Artes

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

  1. 1d ago

    "A Nação Começa no Coração", um livro que quer fazer reflectir a sociedade são-tomense

    Kemilson D’Almeida, jovem jornalista são-tomense, escreveu "A Nação Começa no Coração – Reconstruindo o que o ódio, a divisão e a falta de caráter destruíram" para travar as clivagens no seio da sociedade são-tomense e promover uma vida política mais saudável para todos os intervenientes, especialmente para o futuro do país. Com histórias, metáforas e reflexão, o jovem são-tomenses Kemilson D’Almeida quer através do seu livro "A Nação Começa no Coração – Reconstruindo o que o ódio, a divisão e a falta de caráter destruíram" que os são-tomenses criem um novo caminho para a democracia. Um caminho onde a difamação, os rumores e as ofensas não têm lugar na vida política e onde a sociedade são-tomense consiga projectar-se num futuro melhor para todos.  Kemilson D’Almeida acredita que isto é possível se cada cidadão se responsabilizar pelos seus actos e se a educação cívica se fizer a partir da mais tenra idade. "A ideia surgiu justamente por observar algumas coisas na sociedade, sobretudo em São Tomé e Príncipe. Venho vendo pessoas atacando o outro, odiando o outro, difamando o outro. Então surge aí uma pergunta muito importante que é se nós queremos desenvolver uma nação: será que vamos desenvolver a nação odiando ou amando o outro, destruindo o outro? Então surge a ideia de escrever o livro A Nação começa no Coração. Isto porque se nós queremos desenvolver uma nação, independentemente do país que seja, é necessário nós mudarmos", explicou o autor. Kemilson D’Almeida vive actualmente em Portugal e é jornalista da RSTP – Rádio Somos Todos Primos, integrando também a Associação dos Jovens Escritores Santomenses (AJES) desde a sua fundação. Face às eleições legislativas que se realizam em São Tomé e Príncipe a 27 de Setembro, Kemilson D’Almeida mantém-se positivo. "Eu estou convicto de que podem vir a realizar de uma forma tranquila, porque antes das eleições presidenciais, eu tinha uma visão diferente de que viria a ser uma coisa, um clima muito forte, de muita divisão, com muita confusão, mas pelos vistos não é o que aconteceu. A sociedade, a nação são tomense conseguiu mostrar uma realidade totalmente diferente. E para estas eleições legislativas, autárquicas e regionais, eu acredito profundamente que vai decorrer num clima de paz, num clima de de muita serenidade e acima de tudo, eu estou convicto de que isso possa vir a acontecer e caso não aconteça, será mais uma decepção", concluiu. O livro "A Nação Começa no Coração – Reconstruindo o que o ódio, a divisão e a falta de caráter destruíram" está actualmente disponível na Amazon.

  2. Aug 4

    'Chef' cabo-verdiana Alia dos Santos: "A alma do sucesso está no amor pelo que a pessoa faz".

    Neste magazine "Artes" debruçamo-nos uma forma de arte que faz parte do nosso quotidiano e que todos nós podemos -a certa altura- praticar: a gastronomia e mais concretamente a doçaria e a pastelaria. A conhecida 'chef' cabo-verdiana Alia dos Santos acaba de lançar o seu segundo livro de receitas, 'Sobremesas e Surpresas', uma obra que, como o título indica, apresenta diversos doces, bolos, sumos, gelados e também petiscos de Cabo Verde. Fundadora do conhecido 'Quintal da Música', na Cidade da Praia, um espaço que é simultaneamente uma sala de concertos e um restaurante que em 25 anos de existência se tornou um pólo incontornável da cultura do arquipélago, Alia dos Santos diz pretender dar a conhecer os saberes e os sabores do seu país. Em conversa com a RFI, ela fala dos momentos de convívio que a preparação de festas pode proporcionar, as reminiscências da infância ligadas ao 'bolo mármore' e ao doce de batata-doce e a importância de manter vivas as tradições gustativas do seu país. "O livro fala sobre a história da gastronomia cabo verdiana, mais concretamente doces. É um livro que traz receitas típicas de Cabo Verde e algumas internacionais, mas com mais destaque à nossa tradição e não só, sobremesas, petiscos, coquetéis, a famosa 'Banana Flambée" e também sumos naturais da terra", começa por dizer a 'chef' que ao detalhar o conteúdo das mais de duzentas páginas de delícias que tem a sua obra, explica ter optado por fazer uma edição bilingue português-inglês "porque Cabo Verde está por todo o lado (...) porque temos filhos de cabo verdianos que praticamente já não falam o crioulo e nem o português". A autora que confessa ter um gosto particular pelo 'bolo mármore' "porque o pai gostava muito de bolo de mármore e que se fazia muito em casa", também tem uma certa inclinação que lhe vem da infância pelo doce de batata-doce, "muito fácil de fazer, não leva muito açúcar". Aos bolos também liga momentos de convívio privilegiados durante a preparação de festas como baptizados e casamentos. "As pessoas reúnem-se para preparar a festa, não só para fazer bolos, mas também confeccionar pratos e cachupa, feijoada e outras coisas mais. As sobremesas também. Estar aí reunido com amigos, família e convidados, é muita alegria", diz. Ao evocar o seu percurso que a levou primeiro para a administração pública antes de enveredar em 1995 para a sua paixão pela culinária, a 'chef' confessa que no começo "foi desafiante". "No início comecei com poucos recursos, mas ao longo dos anos fui aprendendo com erros e também com outras pessoas, pessoas que têm mais experiência", lembra Alia dos Santos que dirigindo-se às jovens gerações diz "para não terem medo, porque muitas vezes a pessoa pensa que para ficar perfeito tem que ser logo à primeira. Não. Vamos começar com o que temos aí. Com o andar dos anos, vamos aprender a melhorar o trabalho. E não esquecer que a alma do sucesso está no amor pelo que a pessoa faz". Numa altura em que tem estado fora do arquipélago, em Portugal e nos Estados unidos para promover o seu novo livro, a 'chef' deixa antever o que será o seu terceiro livro, um projecto mais introspectivo, uma autobiografia. "Falo da minha infância, da minha trajectória na administração pública e a minha trajectória em dois espaços diferentes, porque antes de trabalhar no 'Quintal da Música', já tinha um outro espaço que é o bar-restaurante 'A Esquina', onde eu fazia também de tudo um pouco, desde a pastelaria e culinária. E veio culminar com o 'Quintal da Música', que é um espaço de cultura e da gastronomia", diz a autora.

  3. Aug 3

    Luís Represas (1956-2026) representou uma "passagem na área da música popular em Portugal"

    O português Luís Represas celebrava este ano 50 anos de carreira, tendo sido um dos mais importantes músicos do seu país. Morreu a 22 de Julho, com 69 anos, vítima de doença prolongada. A RFI passou em revista o legado de Represas com o musicólogo luso Pedro Félix. O Presidente português, António José Seguro, lembrou-o com emoção, descrevendo-o como um "músico de excepção, com um timbre de voz inigualável, que muito contribuiu para a afirmação e defesa da língua portuguesa". Já o Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que a sua canção Timor "fazia chorar as pessoas mais insensíveis". Foi a voz dos Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril, conhecida por êxitos como Perdidamente ou 125 Azul. Com a separação do grupo, em 1992, Luís Represas iniciou uma carreira a solo, aproximando-se de uma vertente mais pop. Citamos o seu maior êxito, Feiticeira, lançado em 1993, em colaboração com o compositor cubano Pablo Milanés, falecido em 2022. O musicólogo luso Pedro Félix, em entrevista à RFI, resume-nos o extenso legado de Luís Represas, começando por realçar a sua importância na transição que veio a marcar a música portuguesa. O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada.  O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto. Depois, ao longo do tempo, vão-se afastando dessa matriz, eventualmente ainda com eco de uma certa ruralidade, para uma música urbana, com temáticas urbanas novas que, num processo que começa, no Baile no Bosque (1981) e que se prolonga, diria até o disco Sepes (1988), aí com uma certa poesia e até com alguns elementos surrealistas. Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul. Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais.  E é este legado que consolidam numa carreira, todo um processo de mudança na música popular portuguesa que começa, no pós 25 de Abril, com uma canção de intervenção, que depois se torna progressivamente urbana, com temáticas urbanas denotando influências musicais internacionais e depois se tornam sucessos pop como 125 Azul. A banda Trovante formou-se em 1976, contribuindo para a actualização da música de intervenção nos primeiros anos do pós-revolução. Mas também trouxe uma abordagem mais moderna à música tradicional, recorrendo a elementos da música folclórica. Como é que os Trovante reflectiram o fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos? O que trouxeram para o repertório musical no pós-25 de Abril?  O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe. Há também a utilização da poesia de poetas mobilizados politicamente. No último álbum com os Trovante, Luís Represas gravou Timor, música dedicada à luta pela independência do povo timorense. O Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que esta canção foi um «canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência que despertou consciências». Qual foi a importância desta música na carreira de Luís Represas, nomeadamente para o seu reconhecimento para além de Portugal? Aqueles anos foram anos de grande mobilização de toda a população pela causa timorense. E Timor tornou-se uma canção, quase diria uma espécie de hino informal ou dádiva de um hino informal para um movimento de autodeterminação que mobilizou toda a gente. Apelando um pouco à  minha idade, lembro-me bem da ocupação do espaço público, com manifestações absolutamente avassaladoras que ocuparam a cidade toda, as cidades todas. Havia todo um movimento social pela causa e que esta música foi efectivamente o hino informal de todo esse movimento. Acho que é um momento histórico, obviamente, para a carreira de qualquer músico, e para o Luís Represas, em particular. Depois da separação dos Trovante, Luís Represas lançou-se numa carreira a solo. O que nos pode dizer sobre essa carreira? A carreira a solo do Luís Represas é também fruto de uma ligação a uma tradição latino-americana, da qual ele falava muito, sobretudo da sua ligação a Cuba. Eu inscreveria mais numa espécie de continuação do grupo Trovante. A carreira a solo acaba por ser o trabalho dele, quando o grupo acaba por se separar, mas que ainda há este material na sua cabeça que precisa de ser gravado e cantado e tocado  ao vivo. Vejo muito na continuidade de toda esta história dos Trovante. Luís Represas continuou a sua ligação com a lusofonia. Miragem foi o seu último álbum, de 2024, descrito como uma ponte musical entre Portugal e o Brasil. Como é que analisa este último álbum? Para já, é muito interessante ver todo o universo de colaborações que Luís Represas estabeleceu: o Ivan Lins ou a Zélia Duncan serão eventualmente os nomes mais visíveis.  De certa forma, também fazem eco de todo um processo global, numa tentativa de criar algo novo a partir de materiais musicais que são identificáveis com determinadas geografias. Neste caso, sobretudo, o Brasil. Os Trovante passaram pelo rock progressivo, nos seus inícios, e, mais para o final, aproximaram-se da pop. A solo, Luís Represas também esteve mais ligado à pop, a uma canção mais romântica. No fundo, por que género musical ficará Luís Represas conhecido? Quando digo romântica – preciso esclarecer que não é propriamente romântica no sentido do nacional cançonetista que nós estávamos habituados – é uma nova narrativa modernizada. A canção 125 Azul é eventualmente a síntese desta visão ternurenta desse sentimento juvenil que começa a emergir.  Era algo que no fim dos anos 80, ainda não tinha propriamente uma "voz", e eu acho que, de certa forma, aquela canção é uma síntese desse mesmo processo. Luís Represas teve rapidamente o reconhecimento da crítica e do público, mas também um reconhecimento institucional, tendo sido condecorado pelo então Presidente português Jorge Sampaio, em 2005. O que significa, para um artista, ter todo este reconhecimento? Em termos da produção discográfica, aquela dupla do disco Baile no Bosque (1981) e Cais das Colinas (1983) foram eventualmente os primeiros grandes sucessos com grande impacto público. A canção Saudade é um belíssimo exemplo desse período. E gostava também de lembrar que já o disco Trovante 84 (1984), com os "caravelas" (Xácara das Bruxas Dançando) é um disco de enormíssimo impacto público. Esse reconhecimento, diria que começa em crescendo no início dos anos 80, obviamente que depois a condecoração é sempre um momento alto em qualquer biografia: é uma espécie de tributo do Estado a reconhecer o peso e o trabalho daquele criador. Obviamente que não só é um elemento fundamental para a biografia de quem é condecorado, como se torna um marco no contexto da música ou de qualquer produção artística em que é o Estado, todos nós, a reconhecermos que aquela pessoa se distingue na sua produção. É um marco para os dois lados, para quem atribui a condecoração – todos nós, por via do Presidente da República –  e de quem recebe, neste caso o Luís Represas. O que eu propunha era ouvirem as músicas, toda a carreira do grupo Trovante e do Luís Represas, que isso é que de facto é a grande memória e que nós podemos deixar a um músico, não é? É continuar a ouvir as músicas deles. Luís Represas deixou perto de cinco décadas de um vasto legado à música portuguesa, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto, marcados para Abril de 2027. Mateus Santa Rita

  4. Jul 16

    Peça “Nasr et Dinn” leva “liberdade, tolerância e muita ternura” ao Off Avignon

    A peça de teatro “Nasr et Dinn” revisita o universo de uma personagem lendária do mundo oriental, famosa pelas suas histórias curtas que misturam humor e sabedoria popular. O espectáculo está no Festival Off Avignon até 25 de Julho e fomos conversar com a actriz Valérie da Mota sobre a peça infantil que aborda temas como a liberdade de pensamento, a tolerância e o espírito crítico. Quem foi Nasreddine Hodja e por que é que as suas histórias continuam a ecoar com os dias de hoje e a serem transformadas em peças de teatro? Foi o que fomos perguntar a Valérie da Mota, actriz e fundadora da companhia de teatro Va Sano Productions, que está pela segunda vez no Festival Off Avignon, agora com a peça “Nasr et Dinn”. O espectáculo revisita o universo desta personagem lendária do mundo oriental, conhecida pelos seus contos morais e divertidos. Interpretada e encenada por Valérie Da Mota e Romans Suarez Pazos, a peça acompanha as aventuras de Nasr, de Dinn e do seu inseparável burro numa viagem repleta de encontros, questões inesperadas e respostas irreverentes. “Estas histórias ensinam-nos a liberdade, a liberdade de estar, a liberdade de crer. Para as crianças, é muito importante saber que você pode ser diferente e que não há nenhum problema, e também para os adultos. Estas histórias também falam da felicidade de estar aqui e não pensar sempre no dia de amanhã, e também falam da fé (...) Temos histórias que falam do poder, histórias que falam de dinheiro e histórias que falam da liberdade”, conta-nos Valérie da Mota, numa esplanada junto ao Collège de La Salle, onde é apresentada a peça “Nasr et Dinn” no âmbito do Festival Off Avignon. Há teatro, música ao vivo, desenho digital e muito humor neste trabalho que parte dos contos de Nasreddine Hodja para abordar temas universais como a liberdade de pensamento, a tolerância e o espírito crítico. “Eu acho que é importante trazer personagens que trazem esta ideia de liberdade, de tolerância, uma personagem também com muita ternura. E o riso que pode trazer sabedoria”, sublinha Valérie da Mota. Oiça a conversa neste programa.

  5. Jul 15

    “A Mulher Desarvorada” quebra silêncios sobre maternidade e condição feminina em Avignon

    “A Mulher Desarvorada” é um monólogo inspirado no livro “A Mulher Desiludida”, de Simone de Beauvoir, e está em cena no festival Off Avignon até 25 de Julho, com o título francês “La Femme Déracinée”. Em palco, Tati Pasquali, a actriz do espectáculo que também assina a dramaturgia, fala sobre a violência do parto e do pós-parto, a sobrecarga mental e física da maternidade, a persistente desigualdade homem-mulher, a devoção feminina transgeracional à família e o abandono, entre muitas outras coisas. “Quando é a mulher que cuida de tudo, quem é que cuida dela quando tudo desaba?”, questiona Tati Pasquali na entrevista que deu à RFI, em Avignon. “A Mulher Desarvorada” é a história de uma mulher que abdicou de si própria para se dedicar à família. Conta a violência do parto, a depressão pós-parto, a transformação do corpo feminino, o desdém do olhar masculino sobre esse mesmo corpo, a sobrecarga da maternidade, a solidão, a traição e o abandono. “É a história dessa mulher que abriu mão da sua profissão e tornou a família e o lar na sua profissão, no seu único lugar no mundo, e o que acontece com ela quando isso desaparece. É muito focado na importância da independência financeira feminina como forma de liberdade e é um dos temas que a Simone [de Beauvoir] batia muito o martelo em cima. É sobre esse papel que a mulher ainda ocupa em 2026, de ter a maior parte dos cuidados maternos, os cuidados com a família, cuidado com a casa. Quando é a mulher que cuida de tudo, quem é que cuida dela quando tudo desaba, quando tudo se vai embora? Essa mulher vê-se obrigada a cuidar de si sozinha. Tem uma frase no espectáculo que é: ‘Quando se viveu durante tanto tempo em função dos outros, é um pouco difícil se converter a viver para si’. Eu acho que fala sobre muitas coisas, sobre maternidade, sobre sobrecarga materna, sobrecarga mental, sobrecarga física, mas também fala um pouco dessa falta de olhar para si mesma que as mulheres têm quando ocupam demais esse lugar do cuidado com o outro e com a casa”, conta Tati Pasquali. A ideia de escrever este texto nasceu durante a pandemia de Covid-19, com o confinamento, quando ficou “durante dois anos presa em casa com um bebé”, cruzando depressão pós-parto com a depressão da pandemia. Perante a sensação de se sentir intelectualmente e criativamente “desperdiçada”, a actriz brasileira foi à procura de um tema para criar algo e reencontrou-se com “A Mulher Desiludida”, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, reconhecendo-se “num lugar de cuidado com a família, com a casa”, de questionamento por ter deixado de lado a sua independência financeira e a sua profissão. “Peguei só em inspirações do livro e transformei em uma coisa muito mais pessoal. Eu acho que o espectáculo ganhou muito e desarvorada é uma palavra que ela fala no texto. Ela fala: ‘Eu estava tão desarvorada que eu precisava fazer alguma coisa.’ Desarvorada é essa mulher que perde as folhas, é uma árvore que perde a vida. E também tem a ligação com a árvore genealógica que eu faço com a minha mãe, com a minha avó, com a avó paterna, avó materna, tem essa coisa de árvore das mulheres, dessa árvore genealógica e desse lugar de quando você perde as folhas, quando você perde a força, o que te alimenta?”, descreve a actriz e autora de “A Mulher Desarvorada”. “A Mulher Desarvorada” tem encenação de Claúdia Semedo e está no no Festival Off, em Avignon, no Théâtre de La Porte Saint Michel, até 25 de Julho. Participar no festival “é um super risco financeiro”, admite Tati Pasquali que considera que este “não é um festival democrático” porque “não é qualquer companhia, não é qualquer artista que consegue vir” devido aos elevados custos que implica, desde logo “a hospedagem que fica caríssima e o aluguer do teatro também caríssimo”. A peça só consegue estar em Avignon graças a apoios e a um crowdfunding e, ainda assim, “é preciso captar mais dinheiro e a gente está vendendo paninhos, livrinhos e é importante vender ingressos para tentar captar”. Apesar do risco financeiro, “a experiência é incrível”, com “pessoas de todos os lugares do mundo” e “é um currículo incrível para o espectáculo”. Oiça a entrevista neste programa.

  6. Jul 14

    Bestiário inquieto de Regina Pessoa ilustra peça de Satie no Off Avignon

    As sombras poéticas de Regina Pessoa estreiam-se no teatro. Aquela que é uma das mais célebres figuras do cinema de animação contemporâneo português e europeu desenhou um carnaval de animais para o espectáculo musical "Sports et Divertissements” [“Desportos e diversões”] que está no Festival Off Avignon. A obra foi criada por Erik Satie há mais de um século e era composta por peças musicais com textos surrealistas. Agora, Regina Pessoa desenhou um bestiário inquieto e radical, inspirada pelo impacto das alterações climáticas. "Sports et Divertissements” [“Desportos e diversões”] é apresentada como uma ֶópera de bolso visual e é feita a partir de um trabalho de 1914 do compositor e pianista francês Erik Satie. Mais de um século depois, chega ao Festival Off Avignon uma adaptação encenada por Hervé Tougeron, com composição musical de Catherine Verhelst e ilustrações de Regina Pessoa. Erik Satie desenhava com notas musicais, Regina Pessoa desenha com sombras inquietas. Originalmente, as peças falavam, de forma surrealista, de actividades de lazer da burguesia do início do século XX, como, por exemplo, a caça, o golfe, o ténis e o jogo da cabra-cega. Agora, Regina Pessoa partiu de uma das maiores preocupações do século XXI, as alterações climáticas, para imaginar e desenhar animais em poses e planos inesperados, que adoptam “um certo radicalismo nas suas atitudes porque já não têm nada a perder”. RFI: Como é que descreve esta obra “Sports et Divertissements”? Regina Pessoa, Realizadora de cinema de animação: “Foi algo que eu quis mais surpreendente, fresco e, de certa forma, reinventar o meu trabalho porque já tenho uma carreira, estou nos 56 anos e, às vezes, uma pessoa precisa de dar uma mexida, sobretudo, porque eu tive uma doença grave, recente, e senti essa necessidade de me reinventar, até para reganhar confiança porque essa doença abalou a minha autoconfiança.” Reconhecemos que é a Regina Pessoa quem fez estes desenhos porque tem um estilo quase inconfundível no mundo da animação. É a primeira vez que trabalha, entre aspas, para o teatro? “É a primeira vez. A proposta surgiu... Como eu disse, eu tive uma doença grave e é claro que isso abala fisicamente e psicologicamente. Eu tinha um projecto, e tenho, de fôlego, mas achei que iria exigir de mim uma energia e uma força emocional que eu ainda não tinha restabelecido e, por coincidência, recebi várias encomendas de trabalho de curta duração. Isso permitiu manter-me artisticamente activa e permitiu-me também algo importante que era um desapego, de certa forma, emocional com o projecto. Um desses projectos foi precisamente ‘Sports et Divertissements’. Foi uma companhia francesa dedicada ao ‘spectacle vivant’ que me pedia uma série de ilustrações sobre as peças ‘Sports et Divertissements’ de Erik Satie, que são 19 peças com canto lírico - porque no ano passado foi o centenário da morte do Erik Satie e eles queriam essas ilustrações para projectar durante a sua actuação musical. Eu gostei muito do projecto. Era um projecto mais leve, era um projecto engraçado. As peças do Erik Satie têm letras, para o tal canto lírico, para serem cantadas e as letras são pequenas histórias completamente absurdas e ‘Dada’. O projecto era mal pago e, normalmente eu diria que não, mas era muito interessante e as pessoas eram muito simpáticas e eu resolvi aceitar e pensei: eu posso fazer o que me apetecer e apeteceu-me fazer animais como personagens.” As peças de Erik Satie, esses poemas breves, não falam em animais. Como é que se lembrou dos animais e como é que escolheu os animais para cada poema? “Foi algo que me veio à cabeça ao assumir essa liberdade. Não sei porquê, vá-se lá saber, a inspiração tem dessas coisas. Apeteceu-me usar animais e acho que veio, talvez, de uma das peças que é ‘collin-maillard’, que é ‘a cabra-cega’. Eu resolvi fazer esse jogo de palavras e imagem, porque em português esse jogo é a cabra-cega e eu apeteceu-me fazer uma cabra com uma venda nos olhos. Acho que foi esse, aliás, o primeiro desenho que eu fiz. Foi esse. Foi a partir daí que resolvi fazer todos com animais.” Há uma qualquer memória folclórica do mundo rural português neste carnaval dos animais da Regina Pessoa? “Eu não o conheço a não ser pelo nome dos jogos e das lengalengas. Um dos jogos, brincadeiras de criança é precisamente a cabra-cega. Mas eu lembro-me de outra, de algumas lengalengas, daquela quando se tem que escolher alguém num grupo. Havia uma que era: ‘Meu rim, meu rato, não tens bota nem sapato. Quem morreu foi o meu rato.’ Há muitas lengalengas que falam de animais e é, se calhar, isso que também influenciou.” Lengalengas portuguesas? “Portuguesas.” Os desenhos voltam a um estilo de gravura expressionista, com contrastes, sombras, uma dimensão quase psicológica nos animais, mas também muita irreverência. Reconhecemos a sua linha, o seu estilo. Como é que se inspirou para estes desenhos antropomórficos? “Neste momento, a minha grande preocupação existencial são as alterações climáticas. Eu acho que era isso que deveria estar no centro da reflexão colectiva e não estas distracções que temos porque é tão flagrante as alterações climáticas cada ano mais acentuadas. Isso deveria ocupar-nos, unir-nos nesse combate e não é o que está a acontecer. No entanto, as maiores vítimas são os animais que não têm culpa nenhuma. São vítimas inocentes. Então, também talvez seja uma das razões que eu resolvi usar animais como personagens e usá-los numa atitude que a minha sensação era que os animais estão a dizer: ‘Eu não tenho nada a perder’. Daí essa atitude radical porque os animais são assim, não é? São honestos na sua crueldade e na sua fidelidade, também na lealdade. Eu explorei essa atitude de honestidade animal ao máximo que eu podia, um certo radicalismo nas suas atitudes de que eles não têm nada a perder como o mundo está. E depois, além disso, este colectivo, o que eles gostariam que eu tivesse feito era animações, mas não tinham orçamento para isso. O orçamento que eles tinham daria para meia dúzia no máximo de ilustrações e não para 19 como eu fiz. Como eles gostariam de animações, eu tentei transmitir movimento aos animais e eles estão como um ‘snapshot’ do movimento. Eles estão implicitamente em movimento.” É diferente desenhar para o cinema e desenhar para uma projecção que vai interagir com actores e com músicos ao vivo? “Não faço ideia porque não vi o espectáculo, portanto não sei. Não faço ideia como é que funciona. Apenas posso confiar no relato da equipa de músicos que me encomendou o trabalho, que funcionou muito bem e que as pessoas gostaram muito das ilustrações que eu fiz, que mesmo estando paradas, parecia que estavam a mexer. E depois ponho-me a pensar se não será melhor assim porque se houvesse movimento, se houvesse animação, penso que a atenção do espectador iria perder-se entre a projecção em movimento e a actuação dos músicos que é o centro de interesse, não é? Portanto, se calhar é melhor que sejam ilustrações e não animações para potenciar a atenção na música, que é o centro da peça ou das peças, não é?” Mas a sua ilustração também está no centro da peça. Em 1914, quando a obra foi foi feita por Erik Satie, a obra associava a música e os desenhos de Charles Martin e o autor falava, de forma poética e irónica, em “publicação constituída por dois elementos artísticos: o desenho e a música. A parte do desenho é figurada por traços. A parte da música por pontos, pontos negros.” Ora, o desenho é tão importante quanto a música, não é? “Num filme é isso que acontece. Muitas vezes, esquecemos a banda sonora que está presente, é invisível, mas está tão presente como a imagem. Calculo que na visão deste colectivo que me encomendou os trabalhos, isso também seja assim. Será como um filme ao vivo, digamos, composto pela imagem e pela música, embora eu ache que, neste caso, como eles estão a actuar ao vivo, a música será o factor mais importante. Mas é como um filme, é composto pela parte sonora e pela parte visual.” Um espectáculo de teatro é, por definição, efémero, mas aqui há uma parte que fica que são os seus desenhos. As suas ilustrações estão feitas e vão ficar, não é? “Sim e de tal forma que, quando eu acabei a encomenda, gostei muito dos meus animais e estou a desenvolver um outro projecto. Gostei de trabalhar e de desenvolver este bestiário e estou a desenvolver agora um projecto meu de filme, não tem nada a ver com a encomenda que recebi, é algo novo, mas os personagens são animais e as alterações climáticas estão implícitas. O pesadelo vivo que é o mundo neste momento a nível das alterações climáticas em que vivemos e que os animais são as principais vítimas foi o que me motivou a fazer todo este trabalho.” Nesse pesadelo de que fala no que toca às alterações climáticas, a arte, a ilustração, o teatro podem ter um papel com mais impacto do que o trabalho propriamente político? “Não sei se com mais impacto. Eu não tenho qualquer perfil panfletário político. Não tenho esse perfil, gostaria de ter, mas não tenho. O que eu sei fazer é desenhar, tentar transmitir conteúdos ou mensagens através dos meus desenhos, das minhas composições. Portanto, essas são as minhas armas que eu sei usar, se eu soubesse usar outras, usaria outras. Mas como sei usar isto e só sei usar isto, é isso que eu estou a tentar. Eu penso que esse é o papel da arte ou de qualquer meio: usar com honestidade as armas que se possui para alertar ou denunciar ou chamar a atenção para a urgência deste momento em que vivemos. Antes, a arte e a cultura eram rese

  7. Jul 14

    Homenagear Frida Kahlo e revisitar Racine no Festival Off Avignon

    Neste programa vamos conhecer Ana Lorvo que sobe ao palco em duas peças no Festival Off Avignon: “Libre de Cojear” e “Andromak”. A primeira é inspirada na vida de Frida Kahlo, foi co-escrita por Ana Lorvo e Alice Schwab, e é um solo interpretado pela nossa entrevistada. A segunda é “Andromak”, uma releitura contemporânea do clássico de Racine, numa encenação de Cyril Cotinaut. Ana Lorvo tem uma fascinação por Frida Kahlo desde criança, quando foi visitar a Casa Azul da pintora, na Cidade do México, e de lá não queria sair, como gosta de contar o seu pai. Desde então, a admiração pela artista não parou de crescer até chegar à criação desta peça “Libre de Cojear” que está no Festival Off Avignon. O texto foi escrito a quatro mãos, em espanhol e em francês, com a encenadora Alice Schwab. Em palco, Frida é interpretada por Ana Lorvo, num solo habitado pelos fantasmas do aparatoso acidente de autocarro que fez do seu corpo martirizado a origem e o centro da sua pintura, assim como a fonte da sua fúria de viver. “É uma peça sobre Frida Kahlo, sobre a sua vida, mas não é uma autobiografia. O objectivo era realmente incarnar a personagem e é em espanhol. A gente quis falar da vida dela antes de ser uma artista, quando era uma jovem que andava na escola de medicina, que tinha um outro namorado, que era o Alejandro e não o Diego [Rivera]. E depois mostrar o acidente, mostrar como essa mulher quebrada continua a querer viver, a querer combater e viver a sua vida com muito amor. Antes do acidente, ela fazia estudos de medicina e sem o acidente talvez Frida Kahlo não tivesse sido uma artista, mas uma grande médica. Para nós, era muito importante falar disso e mostrar que um evento na vida de uma pessoa pode mudar toda a história. Ela utilizou essa tragédia para ser a mulher mais incrível do mundo”, conta Ana Lorvo. Em palco, há cadeiras em cima das quais estão pernas de pano que representam diferentes personagens com quem ela dialoga: o pai, o namorado, a filha que ela nunca pôde ter, uma bailarina que personifica a morte.  “A gente, quando criou as marionetas, o objectivo era só ter os pés e não todo o corpo para mostrar a diferença quando Frida não conseguia mais caminhar, mostrar que ela só tinha os seus pés para caminhar. Ela joga com marionetas em todo esse cenário e essas marionetas representam pessoas importantes de sua vida”, acrescenta Ana Lorvo. A peça “Libre de Cojear” é apresentada na sala Le Studio da Scierie até 25 de Julho. A outra peça em que Ana Lorvo sobe ao palco é “Andromak”, que está no Théâtre des Carmes André Benedetto até 25 de Julho. O espectáculo, encenado por Cyril Cotinaut da companhia Kourtrajmé, parte da tragédia escrita por Jean Racine em 1667 para olhar para os dias de hoje. “O trabalho do Cyril é muito interessante porque ele começa a trabalhar um drama que é um clássico de Racine que muita gente já leu ou já viu no teatro, mas ele quer realmente trazer as personagens a cada pessoa, por exemplo, eu interpreto Cléone e como Cléone tem algo de mim. A gente começou por escrever monólogos para passar da língua de Racine à língua da Ana [Lorvo], que pode falar sobre a sua vida, sobre as suas próprias tragédias. Para mim, foi muito interessante o trabalho, porque Racine parece uma língua às vezes difícil, que as pessoas não entendem, mas o objectivo é mostrar que Andrómaca, que é uma peça muito velha, é muito actual hoje, que as personagens, as guerras, os combates, são combates de hoje em dia”, acrescenta a actriz. Ana Lorvo já conhecia o Festival de Avignon, o In e o Off, enquanto espectadora e agora está a viver o seu primeiro Off enquanto actriz, no evento que conta com mais de 1700 espectáculos e milhares de artistas. “Estou muito feliz. São duas peças que eu defendo e que eu gosto muito de poder interpretar. Estou muito feliz, é um ritmo muito intenso porque actuo às 15h, depois às 22h, mas eu estou feliz porque eu amo fazer teatro e estou realizando um dos meus sonhos”, conclui.

  8. Jul 12

    “Ubu Roi” e a tragicomédia da geopolítica contemporânea no Off Avignon

    A peça “Ubu Roi” escrita há mais de um século pelo francês Alfred Jarry, continua a ecoar com o mundo contemporâneo. No festival Off Avignon, olhamos para um "Rei Ubu" de 2026, que é a caricatura do Presidente norte-americano, Donald Trump, em tempos de redes sociais, “influencers”, “fake news” e conflitos geopolíticos em fluxo ininterrupto. A peça conta com a actriz portuguesa Teresa Ovídio e com o actor franco-português Mati Galey Ovídio, com quem estivemos à conversa no Théâtre du Chêne Noir. O grotesco dos líderes autoritários contemporâneos volta ao palco com a adaptação, por Jean-Marie Galey, da sátira de Alfred Jarry. Partindo da história de um personagem grotesco e vulgar que, instigado pela esposa, assassina o Rei e usurpa o trono da Polónia, a peça destrona os principais líderes mundiais, com os seus jogos de poder e invasões territoriais. A principal inspiração é o Presidente norte-americano, Donald Trump, conta a actriz Teresa Ovídio que interpreta a Mãe Ubu com ares de Primeira-Dama grosseira e ambiciosa. “Apesar de ser muito actual, o Rei Ubu do Alfred Jarry já foi ultrapassado pelo Trump, já foi ultrapassado por todos estes homens de hoje em dia. Quer dizer, o Rei Ubu do Jarry que, na altura, já era um enorme ditador, era um homem absolutamente inacreditável, hoje já está ultrapassado”, resume a actriz. Em cena, a geopolítica contemporânea é uma tragicomédia e rir ainda é o melhor remédio, acredita Teresa Ovídio. “Esperamos abalar consciências. O teatro é feito para isso e para sonhar, imaginar, claro, ensinar e partilhar. Espero que possamos ter uma influência, a partir desta espécie de comédia burlesca que tem muita fantasia e em que podemos rir, com um riso pensado, consciente. Com o riso podemos passar muita coisa e é o que tentamos fazer, alertar”, conta Teresa Ovídio. A peça “Ubu Roi” está no Festival Off Avignon até 25 de Julho.

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Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

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