O Major-General do exército português Carlos Branco que tem partilhado periodicamente na RFI as suas análises sobre os conflitos vigentes no Médio Oriente e entre Kiev e Moscovo, lançou no passado mês de Julho um livro especificamente dedicado às raízes da guerra na Ucrânia. Intitulado "Ucrânia, variações de uma guerra inacabada", este livro compila uma série de artigos que o Major-General publicou nestes últimos anos sobre a história recente da Ucrânia. Autor de cinco livros publicados sobre a Guerra Fria, o Afeganistão, ou ainda sobre o conflito na ex-Jugoslávia, o Major-General Carlos Branco analisa ao pormenor e desfaz o discurso oficial em torno do conflito na Ucrânia, baseando-se em fontes documentais e na sua experiência em diversas organizações internacionais, nomeadamente a Aliança Atlântica, no seio da qual ocupou o cargo de Director da Divisão de Cooperação e Segurança Regional, do Estado-Maior Militar Internacional da NATO, em Bruxelas. Em entrevista à RFI, o Major-General Carlos Branco começa por apresentar no que consiste a sua obra sobre a Ucrânia. RFI: Do que fala concretamente o seu livro? Major-General Carlos Branco: Este livro é a compilação de mais de 70 artigos que eu fui publicando sobre o tema da guerra na Ucrânia, com uma série de artigos anteriores ao início da guerra propriamente dita em 2022, artigos publicados a seguir a 2014. Porque, na prática, a guerra não começa em 2022, começa em 2014 e é fundamentalmente uma reflexão no seu conjunto, claro, de uma uma interpretação realista das relações internacionais aplicadas ao caso concreto da guerra na Ucrânia. Basicamente, é uma análise centrada no papel das grandes potências na cena internacional. Neste caso concreto, o papel dos Estados Unidos e da Rússia e, no fundo, apresentar este conflito fundamentalmente com duas vertentes: a vertente internacional que envolve a afirmação hegemónica dos Estados Unidos. É apenas um capítulo, a guerra na Ucrânia, como outros, o Irão, como agora mais recentemente estas iniciativas para a Gronelândia, o controlo da Venezuela, o controlo do Canal do Panamá, etc. Portanto, uma dinâmica de conflito entre grandes potências e, nesse caso, uma tentativa dos Estados Unidos chegarem às fronteiras da Rússia, algo que uma grande potência não autoriza, não autoriza a Rússia, como também não autorizam os Estados Unidos, como também não autoriza a China. E depois há a outra dinâmica, que é um conflito que é fundamentalmente interno na Ucrânia, entre os diferentes grupos ucranianos. Porque a Ucrânia não é um país uno, é um país multinacional, é um país com vários grupos étnicos. E o que nós estamos a assistir é a tentativa de um grupo prevalecer relativamente aos outros, impondo-lhes uma série de coisas que para eles são inaceitáveis. Podíamos começar pelo exemplo da língua. O grupo que nesta altura se encontra no poder na Ucrânia, tenta que a língua ucraniana seja a única língua falada na Ucrânia. Quando nós sabemos perfeitamente que por toda a Europa democrática existem vários países multilingues e isso não é de modo nenhum uma excepção. São vários os países em que isso acontece. Não se compreende porque é que isto também não acontece na Ucrânia, um país que tem vários grupos étnicos e linguísticos. Portanto, a estes dois confrontos, este segundo confronto acabou por ser um confronto Ucrânia-Rússia. Uma vez que a esmagadora maioria da população do leste da Ucrânia é a população russa. Quando a população russa começou a ser atacada no rescaldo de um golpe de Estado de 2014 que derrubou um governo, um Presidente da República democraticamente eleito e instrumentalizado, sem qualquer margem para dúvidas e com a imensa evidência, por parte dos Estados Unidos, essas populações naturalmente reagiram. E houve, portanto, depois, uma solidariedade russa entre Moscovo e os seus 'irmãos' russos, que se encontravam inseridos na Ucrânia. Portanto, o livro elabora muito à volta dessas duas dinâmicas. Como é que elas se interceptam, como é que elas se influem mutuamente e como é que, em última análise, uma acaba por servir de instrumento à materialização da outra. Concretamente, refiro-me ao projecto hegemónico norte-americano que procura impor à Rússia uma derrota estratégica. Uma derrota estratégica essa que terá seguramente várias matizes, mas que fundamentalmente passa por colocar um governo que lhe seja favorável no Kremlin. E, portanto, a partir daí, desenvolver todas as suas acções, nomeadamente no domínio económico, do controlo energético, etc, etc. Se isso acontecesse, seria um controlo mundial por parte dos Estados Unidos e isso não vai acontecer. O que é de salientar, é mais um erro de cálculo estratégico dos Estados Unidos que nos tem vindo a habituar. Tiveram erros de cálculo no Vietname, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia. É mais um erro de cálculo estratégico no Irão, porque as coisas saíram quase que diametralmente opostas àquilo que eles queriam fazer. E é sempre a mesma tentativa de substituir um governo por outro que lhe seja favorável. E a partir daí, conseguem manobrar. Foi o que fizeram em Kiev. E portanto, Kiev, na prática, é peão deste grande xadrez entre as grandes potências. RFI: Precisamente, desfaz uma série de mitos em torno das raízes da guerra, aquilo que foi apresentado como uma revolução em 2014, também desfaz os mitos sobre o que acontece dentro da própria Ucrânia, também sobre o estado da oposição dentro da Rússia e também dos próprios interesses, não só dos Estados Unidos, como também da Europa. No meio deste conflito, como é que está a Europa no meio disto tudo? Major-General Carlos Branco: A Europa está num beco sem saída porque com estes dirigentes que estão no poder nesta altura, é difícil ver uma saída para este conflito. Inicialmente, a Europa acabou por aliar-se aos Estados Unidos e apoiar os Estados Unidos neste esforço contra a Rússia. Temos presente, por exemplo, a questão das sanções, etc. Mas a Europa, no meio disto tudo, foi extremamente prejudicada. Por exemplo, a questão energética. O modelo de desenvolvimento industrial europeu baseava-se muito na energia barata que era fornecida pela Rússia e isso acabou. E nós sabemos quem é que fez isso. Os Estados Unidos não permitiram que existisse essa relação entre a Europa, mas fundamentalmente, entre a Alemanha e a Rússia. Isso não é nada de agora, é uma coisa antiga. E a Europa, nesta altura, acaba por, em termos energéticos, consumir muito mais caro. O gás natural, vai comprá-lo aos Estados Unidos e não só, mas é muito mais caro e está a ter grandes dificuldades do ponto de vista do desenvolvimento económico e industrial, fundamentalmente porque não tem as matérias-primas que são indispensáveis para o novo paradigma económico, que passa fundamentalmente pela computação, a computação quântica, grande consumo de dados e a Europa não tem terras raras, para não falar na questão energética. Portanto, tem uma grande dependência. Mas o que é curioso é que a Europa está a falar para dentro, porque quando fala de autonomia, tem que perceber que não é autónoma e portanto, tem que considerar este elemento no processo de decisão e provavelmente terá que se adaptar do ponto de vista das políticas. Mas eu acho que o problema da Europa não é só a questão das matérias-primas. Repare, se nós tivermos em consideração as grandes tecnológicas mundiais, as 'sete magníficas' são todas americanas e nenhuma delas é europeia. E além disso, temos também a juntar-se a este grupo de grandes tecnológicas, também as chinesas. E quando falamos, por exemplo, de 'chips', a Europa é absolutamente deficitária nessa matéria. E se quisermos fazer uma análise mais profunda e verificarmos, por exemplo, as patentes nos mais variados domínios registadas pelos europeus e registadas pelos americanos e pela China, então pela China, muito mais, nós cada vez percebemos que existe uma 'décalage' aí. Repare, há cerca de talvez 20 anos, o PIB agregado da Europa era muito semelhante ao dos Estados Unidos. Hoje é cerca de dois terços. Portanto, quando falamos em dados concretos, nós podemos ter uma dimensão despida de preconceitos ideológicos e perceber que a Europa está numa regressão. Portanto, devia ter tomado uma série de medidas que pudessem inverter esse caminho. Mas as pessoas que estão nesta altura à frente da União Europeia e também dos países da Europa, não são pessoas qualificadas e, portanto, o caminho é escuro. Por exemplo, o comportamento da Europa relativamente a esta guerra na Rússia é uma coisa absolutamente difícil de explicar. RFI: Precisamente, no seu livro fala da deterioração das relações da Europa não só com a China, mas também com a Rússia. E, portanto, tendo em conta que a Europa, ou pelo menos os seus dirigentes, conhecem qual é a agenda dos Estados Unidos relativamente a este conflito, como é que se explica que hoje em dia, os líderes europeus, nomeadamente do Reino Unido, da Alemanha e da França, estejam actualmente com um discurso que tende a dar crédito à possibilidade de um conflito aberto com a Rússia? Major-General Carlos Branco: A explicação é difícil. Há várias possíveis. Uma delas é o facto de terem prometido às suas populações mundos e fundos e agora têm um nada para lhes dar. Não têm nada para lhes dar porque andaram a enganar as suas populações. Andaram a dizer que a Rússia não tinha mísseis, não tinha tecnologia, era apenas uma estação de serviços com armas nucleares. Portanto, deram uma imagem absolutamente errada da situação. Inclusivamente alinharam também num erro de cálculo estratégico, descurando a história. E nós sabemos o que tem sido o comportamento dos europeus relativamente às di