeis, fisicamente ou mentalmente. Eu acho que temos também de estar a par do sistema económico e não se pode parar completamente de viver assim que há uma onda de calor. Tem que se continuar a passar exames, tem que se continuar a ir à escola. Talvez modificar os horários, como se faz nos países quentes. Mas não se pode parar. Efectivamente, não é a solução. RFI: O governo reúne hoje a sua célula de crise para fazer um balanço destes últimos dias e, eventualmente, antecipar, já que se prevêem altas temperaturas novamente já a partir da próxima semana. O que é que espera do governo enquanto médico? Paulo da Silva Moreira: O governo vai fazer anúncios como sempre. Vai ser também ocasião de se mostrar e dizer que está a ocupar-se do assunto, mas não vai mudar nada entre hoje e a semana que vai vir. O governo não vai poder mudar as coisas tão facilmente e tão rapidamente. Mas bom, é importante que o governo mostre que toma consciência do problema e que está a tentar a melhorar a situação. RFI: Não espera, por exemplo, que haja um maior investimento na qualidade dos hospitais ou, eventualmente, no equipamento, ou eventualmente reforço em termos de pessoal nos hospitais? Paulo da Silva Moreira: Por já, quanto ao pessoal nos hospitais, é preciso encontrar pessoal para trabalhar nos hospitais. E quando se vê a importância das obras que são necessárias nos hospitais para modificar os sistemas, é um custo e é uma organização muito complicada. Portanto, é preciso ser realista. Não sei quando é que vai acontecer.

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  3. 1d ago

    Oito milhões de pessoas vivem com falciforme, uma doença que continua invisível

    Cerca de oito milhões de pessoas vivem com doença falciforme, uma das doenças genéticas mais frequentes do mundo. Apesar dos avanços no diagnóstico e nos tratamentos, continua a ser pouco conhecida e muitas vezes identificada tarde, sobretudo em África, onde é mais prevalente. Uma semana depois do Dia Mundial da Doença Falciforme, que se assinala no dia 19 de Junho, especialistas e famílias insistem que o desafio não é apenas médico: é também social, económico e político. A doença falciforme é uma das patologias genéticas mais frequentes no mundo, mas continua longe de receber a atenção proporcional ao número de pessoas que afecta. Estima-se que cerca de oito milhões de pessoas vivam com esta doença hereditária, marcada por crises de dor intensa, anemia crónica, infecções frequentes e complicações que podem atingir vários órgãos. A recente evocação do Dia Mundial da Doença Falciforme voltou a expor uma contradição persistente: a medicina avançou, mas milhões de doentes continuam sem diagnóstico precoce, sem tratamento regular e sem acompanhamento especializado. A realidade é particularmente dura em vários países africanos, onde a doença é mais prevalente e onde os sistemas de saúde continuam a enfrentar limitações. A doença resulta de uma alteração genética da hemoglobina, proteína dos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigénio. Quando uma criança herda essa alteração de ambos os progenitores, os glóbulos vermelhos deixam de ter a forma arredondada habitual e tornam-se rígidos, frágeis e semelhantes a uma foice. Esta deformação dificulta a circulação sanguínea e pode provocar crises dolorosas, anemia e lesões progressivas em órgãos vitais. Celdidy Monteiro, profissional de saúde são-tomense e mãe de uma menina de sete anos que vive com a doença, resume o problema de forma directa: "É uma doença que se transmite dos pais para os filhos. Esta alteração faz com que os glóbulos vermelhos não tenham a forma normal e, em determinadas situações, pode causar problemas a nível da circulação, dores intensas, anemia e complicações em vários órgãos." Apesar da dimensão do problema, a doença permanece largamente invisível. Para Celdidy Monteiro, essa invisibilidade não é neutra. "Apesar de cerca de oito milhões de pessoas no mundo terem esta doença, ela continua desconhecida, principalmente porque atinge sobretudo a população de origem africana e durante muito tempo não teve a mesma atenção", afirma. A falta de informação continua a atrasar diagnósticos e a alimentar preconceitos. Muitos doentes chegam tarde aos serviços de saúde ou vivem anos sem uma explicação clara para as crises repetidas, a fadiga, as infecções ou as dores incapacitantes. "Ainda existe muita falta de informação sobre a doença, o que contribui para que o diagnóstico seja tardio e que também existam preconceitos", sublinha a profissional de saúde. A dor é o sintoma mais conhecido, mas não é o único. As crises podem ser desencadeadas por infecções, alterações emocionais ou mudanças bruscas de temperatura, e surgem frequentemente de forma imprevisível. "Podemos acordar bem dispostos e, por causa de uma alteração emocional ou de uma mudança brusca de temperatura, desencadear uma crise", explica Celdidy Monteiro. As complicações menos conhecidas são muitas vezes as mais graves. A doença pode provocar acidentes vasculares cerebrais, síndrome torácica aguda, lesões renais, pulmonares ou cardíacas e situações fatais. "Fala-se muito das crises de dor porque é o sintoma principal, mas todos os órgãos podem ser afectados", alerta. Em alguns casos, acrescenta, as complicações "podem mesmo levar à morte". Nos últimos anos, registaram-se progressos; há hoje testes rápidos que permitem diagnosticar a doença em contextos com poucos recursos laboratoriais, programas de rastreio neonatal em alguns países e medicamentos capazes de reduzir as crises e melhorar a qualidade de vida. "Felizmente, ao longo dos últimos anos, temos registado progressos significativos", reconhece Celdidy Monteiro, lembrando que "há evidências de que, se fizermos o diagnóstico precoce, estes doentes poderão ter melhor qualidade de vida". Entre os tratamentos disponíveis, a hidroxiureia tem desempenhado um papel central na redução das crises dolorosas e de algumas complicações. Em casos específicos, o transplante de medula óssea pode representar uma possibilidade terapêutica. Mais recentemente, a investigação em terapia genética abriu novas perspectivas. Para Celdidy Monteiro, trata-se de "uma luz", mas ainda distante da realidade da maioria dos doentes. O problema, insiste, é que muitos países continuam sem garantir o básico. "Nós temos problemas de base nos nossos países, que são o acesso ao diagnóstico e ao tratamento", afirma. A inovação científica, por si só, não basta se os sistemas de saúde não conseguirem assegurar rastreio, medicação, acompanhamento especializado e apoio às famílias. A desigualdade é visível nos países africanos de língua portuguesa. Em São Tomé e Príncipe, a doença é conhecida e já existem melhorias no diagnóstico, mas o tratamento continua limitado. "A hidroxiureia não é uma realidade para todos os pacientes", lamenta. A situação repete-se noutros países da CPLP. Segundo a profissional de saúde, Angola e Guiné-Bissau enfrentam dificuldades semelhantes, com acesso desigual ao diagnóstico e à terapêutica. "Os pacientes nos nossos países não têm igual acesso tanto ao diagnóstico como ao tratamento", afirma. Entre os países de língua portuguesa, apenas Portugal e Brasil têm rastreio neonatal implementado, e só o Brasil realiza transplante de medula óssea para estes doentes. Em contextos onde coexistem outras doenças frequentes, como a malária, a ausência de diagnóstico pode ser fatal. Celdidy Monteiro lembra que, em muitos casos, crianças e adultos morrem sem nunca saberem que tinham doença falciforme. "Muitas vezes esses doentes acabam por falecer antes de terem o diagnóstico. Muitas vezes o diagnóstico é malária, mas está lá mascarada a anemia falciforme porque ela não é diagnosticada." A doença afecta também a vida escolar, profissional dos doentes. As crises podem afastar crianças da escola, limitar a vida laboral dos adultos e impor às famílias uma vigilância permanente. O acompanhamento psicológico, a aceitação social e a inclusão escolar são, por isso, parte essencial da resposta. "São desafios constantes que os familiares enfrentam a nível do tratamento, do diagnóstico, do acompanhamento psicológico, da aceitação na escola e do impacto na vida escolar e no trabalho", resume. Para Celdidy Monteiro, a prioridade deve ser aumentar a literacia sobre a doença. Não apenas junto das famílias, mas também entre profissionais de saúde. "Devemos aumentar a literacia da doença, não só para a população, mas também para alguns profissionais de saúde", defende. Uma semana depois das mensagens associadas ao Dia Mundial da Doença Falciforme, o apelo mantém-se: transformar uma data simbólica em políticas concretas. Rastreio neonatal, acesso gratuito ou comparticipado aos medicamentos, formação dos profissionais, acompanhamento especializado e investigação são algumas das respostas apontadas por especialistas e famílias.

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  4. 4d ago

    Mondlane confirma candidatura em 2029 e acusa Chapo de erguer a "muralha do diálogo"

    Venâncio Mondlane acaba de ser eleito presidente da Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo, Anamola, por unanimidade dos delegados presentes no momento da votação na primeira Convenção Nacional do partido que foi realizado em Nampula, no norte de Moçambique. Em entrevista à RFI, Venâncio Mondlane afirmou que o Anamola pretende tornar-se, até 2029, "o maior partido político da história democrática de Moçambique" e defendeu, ainda, a criação de uma "Escola Anamola" para formar quadros nas áreas da governação e das novas tecnologias. Questionado sobre o processo de diálogo nacional inclusivo e a gestão do Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, o líder do Anamola acusa-o de promover a exclusão política e de ignorar denúncias de violência contra membros do Anamola. Mondlane confirmou, ainda, que pretende candidatar-se às eleições presidenciais de 2029. RFI: Esta eleição à presidência do Anamola era previsível. Era o único candidato à presidência do partido que fundou em Agosto do ano passado e que presidia interinamente. Portanto, não foi uma surpresa para si. Venâncio Mondlane: É verdade que era a única candidatura, mas havia sempre duas possibilidades: a de votar em branco ou votar na única candidatura disponível. E aí podiam acontecer duas hipóteses: ou ser eleito ou não ser eleito. Fui o único candidato exactamente porque durante o período da submissão de candidaturas não houve uma manifestação de candidaturas alternativas, mas claramente nós tínhamos um regulamento que permitia que qualquer membro do partido, independentemente do escalão que se encontrasse, podia concorrer livremente, porque não haviam termos de referência draconianos que criassem qualquer espécie de impedimento. E quais são as linhas estratégicas do Anamola? Primeiro, queremos, até 2029, ser o maior partido político de toda a história democrática de Moçambique. Segundo, queremos continuar - porque já o fazemos - a liderar a propositura de políticas públicas para o país. Três, queremos continuar a liderar também as iniciativas legislativas, isto é, propostas submetidas para o Poder Legislativo que já lideramos neste momento. Quatro, queremos continuar a ser o partido mais moderno, mais tecnológico e inovativo do país. Cinco, neste momento, há uma nova configuração política em Moçambique e o único partido verdadeiramente de massas de Moçambique é o Anamola. E nós queremos continuar a ocupar esse espaço. Por último, em termos daquilo que é o nosso projecto para Moçambique, queremos fazer a correcção de um erro histórico de 50 anos, que é tornar Moçambique um país verdadeiramente democrático, um Estado que promove as liberdades e o respeito pelos direitos humanos. E queremos também aquilo que se chama de ‘rule of law’. Quer dizer, queremos uma economia baseada essencialmente num Estado de direito democrático que permita a livre concorrência, a liberdade dos empresários e permita também a redução da carga de impostos e de taxas. A carga fiscal, que é draconiana, está a O país prepara-se para eleições autárquicas em 2028 e eleições gerais em 2029. Quais são os planos do Anamola para as autárquicas? Há alguma hipótese do partido ser eleito? Hipóteses bastante grandes e muito substanciais. Curiosamente, durante algum tempo, fomos cognominados como um partido do Facebook, das redes sociais. Mas nos últimos meses essa tese caiu por terra. Já ninguém a defende. Portanto, nós estamos implantados em todo o território nacional e não só nas zonas urbanas e suburbanas, mas até nas zonas rurais. Nós temos uma implantação muito forte. Isso significa o quê? Significa que estamos disponíveis a concorrer em todas as autarquias. Portanto, nós temos agora, mais ou menos, 65 autarquias em Moçambique e vamos concorrer em todas. Neste momento, a nossa crença, por aquilo que tem sido a retroalimentação que vem das bases, temos condições de ganhar a maior parte das autarquias em Moçambique. No seu primeiro discurso após a eleição à liderança de Anamola disse: "Uma vitória eleitoral é fácil. A coisa mais importante é preparar-nos tecnicamente, psicologicamente e emocionalmente para podermos fazer a transformação do que o país precisa”. Na prática, o que é que isto quer dizer? Quer dizer que nós temos que preparar os nossos quadros para o trabalho técnico, tecnocrata, que é a essência da governação. A solução é exactamente a parte mais forte do manifesto que eu apresentei: a escola Anamola. Queremos formar quadros em várias matérias, pilares fundamentais da governação, mas também com uma componente extremamente interessante que são as tecnologias de informação e comunicação. Temos neste momento alguns consultores e simpatizantes que estão fora de Moçambique, já temos acordos firmados para passarem a ser também docentes, consultores e conselheiros desta escola. É nesta escola que temos um plano de uma formação intensiva de dois anos que nos permite projectar que, até 2028, vamos ter capacidade de técnicas e humanas no partido, capazes de fazer uma gestão de acordo com o nosso discurso político. Abriu mão das bandeiras que ergueu no período das eleições gerais de Outubro de 2024, eleições cujos resultados não reconhece? Foi um percurso que nós atravessámos, em que nós, transitoriamente, tivemos que assumir um acordo de uma parceria política para fazer uma frente política para aquele momento, aquela circunstância em concreto. Logicamente que depois houve vários episódios - que não vale a pena aqui falar - que nos levaram, auscultando o público, os eleitores e os próprios membros do meu projecto político, que tínhamos que avançar para um projecto político original, genuíno. Então, neste momento, o meu foco, o foco dos nossos membros seguidores, é exactamente neste projecto jovial que é o partido Anamola. Mas para que é que serve o diálogo nacional inclusivo? A gestão de Daniel Chapo é mais aberta à oposição do que era à anterior? O diálogo político inclusivo é uma iniciativa fenomenal. Tudo partiu, em Novembro de 2024, com uma carta que eu escrevi ao antigo Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, em que eu fazia uma proposta de uma agenda para um debate nacional alargado sobre as bases do futuro de Moçambique. Foi essa carta que serviu de base para aquilo que foram as linhas mestras daquilo que veio a ser conhecido como acordo político. É por isso que, apesar do Anamola estar excluído da comissão técnica que está a fazer a gestão, a recolha dessas propostas de reformas, nós apresentamos a nossa proposta de reformas. Um documento com pouco mais de 400 páginas onde mostramos o que é que pretendemos em termos de reforma fiscal, eleitoral, política, da Constituição e várias áreas. Nós submetemos a este organismo do qual nós estamos excluídos. Agora, em relação a esta terceira parte, Daniel Chapo, eu penso que vai ficar na história, como aquele que concretizou o sinistro da muralha do diálogo em Moçambique. Não restam dúvidas. E os números falam por si. Portanto, não vou fazer politiquice. O Anamola, em menos de um ano de existência, foram assassinados 56 membros seniores do partido. Isto nunca aconteceu em nenhuma fase da história democrática desse país, mesmo nos períodos que havia hostilidades militares entre o Governo e a Renamo, nunca aconteceu. 56 pessoas foram assassinadas e isto está a acontecer com Daniel Chapo. Este é o primeiro ponto. O segundo ponto é que nós, logo depois do registo do nosso partido, apresentamos uma proposta ao próprio Daniel Chapo em que sugerimos a integração do Anamola dentro da comissão técnica que está a gerir o diálogo. E fundamentamos a razão e ainda apresentamos uma proposta de revisão da lei que operacionaliza o diálogo político. Nós apresentámos isso. Ele nunca respondeu em mais de sete meses. Isto mostra claramente que é uma pessoa fechada, que é uma pessoa que, até certo ponto, está apadrinhando a exclusão do Anamola e a exclusão de outras forças políticas. E mais grave do que isso: que está apadrinhando, ainda mais, a violação de direitos humanos graves. Nós submetemos ao próprio Presidente da República um relatório detalhado sobre os casos de violência grave que o nosso partido, os membros do nosso partido sofreram. São cerca de 450 casos graves de violação de direitos humanos. Ele nunca respondeu em sete meses, nunca. Sobre essa questão, em parceria com outros meios de comunicação social, a RFI publicou uma série de reportagens denominadas “Mozambique Exposed”. Nessa investigação foi possível constatar uma relação entre o desaparecimento ou morte de jornalistas e membros da oposição, desde Outubro de 2024, e o envolvimento das forças de segurança moçambicanas. Concorda com esta ligação? Efectivamente, há mão das Forças Armadas moçambicanas nestas mortes, nestes desaparecimentos? Eu estou plenamente de acordo. E não estou de acordo apenas do ponto de vista político, os números também o dizem. Temos um jornalista que também fazia parte do nosso projecto político, que é o Arlindo Chissale, que fez um trabalho fenomenal, educativo, sobre a estrutura da fraude que aconteceu em Moçambique. Ele desapareceu misteriosamente em Cabo Delgado. Ele vivia em Cabo Delgado e Nampula e nós submetemos várias denúncias sobre este caso. Nota-se claramente que o modus operandi em que o Arlindo Chissale desapareceu, foi torturado… A 07 de Janeiro de 2025. Exactamente. O modus operandi é factual e mostra claramente que são as forças de defesa e segurança, as forças especiais da força de defesa e segurança, que o fazem. Há uma força especial, muito concreta, da polícia que executa esse tipo de operações: o Grupo de Operações Especiais e, também, o SERNIC

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  5. 5d ago

    Parque nacional Nino Konis Santana "ganha nova dimensão" como reserva da biosfera da UNESCO

    Há quase 20 anos declarado como parque nacional, o parque Nino Konis Santana e as suas imediações, em Timor-Leste, foram considerados pelas UNESCO como um espaço de diversidade ecológica e cultural distinguido com título de reserva da biosfera. Esta distinção vai permitir troca de experiência, mais tecnologia e mais oportunidades para as populações locais. O parque nacional Nino Konis Santana, em Timor-Leste, foi classificado no início de Junho como Reserva da Biosfera da UNESCO, a primeira do país. O parque foi estabelecido em 2008 e incluiu uma área de mais de 123 mil hectares, incluindo floresta, mangais e uma parte marítima, que integra o Triângulo de Coral, o centro mundial com maior diversidade de corais e peixes de recife. Este é também um parque com um significado especial para os timorenses, já que carrega o nome de Nino Konis Santana, chefe da guerrilha FALINTIL, braço armado da FRETILIN, e resistente face à ocupação da Indonésia. Este reconhecimento pela UNESCO vai ajudar na preservação deste parque, mas também dar mais oportunidades às populações que vivem à sua volta, como explicou António de Sousa Abreu, director da Divisão de Ecologia e Ciências da Terra, da UNESCO, em entrevista à RFI. "Este parque é uma referência porque tem o nome de um herói nacional e, portanto, é, do ponto de vista cultural, do ponto de vista até político, se quisermos um elemento muito simbólico no país do ponto de vista natural. É também uma área protegida à escala nacional, com relevância internacional, uma vez que alberga uma grande diversidade de ecossistemas muito importantes e ao nível da biodiversidade, também ao nível de específico. Elementos muito importantes, portanto, sejam ecossistemas terrestres, costeiros, marinhos, desde florestas tropicais, secas, mangais, savanas, recifes de coral e zonas húmidas. Ou seja, há um trabalho já com alguns anos que Timor Leste fez em torno de uma área protegida que agora ganha uma dimensão maior e que extravasa a tradicional competência e funções de um parque. Não é o parque que é reserva da Biosfera. O parque é o motivo ao redor do qual houve uma candidatura para uma Reserva da Biosfera, que é uma classificação diferente de um parque e não é um prémio, é uma validação do trabalho que foi feito", detalhou. As reservas da biosfera da UNESCO são locais de "aprendizagem de desenvolvimento sustentável" e que permitem compreender como de, um lado, se pode gerir a biodiversidade e, por outro, ter em conta as populações autóctones e prevenir conflitos. Este reconhecimento serve assim para promover também a educação e envolver diferentes actores no futuro do parque Nino Konis Santana. "A visão que Timor-Leste assumiu implica promover a educação, a sensibilização, implica dialogar e meter na mesma mesa partes que tradicionalmente não se juntam, por exemplo, o sector privado que traz o desenvolvimento puro e duro, sem perda de identidade natural e cultural, uma vez que a natureza e a cultura fazem parte e moldam-se a si próprios. A forma, como há milhares de anos se ocupa aquele território, não obstaculizou que os valores naturais ainda lá estejam. Queremos manter o grau de conservação. Timor assumiu isso. Queremos promover sociedades mais informadas, mas também acrescentar valor", explicou António de Sousa Abreu. Esta é a primeira reserva da Biosfera em solo timorense e há actualmente 784 reservas em todo o Mundo, espalhadas por mais de 140 países, abrangendo mais de um milhão de quilometros quadrados.

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  6. 6d ago

    "África está a competir e a incomodar favoritos" no Mundial de Futebol 2026

    Com 10 selecções a competir, as equipas africanas têm-se destacado no Mundial de Futebol de 2026 pela sua competitividade, com as prestações a serem muitas vezes consideradas por analistas como "milagres" ou "revelações". Para Edgar Leandro, director de Marketing e Desenvolvimento de Negócios no African Union Sports Council – Região 5, trata-se de uma aposta do continente numa maior preparação técnica e da gestão da competição. África participa com o maior número de selecções de sempre neste Mundial e os resultados estão a surpreender o mundo do futebol, com Marrocos, Egipto, Argélia, Costa do Marfim, Gana e talvez Cabo Verde a provavelmente conseguirem apurar-se para a próxima fase da competição. Se o talento nunca esteve em causa quanto aos jogadores africanos, é a aposta do continente na preparação física, técnica e estratégica que está a fazer a diferença neste Mundial como explica Edgar Leandro, director de Marketing e Desenvolvimento de Negócios no African Union Sports Council – Região 5, em entrevista à RFI. "O Mundial de 2026 confirma uma mudança histórica. A África já não está apenas a participar. África está a competir, está a incomodar favoritos e a obrigar o mundo a olhar para o continente com outra seriedade. É uma mudança de percepção. Durante muito tempo, as selecções africanas entravam nas grandes competições mundiais com muito talento, com emoção, com esperança. E hoje está a ser visto neste Mundial em particular. Entram com mais organização, já têm mais maturidade competitiva, já têm uma consciência clara de que não basta apenas representar o continente, é preciso competir ao mais alto nível. Naturalmente, isso ainda a África ainda tem. Tem falhas estruturais, mas o mundo já percebeu que enfrentar hoje uma equipa africana deixou de ser um jogo previsível", indicou o dirigente angolano. Com a popularidade e talento das selecções africanas já confirmada neste Mundial, Edgar Leandro diz que o continente tem agora de apostar em maior financiamento para o desporto em geral. "África pode competir melhor do que nunca em organizações internacionais. Mas ganhar exige mais do que talento. Exige profundidade de investimento, gestão desportiva com com eficácia a gestão emocional. As federações devem estar bem organizadas. A ambição deve sair do emocional para o realismo. Nós temos, de facto, que transformar o talento em sistema, pois África produz muitos bons jogadores há muitos anos. Agora nós precisamos de começar a produzir estruturas, academias de futebol, dados, scouting. Precisamos de investir na preparação mental dos jogadores, na liderança federativa. Precisamos investir mais nas preparações técnicas para deixarmos de sair do emocional para o realismo. Se nós fizemos isso, eu tenho a plena certeza que a África vai deixar de sonhar mais alto e começar a realizar mais os seus sonhos", concluiu.

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  7. Jun 23

    Tiago Rodrigues transformou a despedida em obra de arte no Grand Palais

    "No Yogurt for the Dead", de Tiago Rodrigues & NTGent, esteve no Grand Palais, em Paris, de 18 a 20 de Junho. A peça foi escrita pelo dramaturgo e encenador português a partir dos últimos dias do pai, o jornalista Rogério Rodrigues, e do bloco de notas que ele deixou com a frase “Os mortos já não comem iogurte”. Esta é uma peça íntima e universal sobre um filho que se despede do pai com uma obra de arte. Este é também “um ensaio - colectivo - perante o adeus”, nas palavras da actriz Beatriz Brás, com quem fomos falar, na última noite no Grand Palais. Depois de ter dado volta ao mundo e estreado há mais de um ano na Bélgica, a peça “No Yogurt for the Dead”, do também director do Festival de Avignon, esteve, durante três noites, no majestoso Grand Palais, em Paris. Ao centro, uma pequena montanha branca, duas camas de hospital, quatro actores, duas barbas, um caderno, alguns cigarros, umas centenas de espectadores e telhados de vidro monumentais a cobrirem toda a cena. Ali se passou do riso ao pranto, do canto ao silêncio. Um ritual colectivo de despedida ou, como nos diria, depois, Beatriz Brás, uma espécie de “ensaio da despedida” de nós próprios e dos nossos entes queridos. Depois da homenagem à avó Cândida em “By Heart”, depois de um poema de amor à companheira em “Le Choeur des Amants”, depois da evocação poética à filha em “ La Distance”, em “No Yogurt for the Dead” o público de Tiago Rodrigues regressa a um lugar que já lhe é familiar. O título da peça, “No Yogurt for the Dead”, vem de um caderno de Rogério Rodrigues (“Barba Longa” no espectáculo) que o filho (“Barba Curta”) lhe levou, a seu pedido, para escrever uma reportagem sobre o que se passava no hospital. “A sua última reportagem”. No final, o caderno praticamente só tinha essa frase. Uns tempos depois, nascia o espectáculo, algures entre entre ficção e diário íntimo, entre peça de teatro e reportagem cantada pelas vozes de Beatriz Brás, Manuela Azevedo e Lisah Adeaga, acompanhadas pela guitarra discretamente omnipresente de Hélder Gonçalves. Aproveitámos a passagem por Paris desta peça para conversarmos com uma das actrizes, Beatriz Brás que, com Manuela Azevedo, vai trocando de barbas e vestindo a pele de um pai e a de um filho.   RFI: Como é que nos poderia descrever esta peça? Beatriz Brás, Actriz em “No Yogurt for the Dead”: “É uma peça sobre a mortalidade e sobre como é que nós resolvemos e fazemos as pazes com a partida de alguém, com a nossa própria partida também. Muitas vezes, quando vemos partir alguém, o adeus não foi preparado. Eu acho que esta peça é sobre a preparação para esse adeus, o facto de esse adeus nunca ser perfeito e um bocado fazer as pazes com o facto de sermos humanos. Erramos, mas, no fundo, há a possibilidade de, através da arte, nos despedirmos, através da poesia, através da arte, neste caso deste espectáculo que o Tiago, apesar de ele dizer muitas vezes que isto não é um espectáculo sobre o pai e sobre ele, ou seja, só sobre ele e sobre a história dele com o pai, acaba por ser uma maneira, a meu ver, de ele fazer as pazes com a turbulência que foi a relação deles e que a doença do pai permitiu dar um fim diferente e que este espectáculo também vem dar um fim diferente.” É uma história íntima, mas também universal? “Exactamente. Eu acho que todos nós nos revemos neste ensaio perante o adeus. Isso é a primeira coisa. E também aquilo que eu estava a dizer há bocado: o adeus nunca foi preparado e então parece que ensaiamos na nossa cabeça como é que poderá ser este fim? E na questão da turbulência também acho que há relações familiares complicadas, que nos desafiam - a maioria delas, diria até. Então, eu acho que é uma coisa que o Tiago, ao falar do pai dele, possibilita-nos a nós de também nos vermos naquela história.” A Beatriz interpreta os papéis do pai e do filho. Como é que vestiu toda essa carga simbólica? “Bom, essa carga simbólica nunca lá esteve. Da parte do Tiago, ele sempre nos aligeirou esse peso, do género: ‘Isto não tem de ser uma coisa sobre mim, não sintam demasiado pudor com a história por ser uma coisa pessoal’. Portanto, ele tentou sempre retirar qualquer tipo de peso. Mas é claro que há essa herança, essa questão de ser uma história pessoal e o facto de trocar os papéis é um pouco um exercício de se pôr no lugar de um e no lugar do outro a meu ver. Foi um exercício que surgiu muito naturalmente.” Já estava escrito ou foram vocês que criaram? “Não. O Tiago escreve sempre durante o processo. É uma qualidade dos processos de criação do Tiago, o que é óptimo para nós porque nos dá imensa liberdade para propor coisas e para o espectáculo se ir inventando ao longo do tempo. Portanto, como ele não sabia bem quem é que ia desempenhar o Barba Longa, o Barba Curta, o Tiago ou o Rogério, íamos experimentando, entre eu e a Manuela [Azevedo], até que: ‘E se fôssemos trocando estes papéis?’ E ficou assim esta troca de papéis também um bocadinho à boleia desta questão do ensaio, não é? Ora tu fazes de mim, ora eu faço de ti. Vamos lá experimentar o que é isto de fazer uns dos outros e de se pôr nos sapatos uns dos outros’. E foi assim que ficou.” A própria peça é um ensaio. Não sabemos se estamos numa reportagem cantada, se estamos numa peça de teatro... “Pois, isto é uma reportagem sobre o final da vida do Rogério. É uma reportagem que tem tanto de ficção como de documental. Como a própria Lisa, a narradora da história, diz no início: ‘é uma reportagem que está sempre a deambular entre o teatro e o jornalismo’... E o diário íntimo? “E o diário íntimo. Não sabemos aquilo que é verdadeiro ou não. Mas claro que muitas das coisas são inspiradas na vida real do Tiago e da relação com o pai dele, da vida do pai dele, a Teresa Torga, todo aquele artigo que é lido e tudo o mais, as canções, o poema escrito pelo pai do Tiago. Portanto, há muita coisa que é real, que é verdadeira, mas há muita outra que também é ficcional e que eu acho que também é um bocadinho a qualidade dos espectáculos do Tiago, ele gosta sempre de misturar, gosta sempre de desafiar os limites daquilo que é a ficção.” Temos teatro, temos jornalismo, temos música. Qual é o papel da música nesta peça? A música que só se cala mesmo no fim porque há sempre as notas da guitarra eléctrica e as vossas vozes... “Sim. Isto não era para ter tanta música, este espectáculo. Não, de todo. Até que chegámos a um momento em que a Manuela canta a Teresa Torga e experimenta ir para cima da montanha e o Tiago diz: ‘Bom, a partir de agora isto tem de ser um musical’. E começa a escrever a pensar em musicar as letras. O Hélder foi para as férias de Natal muito preocupado porque tinha de criar as músicas para Janeiro, que foi a estreia [2025]. A música não era para ter um impacto tão grande, mas acabou por se revelar muito importante. E também acho que serve um bocado este imaginário das alucinações, do caminho até à morte, de um caminho solitário, meio deambulatório, onde há fantasmas e figuras da morte que nos visitam, figuras do passado, figuras do presente. E tudo se mistura. A lucidez começa a ficar um bocadinho mais... Bom, a própria ficção começa a entrar na realidade, se quisermos. E, portanto, acho que a música serve não só para dar um tom meio melancólico ao espectáculo -e doce ao mesmo tempo, uma melancolia doce, eu diria - mas também para dar corpo a este lado mais fantasmagórico e de alucinação e do desconhecido que é a morte, na verdade, e que nos toca a todos.” A Beatriz canta também “Com que voz”. Como é que surgiu este fado na peça? “Bem, eu já não me recordo sinceramente como é que isto surgiu. O Tiago sabe que eu gosto muito de cantar fado...” Já cantou em “Na Medida do Impossível”... “Exactamente. Bom, falamos que a Teresa Torga era fadista, que gostava de cantar fado e acho que todo esse imaginário já lá estava. Este é um fado que o Tiago gosta muito e acabou por surgir a ideia de aparecer este fado também como imaginário do próprio Rogério, não é? O Jacques Brel, o fado, são tudo repertórios que ele gostava e que acho que servem o espectáculo e que servem estas figuras, estes tais fantasmas que o vão visitando no hospital.” Inclusivamente aparece um adufe que é da música tradicional de Trás-os-Montes... “Exactamente porque o Rogério era de Trás-os-Montes e a Manuela, a uma dada altura, propôs trazer este instrumento que é tradicional de lá, então, fez todo o sentido. Também acho que é uma peça muito portuguesa, com muitas referências portuguesas, e na música também está presente.” A peça é portuguesa, mas o título é “No Yogurt for the Dead”. De onde vem este título? E porquê em inglês? “Porque o próprio Rogério escreveu ‘No Yogurt for the Dead’ no seu caderno. Esse tal caderno onde só existem rabiscos. Curiosamente, o Rogério tinha escrito em inglês e foi assim que ficou.” Qual é a história do iogurte? “Como o próprio espectáculo conta, o Rogério não gostava de iogurtes. O próprio título da reportagem que ele escolheu foi ‘No Yogurt for the Dead’. Esta questão do iogurte é uma nova paixão que o Rogério teve no hospital e que só começou a gostar quando estava no hospital e, portanto, é quase como uma metáfora para a sua nova personalidade no hospital, porque foi também no hospital e foi através da doença que se possibilitou uma reaproximação com o filho, com os entes queridos dele. É quase como ele próprio diz – ‘Pareço um miúdo, só quero dar amor e beijinhos. Já não me reconheço e gosto de iogurtes. Eu que nem gostava de iogurtes.’ Portanto, é como se surgisse

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  8. Jun 22

    Santo Antão: "A jóia de Cabo Verde"

    Em 2025, a ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, recebeu cerca de 45 mil turistas, atraídos pelos seus famosos trilhos, criados desde a época colonial, pelas praias de areia negra e pelas experiências gastronómicas. Odair Gomes, vice-presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, descreve a ilha como a «jóia» do país, destacando uma oferta turística diversificada, procurada tanto a nível internacional como nacional. Estamos numa ilha que está a ganhar algum dinamismo a nível do turismo. O que distingue Santo Antão? A ilha tem uma especialização maior no turismo de caminhadas, no turismo rural e no ecoturismo, que é um segmento que tem vindo a crescer bastante em Santo Antão.Temos uma vasta rede de trilhos que foram criados ainda no tempo colonial. Na altura, serviam para permitir a deslocação das pessoas dentro da ilha, o transporte de produtos agrícolas e a própria comunicação entre localidades. Hoje em dia, esses trilhos servem o turismo, embora continuem também a ser utilizados pelas comunidades do interior. Por isso, a maior parte dos turistas que vêm para Santo Antão procura precisamente explorar e caminhar nesses percursos. A ilha e o próprio Governo têm desenvolvido um trabalho extraordinário na sinalização dos trilhos, em parceria com organismos internacionais, como a Associação de Defesa do Património de Mértola, em Portugal, que tem ajudado a mapear e a sinalizar os percursos, de forma a garantir a segurança dos visitantes. É um desafio enorme manter esses trilhos. Temos uma ilha com uma orografia difícil, muito montanhosa. Santo Antão é a ilha mais montanhosa do país e nem sempre é fácil assegurar a manutenção atempada dos percursos. Esse tem sido, aliás, um dos handicaps do nosso turismo, já que a caminhada é a principal actividade turística. Por isso, a preparação e manutenção dos trilhos têm de continuar a ser uma prioridade. O que representa o turismo rural para a ilha de Santo Antão? E de onde vêm os turistas? A ilha está a crescer todos os anos e a maior parte dos turistas que recebemos são franceses. Em 2025, Santo Antão recebeu cerca de 45 mil turistas, o que representa um aumento significativo em relação ao ano anterior. Estamos a crescer tanto ao nível do turismo como ao nível das estruturas de alojamento e da qualificação dos profissionais. No entanto, também estamos a perder muitos profissionais, sobretudo guias turísticos. Esse deverá ser um dos próximos desafios da ilha: formar mais profissionais para o sector, não apenas para a hotelaria, mas também para o turismo de natureza e de caminhadas. Estão a perder guias turísticos. A que se deve essa situação? O turismo em Santo Antão, e em Cabo Verde de uma forma geral, continua a ser muito sazonal. A época alta começa normalmente em Novembro e prolonga-se até Abril. Nos últimos anos, tem vindo a iniciar-se ainda na segunda metade de Outubro e a estender-se até Maio. Apesar disso, continuamos a ter uma época baixa, e muitas pessoas dependem do turismo para viver. Quando surgem oportunidades noutras ilhas, como o Sal e a Boa Vista, que são os principais destinos turísticos do país, muitos profissionais acabam por sair. Além disso, há uma questão demográfica. Há cerca de quinze anos, Santo Antão tinha perto de 50 mil habitantes. Hoje temos apenas cerca de 36 mil. A ilha está a perder população de forma acelerada e nem o Governo central nem as autoridades locais têm conseguido travar essa tendência. A procura de emprego e de melhores oportunidades continua a levar muitas pessoas a emigrar. Muitas vezes, quando se fala de Santo Antão, fala-se do isolamento. Como se combate essa ideia? Eu não gosto muito do termo «isolamento», porque não considero que Santo Antão esteja isolada. Ao nível dos transportes marítimos, temos o canal mais rentável do país. Existem duas ligações de manhã e duas à tarde entre Santo Antão e São Vicente. O fluxo de pessoas e de turistas é constante. As ligações marítimas existentes são suficientes? Na época alta, nem sempre são suficientes. Sem transportes não há turismo.Seria importante que uma das embarcações estivesse sediada em Santo Antão, em vez de todas estarem baseadas em São Vicente. Ainda não acontece, mas esperamos que possa vir a acontecer no futuro. É um desejo dos santantonenses. Além disso, essa solução seria importante para situações de emergência. Temos um hospital na ilha, mas para tratamentos mais complexos ou situações mais graves é frequente recorrer a São Vicente. Dispor de uma embarcação permanentemente sediada em Santo Antão permitiria respostas mais rápidas, beneficiando tanto a população como o próprio turismo. Um barco baseado no porto de Santo Antão seria uma mais-valia e deveria constituir uma aposta dos próximos governos.   Tem-se falado muito da diversificação da oferta turística. Para além do trekking, caminhadas, que outras actividades podem ser desenvolvidas na ilha? Em Santo Antão pode praticar-se praticamente todo o tipo de turismo. Temos praias, sobretudo no concelho do Porto Novo. A ilha está dividida em três municípios e, na costa sul, encontramos várias praias de grande beleza. A diversificação passa também por valorizar esse património. Temos a maior praia de areia negra do país, localizada na aldeia do Tarrafal. Paralelamente, têm vindo a ser criados novos produtos turísticos, tanto no ecoturismo como no turismo gastronómico. Hoje já existem experiências em que os visitantes aprendem a confeccionar pratos típicos com a ajuda de profissionais locais. Também é possível praticar canyoning, mergulho, snorkeling e BTT downhill. O campismo está a começar a desenvolver-se, assim como o agroturismo e o turismo comunitário. Precisamos de continuar a potenciar estes nichos, mas já existem sinais claros de diversificação da oferta. A par do turismo de sol e praia que caracteriza outros destinos de Cabo Verde, Santo Antão tem-se afirmado precisamente por oferecer experiências diferentes. E não é apenas o turismo internacional que procura a ilha; também o turismo interno tem vindo a crescer. Costumo dizer que Santo Antão é a jóia do país. Muitas pessoas visitam a ilha durante a época das chuvas, quando a paisagem ganha um verde intenso, surgem cascatas e a natureza se torna particularmente exuberante e atractiva.   Quando se observam fenómenos de massificação turística e de degradação dos destinos, existe essa preocupação em Santo Antão? O turismo sustentável não é uma tarefa fácil. Qualquer destino que pretenda implementar um modelo sustentável tem de fazer investimentos estruturais e organizar-se adequadamente, promovendo acções de sustentabilidade a nível social, económico e ambiental. No entanto, ao nível ambiental têm sido dados passos interessantes. Santo Antão tem procurado afirmar-se como um exemplo de turismo sustentável e esse continua a ser um dos principais objectivos para o futuro.

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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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