Convidado

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

  1. 1h ago

    Tudo em aberto para a segunda volta das presidenciais no Brasil

    Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais deste domingo no Brasil deixam tudo em aberto para a segunda volta a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva, que obteve 45%. Este é “um cenário de alta polarização” e de duas visões do Brasil, explica Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política” no país e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil. “O futuro do Brasil está em jogo” e decide-se daqui a três semanas. Oiça a análise neste programa. O Brasil avança para a segunda volta das presidenciais a 25 de Outubro. Flávio Bolsonaro venceu a primeira volta este domingo com 47% dos votos, à frente do actual Presidente Lula da Silva que obteve 45%. Em reacção aos resultados da primeira volta, Flávio Bolsonaro anunciou “o fim da era do PT”. Lula da Silva admitiu ter estado convencido que ia ganhar as eleições na primeira volta, mas mostrou-se optimista para a segunda volta, que definiu como um "prolongamento". Para falarmos sobre estas eleições, convidámos Giuliano Braga, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense e na Universidade do Minho, em Portugal. Para o cientista político, confirmou-se “um cenário de alta polarização” e há duas visões do Brasil em jogo. De um lado, o “bolsonarismo”, representado por uma família que quer consolidar “uma dinastia política no Brasil” e, do outro, o “lulismo”, incarnado por Lula da Silva, “uma das figuras mais emblemáticas dos últimos 40 anos” no Brasil, mas que ainda não tem uma figura para a “sucessão”. Olhando para os candidatos que foram eliminados nesta primeira volta, politicamente no espectro da direita, à partida poderiam dar vantagem para Flávio Bolsonaro, ainda que Lula da Silva possa tentar atrair eleitores que prefeririam “uma terceira via”. Há, ainda, um factor que pode ser decisivo: a abstenção. “A abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta”, resume Giuliano Braga. “O futuro do Brasil está em jogo” e é impossível fazer apostas sobre quem ganha a segunda volta. RFI: O que é que explica esta vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, ao contrário do que previam as sondagens? Giuliano Braga, Professor de Relações Internacionais: “Olhando os números tanto do Flávio Bolsonaro quanto do Lula [da Silva] e dos outros, a gente consegue ver um cenário de alta polarização, com a maioria de um lado, a maioria do outro, e os outros com uma margem muito distante nos 2%. O que explicaria Flávio Bolsonaro? Uma certa avaliação do governo Lula por parte da população brasileira tem um certo peso nessa votação maior. É interessante porque nós vemos uma expressão muito grande do Flávio Bolsonaro no Sul, isso já era mais esperado, mas no Norte foi um dos pontos de grande diferença - era uma zona historicamente mais voltada para o PT, para o Lula.” As sondagens não apontavam para estes resultados. Foram as sondagens que falharam ou a mobilização eleitoral da direita foi superior ao esperado? “Uma situação que aconteceu nestas eleições de 2026, ontem, foi uma abstenção acima do normal também. Então teve, além da questão política - claro, da mobilização tanto de um lado quanto do outro, mas aparentemente a mobilização do lado do Flávio Bolsonaro foi mais eficaz do que a mobilização do lado do Lula - nós tivemos uma abstenção de mais de 20%. Mais de 20% para o Brasil é muita coisa, dado que a gente está numa eleição que é obrigatória e o não voto confere multa. Foi uma característica muito própria, mais uma mobilização muito concentrada e coordenada da direita, principalmente ao nível dos estados.” Essa abstenção pode definir alguma coisa em termos da segunda volta? “A abstenção, na verdade, a tendência que a gente observa – embora a eleição de 2022 tenha sido uma excepção - mas a tendência que a gente observa é que geralmente a abstenção aumenta da primeira volta para segunda volta. A abstenção poderia vir a calhar a algum dos lados, mas a abstenção é um factor incontrolável, é uma surpresa tanto para um lado quanto para o outro. A abstenção é um factor que poderia vir a calhar, mas é um factor que ninguém consegue controlar, até porque ninguém deveria controlar a abstenção dado o princípio da democracia. Por isso, a abstenção pode ser uma surpresa que poderia dar aí um tempero a mais para essa corrida eleitoral da segunda volta.” E a reserva de votos dos candidatos agora eliminados? Como são mais à direita, mais do campo conservador, vão automaticamente para Bolsonaro? Ou é possível Lula recuperar terreno, inclusivamente tendo em conta esta abstenção?  “A segunda volta traz um aspecto muito interessante a nível de análise política porque o período entre a primeira e a segunda volta é um período de intensas negociações. Na verdade, é o período em que os candidatos que vão disputar a segunda volta tentam trazer para os seus lados os outros candidatos. Neste caso, nesta eleição específica, do jeito que aconteceu, nós temos um período de negociação muito interessante, porque nós estamos negociando 2%, então são de dois em dois por cento. Os candidatos que ficaram abaixo são ali mais do espectro da direita. Agora, o convencimento de Lula deveria também ser para atrair eleitores desse eleitorado que quis ficar fora dos pólos da polarização, apostar em uma possível terceira via para reconhecerem na continuidade do governo o projecto de país. No caso, Bolsonaro tem uma vantagem, dado que dois dos menos votados, o Renan Santos e o candidato próximo dele já tem uma aliança declarada. Lula deveria ali negociar com o Augusto Cury nesse cenário, que é um candidato que não se colocou muito em lados, ele quis-se mostrar mesmo como uma terceira via. Por isso, o desafio de negociação de Lula vai ser muito intenso, porque Bolsonaro, de certa forma, com esses candidatos de baixo, tem uma vantagem já.” Os dois candidatos representam visões totalmente opostas para o Brasil. Desde 2018 que os brasileiros se dividem entre o "bolsonarismo" e o "lulismo". Que duas visões são estas para o Brasil? “Do lado do Flávio Bolsonaro, nós teríamos uma continuidade da sua visão de Brasil vinda ou demonstrada através do governo do seu pai, como uma priorização, por exemplo, do mercado financeiro, do agro-negócio, que é uma base política deles, políticas mais conservadoras, dado que também é uma outra base política muito importante para o Flávio Bolsonaro. A nível internacional, uma aproximação muito directa e muito declarada com os Estados Unidos de Donald Trump, por isso, uma aproximação mais clara, fazendo uma ode à chamada “onda laranja” na América Latina, com o Milei na Argentina, com o novo presidente do Equador, entre outros que se vêm unindo cada vez mais espectro. O Flávio Bolsonaro já declarou abertamente unir-se a esse espectro também. Olhando para o outro lado, o lado do Lula da Silva, nós temos as políticas sociais mais fortes como sendo um dos principais pilares de campanha dele. A questão do mercado financeiro e da exteriorização do comércio do Brasil, ou seja, a abertura de parceiros comerciais. No plano internacional, uma continuidade do pragmatismo: o Brasil, sob Lula, buscou ter um pragmatismo para surfar as relações Estados Unidos e China principalmente, que são dois parceiros muito importantes para o Brasil. Por causa disso, nós temos aí um outro espectro, principalmente a nível internacional, mas a nível doméstico, com políticas mais progressistas e outras medidas que fazem uma certa ode à sua base política e ideológica também.” Lula da Silva falou da questão também da soberania do Brasil em relação aos Estados Unidos. “Pois é. Isso foi um ponto-chave, principalmente na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi um dos pontos-chave do seu discurso, o discurso de abertura, que foi aquela questão do Brasil não ser quintal de ninguém. Por isso, faz uma ode a esse reforço da soberania nacional. E também, de certa forma, fez uma referência à corrida política com Bolsonaro, fazendo uma crítica directa a Flávio Bolsonaro, dada a sua fala de aproximação automática com os Estados Unidos.” O que é que este resultado da primeira volta diz sobre o mérito de Flávio Bolsonaro, ele que foi empurrado pelo pai para esta candidatura? O que é que também nos diz sobre o pai dele? Em caso de hipotética vitória, será que podemos antever um Presidente por procuração, visto que o pai está condenado e a cumprir 27 anos de prisão? Flávio Bolsonaro também disse que uma das primeiras medidas seria libertar o pai da prisão domiciliária. Que é que isto antevê para a própria família Bolsonaro? “Isso acaba sendo uma criação, uma consolidação de uma próxima dinastia política no Brasil. O sobrenome Bolsonaro foi o principal chamariz do candidato Flávio Bolsonaro, além de ter tido uma história como senador e tal, mas o nome da família Bolsonaro falou mais alto nessas eleições, principalmente nas sondagens. Essa questão do nome, da dinastia, acabou sendo importante. Presidente por procuração é uma questão um pouco mais difícil até porque o Bolsonaro pai, além de preso, ele também tem um certo estado mais debilitado de saúde, então, não o vejo muito como um Presidente por procuração. Flávio tem uma base sólida de apoio, uma negociação ali muito consolidada para este pleito eleitoral, mas existem os processos correntes e agora nós temos mais uma polémica que estou

  2. 2d ago

    Impacto do aumento do preço dos combustíveis na pesca em Cabo Verde

    Em Cabo Verde, os preços dos combustíveis subiram mais de 56 por cento no espaço de apenas 12 meses. Com o litro da gasolina e do gasóleo cada vez mais próximo da fasquia dos duzentos escudos cabo-verdianos -cerca de dois euros- a pressão sobre a economia nacional continua a aumentar. As novas tabelas entraram em vigor no início deste mês de Outubro. A escalada dos preços nos mercados internacionais explica grande parte deste agravamento, mas há também um factor interno determinante: a protecção governamental que cobria o sistema de preços deixou de ser generalizada. Este mês, a medida de mitigação do executivo abrange exclusivamente o gás butano, que registou um encargo adicional de cinco por cento. Um aumento que não apanhou de surpresa o sector das pescas. Suzano Vicente, Presidente da Associação dos Armadores de Pesca de Cabo Verde, sublinha que o cenário já era previsível diante da conjuntura actual. "Já era esperado na actual conjuntura. É expectável que, no fim de cada mês, haja este aumento do preço do combustível, uma vez que existe um mecanismo automático de fixação de preços. Enquanto este mecanismo não for alterado ou suspenso, a situação vai continuar exactamente da mesma forma”, afirmou Suzano Vicente. Perante este cenário, os armadores não exigem a eliminação das competências do Governo na gestão dos preços, mas reclamam medidas urgentes para proteger o sector, tanto na pesca artesanal como na industrial. A Associação dos Armadores já tinha proposto formalmente a reactivação de um fundo autónomo ou de um mecanismo de compensação semelhante ao regime social aplicado à electricidade. No entanto, a complexidade burocrática inviabilizou a resposta no imediato. "Enviámos uma proposta baseada no modelo de tarifa social de electricidade para famílias de baixo rendimento. Mas, pelo diálogo com a administração, percebemos que esse caminho seria mais moroso. Exigiria uma deliberação em Conselho de Ministros e uma série de pareceres técnicos prévios. Tempo é algo que os armadores não têm, e o próprio Governo reconhece essa urgência. Por isso, estamos a trabalhar numa alternativa mais rápida. Vamos apresentar uma proposta directamente à ministra da tutela para que a medida seja implementada através de uma portaria ministerial, accionando directamente o Fundo Autónomo de Pesca. É uma via juridicamente mais simples e muito mais célere”, disse. Sem uma intervenção directa do Estado, o sector alerta para o risco iminente de paragem das embarcações. Os combustíveis representam um dos maiores custos operacionais na actividade extractiva e a escalada contínua torna a navegação insustentável. Para além do gasóleo dos barcos, há um efeito em cadeia que fragiliza ainda mais a cadeia de frio: a produção de gelo, indispensável para a conservação do pescado a bordo. "Se este aumento continuar de forma exponencial mês após mês, vai chegar um momento em que a actividade se torna inviável. Se a situação já é crítica agora, nos próximos meses será praticamente impossível continuar a ir ao mar. O combustível afecta também a produção de gelo. Em São Vicente, por exemplo, um 'grau' de gelo já custa cerca de vinte mil escudos. A exploração já é extremamente onerosa e o aumento dos combustíveis encarece a electricidade e, por arrastamento, a aquisição do gelo. Não temos como fugir a estes custos encadeados, a menos que o Governo decida subsidiar directamente às fábricas de gelo para conter o impacto”, avança. Ao contrário de outros sectores económicos, os armadores e pescadores afirmam estar impossibilitados de reflectir a subida dos custos operacionais no preço final do peixe vendido ao consumidor. "Não existe um preço fixo para o pescado. O mercado funciona exclusivamente com base na lei da oferta e da procura. Se houver muito peixe no mercado, o preço baixa; se houver pouca captura, o preço sobe. Sem um preço de referência, os armadores não conseguem repassar o aumento dos custos do combustível e do gelo para o consumidor final”, afirmou. Como solução estrutural para este problema de comercialização, a Associação dos Armadores voltou a insistir na urgência de colocar em funcionamento o sistema nacional de lotas. Embora o regime jurídico e o regulamento já estejam aprovados em decreto-lei, a infra-estrutura e a operação prática continuam por concretizar. "A implementação da lota é uma reivindicação antiga. É o sistema que vai regular e disciplinar a primeira venda do pescado, permitindo ter um preço de referência na lota. O enquadramento legal já existe, mas falta pôr o sistema a funcionar no terreno. É uma das prioridades que vamos levar à reunião com a tutela”, afirmou. Existe também uma diferenciação histórica que o sector das pescas pretende ver corrigida: a equiparação da pesca à marinha comercial no consumo de combustíveis. Os armadores argumentam que a marinha de comércio tem receitas previsíveis e rotas fixas, ao passo que a pesca é uma actividade sazonal e dependente das condições meteorológicas. A longo prazo, a transição para energias alternativas ou motores eléctricos é vista com prudência, dada a insularidade e a dependência de tecnologia importada. A resposta mais imediata para a eficiência energética passa pela modernização da frota nacional. "As soluções tecnológicas alternativas, como os motores eléctricos, ainda não oferecem garantias de autonomia e eficiência para as deslocações das nossas embarcações. Dependemos do mercado internacional e do custo dos equipamentos. O caminho mais viável passa pela renovação da frota. Por exemplo, a aquisição de navios atuneiros de maior capacidade — uma embarcação de trezentas toneladas com um motor de mil cavalos de potência consegue capturar muito mais pescado do que dez barcos pequenos de duzentos e cinquenta cavalos. Aumenta-se a eficiência no consumo de combustível, reduz-se o número de embarcações em operação e optimiza-se a rentabilidade e a segurança dos marinheiros”, afirmou. A urgência das medidas pedidas pelos armadores ganha dimensão quando se olha para o peso do sector no país. De acordo com os dados oficiais mais recentes, a pesca representa cerca de 20,1 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de Cabo Verde e é responsável por 19,5 por cento do emprego nacional. Sem um acordo rápido entre o executivo e os operadores económicos sobre a compensação dos combustíveis e o apoio à produção de gelo, o sector alerta para o risco de paralisia numa das principais alavancas económicas e sociais do arquipélago.

  3. 2d ago

    Guiné-Bissau: "Decisão de impedir regresso de Embaló pode fazer parte de estratégia de vitimização"

    Na Guiné-Bissau, o Alto Comando Militar, que levou a cabo o golpe de Estado de Novembro do ano passado, em comunicado, anunciou esta quinta-feira que não estão reunidas as condições de segurança para garantir o regresso ao país do ex-presidente Umaro Sissoco Embaló. Um regresso que estava anunciado para o dia 04 de Outubro e depois do porta-voz do Conselho Nacional de Transição, Fernando Vaz, ter garantido que qualquer cidadão nacional poderia regressar ao país. Em entrevista à RFI, o analista político guineense Fodé Mané admite que a decisão de impedir o regresso do ex-presidente pode fazer parte de uma estratégia de vitimização de forma a reforçar a solidariedade em torno de Sissoco Embaló. RFI : Como analisa esta reviravolta? Fodé Mané, analista político guineense: Primeiro, esta situação não é clara para qualquer pessoa atenta. Sobre os órgãos que estão a gerir a transição, ora aparece o Governo, ora aparece o Estado-Maior General das Forças Armadas, ora aparece o Conselho Nacional de Transição, ora o Alto Comando, que tinha surgido em Novembro a anunciar golpe de Estado, e desapareceu até há duas semanas, a tomar alguma decisão. Isso cria alguma confusão em termos de quem é que manda realmente, qual é a personalidade. E tudo indicava que todos eram submetidos às orientações do comando, mas depois vimos situações que nos criam outras dúvidas. Por exemplo, na terça-feira, dia 29 de Setembro, houve movimentações um pouco anormais, que levaram com que as pessoas ficassem com um certo susto. As movimentações de que está a falar têm a ver com o desmantelamento da unidade anti-golpe, que é uma força especial que foi criada durante o mandato do Sissoco Embaló? Aquilo não está claro se é a unidade anti-golpe, porque depois viram-se movimentações que não eram normais, pessoas a saírem de um sítio para outros em viaturas, outros a pé... Não se sabe o que é que se está a passar. Depois de criar aquele pânico, veio o Ministério do Interior dar uma conferência de imprensa a dizer que se tratavam de movimentações normais nos quartéis. Então, não se falou de desmantelamento, mas circularam notícias de que algumas pessoas estariam retidas junto ao Estado Maior das Forças Armadas. Tudo isto torna a situação um pouco confusa. No meio de tudo isso surgiu o porta-voz, não é só do Conselho Nacional de Transição, mas de todo este regime que é o "Nando Vaz". O Fernando Vaz? Sim, a garantir que Umaro Sissoco vem e tem condições. E, surpreendentemente, vimos o comunicado à imprensa com aqueles pontos onde podemos destacar a situação a dizer que não foram reunidas as condições, a retomada da proibição de concentrações e manifestações. Isso nos levou a pensar nas movimentações que houve nas duas últimas semanas: recolha de nomes, organizações de eventos para irem receber Sissoco. Com a sua declaração, alguns órgãos de comunicação social a dizer que vem no dia 04 [de Outubro]. Então, houve este comunicado que até no início, no meu caso, pensei que era fake news. Só depois de ouvir o porta-voz do Alto Comando confirmar aqueles pontos essenciais do comunicado, e ainda alargando, mas com alguns pormenores. A situação não é clara, mas pode Umaro Sissoco Embaló estar a perder aliados na Guiné-Bissau? Eu não consigo afirmar que se trata de perda de aliados. Eu estou a ver isso noutra perspectiva: de que pode ser uma estratégia de tentar controlar a situação e também ter o apoio de alguns parceiros. Não consigo ver isso na perspectiva de que Umaro está a perder aliados, porque são pessoas colocadas, indicadas, que até hoje - há sinais - de que recebem orientações de Umaro Sissoco Embaló. As pessoas muito próximas do Umaro continuaram a ser nomeadas, os que eram adversários continuam a ser restringidos no sistema e continuamos a ver maior liberdade de actuação por parte dos apoiantes. Mas quando o Sissoco Embaló anunciou o regresso dele à Guiné-Bissau, tinha que ter a certeza absoluta de que esse regresso era viável ou não? Será que realmente tinha a intenção de regressar? Nós sabemos que, por vezes, na política, uma das formas de obter a solidariedade é vitimizar-se. Vimos isso no passado, com Nino Vieira, com Carlos Domingos Gomes... Aí, esta vitimização provoca solidariedade, porque nesta situação do Umaro, o que é que vai no pensamento dos seus apoiantes? Que o actual poder é ingrato para com o Umaro. Foram instalados, apoiados, promovidos pelo Umaro, mas agora não estão dispostos a protegê-lo. Vai provocar uma solidariedade para com ele. Pode ser essa estratégia. Eu duvido que haja realmente uma intenção de voltar naquela circunstância, pode haver intenção de voltar, porque onde qualquer pessoa se sente melhor é no seu país, mas naquela circunstância, daquela forma, organizando uma recepção apoteótica, eu duvido se é a intenção dele. Ou seja, essa estratégia da vitimização pode corroborar a encenação deste regresso abortado de Sissoco Embaló à Guiné-Bissau, simplesmente para que ganhe mais solidariedade e possa voltar posteriormente? Pode ter esta dimensão de tentar granjear a solidariedade e criar um certo desgosto para com o regime instalado, que sabe que é um regime de pessoas muito fiéis. Mas também pode ser uma forma de distrair, das pessoas se concentrarem noutros assuntos que não da própria situação que está a ser vivida neste momento. Mas esse regresso de Umaro Sissoco Embaló também não podia confirmar a seguir o regresso do Domingos Simões Pereira? Não abre portas. Porquê? Porque o Domingos Simões Pereira foi na base de um despacho judicial e inclusive esse despacho pode-se inventar. Pode-se continuar a dizer que deve voltar, como se fez no passado, com a ameaça de detenção. Logo, está condicionado. Esta é a forma de impedir o seu regresso. É diferente da forma de impedir Umaro, que é dizer que não temos segurança. Mas para o regime, o regresso de Domingos é mais incómodo que o regresso de Embaló. Este desmantelamento da unidade anti-golpe foi, segundo uma fonte do Estado Maior General das Forças Armadas, uma intervenção que procurou reforçar o controlo sobre a segurança presidencial. Estamos a falar aqui da segurança de Horta Inta-a. Também houve uma reunião dos régulos de Biombo, portanto cidade natal de Ilídio Vieira Té, primeiro-ministro de Transição, onde os líderes tradicionais manifestaram a sua preocupação para com a segurança e a integridade física de Ilídio Vieira Té. O que é que isto quer dizer? O Ilídio já está a ter alguma pretensão de se enraizar e a única base étnica que ele podia invocar é na região de Biombo. Mas onde os resultados das eleições de 2025 e do referendo mostram que não tem o grosso dos apoiantes e o único meio que ele tem utilizado é injectar meios económicos, aliciar algumas pessoas. Há uma pretensão dele emergir como um líder diferente daquela que podia ser a indicação do Sissoco. Eu acho que também pode ser uma estratégia de, mais tarde, em nome de uma conciliação, dizer que a situação já está controlada. E depois há pessoas também que estão a sentir-se no processo de partilha de acesso aos recursos, não é por acaso que o Alto Comando apareceu em Novembro de 2025 e voltou em Setembro de 2026. Quantos meses? Porquê do seu surgimento? Isso dá algum sinal de que há pessoas que entendem que estão a perder o protagonismo dentro dessa estrutura, principalmente alguns militares. Porque desmantelamento e desarmamento não são confirmados. Não há atitudes que mostram que essas pessoas foram hostilizadas, é uma forma de trabalhar com contra-informação. Pode Ilídio Videira Té estar, neste caminho, a preparar terreno para apresentar a candidatura à Presidência da República? Isso, sem dúvida, é a sua pretensão. Foi anunciado, criou o seu partido e está a tentar aliciar as pessoas dos outros partidos para irem juntar-se com ele, utilizando os postos na administração pública. Então, é uma forma de aproveitar esta sua posição de primeiro-ministro e ministro das Finanças - quem gere os recursos - para poder enraizar-se melhor. A concretizar-se esta candidatura de Ilídio Vieira Té, é fazer face a Umaro Sissoco Embaló? É fazer face a Umaro Sissoco Embaló se ele realmente não estiver atrás da sua candidatura. Eu coloco sempre esta dúvida: se não é uma candidatura alternativa, se ele [Umaro Sissoco Embaló] não conseguir.

  4. 4d ago

    Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tentam seduzir eleitorado para evitar empate técnico

    A primeira volta das eleições no Brasil acontece no dia 4 de Outubro e tanto Lula da Silva como Flávio Bolsonaro podem ter um resultado entre 35 a 40% dos votos, colocando-os numa situação de empate técnico que se pode arrastar até à segunda volta a 25 de Outubro. Lula da Silva, com a promessa da proibição das apostas desportivas tenta atrair o votos das mulheres e dos evangélicos indecisos.   O Brasil vai a votos para a primeira volta das eleições presidenciais já no domingo. Como principais candidatos apresentam-se Luiz Inácio Lula da Silva, que se candidata ao seu quarto mandato à frente do país, e Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro e escolhido pelo ex-Presidente que está a cumprir uma pena de 27 anos em prisão domiciliária por ter tentado impedir a tomada de posse de Lula da Silva em 2022. Os dois estão tecnicamente empatados nas sondagens e prevê-se uma segunda volta no dia 25 de outubro. Nesta última semana, os candidatos estão a tentar seduzir eleitores ainda indecisos, como explica Filipe Mauro, professor de Civilização Brasileira na Universidade de La Rochelle, em França. "Há mais ou menos 7% a 6% de indecisos, que é o volume historicamente de indecisos numa eleição presidencial brasileira. A componente sociológica é que é interessante. São, a maior parte das vezes, mulheres e são também jovens. Esse eleitorado é particularmente difícil de migrar para um voto bolsonarista. É lá que a campanha de Lula tenta ainda extrair alguns votos que vão ser decisivos. Por isso é que nessa última semana foi anunciada, por exemplo, a proibição dos sites de apostas desportivas. Eles são um público particularmente sensível a esse tipo de medida, já que nós temos um volume inédito de homens e, sobretudo, homens de uma classe social inferior, que vivem uma situação muito grande de endividamento devido às apostas", explicou o académico. Nas sondagens, apesar de haver mais de 10 candidatos a esta eleição, são Lula da Silva e Flávio Bolsonaro que parecem prontos a disputar uma segunda volta, situando-se os dois entre 35% a 40% dos votos. Para Filipe Mauro, Lula da Silva pôs em marcha nos últimos quatro anos uma "reforma tributária absolutamente inédita", mas o seu Governo mostrou-se "analógico" face a uma extrema-direita bolsonarista que chega ao eleitor directamente via o WhatsApp e outras redes sociais. Quanto às promessas de Flávio Bolsonaro, em caso de vitória, podem abalar as bases do sistema político e da justiça no Brasil. "Como programa de governo [Flávio Bolsonaro], apresenta uma ameaça às instituições brasileiras, na medida em que prometeu subir a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de seu pai, que hoje está preso e condenado por tentativa de golpe de Estado. Tem uma visão económica ultraliberal. É o que manifesta, em todo o caso, a sua equipa económica, muito simpatizante do que se vê na Argentina de Milei e também com uma relação muito próxima ao actual governo americano a Donald Trump. Uma posição de alinhamento automático, inclusive no que diz respeito à gestão do subsolo brasileiro, muito rico em terras raras e que vem sendo cobiçado por mineradoras americanas e, enfim, em todo o caso, por sectores importantes da economia americana", concluiu o professor e investigador.

  5. 5d ago

    53 anos da proclamação unilateral da independência: "Guiné-Bissau vive uma ditadura militar"

    A Guiné-Bissau assinalou recentemente os 53 anos da proclamação unilateral da independência, em 24 de Setembro de 1973. Um momento que marcou a afirmação do país como Estado soberano perante a comunidade internacional. Mais de cinco décadas depois, o activista do movimento político Firkidja de Púbis, Yussef, considera que o país vive actualmente sob "uma ditadura militar" e defende "a mobilização dos guineenses para lutar contra o actual regime". Passados 53 anos da proclamação unilateral da independência, como caracteriza o actual momento político da Guiné-Bissau? Em 2026, a Guiné-Bissau vive uma ditadura militar. Nós temos as Forças Armadas da Guiné-Bissau, diria eu, mais as milícias que foram criadas pelo senhor Sissoco Embaló, que assumiram o controlo do Estado. Toda a estrutura do senhor Umaro Sissoco Embaló , seja militar, seja política, está neste momento no controlo do Estado da Guiné-Bissau. O objectivo é manter o povo da Guiné-Bissau num colete-de-forças, tendo como finalidade «pacificar» o país. Mas pacificar não no sentido de criar condições para o progresso, mas pacificar um pouco à laia do que os portugueses fizeram durante as primeiras décadas do século XX: pacificar para explorar, pacificar para oprimir. Umaro Sissoco Embaló anunciou que vai regressar ao país e que se vai candidatar às eleições presidenciais, que terão lugar no dia 6 de Dezembro. O antigo Presidente da Guiné-Bissau, que foi afastado do poder há quase um ano, na sequência de um golpe de Estado militar, assim o descreveu na altura. Ele tem condições para regressar ao país? Quem é que assegura esse regresso e quem são os aliados? É preciso ser rigoroso nos termos. Na Guiné-Bissau, em Novembro de 2025, não houve um golpe de Estado. Na verdade, houve um golpe de Estado contra a soberania popular. O que aconteceu foi um conluio entre o senhor Sissoco Embaló que se viu derrotado nas eleições presidenciais, e a entourage militar que sempre o apoiou. As milícias do Estado, encabeçadas pelo senhor Horta N’Tam e pelo senhor Tomás Djassi tomaram a si, perante a necessidade de dar um passo atrás, a teatralidade de mostrar à comunidade internacional que teria havido um golpe de Estado, para que os militares assumissem o poder e, durante este período de transição, modificassem a Constituição para que fosse ao encontro dos desejos do senhor Umaro Sissoco Embaló e das forças económicas nacionais e internacionais que o apoiam. Criou-se todo um teatro na Guiné-Bissau. E o senhor Embaló volta no sentido em que as condições objectivas foram garantidas para o seu regresso. Estamos a falar da modificação da Constituição e do novo simulacro de eleições que irá acontecer em Dezembro. Sissoco Embaló pode contar com o apoio do primeiro-ministro, Ilídio Vieira. e do general Horta N’Tam, Presidente de Transição da Guiné-Bissau? O primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Ilídio Vieira, criou também um partido político, o Partido Popular Guineense. A criação deste partido pode mostrar uma ambição de também se apresentar às presidenciais? Eventualmente, sim. Não consigo dizer com toda a propriedade, porque não tenho as informações. Eu não faço parte da entourage do senhor Ilídio Vieira Té, até porque não conheço as suas intenções. Mas, repare: entre estes indivíduos, o que os motiva, na verdade, nem é propriamente um projecto de sociedade, uma ideologia ou, melhor dizendo, aquilo que os une é a ambição pessoal e a apropriação das riquezas da Guiné-Bissau. Então, é possível que, tendo em conta esta falta de unidade política e ideológica, esta falta de unidade ética ou moral, possa haver divergências no seu seio. Hoje pode-se acreditar que é o senhor Sissoco Embaló que está na dianteira; amanhã, por ambições, pode ser o senhor Ilídio Vieira Té; num outro dia, pode ser o senhor Tomás Djassi, no outro dia, também pode ser o senhor Horta N’Tam que acredita que, tendo em conta um conjunto de variáveis, tem mais condições para continuar no poder do que o senhor Sissoco Embaló na Guiné-Bissau. No país, há um grupo que quer o progresso, que quer realmente ir ao encontro do Programa Maior, que foi redigido durante a luta de libertação: desenvolvimento, saúde, educação, infra-estruturas, desenvolvimento do nosso potencial enquanto povo. E depois existe um outro grupo, do qual fazem parte, não obstante eventuais contradições que possam existir entre eles, o senhor Sissoco Embaló, o senhor Tomás Djassi, o senhor Horta N’Tam e até o senhor Nuno Nabian Quem é que lidera o grupo que quer o desenvolvimento do país? Aconteceram eleições em Novembro de 2025. A comunidade internacional sabe quem ganhou as eleições. Eles expressaram que o que aconteceu na Guiné-Bissau foi um falso golpe de Estado na sequência daquelas eleições. O povo da Guiné-Bissau escolheu um candidato como seu representante, independentemente das divergências que possam existir com esse mesmo candidato a nível de projecto de sociedade. O povo da Guiné-Bissau deve ser soberano. Aquilo pelo qual se deve lutar é pelo respeito pela decisão popular do povo da Guiné-Bissau neste momento da sua história política. E é a partir daí que nós devemos começar a luta política. Enquanto não existir esse respeito pela soberania do voto, pela soberania da decisão popular, eu creio que nós estamos, ao fim e ao cabo, perante uma grande fábula. O líder da oposição da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira, actualmente em Lisboa, considerou o anúncio do regresso de Sissoco Embaló “chocante” e motivo de “inquietação”, questionando se existem garantias de igualdade e de segurança para todos os participantes no processo eleitoral. O senhor considera que essas garantias são para todos? Evidentemente que não. Criou-se na Guiné-Bissau, de uma forma explícita, uma situação de excepção, em que existe esta ideia de que o Estado são estes senhores. Não existe lei na Guiné-Bissau neste momento. A Constituição que foi aprovada, na verdade, é um mero papel, porque não existe qualquer legitimidade. O referendo que aconteceu recentemente não pode ser chamado referendo. Aquilo é um simulacro, porque não existiam pré-requisitos. Ou seja, nós estamos numa situação de excepção. Não existe actividade política na Guiné-Bissau. Ou, pelo menos, a oposição não pode exercer qualquer actividade política. Como é que vamos falar seriamente de eleições, de referendo, de reconciliação, se não existem essas prerrogativas mínimas de um debate político na Guiné-Bissau? Mas a oposição será capaz de se unir para estas eleições? Domingos Simões Pereira pode contar com o apoio de quem? Onde é que se vai posicionar Fernando Dias? Não lhe consigo dizer de forma cabal. Eu creio que o fundamental é encarar a situação de frente. Isto é: existe, neste momento, um poder militar na Guiné-Bissau. Um poder bélico. Estão fortemente armados e colocaram um colete-de-forças no povo da Guiné-Bissau. Colocaram o povo da Guiné-Bissau numa grande prisão a céu aberto. E, perante esta situação concreta, objectiva, é preciso que a oposição se organize para lutar de forma consequente contra esta situação. Não me parece que a retórica possa resolver este conflito, tão-pouco. Penso que as eleições, tendo em conta o contexto que existe na Guiné-Bissau, não poderão resolver este conflito. Quais são as garantias de credibilidade e transparência do acto eleitoral, quando a Comissão Nacional de Eleições é constituída, na maioria, por membros do Conselho Nacional de Transição? O Supremo Tribunal de Justiça da Guiné-Bissau é um órgão que está ao serviço do regime. A Comissão Nacional de Eleições, idem, aspas. Os militares têm armas e não só assassinam activistas na Guiné-Bissau, como, por exemplo, o nosso irmão e camarada Vigário Balanta, como aprisionam líderes da oposição, como, por exemplo, aconteceu com o senhor Domingos Simões Pereira. Apropriam-se das sedes dos partidos políticos da oposição, não permitem que os sindicatos exerçam a sua tarefa e não permitem qualquer liberdade de expressão no país. Perante estas condições, podemos falar de eleições livres, democráticas e transparentes? Obviamente que não. Aquilo de que, na minha óptica, a oposição tem de se consciencializar é que, perante esta força, somente uma força social maior pode colocar em causa o estado de coisas.Isso implica, forçosamente, não obstante as dificuldades, a organização popular, a mobilização popular e, ao mesmo tempo, convocar solidariedades internacionais para lutar, de facto, contra este regime.

  6. 5d ago

    Carlos Vila Nova: “Governo será emanação da sustentabilidade parlamentar que me for garantida”

    São Tomé e Príncipe foi a votos no passado domingo, nomeadamente para eleger 55 deputados. Nesta segunda-feira, a Comissão Eleitoral anunciou resultados preliminares colocando o MLSTP, na oposição, em posição dianteira, mas com uma vantagem de apenas algumas centenas de votos em relação à ADI no poder, havendo agora indicação de que estariam numa situação de quase empate. A abstenção, o apelo ao boicote do escrutínio, os critérios para a indigitação de um governo e o futuro relacionamento institucional com quem irá governar, foram alguns dos assuntos que a RFI abordou em entrevista exclusiva nesta terça-feira com o Presidente São-Tomense, Carlos Vila Nova. RFI: Qual é a avaliação que faz da forma como decorreram as eleições? Carlos Vila Nova: É um exercício que se vai tornando cada vez mais frequente em São Tomé e Príncipe. Há cerca de 35 anos, optámos por viver em democracia e temos feito de cada acto eleitoral uma forma de consolidar a democracia em São Tomé. Nos últimos actos eleitorais, felizmente, vamos melhorando. Prevaleceu a serenidade neste concretamente, no dia 27 de Setembro. Penso que optou-se por muito mais mensagens do que outro tipo de comunicação. Por vezes a comunicação costuma ser mais folclórica, mais músicas, enfim. Há várias formas e em todas elas, o apelo à serenidade e à estabilidade. Portanto, foram panos de fundo que me deixaram bastante agradado. E quando vejo por parte dos observadores também que para São Tomé e Príncipe, não foram poucos, que quase os requisitos todos foram cumpridos e que, portanto, a transparência também faz parte, a Comissão Eleitoral Nacional já se pronunciou, embora não seja sua competência definir os mandatos. Já se pronunciou, o que mostra também celeridade. Também há algum profissionalismo e os meus apelos também têm sido sempre neste sentido e estou positivamente agradado com o acto eleitoral. RFI: Apesar dos apelos para uma grande participação dos eleitores. Estas eleições foram marcadas por uma abstenção de mais de 62%. Como é que interpreta este dado? Carlos Vila Nova: Bom, aí já não há regozijo. Pelo contrário, os apelos foram muitos, mas também, se recuarmos a actos eleitorais anteriores, a abstenção, sempre foi muito elevada. É verdade, desta vez ultrapassou. Mas quando nós olharmos para aquilo que é todo o processo eleitoral, nós olhamos para os progressos que temos feito em matéria de consolidação dos dados eleitorais. Repare que nas eleições presidenciais de 19 de Julho foi quando nós conseguimos fazer uma reconciliação entre os registos eleitorais, os dados existentes de forma electrónica com a Comissão Eleitoral Nacional. Nas presidenciais detectou-se um bocado mais de problemas técnicos e essa parte foi melhorada. Mas eu creio que a emigração também afectou. Não tenho a certeza, mas é algo que nesta legislatura vamos ter que trabalhar muito, entrar na lei eleitoral, fazer melhorias. Eu próprio pedi aos nossos parceiros da União Europeia que recebi para nos acompanharem neste processo, porque, ao que tudo indica, nem toda a movimentação emigratória para fora de São Tomé e Príncipe tomou-se em conta e os registos continuam nos cadernos eleitorais em São Tomé. Isto já é de si um motivo. E depois, politicamente, também houve apelos. Isto é antidemocrático. Deixe-me dizer-lhe que não vejo como é que alguém em perfeito estado normal, possa fazer apelo à abstenção. Portanto, não só é antidemocrático, mas é incorrer em erro enganar pessoas, eleitores. Nem todos nós temos o mesmo discernimento, mas temos de lidar com a questão. E nós vamos lidar positivamente com a questão. Eu tenho esperança que nesta legislatura conseguiremos, porque as forças políticas activas entenderam que não é um apelo que se faça. Tanto é que todos eles apelaram à votação em massa. Não aconteceu. Vamos lidar com a questão. Vamos olhar para ele e tentar corrigir para que os próximos actos sejam melhores. RFI: Precisamente, falou do apelo ao boicote a estas eleições. Pensa que Patrice Trovoada pode tirar algum benefício político desta situação? Carlos Vila Nova: Bom, eu nem consideraria boicote, porque quando num acto eleitoral um partido político quer boicotar, não é desta forma. Portanto, eu olho para os partidos políticos, para os seus dirigentes, para os seus representantes e não vejo a pessoa que falou. Portanto, não, não me diz nada. RFI: Ontem, a Comissão Eleitoral Nacional deu os primeiros resultados. São resultados provisórios destas eleições. E desde então, os partidos políticos têm andado a especular sobre o número de mandatos que têm, respectivamente. Inicialmente falou-se do MLSTP estar à frente e de ter mais mandatos do que a ADI. Depois, evoluiu para um empate e agora é um quase empate. Como é que avalia a forma como actuaram estes partidos políticos desde ontem? Carlos Vila Nova: Com alguma precipitação. Mas pronto, não vou entrar em muitos pormenores quanto a isso. Mas reconheço que com alguma precipitação da parte e de outra. Na mensagem que eu fiz à Nação, apelei à serenidade. A serenidade também diz aguardar calmamente pelo anúncio dos resultados. Eles ainda não são oficiais. A Comissão Eleitoral fez o seu papel, anunciou e nota-se que realmente há uma aproximação entre dois dos principais partidos. Há uma diferença. Respeitei. Agora cabe ao Tribunal Constitucional de facto, quem tem a competência de validar não só os mandatos, o vencedor das eleições e a partir deste momento, trabalharemos na Constituição, na formação e na organização de todas as instituições que foram democraticamente eleitas para que elas entrem em funcionamento. Falo da Assembleia Nacional, a sua composição, e dos governos. Sobretudo o Governo central, que é uma emanação directa do resultado das eleições. Portanto, eu penso que nos próximos dias, há um prazo legal a cumprir, o Tribunal Constitucional vai se pronunciar e a partir daí nós saberemos exactamente quem é o vencedor. Quais são os mandatos distritais, nacionais, para então constituirmos os órgãos democraticamente eleitos. RFI: Não receia que, dado o nervosismo que há entre certos partidos políticos, possa haver também alguma suspeita em relação ao Tribunal Constitucional que, ao longo deste processo, foi acusado de alguma parcialidade política? Carlos Vila Nova: Tem sido comum. Mas repare que eu dou-lhe um exemplo: qualquer cidadão individual ou, digamos, qualquer entidade individual ou colectiva, mas que encontra resposta nos culpados, que os terceiros são sempre os culpados dos seus problemas. Não é verdade. A lei não existe só quando ela nos é favorável. Ela existe para com serenidade, aceitarmos as decisões dos tribunais. E quando não concordamos, temos que encontrar espaço para recorrer e interpretar. Mas tudo quanto vier a acontecer, para responder directamente à sua pergunta, nada disso não poderá ser resolvido se continuarmos com o espírito aberto. O engajamento para o diálogo. Resolve-se tudo isso. Portanto, as suspeições, elas podem existir, mas é preciso respeitar as instituições e agirmos com base nas decisões que são de lei. RFI: Neste processo todo, tendo em conta que há um quase empate, pelo menos por enquanto, tem havido contactos políticos entre as várias forças para construir eventuais coligações para formar governo. Como é que vê precisamente esta perspectiva? Quais vão ser os seus critérios para aceitar uma ou outra coligação para governar? Carlos Vila Nova: Vejo como bom tom essa aproximação entre os partidos. Portanto, demonstra algum espírito de concertação e de diálogo que é bom. Não quer dizer que todos os contactos sejam traduzidos em resultados concretos. Pela minha parte, acompanho desde já com muita atenção. Se puder influenciar alguma coisa, todos os partidos sabem que estou à disposição para o fazer, mas a entrada em acção do Presidente da República é exactamente quando tiver o anúncio oficial dos dados, convidar o partido vencedor, ter uma conversa e pedir -eu sempre disse- a sustentabilidade do Parlamento. Ela tem que ser garantida. Antes de nomear o próximo governo, não é de todo factível que o próximo governo, no primeiro embate, seja um governo praticamente com os pés na rua. Não faz sentido. Nós não estaríamos a promover aquilo que todos apelamos, que é a estabilidade, um princípio de coesão nacional, um princípio de diálogo onde as pessoas conversem, tragam os problemas e pensem todos o país. Eu não vi nenhuma força política desde as eleições de 19 de Julho para as presidenciais e agora em Setembro, que não usasse um slogan que reflectisse ou colocasse São Tomé e Príncipe em primeiro lugar. Todos. E então temos que na prática demonstrar isso. Portanto, o próximo governo será uma emanação da sustentabilidade parlamentar que me for garantida. RFI: O que espera do futuro governo com o qual vai trabalhar, senhor Presidente? Carlos Vila Nova: Lealdade institucional. A primeira das condições. Espírito aberto para o diálogo permanente. Disponibilidade para trabalhar e coragem para reformar. Vamos ter que, de facto, introduzir muitas reformas para melhorar o funcionamento do país e a capacidade, ao nível da Assembleia, de se discutir honestamente, com sinceridade, as grandes questões do país. E não escondo, inclusive, a possibilidade de a revisão constitucional neste quadro, nesta legislatura. Através do diálogo. RFI: Uma das reformas que enunciou como sendo prioritárias quando tomou posse para o seu novo mandato foi precisamente a Justiça. Como é que encara essa reforma? Carlos Vila Nova: A justiça, de facto, tem sido meu denominador comum durante cinco anos. Foi onde eu mais intervim. Foi onde eu mais trabalhei, foi onde eu mais contribuí. Continuarei. Chegu

  7. 6d ago

    Eleições são-tomenses: "abstenção acontece sobretudo porque as pessoas ficam cada vez mais cansadas"

    O MLSTP, principal partido de oposição, chegou à frente nas legislativas deste domingo 27 de Setembro de 2026 em São Tomé e Príncipe, com uma diferença de algumas centenas de votos face à ADI, no governo. Enquanto o MLSTP reivindica pelo menos 26 mandatos, a ADI no poder, veio afirmar esta tarde que existe a possibilidade de “um empate técnico” a 24 mandatos com o MLSTP. Outro dado destas eleições, de acordo com a Comissão Eleitoral Nacional, a taxa de abstenção situou-se quase nos 59%, ou seja no mesmo nível constatado nas presidenciais de 19 de Julho. Dados preliminares que analisamos com o sociólogo são-tomense Olívio Diogo. RFI: Como analisa na globalidade os primeiros resultados divulgados hoje? Olívio Diogo: Primeira coisa que tenho que falar sobre as eleições é dizer que elas correram de forma ordeira. Mais uma vez, o povo são-tomense mostrou que está muito evoluído positivamente para aquilo que diz respeito às eleições, naquilo que diz respeito à votação e que a partir do momento que as pessoas votam, elas transformam o dia da eleição numa festa. Não há nenhum tipo de conflito. Não há incidente e se houver algum outro caso, são casos naturais que acontecem em qualquer eleição, como em qualquer parte do mundo. Mas eles mostraram que estão bastante maduros para a questão das eleições. A outra questão tem a ver com aquilo que foram as abstenções que aconteceram. Esta abstenção acontece sobretudo porque as pessoas ficam cada vez mais cansadas daquilo que é a votação. Eu estive em alguns círculos eleitorais. Eu vi que as pessoas estavam ali, estavam perto do local da votação, mas não iriam votar porque estavam a participar da festa. É que os governantes, qualquer um deles, já não estão a trazer para si aquilo que acham que vai melhorar as suas condições de vida. RFI: Relativamente ainda á abstenção, esta abstenção, a taxa é mais ou menos semelhante àquela que foi constatada durante as presidenciais de 19 de Julho. Outro dado é que, entretanto, há algumas semanas, houve um apelo ao boicote a estas eleições legislativas. Como é que deve ser interpretada esta taxa de abstenção? Olívio Diogo: É verdade que mesmo antes do período eleitoral, houve um apelo ao boicote pelo ex-primeiro ministro Patrice Trovoada para que as pessoas não fossem às urnas. Quando nós falámos com as pessoas aqui, nós percebemos que este boicote pode não ter sido a causa fundamental das pessoas não irem votar, mas este boicote aproveita a oportunidade que as pessoas estão tão desencontradas com aquilo que os políticos fazem e as pessoas vêem que as suas vidas não estão a ser melhoradas. Mas é preciso também dizer que esta abstenção tem dois ou três aspectos ainda que são importantes falar sem falar da questão dos boicotes, sem falar que as pessoas estão desinteressadas em irem votar. é que esta forma de votação que nós estamos a ter agora, é uma votação diferenciada, todos os indivíduos que têm 18 anos, eles não precisam ir fazer a inscrição. Portanto, há muitos jovens com 18 anos que nem sabem que estão inscritos no caderno eleitoral. Outro aspecto tem a ver com o facto de estes dados terem sido extraídos e muitas pessoas não sabem em que local estão inscritas. O terceiro aspecto muito importante também, que se deve frisar, tem a ver com a emigração. Esta eleição a que estamos a assistir agora é uma eleição que apanhou esta vaga de emigração. É uma emigração de pessoas que muitas delas estão sem as suas condições de vida regularizadas. Elas não sabem sequer que poderiam votar no exterior. RFI: Este voto maioritário no MLSTP é um voto de adesão ao projecto do MLSTP ou de rejeição ao partido da situação? Olívio Diogo: O MLSTP, para quem acompanha as eleições em São Tomé e Príncipe, de algum tempo a esta parte, sabe que o MLSTP tem um número mais ou menos de votos que não se altera muito e portanto o MLSTP fez o seu papel de garantir que este número de votos seja aplicado. E por outro lado, trabalhou para que aumentasse mais um ou dois, o número deputados. Portanto, aqui há duas coisas. A primeira coisa é dizer que isto foi claramente um boicote ao Américo Ramos e as pessoas não se encontraram com aquilo que o Américo Ramos fez durante o seu mandato de dois anos. A população não se entendeu com Américo Ramos e certamente a forma como se tornou líder do Partido da Acção Democrática Independente e ele não conseguiu criar uma empatia com a população, que era uma empatia com aquilo que são as necessidades básicas da população. Se reparar, o MLSTP não cresceu muito. Foi a ADI que baixou significativamente. A ADI tinha nas últimas eleições 30 deputados e saiu de 30 deputados para ter agora 22 ou 23 que ainda não sabemos. Mostra claramente que foi a ADI que perdeu e que o grande perdedor destas eleições é inevitavelmente, o Américo Ramos, o primeiro-ministro em funções. RFI: Patrice Trovoada, pode retirar algum dividendo político deste cenário? Olívio Diogo: Naturalmente que Patrice Trovoada vai tirar dividendos políticos deste cenário, por ter apelado ao boicote às eleições, apelado ao aumento da abstenção e a abstenção vir equilibrada, como foi já nas eleições presidenciais, demonstra claramente que a sua palavra, a sua imagem e a informação que ele quis passar foi encaixada sobretudo naquelas pessoas que são fidedignas àquilo que é a política de Patrice Trovoada. Essas claramente não foram votar e essas claramente disseram que continuam com ele independentemente daquilo que venha a contar. Portanto ele pode perfeitamente bem tirar dividendos disto. RFI: Ainda não se sabe exactamente como é que se repartem os mandatos, uma vez que é o Tribunal Constitucional que deve dar esta informação. O MLSTP reivindica pelo menos 26 mandatos, o que é muito próximo da maioria absoluta. Mas não tendo a maioria absoluta, para que partido é que se vai virar naturalmente para eventualmente formar uma coligação? Olivio Diogo: No que diz respeito ao facto de ser o Tribunal Constitucional a fazer o mosaico natural de número de mandatos que cada partido deve ter, isto leva a entender que o MLSTP, tendo em conta que isto é uma realidade, está a fazer pressão para dizer ao Tribunal Constitucional que este resultado são resultados que dificilmente se alteram. Mesmo que a ADI queira governar, teria que fazer uma coligação, mesmo que o MLSTP queira governar teria que fazer uma coligação. Perguntava-me anteriormente com quem é que se deve fazer esta coligação. Todos os partidos estão abertos e disponíveis porque eles sempre disseram o mesmo. O Basta e qualquer um destes partidos tiveram um ou dois deputados, estão disponíveis para o fazer. Essa coligação passará inevitavelmente pelo MCI-PS/PUN porque está em melhores condições. Nenhum partido poderá governar sem fazer uma coligação com esta formação. Isto é impossível, a não ser que haja uma coligação entre o MLSTP e a ADI para governar, o que eu acho que não acontece. A coabitação que deve haver entre o Presidente da República e uma cor política contrária é uma coabitação que nós, os observadores daquilo que se passa dentro da nossa política, acreditamos que sim, porque não podemos esquecer que estas duas forças, quer o MLSTP quer a ADI, apoiaram o Carlos Vila Nova a ser reeleito Presidente da República e agora não vejo razão para que o Carlos Vila Nova venha se opor à possível ascensão de uma dessas forças políticas.

  8. Sep 28

    Leão XIV em Lourdes: Entre as feridas da Igreja e a esperança dos peregrinos

    Leão XIV passou o terceiro dia da sua deslocação a França em Lourdes, onde a agenda ficou marcada por dois temas particularmente sensíveis para a Igreja: o fim da vida e os abusos sexuais cometidos no seu seio. Entre os peregrinos que se deslocaram a Lourdes, a paz foi uma das principais intenções. No santuário de Nossa Senhora de Lourdes, o Papa defendeu o desenvolvimento dos cuidados paliativos e da investigação médica, rejeitou a ideia de uma "morte programada" e lembrou que os doentes e as pessoas com deficiência não são um peso para a Igreja. "Sei que, para alguns de vós, devido a determinadas patologias e a dores por vezes insuportáveis, o horizonte pode parecer sombrio, incerto e sem saída. Mas nenhuma lei humana deve fazer-vos perder a certeza da vossa dignidade", afirmou Leão XIV. "Em nome dessa dignidade inalienável da pessoa humana, a tentação de provocar a morte sob o pretexto de uma falsa compaixão deve ser firmemente rejeitada. É impossível considerar normal provocar a morte. O que é legal não é necessariamente moral." O Papa foi ainda mais longe ao afirmar que "ninguém tem o direito, com base em algoritmos laboratoriais, de decidir sobre a vida de determinados embriões ou de determinadas pessoas idosas". E deixou uma afirmação peremptória: "Nunca a medicina deverá tornar-se na serva de uma morte programada." Durante a visita a Lourdes, Leão XIV abordou também os abusos sexuais cometidos na Igreja. Num encontro à porta fechada com os bispos franceses, exortou a Igreja de França a prosseguir a sua acção perante o "flagelo" dos abusos sexuais e, durante a missa dominical, lançou um apelo à conversão para curar as feridas provocadas pelos erros cometidos no seio da própria Igreja. "É hoje e não amanhã que nos devemos converter", afirmou. "Essa exigência da conversão envolve a própria Igreja na sua peregrinação terrena. Ela deve ter coragem de viver essa conversão em primeiro lugar, para curar as feridas profundas, as infidelidades e os desvios causados pelos erros cometidos em seu seio." Leão XIV pediu ainda à Igreja que reconheça as suas próprias falhas: "Devemos colocar-nos humildemente sob o olhar purificador do Senhor, reconhecer as nossas próprias falhas, o que é indispensável para o nosso progresso espiritual". O tema dos abusos sexuais continua a ser particularmente sensível para a Igreja francesa, cinco anos depois de um relatório ter estimado em 330.000 o número de vítimas menores no seio da Igreja desde 1950. Em Lourdes, Leão XIV manteve também um encontro privado com sete vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero. No final da reunião, durante uma conferência de imprensa, as vítimas descreveram um Papa simples e disponível para as ouvir, manifestando esperança de que o encontro possa representar o início de um processo de mudança. Entre os peregrinos que se deslocaram a Lourdes, a paz foi uma das principais intenções. Nuno, que vive em Lourdes, considerou a visita do Papa um acontecimento raro para a comunidade local. "Como somos católicos, temos o gosto de receber o Papa na nossa vila. Esperemos que acabem com a guerra e que tenhamos mais paz." Questionado sobre os erros cometidos pela Igreja, nomeadamente os abusos sexuais, reconheceu: "Sim, sim, isso é verdade." Sónia, a esposa, defendeu a necessidade de enfrentar directamente os abusos: "Eu penso que sempre existiram essas coisas na Igreja, não é? Só que agora é mais falado. E eu acho que se tem de lutar mesmo contra isso. Enfrentar o problema." Edivânia veio de Carcassonne para ver o Papa e levou consigo um pedido pela paz. "A paz no mundo. Que acabe a guerra e que todo o mundo abra o coração para Jesus." Para esta peregrina, Lourdes representa sobretudo uma mensagem de fé: "A grande mensagem que ela deixou para nós: escutar sempre o Filho dela, Jesus, sempre rezar o terço e fazer sacrifício pela conversão dos pecadores." Neuza, que já no sábado tinha passado o dia inteiro no santuário, este domingo chegou às cinco da manhã e não escondeu a emoção quando o Papa passou mesmo à sua frente: "Eu senti uma alegria tão forte que eu queria dar um beijo nele, mas não deu. Ele parou aqui, pegou em duas crianças, deu um beijo nelas. Foi uma emoção muito grande." Carlos, vive em França há cerca de dez anos, viu pela primeira vez um Papa. "Sente-se uma alegria muito grande para as pessoas católicas como eu. E foi bom ver o Papa. Nunca tinha visto o Papa em toda a minha vida. Então, foi bom vê-lo." Entre os pedidos que trouxe a Lourdes estão "ter sucesso na vida como qualquer pessoa", mas também "que o mundo tenha um pouco menos de guerras e que sejamos um pouco mais compreensivos do que o que somos hoje em dia". Para o padre Vítor Gomes, sacerdote da paróquia de Orthez, na diocese de Bayonne, a visita de Leão XIV foi marcada por uma mensagem de paz e também pela preocupação com as vítimas de abusos. "Para nós é uma grande felicidade e uma grande alegria. Uma mensagem de paz, de fazer Igreja e também um pensamento para as vítimas que sofreram muito." Sobre o encontro do Papa com as vítimas, considera que "é muito importante, para dizer que nem todos os padres são assim, e para dizer também a compaixão da Igreja pelas vítimas que ficam marcadas toda a vida". Oliver, estudante brasileiro que vive actualmente em Portugal, fez questão de viajar até Lourdes depois de saber da visita do Papa. "Quando soube que ia passar o semestre em Portugal e soube que o Papa viria a Lourdes, eu tive de vir para cá. Fiz questão de passar aqui o fim-de-semana com ele e participar em todos os eventos." Sobre a mensagem de Leão XIV, fala em esperança. "São palavras de muita esperança também para os jovens, para o povo francês e também para o mundo. De continuar firmes na Igreja, na fé, nunca desistir." E acrescenta que o Papa colocou como intenção "que cessem as guerras do mundo". Questionado sobre o papel da Igreja no combate aos abusos sexuais, Oliver considera que a instituição deve continuar a actuar. "A Igreja sempre tem de lutar contra todas as violências. Tem lutado. É difícil. A Igreja é santa. Os homens não." Na sua perspectiva, é necessário "acolher e punir o que acontece e tentar prevenir". José e Amália, um casal português residente em França há décadas, também se juntaram aos peregrinos. "Somos portugueses a 100%, mas vivemos em França, o meu marido há mais de 50 anos. Gostamos muito de vir a Lourdes." Sobre a mensagem do Papa, dizem ter ouvido sobretudo um apelo à união e à paz: "Ele fala da paz, que as pessoas sejam unidas e falou que a miséria deve acabar e que todo o mundo viva em paz." José destacou a importância das palavras de Leão XIV num mundo marcado pelos conflitos. "Eu acho que ele é um Papa moderno. Um Papa moderno que quer a paz. Que não haja guerra. Porque vivemos num tempo muito difícil." E recorda a experiência pessoal da guerra: "Eu já fiz a guerra, sei o que é tudo isso, fiz a guerra na Guiné. E sei o que é o bem e o mal-estar. E é triste sofrer. Matar pessoas inocentes. É triste. É triste." O domingo de Leão XIV terminou em Lourdes com uma procissão de velas entre a gruta de Massabielle, local onde, segundo a tradição católica, ocorreram as 18 aparições da Virgem Maria a Bernadette Soubirous, em 1858, e a grande esplanada do santuário.

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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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