Na Terra dos Cacos

Como dizia Eduardo White, os países africanos são hoje cacos dos sonhos que partiram ontem. António Rodrigues e Elísio Macamo discutem, a cada duas semanas, como colá-los.

  1. -1 DIA

    Como a literatura colonial acabou a ajudar a construir um país

    Em 2002, o livro foi recebido “entre a indiferença e frieza”. Um trabalho que talvez tenha surgido adiantado para o seu tempo: nem ao Portugal que entrava no novo milénio lhe interessava a literatura colonial portuguesa, nem o Moçambique que se reconstruía depois da guerra civil se sentia com vontade de assumir como seu o passado do país durante a ocupação colonial. A reedição agora pela Caminho dá-lhe oportunidade para um segundo fôlego. As investigações e a reflexão sobre o colonialismo português, quer no espaço público quer no espaço académico, generalizaram-se a ponto de diminuir a carga de susceptibilidade que o seu tema envolve. E o distanciamento temporal poderá assegurar que Império, Mito e Utopia: Moçambique como Invenção Literária, a tese de doutoramento em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa do investigador moçambicano Francisco Noa, seja vista por aquilo que é: uma investigação sólida, assente em bases teóricas extensas e muito bem escrita. Francisco Noa é o nosso entrevistado, na segunda parte neste novo episódio de Na Terra dos Cacos, o podcast do PÚBLICO sobre temas africanos. Na primeira parte, António Rodrigues e Elísio Macamo conversam sobre a situação no Mali e o professor da Universidade de Basileia até se permite um exercício de schadenfreude, pois os ataques em larga escala dos rebeldes tuaregues e dos jihadistas ligados à Al-Qaeda vieram demonstrar a incapacidade dos militares golpistas para resolver os problemas do Sahel e a fatuidade da ajuda militar russa. Também há espaço para conversar sobre as eleições legislativas em Cabo Verde que se disputam no domingo, 17 de Maio, tendo mais uma vez o MpD, no poder desde 2016, e o PAICV, o antigo partido único, como os principais actores de uma eleição com cinco partidos a disputar os 72 lugares no Parlamento. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    40 min
  2. A mancha que ficou entre as palavras do Papa em África

    29/04

    A mancha que ficou entre as palavras do Papa em África

    Um Papa em África, um líder político injustamente preso e um romance que ganha nova vida 28 anos depois, assim se faz este novo episódio de Na Terra dos Cacos, o podcast do jornal PÚBLICO dedicado a temas africanos. O longo périplo de Leão XIV em África, a sua primeira grande viagem papal ainda dentro do seu primeiro ano de pontificado, mostra a importância que o sucessor de Francisco dá ao continente. A jornada começou no dia 13 na Argélia e terminou na Guiné Equatorial no dia 23, passando por Camarões e Angola, ficou marcada por mensagens importantes contra a exploração económica e os interesses instalados. Reconciliação, paz, luta contra a exploração, o Papa falou de injustiça, falou de exploração, dessa lógica extractivista que leva os recursos sem deixar riqueza para os que ficam. Todo um guião adequado para um sucessor de Francisco: apesar de estilos diferentes, o primeiro Papa franciscano e o primeiro Papa agostiniano parecem ter muitas coisas em comum. No único em que destoou, naquilo em que foi mais Bento XVI, foi na referência que fez na missa campal nos arredores de Luanda, a 19 de Abril, às religiões tradicionais: “É necessário estar sempre atento às formas de religiosidade tradicional, que certamente pertencem às raízes da vossa cultura, mas que, ao mesmo tempo, correm o risco de confundir e misturar elementos mágicos e supersticiosos que não ajudam no caminho espiritual.” A semana passada, o primeiro-ministro Ilídio Vieira Té, escolhido pelos militares golpistas da Guiné-Bissau, deu uma conferência de imprensa para dizer que Domingos Simões Pereira (DSP), presidente do Parlamento guineense, se encontra sob custódia militar e agora só esperava “uma justiça parcial e objectiva” do tribunal que “é um órgão independente”. Tanto os advogados como a família de DSP dizem que não há nenhum processo contra o líder do PAIGC e que tudo não passa de um estratagema político para o manter detido. “Fracassada a intenção de incriminar o nosso cliente, sobretudo pela posição clara e inequívoca dos promotores que foram ameaçados e afastados do processo”, acabaram a criar “um tribunal ad hoc, com magistrados requisitados”. No nosso espaço habitual de entrevista, temos como convidada a escritora cabo-verdiana Dina Salústio, cujo primeiro romance, A Louca de Serrano, publicado pela primeira vez em 1998 em Cabo Verde, teve agora a sua primeira edição em Portugal pela editora Rosa de Porcelana. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    46 min
  3. 15/04

    África precisa de homens fortes no poder?

    Esta quinta-feira, 16 de Abril, a Liga Africana vai deixar de vez o edifício que foi construído para a sua sede em 1953 e que desde 2017 é Património Histórico-Cultural de Angola. A organização, considerada de utilidade pública desde 1996, e os membros da sua direcção foram agraciados, em Setembro, pelo Presidente João Lourenço com as medalhas criadas para comemorar os 50 anos da independência de Angola pelos serviços prestados à nação. O mesmo João Lourenço assinou agora o ofício a ordenar o despejo da Liga Africana, numa decisão que apanhou de surpresa os seus órgãos directivos, que não foram tidos nem achados na decisão. Será que estamos perante mais um exemplo de como o Governo de Angola lida mal com a preservação da memória histórica? E já que estamos com perguntas: É verdade que os africanos precisam de homens fortes a governá-los? A julgar pelo editorial de 8 de Abril do director da revista Jeune Afrique, um homem branco de 73 anos nascido em França, sim, os africanos querem homens fortes a governá-los. Escreve François Soudan: “A maioria dos africanos não é diferente da maioria dos outros povos. Não rejeitam os homens fortes; pelo contrário, procuram-nos. Porque a força seduz, porque é a sintaxe e a gramática da linguagem do poder, porque não há instituições fortes sem homens fortes para as pôr em prática. E porque nada há de pior, aos olhos dos administrados, do que um presidente desgastado, que não corta nem cabeças nem problemas.” Na segunda parte, no nosso espaço de entrevista, vamos conversar com o artista plástico português de ascendência angolana e cabo-verdiana Francisco Vidal, a propósito da sua participação numa exposição colectiva na Haus der Kulturen der Welt, a Casa das Culturas do Mundo, em Berlim. Tirailleurs. De “carne para canhão” a vanguarda – os soldados esquecidos que libertaram a Europa, inaugurada a 21 de Março e que se prolonga até 14 de Junho, é uma exposição que tenta resgatar do esquecimento os soldados das colónias francesas que lutaram pela libertação da Europa na II Guerra Mundial. O programa diversificado da exposição alarga-se a histórias semelhantes de outras regiões e períodos, de forma a evidenciar a continuidade da exploração de pessoas como “recursos humanos” em diferentes regimes. E é aí nesse espaço colectivo de reconhecimento e memória, com obras de mais de 30 artistas, que Vidal expõe o seu mural, encomendado pela Casa das Culturas, composto por 48 cartazes de 62,5 cm por meio metro em papel de parede a que deu o nome de Didactic drawings for a future reading, thoughts about slavery and freedom, ou seja, desenhos didácticos para uma leitura futura, pensamentos sobre escravatura e liberdade. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    49 min
  4. 1/04

    “A oposição em Angola é propriedade do próprio regime”

    As eleições em Angola são uma ilusão de que a oposição é cúmplice, chegou, pois, a hora de tentar mudar a situação política por outras formas que não a dos partidos políticos. Esse é o resumo do manifesto político que elementos da sociedade civil angolana, nomeadamente Luzia Moniz e Domingos da Cruz, pretendem divulgar como forma de incentivar a população a levar a cabo “uma nova luta de libertação nacional em Angola”.  Disso nos vem falar Domingos da Cruz, o entrevistado deste episódio de Na Terra dos Cacos, o podcast do PÚBLICO sobre temas africanos. O investigador, um dos presos políticos do processo dos 15+2 em Angola, actualmente a residir no Canadá, considera que MPLA e UNITA se equivalem nessa manutenção de um sistema que só os beneficia a eles e em que o povo é o capim que sofre.  Se “a oposição em Angola é propriedade do próprio regime”, então a alternância política através de eleições é uma falácia repetida apenas para manter tudo como está. O manifesto propõe “a autolibertação do povo da manipulação dos partidos sem bússola moral, para que a soberania popular se mobilize fora das instituições para erradicar a opressão”.  Na primeira parte, falamos da Rússia que vai começar a explorar urânio na Namíbia, um dos países com maiores reservas deste minério no mundo e partilhar o seu know how em matéria de energia nuclear com o país da África Austral que tem uma extensa fronteira com Angola.  E também conversaremos sobre a decisão da justiça moçambicana de levar a julgamento o candidato presidencial Venâncio Mondlane, principal rosto da oposição em Moçambique, no âmbito de cinco processos-crimes por causa das manifestações contra a alegada fraude depois das eleições gerais de 9 de Outubro de 2024. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    44 min
  5. 18/03

    Faz todo o sentido que a Argélia queira que a França pague pelos ensaios nucleares

    Num documento publicado na semana passada, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês) analisa as implicações do fecho do estreito de Ormuz para a economia mundial. Nomeadamente para África e para países cuja agricultura depende extremamente dos fertilizantes importados dos países do Golfo, como Moçambique, que está entre os dez mais dependentes, com 22% do fertilizante que consome a sua agricultura a passar precisamente por essa importante via marítima, afectada pela retaliação do Irão aos ataques de Estados Unidos e Israel. A Argélia aprovou uma nova lei sobre o colonialismo, que suavizou 13 artigos que poderiam levar a problemas diplomáticos com a antiga potência colonial, a França. Manteve, no entanto, a mão dura na criminalização da apologia do colonialismo, para preservação da memória daqueles que lutaram pela independência do país. A partir de agora, quem glorificar o período colonial, em texto, imagem ou audiovisual, incorre numa pena de prisão de três a cinco anos e uma multa entre 100 mil e 500 mil dinares (de 650 a 3250 euros). A pena duplica em relação aos reincidentes, até dez anos de prisão efectiva. Na segunda parte, temos como nossa convidada a presidente do Instituto da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, Matilde Santos, que nos fala dos desafios e problemas com que se debate uma biblioteca nacional recente como a cabo-verdiana, que tem apenas 25 anos. Falamos sobre digitalização, literacia, fomento da leitura, falta de meios e de técnicos com formação. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    43 min
  6. 4/03

    A filosofia do absurdo e os sonhos da independência

    Na próxima semana, estreia nos cinemas portugueses a adaptação feita pelo cineasta francês François Ozon do livro de Albert Camus, O Estrangeiro, com Benjamin Voisin no papel de Mersault. O primeiro romance publicado pelo escritor francês nascido na Argélia, em 1942, é a primeira parte de uma tetralogia que Camus definiu como o “ciclo do absurdo”. O livro que começa assim “Hoje, a mãe morreu. Ou, se calhar, ontem, não sei”, tem como protagonista Mersault, modesto empregado de escritório em Argel, capital da Argélia, então colónia francesa. Um homem sem ambições que se cala porque não tem nada para dizer, como afirma, e que, um dia, “mata um árabe” a tiro na praia, “por tédio” ou, se calhar, “por causa do sol”. Ozon adaptou agora o livro que Luchino Visconti havia adaptado em 1967, com Marcelo Mastroianni interpretando Mersault. Desta vez, o principal papel foi entregue a Benjamin Voisin, que, no preto e branco da fotografia a que lhe falta alguma profundidade nas sombras, consegue ser convincente na sua profunda banalidade. Falamos também de Moçambique e do Fundo Monetário Internacional que considera que o país está exposto a vulnerabilidades significativas associadas a desequilíbrios internos e externos, a um crescimento modesto, a uma dívida pública elevada, a problemas de segurança, a fragilidades institucionais e a choques climáticos, por isso recomenda ao Governo levar a cabo reformas orçamentais e estruturais. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial anunciou há dias que vai disponibilizar 6000 milhões de dólares nos próximos cinco anos com o objectivo principal de criar emprego. Na segunda parte, a nossa convidada será a escritora angolana Branca Clara das Neves, pseudónimo literário de Ana Luísa Teixeira, nascida no Luena, no Leste de Angola em 1956. Uma conversa a propósito do seu mais recente livro Casa 75, publicado recentemente pela editora angolana Elivulu. “Casa 75” é um romance de amadurecimento que evoca o espírito Casa dos Estudantes do Império e a sua influência na difusão do pensamento nacionalista e na aproximação de intelectuais das antigas colónias e na partilha de experiência das suas lutas pela independência. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    42 min
  7. 18/02

    Guiné-Bissau: “Sissoco Embaló abriu as portas ao tráfico de droga”

    A última grande apreensão de droga na Guiné-Bissau aconteceu quando Ruth Monteiro era ministra da Justiça, por isso, sabe do que está a falar quando diz, neste episódio do podcast Na Terra dos Cacos, que o Presidente deposto da Guiné-Bissau, Umaro “Sissoco Embaló, abriu a porta ao tráfico de droga” no seu país. Para Ruth Monteiro, a Guiné-Bissau “já não é um Estado falhado nem um narcoestado, mas um grupo de pessoas abandonado”, entregue ao controlo das armas e sem que a comunidade internacional se preocupe com o destino desses dois milhões de almas de um pequeno país da costa ocidental africana. Por isso, pede a Portugal que faça mais, que pressione mais, que não se esqueça da história que os dois países têm em comum: “Não nos deixem sozinhos.” Na primeira parte do episódio, António Rodrigues e Elísio Macamo conversam sobre aquilo a que o jurista Rui Verde chama de instrumentos do neo-autoritarismo angolano num artigo publicado recentemente no site Maka Angola, isto é, da criação de novas leis e entidades para controlar e reprimir a dissidência e a crítica. Também falaremos das negociações em Madrid de um acordo patrocinado pelos Estados Unidos sobre o futuro do Sara Ocidental, esse país eternamente adiado que muito provavelmente nunca se tornará real. Meio século depois de Espanha ter abandonado a sua colónia, entregue aos marroquinos e aos mauritanos, e com a causa sarauí desaparecida com o tempo das lutas africanas, será que um governo autónomo para os sarauís dentro do reino de Marrocos é o mal menor que pode aspirar esse povo? See omnystudio.com/listener for privacy information.

    49 min
  8. 4/02

    “O racismo em Portugal está a evoluir ao contrário”

    O nosso entrevistado deste episódio é o escritor Ângelo Delgado, um português filho de pais cabo-verdianos que acaba de publicar o seu segundo livro. Chama-se Foi o Preto e é um regresso ao Portugal dos anos 1990, ao racismo, à culpabilização fácil do outro só por causa da cor da pele: a história de um homem injustamente acusado de um crime que não cometeu. Uma sociedade hostil que parecia ter-se apaziguado, mas que afinal continua igual no Portugal de agora, como o grande apoio ao partido Chega o demonstra. Para autor, nascido em 1981, jornalista de formação e actualmente copywriter de publicidade, aquilo que parecia ser uma situação da sociedade portuguesa dos anos 1990 volta agora, um racismo que agora se direcciona mais para pessoas do Hindustão. “O racismo em Portugal está a evoluir ao contrário”, lamenta. Antes da entrevista, falamos sobre a dívida angolana, os seus encargos e o círculo vicioso do endividamento que vai estrangulando as possibilidades de desenvolvimento do país. As contas de Angola do primeiro trimestre mostram que mais de metade do dinheiro dos cofres públicos angolanos será destinado a encargos financeiros com os seus empréstimos. Se a isto somarmos que do bolo total disponível, 24% servirão para pagar o ordenado aos funcionários públicos, percebemos que para o resto, para educação, saúde, saneamento básico, etc., etc. sobram 22%. Também conversamos sobre as etapas mais recentes da crise democrática na Guiné-Bissau, numa altura em que o líder da oposição, do PAIGC e do Parlamento destituído, Domingos Simões Pereira, foi libertado ao fim de 66 dias na prisão sem culpa formada, embora tenha sido enviado para casa sem possibilidade de comunicar com o exterior e guardado por homens fortemente armados. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    48 min

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Como dizia Eduardo White, os países africanos são hoje cacos dos sonhos que partiram ontem. António Rodrigues e Elísio Macamo discutem, a cada duas semanas, como colá-los.

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