Artes

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

  1. 6D AGO

    Do espanto ao desejo, um livro que acompanha a dança de Marlene Monteiro Freitas

    Enquanto NÔT sobe ao palco em Paris, Alexandra Balona apresenta esta quarta-feira, 25 de Março, Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas na Livraria Portuguesa e Brasileira, um livro que nasce de um “espanto” inicial e de mais de uma década de encontros com a obra de Marlene Monteiro Freitas. “Não desejo explicar, mas aproximar”, diz a autora, propondo uma escrita que acompanha a dança sem a fixar e abre caminhos para ler uma criação que “transmite forças” mais do que mensagens.   Há livros que chegam para explicar. Este não. Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas instala-se noutro lugar: acompanha, escuta, aproxima-se. É apresentada esta quarta-feira, 25 de Março, em Paris no momento em que a nova criação de Marlene Monteiro Freitas, NÔT, sobe ao palco, como se a escrita e a dança partilhassem o mesmo tempo, cada uma no seu plano: uma no corpo, outra na linguagem. O gesto inaugural aconteceu em 2012. Alexandra Balona recorda-o como um abalo inaugural: “Recordo-me ter visto a estreia da peça Paraíso, coleção privada, em estreia absoluta no festival Vila do Conde e ter pensado que aquilo que estava a ver em palco era tão, tão diferente daquilo que eu já tinha visto para alguém que acompanha a dança contemporânea portuguesa europeia, que me questionei: ‘O que é isto que eu estou a ver em palco? Que corpos são estes? Que polifonia? Que paisagem musical tão bizarra, que estranheza?’ Eu tinha o objectivo de escrever sobre aquela peça e demorei uma semana para escrever sobre a peça porque tive dificuldade em tentar transferir toda aquela emoção, toda aquela força e toda aquela estranheza em palavras.” Esse primeiro embate não se dissolveu com o tempo. Pelo contrário, prolongou-se, sedimentou-se, tornou-se método e necessidade. “A curiosidade ficou de tal forma impregnada no meu próprio corpo”, diz, sublinhando uma relação com a escrita que é também física: “é quase como se eu sentisse visceralmente o que estou a ver em palco”. O espanto como origem e como método O livro assume essa origem sem reservas: “Este livro nasce do espanto”, afirma Alexandra Balona. E acrescenta imediatamente: “logo a seguir associo este espanto a outra palavra que é o desejo”. O espanto, neste contexto, não é paralisia, mas impulso. “O espanto deixa-nos num momento de estupefacção, surpresa, incompreensão, talvez num maravilhamento, mas também incita a questionar porque é este espanto, porque é esta surpresa.” A partir daí, abre-se um caminho de investigação que a autora liga a uma descoberta teórica precisa: “encontrei num livro de Agamben esta relação entre a palavra espanto e estudo, que partilham a mesma raiz etimológica, um que significa o choque, o embate perante algo que desconhecemos. E este embate levou-me a prosseguir este estudo.” A escrita nasce, assim, desse choque inicial e prolonga-o. Mas o livro não procura resolver o enigma. A própria autora recusa essa ambição: “Eu não sei se este livro vai explicar. Eu acho que ele abre caminhos de leitura, abre caminhos para nos aproximarmos à obra da Marlene.” E talvez seja essa a única forma possível de responder a uma obra que, como diz, “não deseja explicar coisas, mas mais provocar sensações, transmitir forças, intensidades. A dança consegue, nas palavras dela, transbordar às vezes mais do que as palavras.” Cinco peças, uma travessia O livro organiza-se em torno de cinco peças: Guintche, Paraíso: coleção privada, Jaguar, As Bacantes e Mal – Embriaguez Divina, mas não constrói uma narrativa linear. Cada obra é um ponto de entrada, um campo de forças. A escolha obedece a uma lógica interna ao percurso da coreógrafa: “Guintche é um solo e é o único solo que Marlene apresentou de uma forma ampla no contexto nacional e internacional. Depois segue-se Paraíso: coleção privada, a sua primeira peça de grupo. Escolhi também Jaguar, que é um dueto, As Bacantes, uma leitura coreográfica da tragédia grega de Eurípides que ela fez em 2017 e foi no momento em que recebeu o Leão de Prata na Bienal de Veneza. E a última, Mal – Embriaguez Divina, por também ser uma peça que reflecte sobre uma experiência que Marlene teve quando coreografou para a companhia israelita Batsheva e depois não conseguiu circular com aquela peça.”  Escrever sobre dança é confrontar-se com aquilo que desaparece. Alexandra Balona formula-o com precisão: “Uma reflexão sobre artes performativas, uma reflexão sobre algo que é efémero, é sempre uma tentativa de, de certa forma, cristalizar sem que esta cristalização seja encerrar em si próprio as ideias, mas é óbvio que há uma vontade de reflectir e através deste processo deixar rastos sobre aquilo que se vê, sobre aquilo que se experiencia.” No centro dessa tentativa está uma tensão permanente: “No início eu digo que este livro surge da dissonância que às vezes se debateu sobre mim entre o ver, o sentir e o pensar. E como nesta dificuldade entre o ver, o sentir e o pensar transformar isto ainda em escrita.”  Cabo Verde: compreender a linguagem Para se aproximar da obra de Marlene Monteiro Freitas, Alexandra Balona sentiu necessidade de deslocar-se. Cabo Verde torna-se um território fundamental. “Era importante fazer esta viagem, ir a Cabo Verde para perceber e para entender algumas características do trabalho da Marlene. Depois de ter ido, sem dúvida que sim, eu não conseguiria entender algumas das descrições que ela me falava, das práticas, dos rituais.” A experiência revelou a complexidade de um universo cultural diverso: “É um arquipélago muito diverso, com práticas muitas vezes sincréticas, onde o sagrado, a religião e os rituais mais pagãos dialogam.” Entre essas referências, destaca-se o carnaval espontâneo: “o carnaval que Marlene me falava ia muito além da ideia que temos de um carnaval mais inspirado na tradição brasileira com os seus cortejos. Ela salientava o tal carnaval espontâneo que acontecia fora dos cortejos oficiais, feito por pessoas das franjas sociais mais desfavorecidas, mas prolíferas a inventar e a criar figuras bizarras, que interrompiam os cortejos oficiais de forma insólita e até de crítica social.” O livro constrói-se como um atlas. Antes de cada ensaio, um conjunto de imagens propõe relações possíveis. “A Marlene interessa-se por juntar matérias e materiais, abrindo o espectro a sons, imagens, filmes, matérias que à partida nós não colocaríamos lado a lado, matérias díspares, às vezes opostas, às vezes em colisão, que provocam o tal estranhamento.” Esse procedimento gera figuras inesperadas: “um performer que de repente é um fauno ou uma criatura que poderia sair de um mosaico bizantino do último julgamento.” A própria autora participa nesse processo, assumindo a dimensão criativa da sua leitura: “O livro é a tua forma de olhar para o meu trabalho e tu és livre de escrever o que quiseres, disse-me a Marlene. Logo, há contribuições minhas para estes atlas, especulações minhas, relações que eu vejo nas peças.” Cada leitor é, por isso, convocado a continuar o trabalho: “é um convite para cada leitor ou leitora tecer as suas próprias relações.” Música, figuras e ficção Entre os elementos estruturantes da obra, a música ocupa um lugar central. Não como acompanhamento, mas como força geradora. “A música permite-lhe aceder a estratos de si próprio ou de sensação que não conseguiria aceder de outra forma. Permite-lhe chegar a determinados estados performáticos.” E há aqui, segundo Alexandra Balona, uma dimensão política: “a escolha musical nas suas peças é um instrumento, é um gesto político.” Dessa relação emergem as “figuras”, termo que substitui categorias mais fixas: “a figura não é a personagem do contexto teatral, nem o bailarino associado a uma representação figurativa. A figura é muito mais aberta. Associa-se ao cartoon, às máscaras, a algo que não se rege pelas leis de causa-efeito nem pelas leis da gravidade.” No palco, tudo pode acontecer: “é o teatro como um lugar de máxima ficção, onde se pode reinventar a condição humana, repensar os corpos e a relação entre os corpos.” Há um momento em que a investigação se transforma. Não deixa de ser análise, mas aproxima-se da criação. A pergunta impõe-se: quando é que isso acontece? Talvez no instante em que o olhar deixa de procurar respostas e passa a produzir relações. Talvez quando o espanto inicial não desaparece, mas se organiza. O livro permanece nesse lugar instável. Tal como a dança que o atravessa, recusa fixar-se. E é nessa recusa que encontra a sua forma.

    18 min
  2. MAR 24

    Gala “Nô Sta Djunto”: “É um evento que une a Guiné-Bissau”

    A sexta edição da Gala de Homenagem “Nô Sta Djunto” realiza-se no próximo dia 28 de Março, em Bissau, com o objectivo de reconhecer figuras que se têm destacado no panorama sociocultural da Guiné-Bissau. Em entrevista à RFI, o presidente da organização, Carel Baptista, sublinha a importância de valorizar os protagonistas ainda em vida. “O objectivo desta gala é reconhecer e homenagear as pessoas que têm vindo a trabalhar para o desenvolvimento sociocultural da Guiné-Bissau, reconhecer as pessoas enquanto estiverem vivas, para continuarem a dar o seu máximo”, afirmou. O processo de selecção dos nomeados combina monitorização de actividades no terreno e participação do público. Segundo o responsável, a organização acompanha “os trabalhos a partir das redes sociais” e conta com colaboradores em Bissau ligados à cultura, ao empreendedorismo e ao activismo. A isto soma-se a opinião dos seguidores: “Pedimos opiniões em cada categoria sobre quem merece ser reconhecido. Depois fazemos uma lista que passa por um processo de filtragem até chegarmos aos três finalistas.” Entre as categorias a concurso estão música, humor, artes plásticas, literatura, dança moderna, moda, impacto sociocultural, empreendedorismo, desporto, design gráfico, personalidade jovem e edificação das comunidades, além da distinção de Mérito e Honra. Sob o lema “A cultura como factor de unidade nacional”, a edição deste ano surge num contexto político conturbado. Carel Baptista considera que a iniciativa pode desempenhar um papel de aproximação: “Escolhemos este lema porque o país não está num bom momento. Queremos que as pessoas reflictam que a cultura é fundamental para a reconciliação e para a unidade.” A iniciativa, que arranca dia 28 de Março às 18h00 locais, pretende voltar a afirmar-se como um momento de celebração e reconhecimento. “É um evento que une a Guiné-Bissau”, concluiu o organizador, deixando o convite à participação de toda a comunidade.

    8 min
  3. MAR 18

    Katia Guerreiro: "Quero dar asas à minha criatividade, porque preciso muito dela para ser feliz"

    No final da semana passada, a cantora de fado Katia Guerreiro deu um concerto caritativo em Massy, na região parisiense, a favor da luta contra o cancro pediátrico. A artista que celebrou há alguns meses 25 anos de uma carreira que para muitos segue o caminho trilhado por Amália Rodrigues, falou com a RFI algumas horas antes deste concerto. Nesta conversa, a fadista evoca as suas andanças pelo mundo e algumas das suas colaborações marcantes, nomeadamente a que teve com o músico e produtor José Mário Branco, falecido em 2019, ou ainda com o escritor António Lobo Antunes que nos deixou há poucos dias. Katia Guerreiro aborda igualmente o seu olhar sobre o fado depois de 25 anos nos palcos e fala da necessidade que tem, por vezes, de cantar algo diferente, como aconteceu por exemplo no seu mais recente álbum, "Mistura", lançado em 2024. A artista evoca também a sua acção como comissária de "Ponta Delgada - capital portuguesa da Cultura 2026". Um activismo que encara como uma "retribuição" por tudo o que tem recebido dos Açores, onde cresceu. Uma conversa que é também um reencontro, passados mais de vinte anos sobre um primeiro contacto, quando então estava no começo do seu percurso no fado. RFI: No ano passado, comemoraste 25 anos de carreira. Isto passou num instante. Katia Guerreiro: Foi a correr. Nós estávamos a fazer contas. Já não nos víamos há 20 anos, não é? E de repente, olha-se para trás e. E faz-se aqui uma retrospectiva, é um momento retrospectiva e que tem de ser mesmo celebrado. Porque efectivamente, acho que tenho motivos de orgulho grandes por andar aqui há 25 anos. Tudo aquilo que eu já construí, que já dei, mas é também uma responsabilidade acrescida, porque daqui para diante terei de continuar dentro desta minha linha de coerência e de consistência naquilo que faço, porque acho que é isso que o público continua a esperar de mim. São 25 anos muito, muito felizes. E eu comecei a comemorar no dia 18 de Junho no CCB (Centro Cultural de Belém em Lisboa), porque foi essa a data que encontrámos disponível para fazer este concerto naquela sala de que eu gosto muito. Mas efectivamente, foi no dia 6 de Outubro a data oficial de comemoração. Mas continuo a prolongar isto porque me sabe muito bem. Neste ano em particular, que estou muito dedicada a uma outra causa que é a capital portuguesa da Cultura em Ponta Delgada, poder continuar a levar a palco um repertório que construí ao longo destes 25 anos. E o meu plano para este ano é cada concerto ser diferente, construir concertos diferentes cada vez que subir ao palco. E revisitar o repertório que eu deixei de cantar. Porque os repertórios vão-se renovando e vamos deixando alguns temas para trás. Mas já tinha saudades de cantar alguns e então vou sempre recuperando alguma coisa em cada concerto e construindo espectáculos diferentes, o que me dá particular gozo não ter de fazer sempre a mesma coisa. Nunca fiz, mas agora de uma forma mais consciente. RFI: Olhando para trás, como é que vês a tua evolução? O que é que talvez mudou na tua forma de encarar o fado, de encarar o canto? Katia Guerreiro: Eu acho que vou tendo uma cada vez maior maturidade na forma como canto e acho que isso se nota na minha voz. Quando vou revisitar os temas antigos, eu percebo que a minha maturidade na voz vai crescendo. Mas procuro sempre que as palavras sejam cantadas com muita verdade. Mas a minha verdade hoje não é a mesma verdade de há 20 anos atrás ou há 25 anos. Portanto, há sempre aqui camadas que se vão acrescentando de histórias de vida que vão fazendo com que haja mais coisas por detrás das palavras que eu canto e, portanto, uma maior intensidade, mas também uma maior maturidade emocional ao lidar com elas. RFI: Foram muitas viagens, muitas voltas, muitas voltas ao mundo e muitas voltas também interiores. Como é que estas viagens influenciaram o teu trabalho? Katia Guerreiro: Influenciam muito, porque quanto mais eu conheço o mundo, mais me fascino com ele. Também tenho algumas desilusões perante tudo aquilo que nós vamos assistindo, que é a realidade das guerras. Isto perturba-nos a todos. Mas estas viagens que vou fazendo e -repara- quando eu toco neste tema, a mim custa-me horrores. Eu fui cantar a Moscovo pouco tempo antes da guerra, com a Ucrânia rebentar. E a mim dá-me particular pena que o mundo não veja que já chega de ganância. Todos têm a sua quota-parte no mundo e não faz sentido nenhum que continuem a lutar por quererem ter mais. Isso é ganância. Fui a Israel antes de rebentar a guerra com a Palestina. Estive na Palestina. Custa horrores imaginar que aquela gente está a sofrer e que se está a perder vidas todos os dias. Essa é a parte triste da vida, nós conhecermos o mundo e percebemos que o mundo está a ser destruído pela ganância humana. Mas ao mesmo tempo, lá está, mais uma vez, o exemplo de Israel e Palestina. Eu andei a circular livremente no país. Estive na Palestina e estive em Israel e as pessoas são todas iguais. Não há diferença dentro do ser humano, por muito que haja uma cultura diferente e uma forma de viver diferente. A verdade é que as pessoas são todas iguais e isso é o que me encanta no mundo. Perceber que por muito que nós encontremos diferenças na língua, na postura social, na cultura, na religião, a verdade é que depois, por dentro, somos todos iguais. Isso é tão bonito de receber e de partilhar. RFI: Tens trabalhado com grandes nomes, grandes nomes da música, grandes nomes também da literatura, grandes nomes como José Mário Branco. Como é que foi? Katia Guerreiro: Foi das experiências mais ricas que eu tive na minha vida. Em primeiro lugar, porque efectivamente, por preconceito meu ou receio eventualmente, achei que o Zé Mário nunca aceitaria trabalhar comigo, porque nós não nos conhecíamos, não tínhamos nenhuma ligação, não havia nenhuma relação. Mas a verdade é que o Zé Mário era um homem muito grande, de espírito, de alma. E é. O Zé Mário acolheu o meu pedido de trabalhar com ele. E na verdade, se no início havia uma relação estritamente profissional, no fim chegámos ao ponto de termos uma relação quase familiar, de muito carinho, de muito respeito. E o Zé Mário no fim, dizer-me que ganhou uma filha e dois netos, isso foi muito, muito gratificante. Chegar a esse lugar de conquista, não foi uma conquista, porque eu não trabalhei para ela. Foi muito natural, tal como ele é. Mas poder ter o privilégio de trabalhar com um homem maior, como era o José Mário Branco, que me transmitiu tanto conhecimento, tanta sabedoria, tanta maturidade, foi de facto muito enriquecedor e transformou-me profundamente. RFI: E como é que foi com António Lobo Antunes que nos deixou recentemente? Katia Guerreiro: Essa foi uma grande pena que tive também com esta perda, o António Lobo Antunes. A história com ele é muito engraçada. Em 2022, eu estava já a preparar o meu novo álbum e foi o João Mário Veiga que me mostrou um livrinho pequenino de poemas que ele tinha lançado como oferta de um dos romances que ele lançou, não me lembro qual. Tinha poemas absolutamente extraordinários. Tinha coisas muito cantáveis, porque eram formas poéticas muito usadas no fado, mas ele não escreveu para fado. Mas aquilo era tudo muito apetecível. E apeteceu-me imenso cantar aquilo. Mas eu, como sempre, tenho sempre o cuidado de sempre que há um autor vivo -já não posso pedir autorização ao Fernando Pessoa, nem ao Camões- mas quando há um autor vivo, eu tenho o cuidado de abordar o autor e de pedir autorização, porque acho que isso é o mínimo de respeito e educação. E andei atrás do António Lobo Antunes a tentar chegar até ele e tive meses nessa tentativa. Tive vários amigos que o conheciam, que lhe escreveram cartas, que lhe telefonaram. E a determinada altura, há uma carta que chega a bom porto e eu estava a gravar um documentário para o Japão -foram a Portugal gravar um documentário comigo- e estava no camarim a arranjar-me antes de ir gravar. E recebo um telefonema que começa assim "Boa tarde Katia Guerreiro. Daqui é António Lobo Antunes". E a minha resposta foi imediatamente "António!!!!!!". Parecia uma criança! Parecia que estava a ver o Mickey Mouse! Estivemos a conversar algum tempo e foi deliciosa aquela conversa. E a determinada altura eu disse-lhe "António, já sabe que eu quero cantar uns poemas seus, identifiquei este e este e este. Apetecia-me cantar tudo, mas tenho estes preparados. O António autoriza-me?". E ele diz "A menina pode cantar tudo!". E portanto, a partir daí, o António caiu nas boas graças e conhecemo-nos depois pessoalmente, muito pouco tempo depois, porque o Júlio Pomar lançou um livro que tinha o prefácio escrito pelo António Lobo Antunes. O livro ia ser apresentado pelo António Lobo Antunes e então conheci-o nesse dia de apresentação e cantei os poemas do António nessa noite. E pronto, fiquei assim com um carinho muito especial pelo António. Voltei a gravar poemas dele e continuo a cantar António Lobo Antunes sempre e com muito orgulho. E agora canto ainda com mais privilégio na alma. Era de facto um ser superior, com uma visão muito interessante da vida e do mundo, com um realismo muito profundo. E eu vou manter esta alegria de poder ter tido contacto com o António. Foi mesmo uma grande honra. RFI: Nas entrevistas que vais dando, falas muito de "fugir" ou não ao fado. Volta e meia também foges um pouco. Como é que encaras essa "fuga"? Katia Guerreiro: Não é bem fugir. Quando eu faço coisas diferentes, é dar um bocadinho azo à minha liberdade criativa. Eu sou fadista de corpo e alma. Mas eu sofro inspirações várias. Eu não oiço só fado. Eu não cresci, sequer a ouvir fado. Portanto, eu tenho outras referências musicais e elas também me inspiram, também me alimentam. E é uma sensação de respirar

    29 min
  4. MAR 18

    As "Terras do fim do Mundo" em exposição em Paris através da objectiva de Jo Ractliffe

    Jo Ractliffe é uma fotógrafa de lugares, muitos deles devastados pela guerra. Começou nos anos 80 a fotografar a sua terra natal, a África do Sul, e no início dos anos 2000 foi até Angola onde vários anos depois do apogeu da guerra civil encontrou os vestígios de um conflito que dividiu e dizimou o país.   Jo Ractliffe é sul-africana e começou a fotografar nos anos 80, numa altura em que havia cada vez mais contestação interna e também internacional ao apartheid no seu país. Como artista, Jo Ractliffe começou a questionar os limites da fotografia documental e rapidamente adoptou um estilo  que apelida de “política da paisagem”, ou seja, o que uma paisagem nos pode transmitir sobre um país, mas também um tempo, muitas vezes o passado. A fotógrafa continua ainda hoje a questionar a presença do passado no presente e a capacidade de uma fotografia conter o poder da contradição. O Museu Jeu de Paume, em Paris, dedicado à fotografia, decidiu organizar uma retrospectiva de Jo Ractliffe, patente até 24 de Maio, com o nome “En ces lieux”, ou nesses lugares, em português. O percurso começa com algumas das suas primeiras fotografias nos anos 80, muitas realizadas em subúrbios industriais, fábricas abandonadas, campos de realojamento onde a pobreza e as desigualdades sociais eram flagrantes. As imagens na exposição visam esta reflexão da fotógrafa sobre a noção do espaço na História, como explica comissária desta exposição, Pia Viewing. "A exposição inteira foi elaborada e as obras foram selecionadas de modo a reflectir sobre a noção de lugar, de um sítio. Portanto, foi com base nesses diferentes projectos da Jo Ractliffe que selecionámos as imagens da exposição. Isso também significa que essa questão de lugar e espaço é baseada na observação do fotógrafo das propriedades do espaço que foi dividido e separado sob o apartheid e, claro, da segregação racial. Mas não vemos isso directamente nas imagens. Portanto, mais uma vez, estamos diante de um trabalho que sugere, uma obra onde devemos procurar pistas. Somos convidados a observar e a procurar detalhes nas fotografias que nos forneçam informações sobre essa história", disse a comissária da exposição. Em 2007, Jo Ractliffe vai pela primeira vez a Luanda. Angola era então um país recém saído de uma guerra civil que tinha durado quase 30 anos após a colonização de cinco séculos de Portugal. Logo após o fim da guerra colonial e o período da independência em 1975, Angola tornou-se um dos pontos quentes da Guerra-Fria, com a URSS e os Estados Unidos a fornecerem armas e apoio financeiro aos dois lados da guerra civil entre a UNITA e o MPLA. No terreno, outras potencias também se envolveram na guerra civil, como a África do Sul ou Cuba. Com a guerra em Angola a coincidir com os movimentos independentistas da Namíbia face à África do Sul, os sul africanos lutaram ao lado da UNITA nos anos 70 e 80, tendo a batalha de Cuito Cuanavale, a maior batalha da guerra civil angolana, a ter marcado o fim das participações estrangeiras no conflito no país. Mais de 20 anos depois, Jo Ractliffe vai a Angola, primeiro a Luanda e regressa de forma consecutiva nos anos seguintes, fotografando assim as “Terras do fim do Mundo”, nome pelo qual é conhecido o território da província de Cuando Cubango.  Algumas das viagens da fotógrafa a Angola foram realizadas com antigos guerrilheiros sul-africanos para documentar os lugares onde a guerra tinha acontecido e o que restava nas paisagens: minas enterradas, casernas e quarteis abandonados ou fossas comuns dissimuladas pela vegetação. "É interessante ver como Jo Ractliffe forma narrativas com estas imagens e como essas narrativas são alimentadas pelos vestígios deixados nos locais onde ocorreram acções do passado. De facto, há uma sala quase completa na exposição dedicada quase inteiramente à guerra em Angola, desde logo à guerra da independência e aos vários conflitos que se seguiram à independência de Angola em 1975. Portanto, Jo Ractliffe foi a Angola em 2007 e voltou a Angola várias vezes em 2009 e 2010. Ela fotografou coisas diferentes de cada vez, mas as últimas viagens foram acompanhadas por veteranos, especialmente veteranos sul-africanos. E são esses ex-soldados que vão ajudá-la a descobrir o território de uma maneira diferente e, em particular, a história da participação da África do Sul nessa guerra obscura, atroz, com milhares e milhares de mortes. Foi uma guerra que durou muito tempo, desde a independência em 75 até ao início dos anos 2000. Portanto, é muito interessante descobrir como esta artista não se concentrou na guerra em si, como faria um fotojornalista, e não mostrou directamente as atrocidades e os horrores da guerra. E acho que é interessante observar o seu trabalho hoje, quando o mundo está totalmente invadido por imagens de todos os tipos de violência e de guerras muito sangrentas. É extremamente interessante ver como uma artista pode ter uma abordagem sensível e poética e também, eu diria, de forma mais distante mas não menos comprometida, ficando assim a ideia de mostrar esses traços da guerra e acompanhar com os textos a descoberta dessa história que é profunda - já que, no caso da África do Sul, o apartheid dura desde o início do século XX", detalhou Pia Viewing. Nas fotografias de Jo Ractliffe, maioritariamente a preto e branco, não há violência, não há feridos, não há mortos, não há combates e não há armas, mas há tudo que fica de um conflito: paisagens nuas - já que sabemos que a vida animal do Sul de Angola foi devastada pelos conflitos -, pobreza, desolação e abandono. E isso faz com que estas fotografias pudessem ser tiradas em qualquer lugar do Mundo que viveu a crueldade de um conflito armado. Ao mesmo tempo, o Museu de Jeu de Paume, mostra numa outra exposição as fotografias de Martin Parr, um fotógrafo britânico que se assumia como documentarista e que através de cores exuberantes e fotografias inusitadas mostrava as contrariedades do Mundo em que vivemos. Duas maneiras de mostrar o Mundo, duas visões que Pia Viewing considera interessante ter lado a lado neste museu parisiense. "Martin Parr estava absolutamente determinado a documentar o mundo. Então, ele pensou: 'Sou um fotógrafo documental', enquanto Jo Ractliffe tem uma atitude um pouco diferente em relação ao documentário. Ela não tenta ser como ele nem como o seu acólito, David Goldblatt, por exemplo, um conhecido fotógrafo sul-africano que documenta o mundo de forma a fornecer informações directas sobre o mundo real. Ela está mais interessada em criar uma relação com a literatura, com a poesia, com essas influências, eu diria que são bastante literárias. Mas claro que as duas exposições estão a acontecer ao mesmo tempo, e acho que a atracção do público por Martin Parr. É interessante para Jo Ractliffe, porque muitas pessoas descobrem o trabalho de Ractliffe por causa do seu interesse por Martin Parr, e elas vêm ver a exposição por causa da exposição de Martin Parr. Mas acho que também é muito interessante para nós, Jeu de Paume, mostrar estas duas atitudes muito diferentes em relação a como documentar o mundo e como a fotografia pode ecoar directamente a atitude do fotógrafo em relação ao mundo ao seu redor", concluiu. A exposição de Jo Ractliffe, “En ces lieux”, pode ser vista até dia 24 de Maio no Museu Jeu de Paume, em Paris.

    9 min
  5. MAR 10

    “É urgente” salvar as línguas crioulas de São Tomé e Príncipe

    As línguas crioulas de São Tomé e Príncipe estão em risco de extinção e é urgente agir. A constatação tem vindo a ser feita ao longo dos anos, mas não tem havido a necessária revitalização destas línguas, pelo que elas “enfrentam um risco agravado de desaparecer ao longo do tempo”.  Neste programa, convidámos o linguista Tjerk Hagemeijer para compreendermos o tema e tentarmos perceber o que fazer para salvar os crioulos de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é “um caso único em África, linguisticamente falando”, começa por dizer Tjerk Hagemeijer, explicando que a antiga língua colonial, a portuguesa, se tornou na “língua nativa dominante”, ou seja, mais falada pela população a uma escala até agora sem paralelo noutro país. Essa ascensão do português começou no final século XIX com “uma reviravolta social e linguística” ligada à abolição da escravatura e à contratação dos serviçais oriundos de Cabo Verde, Angola e Moçambique. O movimento foi-se acentuando e nem o ímpeto das lutas de libertação, nem a chegada da independência contrariaram o crescimento do português como língua franca, falada actualmente por mais de 98% da população de São Tomé e do Príncipe. O professor do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, que tem vindo a estudar este fenómeno há anos, acrescenta que paralelamente à adopção generalizada do português, as línguas locais – forro, lung’ie e angolar - foram-se diluindo. No último censo de 2012, o forro era falado por cerca de 36%, o angolar por mais de 6% e o lung'ie por 1%, “mas provavelmente 1% inflacionado porque serão muito menos falantes”, estimados em “algumas centenas” na ilha do Príncipe. Ou seja, é das três línguas fragilizadas, aquela que enfrenta “um iminente risco”, sublinha Tjerk Hagemeijer. Apesar da consciência do património histórico e linguístico e da noção do seu declínio, na prática “não existe verdadeiramente uma política linguística no sentido de activamente promover estas línguas”, mesmo que tenha sido aprovado, em 2013, um Alfabeto Unificado das Línguas Nativas de São Tomé e Príncipe. Por outro lado, já quase não há transmissão das línguas crioulas entre gerações e persistem atitudes estigmatizantes relativamente às línguas minoritárias, o que não estimula a manutenção desse património. “Para salvar a língua, todo o tempo é pouco, é uma questão urgente”, avisa o docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e especialista nos crioulos do Golfo da Guiné. Entrevista a Tjerk Hagemeijer: “As línguas crioulas entraram em risco de extinção” RFI: Em 2018, o professor já tinha escrito um artigo em que falava sobre São Tomé e Príncipe, explicando que era um caso à parte em África, linguisticamente falando. Em que consiste esse caso à parte? Tjerk Hagemeijer, Investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa: “Em São Tomé e Príncipe há um contexto de multilinguismo, portanto, há uma língua oficial, que é o português, que convive com várias línguas crioulas: o forro, o angolar, o lung'ie e também o cabo-verdiano por causa da própria história, sobretudo o século XX, de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é um caso em que, sobretudo a partir de finais do século XIX, altura em que o país ainda era um país crioulófono, começou a ter cada vez mais falantes do português, não necessariamente como língua materna, mas houve claramente uma ascensão da língua portuguesa por causa da história de São Tomé e Príncipe, do chamado regime do contrato dos trabalhadores de fora: de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique que foram trabalhar para as empresas agrícolas de São Tomé e Príncipe e que muitas vezes adoptaram o português como língua de comunicação. Portanto, o português foi crescendo como língua franca, cada vez mais, em detrimento das línguas crioulas. Houve também um período, a chamada Segunda República, em que claramente a população começou a assimilar cada vez mais o português porque era uma língua de ascensão socioeconómica. Chega a Independência, altura em que o português se torna a única língua oficial, a língua da administração (que já era), da escola (que já era), mas ganha um estatuto ainda mais democrático a nível do país de São Tomé e Príncipe. Enfim, ao longo desse tempo, os crioulos foram perdendo falantes e, hoje em dia, o português é amplamente falado por todos os são-tomenses e principenses, cerca de 98% da população fala essa língua, de acordo com o censo disponível de 2012. É um caso único no sentido em que não há, tanto quanto sei, nenhum outro caso em África em que há tantos falantes e, sobretudo, também muitos falantes nativos da antiga língua colonial. Os custos são, sobretudo, para as línguas crioulas que se tornaram cada vez mais minoritárias e que entraram em risco de extinção, portanto, estão em declínio e apresentam diferentes riscos do ponto de vista da sua continuação no tempo.” A antiga língua colonial, o português, tornou-se a língua nativa dominante da população e isto comporta o risco de extinção das outras línguas, é assim? “Exactamente.” Como é que historicamente se explica que a antiga língua colonial, o português, se torne na língua mais falada? “Recuando até ao tempo do povoamento das ilhas de São Tomé e Príncipe, em que, sobretudo há uma situação de contacto linguístico entre o português e línguas africanas continentais que dá origem a uma língua que, hoje em dia, chamamos de proto-crioulo do Golfo da Guiné. Portanto é uma nova língua de contacto, um crioulo que se vai desdobrar em diferentes línguas. O forro, o angolar, o lung'ie e também uma língua falada na ilha de Ano-Bom que já não é território português, mas era naquela altura. Estas línguas de São Tomé e Príncipe tornaram-se as línguas dominantes daquele espaço porque a presença portuguesa era geralmente muito reduzida, o modelo da língua portuguesa não estava muito presente e seguramente, até finais do século XIX, as línguas crioulas eram as línguas mais faladas pela população. Claro que as elites, as pessoas mais ligadas à administração, o clero, etc, falavam português, mas estamos a falar de uma minoria. A partir de finais do século XIX, esta situação muda porque há, em primeiro lugar, a abolição da escravatura no último quarto do século XIX e, nessa altura, o regime colonial precisou de mão-de-obra para trabalhar, sobretudo, nas empresas agrícolas onde se produzia cacau. São Tomé era um grande produtor de cacau e tinha sido, no século XVI, na primeira fase de açúcar. Portanto, o estratagema encontrado para colmatar a falta de mão-de-obra - porque os que tinham sido escravos recusavam-se a trabalhar nas empresas agrícolas - era ir buscar cabo-verdianos, moçambicanos, portanto, os chamados contratados ou serviçais. Esta situação leva a uma reviravolta social porque estamos a falar de grandes números de pessoas de fora, de falantes de outras línguas e, também por essa razão, de uma reviravolta linguística porque é nessa altura que o português começa a ganhar mais terreno porque a língua praticada nas empresas agrícolas era sobretudo o português. Os donos dessas empresas eram tipicamente portugueses, falantes do português e o modelo do português era praticado nesses espaços.  Ou seja, a nova população ajusta-se cada vez mais ao português. Depois há um período também, ainda antes da independência, em que há uma espécie de proibição oficiosa dos crioulos e muitos forros apercebem-se da importância da língua portuguesa e vão adoptar também o português na comunicação, mesmo que às vezes de pais para filhos, de pais crioulos falantes para filhos que não podiam, por exemplo, responder em forro aos próprios pais. Todas estas mudanças na sociedade levaram à gradual ascensão da língua portuguesa.” Mas não seria de esperar que a própria independência, em que a cultura era factor de emancipação e arma de luta, reforçasse os crioulos, como em Cabo Verde e na Guiné, ? “Nós assistimos, ao longo do século XX até à altura da independência, à ascensão da língua portuguesa. Mas tem razão na questão que coloca porque a independência é uma nova oportunidade para valorizar o património linguístico cultural que é próprio dessas ilhas. Houve, de facto, depois da independência, um momento em que se tentou valorizar mais as línguas crioulas, através de festivais, cancioneiros, etc. Houve algumas publicações, mas nunca houve verdadeiramente uma iniciativa política do Estado no sentido de, por exemplo, dar um estatuto oficial ou co-oficial a estas línguas e não houve também verdadeiramente um investimento. O investimento foi todo para a língua portuguesa. É claro que isso significa que, hoje em dia, esses crioulos continuam a ser cada vez menos falados porque as pessoas são cada vez mais escolarizadas, são escolarizadas em português, existem várias línguas crioulas e uma língua portuguesa. Portanto, do ponto de vista da comunicação entre os diferentes grupos, o português funciona como língua franca. Tudo isso acaba por levar a esta situação em que temos hoje, numa antiga colónia em África, tantos falantes da antiga língua colonial. Não há nenhum outro contexto em África, embora o fenómeno também aconteça até certo ponto, em Angola e em Moçambique, mas não na mesma escala que em São Tomé e Príncipe.” A antiga língua colonial torna-se na língua oficial exclusiva. Por que é que as línguas nativas ou as línguas nacionais, os crioulos, não são línguas de pleno direito, não têm um estatuto legal até hoje, em 2026? “Por uma razão muito simples: porque ter um estatuto oficial, ter um estatuto dif

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  6. MAR 3

    Resgatar imagens das lutas de libertação é “gesto urgente” no mundo actual

    Neste programa, vamos falar sobre a publicação "Resistência Visual Generalizada: Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação", organizada por Catarina Boeiro e Raquel Schefer e que foi apresentada a 26 de Fevereiro em Paris. A obra reúne um conjunto de livros, fotografias, revistas e boletins dos movimentos de libertação produzidos entre as décadas de 1960 e 1980, no contexto das lutas anticoloniais de libertação e dos primeiros anos de independência em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Raquel Schefer falou-nos sobre este projecto que também se materializou em exposições, e lembrou que recolocar em circulação imagens de há mais de 50 anos “é um gesto urgente” perante a situação política mundial actual e perante a invisibilização de lutas históricas. A obra "Resistência Visual Generalizada: Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação" debruça-se sobre um conjunto de livros de fotografia publicados durante as lutas de libertação dos países africanos de língua portuguesa e sobre publicações editadas pouco depois das independências. O projecto é da autoria de Catarina Boeiro e Raquel Schefer e começou em 2018 quando as investigadoras obtiveram uma bolsa para um projecto curatorial sobre o tema, algo que resultou em exposições no Instituto Nacional de História da Arte, em Paris, entre Novembro de 2021 e Janeiro de 2022, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional – Galerias Municipais de Lisboa, entre Setembro e Novembro de 2022, e, em versão reduzida, no âmbito da 10ª Mostra de Cinema Anti-Racista (MICAR), organizada pela associação SOS Racismo, no Batalha Centro de Cinema, no Porto, em Novembro de 2023. A publicação constitui um arquivo visual e textual dos materiais exibidos nas exposições, dando-os a conhecer, contextualizando a sua produção no âmbito dos movimentos emancipatórios das lutas de libertação e recolocando-os em circulação como “um gesto urgente” contra um certo “apagamento” histórico e visual e “tendo em conta a situação política mundial actual”, sublinhou Raquel Schefer. “Esse conjunto de livros é um retrato eloquente do paradigma de emancipação das décadas de 60 e 70 dos processos de descolonização dos países africanos, mas também das redes de solidariedade internacionalista desse período porque - sobretudo na primeira etapa correspondente às lutas de libertação - os fotógrafos e jornalistas que viajavam às zonas libertadas de Angola, Moçambique e da Guiné-Bissau eram fotógrafos internacionalistas como Augusta Conchiglia, que é italiana, o Uliano Lucas, também italiano, o Tadahiro Ogawa, um fotógrafo japonês, entre outros exemplos. Consideramos e constatamos, tanto eu como a Catarina, que há um processo de revisão da história em curso e mesmo um processo de reordenação semântica, de apagamento do paradigma de emancipação das décadas de 60 e 70, de apagamento das suas visualidades, e parece-nos mesmo um gesto urgente, tendo em conta a situação política mundial actual, recolocar essas imagens e essa História em circulação”, disse à RFI Raquel Schefer. A professora de cinema na Universidade Sorbonne-Nouvelle lembrou que, nos tempos das lutas de libertação, há pouco mais de meio século, “a produção de imagens revelou-se como uma arma no quadro das lutas de libertação”. Por um lado, porque através das imagens fotográficas e cinematográficas se podia documentar a luta de libertação e, nomeadamente, as novas formas de organização social e de pedagogia que eram desenvolvidas nas zonas libertadas. Por outro lado, porque não se tratou apenas de documentar, “tratou-se também de reinventar a estética e, nesse sentido, essa própria descolonização da estética é - e era - uma arma de libertação, para citar Amílcar Cabral”. Na introdução da obra, Catarina Boeiro e Raquel Schefer assumem que “o gesto de reunir e apresentar um conjunto de livros e documentos que oferecem, tanto em termos historiográficos, quanto em termos visuais, o reverso da narrativa veiculada em Portugal, tanto no contexto educativo, quanto no quadro mediático, poderá contribuir para a complexificação da perspectiva histórica relativa ao colonialismo português e às lutas de Libertação anticoloniais, bem como aos seus prolongamentos no presente”. Por sua vez, no prefácio, o sociólogo Miguel de Barros fala da publicação como “um acto político” e “reparador” por “resgatar a memória de uma etapa da história protagonizada pela mobilização dos povos africanos subjugados que buscavam a sua emancipação” e por gerar “espaço para educar novas gerações no Norte Global”. Questionada sobre se “Resistência Visual Generalizada” é, de facto, uma forma de denunciar uma certa narrativa histórica oficial e até a continuidade de uma lógica colonial no presente, Raquel Schefer admite que quiseram “colocar em paralelo o passado e o presente e mesmo estabelecer uma linha de continuidade entre o passado colonial e as manifestações, estruturas e formações coloniais no presente”. “Por um lado, consideramos que na sociedade portuguesa, tal como na francesa e na Europa em geral, o colonialismo se mantém vivo através de divisões de classe e de raça, através do racismo. Também constatamos esse processo de reescrita da História que tende a invisibilizar a história das lutas de emancipação e libertação do século XX. Por outro lado - se calhar agora ainda mais do que quando iniciamos o processo de investigação em 2018 - o colonialismo está vivo e é manifesto em certos acontecimentos e processos da actualidade, como o genocídio na Palestina, no Sudão, no Congo, entre outras zonas geopolíticas, ou também no desrespeito total pelo direito internacional e pelo sistema multilateral implementado depois da Segunda Guerra Mundial, como vemos, por exemplo, nos bombardeamentos da Venezuela e no rapto do seu Presidente ou nos bombardeamentos do Irão ainda em curso”, acrescentou. Oiça a entrevista completa no programa ARTES desta semana.

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  7. FEB 25

    “África é um continente riquíssimo em termos de património natural e cultural”

    O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, reafirmou o compromisso com a valorização do património africano, defendendo que a riqueza natural e cultural do continente deve ser colocada ao serviço do desenvolvimento sustentável. O estadista defendeu que o património africano, muitas vezes “silenciado”, deve ganhar visibilidade e integrar a lista de Património Mundial da UNESCO: “Queremos que mais países inscrevam o seu património natural e cultural”. Na qualidade de Champion da União Africana para a Preservação do Património Natural e Cultural de África, o chefe de Estado de Cabo Verde sublinhou que “África é um continente riquíssimo em termos de património natural e cultural” e alertou para a necessidade de transformar esse potencial em oportunidades concretas: “É preciso colocar toda esta riqueza ao serviço do continente africano”. À margem da 39.ª Sessão Ordinária da Assembleia da União Africana, que decorreu em Addis Abeba, o Presidente de Cabo Verde liderou um evento de alto nível subordinado ao tema “Património Mundial e Segurança Hídrica em África: Construir Caminhos para a Sustentabilidade e a Agenda 2063”, promovido por Cabo Verde no quadro das comemorações do 20.º aniversário do Fundo Africano para o Património Mundial. José Maria Neves defendeu que o património africano, muitas vezes “silenciado”, deve ganhar visibilidade e integrar a lista de Património Mundial da UNESCO: “Queremos que mais países inscrevam o seu património natural e cultural”. “O que pretendemos é que o património natural e cultural africano seja uma alavanca para o desenvolvimento sustentável do continente”. Segundo o Presidente, investir na preservação pode impulsionar sectores estratégicos: “O património pode levar ao crescimento do turismo, dos transportes, das indústrias criativas, à criação de emprego e de novas oportunidades para a juventude africana.” O estadista apelou ainda ao reforço do financiamento internacional e ao envolvimento do sector privado. “É preciso estimular as agências internacionais no sentido do financiamento da preservação”, defendendo que também os privados devem alocar recursos ao fundo africano. Segundo o chefe de Estado, está em curso um esforço de sensibilização junto de Estados-membros, parceiros internacionais e sector privado. “Falamos em mobilizar recursos em torno de 20 milhões de dólares americanos para o relançamento do seu trabalho”, afirmou, clarificando, contudo, que a fase actual não é ainda de angariação directa de montantes. “Está-se a fazer mais um trabalho de sensibilização e não um trabalho de recolha de valores específicos neste momento”, explicou. No plano nacional, José Maria Neves revelou que Cabo Verde tem projectos a serem trabalhados com o Fundo Africano para o Património Mundial. Entre eles, destacou a candidatura do Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial e o processo relativo aos Escritos de Amílcar Cabral. O país já conta com a Cidade Velha classificada pela UNESCO, estando em curso o levantamento de “patrimónios silenciados” para valorização futura . O Presidente destacou a ligação entre património e segurança hídrica, apontando a gestão sustentável da água como factor crítico para o futuro do continente. “Fizemos referência à relação entre a água, os recursos hídricos e o património mundial, enquanto instrumentos que poderão levar-nos ao desenvolvimento sustentável e ao cumprimento da Agenda 2063”, referiu, assinalando a “grande abertura” das agências parceiras para apoiar iniciativas nesta área. “O património natural e cultural são as nossas catedrais e basílicas”, concluiu, defendendo que a sua preservação pode contribuir “enormemente para o crescimento da economia e para a melhoria das condições de vida dos africanos”.

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  8. FEB 18

    Beatriz Batarda é a madrinha da segunda edição do festival de cinema "Olá Paris!"

    A actriz portuguesa Beatriz Batarda é madrinha e convidada especial da edição deste ano do festival "Olá Paris!" que mostra na capital francesa uma selecção de cinema português aberta ao público e aos profissionais do cinema francês. O Festival Olá Paris volta à capital francesa com uma segunda edição, destacando o trabalho dos realizadores e actores portugueses, com a estreia de vários filmes e uma nova madrinha. Se na primeira edição, esta distinção coube a Maria de Medeiros, em 2026 a madrinha do Festival Olá Paris, que decorre entre 6  e 8 de Março, é Beatriz Batarda, uma das actrizes mais destacadas da sua geração. Em entrevista à RFI, a actriz explica a sua afinidade com a França e com a língua francesa, assim como os dois filmes que protagoniza e que poderão ser vistos em Paris durante o Festival. “A minha família materna é francesa e emigrou para Portugal no final dos anos 30, se não me engano, e portanto ainda tenho alguma família em França e fiz aqui o Liceu Francês em Lisboa porque os meus avós faziam questão e por isso essa, essa relação com a cultura francesa esteve sempre viva. Como é que eu vou parar a este lugar através do convite? Não sei o que é que lhes passou pela cabeça convidarem-me, mas penso que terá sido também esta sensação de facilidade, não com a língua, porque eu já não falo tanto francês como como falava antes, mas essa compreensão, se calhar desse encontro, desse lugar, desse encontro das duas culturas. Eu sempre tive essa sensação de que eu não não era nem francesa nem portuguesa. Era um lugar próprio”, explicou a actriz. Em Paris, da primeira edição, onde esteve presente também com dois filmes, Beatriz Batarda guarda sobretudo as abordagens dos espectadores franceses, interessados no cinema pelo seu valor intrínseco, independentemente de ser ou não cinema português. Para esta edição, Beatriz Batarda assume ter tido algumas trocas com a organização e assume que as escolhas do cartaz são ousadas. Nesta segunda edição, Beatriz Batarda protagoniza dois dos filmes apresentados: “18 buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, e “O Vento Assobiando nas Gruas”, assinado por Jeanne Waltz a partir do romance de Lídia Jorge. Duas películas actuais e que falam de temas prementes tanto em Portugal como em França. “[O Vento Assobiando nas Gruas] Fala da impossibilidade de deixar o colonialismo para trás. É a utilização das mulheres para preservar uma postura machista e colonialista perante os outros. A personagem que eu interpreto é uma mulher que é completamente dominada pelo universo masculino e que para ganhar algum poder ou para se impor em relação ao resto da família, masculiniza-se ela própria e tem um pensamento muito pouco solidário com as mulheres, ou com a fragilidade ou com a diferença. E o filme do João Nuno não é menos pertinente, porque também é uma uma proposta com uma crítica interessante sobre a venda do território português aos grandes grupos que compram assim hectares e hectares e que depois tentam transformarem em resorts e ocupam uma zona do país mais a sul, que é muito bonita de facto e que é muito agradável e o clima é muito agradável, mas que tem poucos recursos de água. Essa água é preciosa para a agricultura e para o gado e para as populações locais. E, portanto, levanta essa questão dessa drenagem sem qualquer limite, sem qualquer regra. Dos poucos recursos da terra”, concluiu.

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Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

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