Um Género de Conversa

Este podcast é sobre mulheres. Não é vedado aos homens mas, insistimos, é sobre as mulheres. Uma hora de conversa entre mulheres, sobre mulheres, para mulheres. Os homens que calharem a ouvir são capazes de beneficiar com isso. Pelo menos elas acham que sim. Uma é a Patrícia Reis, a outra a Paula Cosme Pinto, e são elas as anfitriãs deste lugar de fala feminino.

  1. 4d ago

    Alexandra Oliveira sobre a prostituição e o estigma: qual é o pior insulto que se pode dar a uma mulher?

    O novo episódio do podcast Um Género de Conversa começa com a palavra puta. Alexandra Oliveira, professora associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e uma das mais conceituadas investigadoras nacionais nesta matéria, estuda prostituição, trabalho sexual, género, sexualidade, norma e desvio há várias décadas, e é peremptória a frisar: “puta” nunca foi apenas uma palavra para designar quem vende serviços sexuais, é também uma forma de pôr as mulheres no lugar. “Puta é o pior dos insultos que se pode dar a uma mulher. Mas qual é o papel do estigma de puta na nossa sociedade? É um estigma que não recai só sobre as mulheres que vendem serviços sexuais, recai sobre qualquer mulher que tenha um comportamento sexual que fuja um bocadinho das normas. Qualquer mulher sabe disso.” A investigadora descreve-o como “uma espécie de espada de Damócles” permanentemente suspensa sobre as mulheres, basta existir uma sexualidade demasiado activa, livre, sem fins reprodutivos, distante daquela que lhes foi prescrita. “Acaba por dividir as mulheres em dois tipos: aquelas que são boas, que se comportam bem, e aquelas que são más, que se comportam mal.” As últimas são castigadas. E as mulheres que fazem trabalho sexual conhecem bem o castigo. “Há uma carga negativa muito grande associada à prostituição e às pessoas que a fazem. Ainda são altamente rejeitadas, discriminadas, excluídas. Isso faz com que as pessoas tenham de esconder a actividade que fazem.” Esconder, aqui, pode significar, ter de viver duas vidas. Há mulheres que saem de casa de manhã como quem sai para qualquer outro trabalho, cumprem um horário, ganham o seu dinheiro e regressam depois à vida familiar. Sem que os maridos ou os filhos saibam. Por vezes, sem que ninguém à sua volta saiba. Não porque a actividade tenha de ser clandestina, mas porque o estigma continua a ser suficientemente pesado para obrigar à clandestinidade. Ao longo dos seus mais de 20 anos de estudo nestes temas, a investigadora também teve de desmontar os seus próprios preconceitos. “Eu parti do abolicionismo. Fui educada numa família de classe média, católica. Achava que as prostitutas eram umas pecadoras, as mulheres que se portavam mal.” Na adolescência, leu Puta de Prisão, de Isabel do Carmo e Fernanda Fráguas, um livro sobre mulheres presas por prostituição, que em Portugal só deixou de ser crime em 1982. “Funcionou, foi um choque, um murro no estômago.” Aquelas mulheres a quem atribuía um rótulo passaram a ter histórias, rostos, vidas. Mais tarde, já como estudante de Psicologia, passou cinco anos na rua, observando-as, ouvindo-as na primeira pessoa. Esse estudo resultou numa tese de doutoramento que obteve uma Menção Honrosa do Prémio Maria Lamas 2011 e foi editada em livro com o título Andar na vida: prostituição de rua e reacção social. Nessa altura, Alexandra Oliveira encontrou uma realidade menos conveniente para certezas: “A maior parte das mulheres estava de forma livre na rua, sem ninguém a controlá-las”. Faziam os próprios horários, tinham uma rotina de trabalho, escolhiam com quem iam, quando iam, utilizavam quartos de pensões pelos quais pagavam um valor de cada vez, sem vínculos aos donos dos estabelecimentos. Eram autónomas. Contudo, encontrou também muita violência. “Estar na rua com mulheres que fazem prostituição é estar constantemente a ser agredida psicológica e, por vezes, também fisicamente”. Dá como exemplo os grupos de rapazes que passavam de carro para insultar ou atirar lixo: “Estes miúdos olham para estas mulheres como? Como não sendo mulheres, como sendo lixo?”, questiona-se. É precisamente essa desumanização que a preocupa até aos dias de hoje. “Resumimos as pessoas a uma característica que, neste caso, é serem prostitutas, e esquecemos o resto. Que são mulheres, que são mães, que são irmãs também, que são pessoas. A violência que elas sofrem está muito radicada nesta questão da desumanização do estigma”, frisa. “As legislações sobre trabalho sexual e sobre a prostituição estão pejadas de moral” Alexandra Oliveira recusa tanto a vitimização de quem faz esta actividade quanto a sua glamourização, como se vê amiúde no trabalho sexual praticado nas plataformas online. As perspetivas abolicionistas, argumenta, partem frequentemente do princípio de que todas estas mulheres são vítimas sem agência, incapazes de escolher. “Quando se referem a estas mulheres como mulheres prostituídas, há um raciocínio de base de que elas são vítimas passivas, alguém que não tem qualquer agência, incapaz de decidir, de escolher.” E isso, acrescenta: “Está a infantilizá-las, está a patologizá-las”. Reconhecer isto não significa, porém, ignorar a exploração ou a coação que muitas sofrem. “O que eu acho que não faz sentido é tratar toda a gente como igual e dizer que todas as pessoas que estão nesta atividade são vítimas sem exceção, que estão à espera de que nós as salvemos.” Para Alexandra Oliveira, essa “visão monolítica” acaba por apagar as diferentes realidades que diz querer proteger. Olha também criticamente para as leis que criminalizam os clientes. A lógica parece simples: se não houver procura, não existirá prostituição, mas, lembra, “a verdade é que isto não acabou nos países onde foi instituído, nem vai acabar. Não acabou na Suécia, nem na Noruega, nem na Islândia”. Na sua leitura, estas políticas empurraram pessoas para os perigos da clandestinidade e contribuíram para aumentar o estigma, alimentando uma batalha muito antiga sobre quem pode decidir sobre o corpo e a sexualidade das mulheres. “As legislações sobre trabalho sexual e sobre a prostituição estão pejadas de moral. Trata-se de tentar regular de forma moral os comportamentos.” Alexandra Oliveira não nega que existam constrangimentos e reafirma a necessidade de atuação de proteção às vítimas de exploração. “As pessoas que são vítimas, que são coagidas, que não querem estar ali, têm de ser ajudadas a sair.” E o Estado, sublinha, tem de lhes dar “respostas concretas, sólidas, realistas”. Reconhecer os constrangimentos não obriga a apagar a capacidade de autodeterminação de quem exerce trabalho sexual de forma livre e consentida. O seu discurso, insiste, não é o de desvalorização das agressões implícitas no trabalho sexual. “O meu discurso é de proteção das pessoas com esta atividade. Pessoas que têm sido, ao longo da história, rejeitadas sistematicamente, não incluídas, a quem tem sido tirada a voz. É de defesa dos direitos humanos e laborais de pessoas que continuam sem os ver reconhecidos.”   See omnystudio.com/listener for privacy information.

  2. Oct 14

    Ana Rocha de Sousa: “[O prazo] de prescrição dos abusos sexuais é inacreditável”

    Em 2022, Ana Rocha de Sousa viu uma activista ucraniana exibir no corpo a frase Stop Raping Us. A imagem ficou com ela. Actriz, argumentista e realizadora, acaba de estrear Asas (nas salas portuguesas a partir de Janeiro de 2027), a sua segunda longa-metragem, inspirada na história real de uma família de mulheres ucranianas obrigada a fugir da guerra e a procurar refúgio em Portugal. “O contexto destas mulheres e desta família é a guerra, mas o filme fala também das guerras internas de cada uma delas”, conta. A palavra que atravessa este episódio do podcast Um Género de Conversa, com Ana Rocha de Sousa, é indignação. Foi ela que esteve na origem de Listen, a sua primeira longa-metragem, e que volta a estar presente em Asas. Aos 47 anos, a realizadora admite que viver permanentemente nesse estado tem um preço. “A indignação pesa-me. Pesa-me verdadeiramente. Muitas vezes fiquei na frente de batalha sozinha e depois sofri as consequências sozinha.” Em Asas, as mulheres e as crianças podem conseguir afastar-se da linha da frente de uma guerra, mas isso não significa que escapem à guerra. Ao filmar na Ucrânia, a realizadora confrontou-se com a dimensão dos massacres e da violência sexual sofrida por mulheres ucranianas, mas decidiu não mostrar explicitamente esse horror. “Acho que o horror também tem um limite para se dar voz. Eu quis que o horror tivesse espaço para existir, porque ele existe, mas era-me profundamente desconfortável fazer um filme de horror.” Depois de Listen, queria que o novo filme pudesse deixar outra coisa além da desesperança. “Era importante para mim que, além das perguntas que ficam no ar, encontrasse um caminho, uma luz qualquer.” Asas é também um filme sobre desenraizamento e pertença. Uma experiência que Ana Rocha de Sousa conhece, já que viveu em Inglaterra e recorda ter sentido muitas vezes a divisão entre o “nós e eles”. Hoje considera essa experiência determinante para a forma como olha para os outros. “Ser estrangeiro numa terra é uma experiência muito importante na vida. Foi muito importante para fazer crescer em mim grande parte da empatia que tenho hoje.” A realidade é o ponto de partida dos dois filmes. Ana Rocha de Sousa procura histórias, investiga, cruza acontecimentos, mas não os reproduz literalmente. “Nunca me sinto à vontade para inventar. As histórias que conto não são um decalque da realidade, são inspiradas na realidade e depois transformadas. Eu caso factos e é nisso que me sinto confortável.” O seu é um cinema inevitavelmente político, embora a realizadora hesite perante a classificação. Diz que os filmes nascem menos de uma intenção política programada do que de uma forma de “ser, existir e respirar”. Em paralelo a Asas, Ana Rocha de Sousa filmou um documentário sobre a fadista Carminho e a tournée no Japão cuja exibição também está programada para breve. Quando realizou Listen, acreditava que o filme poderia contribuir para mudar a legislação britânica relativa à retirada de crianças às famílias. O filme chegou a ser usado numa defesa em tribunal e esteve associado à mobilização pública no Reino Unido. Ainda assim, reconhece que esperava mais do impacto social do cinema. A indignação reaparece quando a conversa chega à prescrição dos crimes de abuso sexual. Para Ana Rocha de Sousa, a lei não pode ignorar o conhecimento existente sobre os mecanismos do trauma. “As pessoas levam décadas a perceber o que viveram naquele momento traumático. Não podemos estar a prescrever antes de existir sequer essa percepção.” See omnystudio.com/listener for privacy information.

  3. Oct 7

    Mariana Gil: “A mulher cigana ainda é vista como um ser incapaz, primitivo”

    Antes de falarem sobre o seu trabalho, as suas escolhas ou os seus sonhos, há sempre uma pergunta que se impõe: quem são? Ou, mais exactamente, por que são como são? Para muitas pessoas ciganas, esta é uma realidade quotidiana, porque certas identidades vivem sob uma exigência permanente de explicação. Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Maria Gil e Mariana Gil, mãe e filha, contam-nos as suas experiências individuais enquanto mulheres e ciganas, nascidas em gerações distintas. Actriz, activista e uma das vozes mais influentes do feminismo cigano em Portugal, Maria Gil dedicou grande parte da sua vida a combater os estereótipos e criar pontes de diálogo: “Digo sempre que sou mulher e cigana. A minha primeira condição é ser humana, o acréscimo é a minha cultura”, afirma. Já a sua filha, Mariana, que soma as palavras "afrodescendente" e "estudante" a esta descrição, pertence a uma geração que colhe os frutos desse legado de afirmação, porém, continua a enfrentar preconceitos antigos, agora confrontados com novas formas de discriminação. Como diz, “a mulher cigana ainda é vista como um ser incapaz, primitivo”. "Eu nasci para existir. Obrigaram-me a resistir", resume Mariana Gil, que terminou a licenciatura com uma média de 18 valores e conseguiu uma bolsa de Mestrado em Communication, Media and Creative Industries da Sciences Po Paris, uma das universidades mais prestigiadas do mundo na área das Ciências Sociais. Para conseguir fazer face aos custos associados à estadia em França, e, assim, poder cumprir as suas ambições de formação, abriu uma campanha online de angariação de fundos. “O mérito, quando não és uma pessoa branca, não és um homem ou não tens certas potencialidades económicas, leva-te até um certo ponto, mas a ousadia leva-te a outro lugar”. Ao longo da conversa, mãe e filha reflectem sobre o peso da resistência permanente, a importância da educação, o papel do feminismo e a necessidade de construir referências positivas para as gerações mais novas. Maria Gil confessa o cansaço de educar os filhos para uma militância constante, enquanto Mariana descreve o desgaste de sentir que a sua identidade continua a ser recebida com surpresa ou desconfiança. O episódio aborda ainda a invisibilidade das mulheres ciganas nos espaços públicos, a urgência de abandonar narrativas simplistas que reduzem pessoas a caricaturas e os preconceitos persistentes em torno das comunidades ciganas em Portugal, acentuados pelo crescimento das narrativas populistas da extrema-direita. “Há quem ande com fardos às costas, eu ando com a extrema-direita. Portugal tem desde há quinhentos anos uma raiz muito bem nutrida sobre o anticiganismo, foi um alvo fácil.”. Mas mais do que falar sobre discriminação, Maria e Mariana Gil convidam a pensar sobre liberdade: a liberdade de cada pessoa definir a sua própria identidade, sem precisar de pedir legitimidade ao olhar dos outros. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  4. Sep 30

    Maria Rueff: “Já não és contratado pelo talento, és contratado pelos likes”

    Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Maria Rueff fala sobre o seu percurso de quatro décadas, a condição das mulheres na comédia, o envelhecimento, a liberdade de expressão e as dificuldades de uma profissão em que o talento nem sempre determina as oportunidades. A conversa atravessa a sua relação com o teatro, a maternidade, o enfarte que quase lhe tirou a vida e a necessidade de continuar a encontrar sentido no trabalho. A actriz recorda as mulheres que abriram caminho na comédia portuguesa, de Maria Matos a Laura Alves, Beatriz Costa ou Ivone Silva, sublinhando a coragem de quem fez humor num tempo de ditadura. “Foram mulheres cultíssimas, foram mulheres que num tempo em que vivíamos em ditadura tinham uma coragem.” O reconhecimento desse legado não a impede, contudo, de assinalar as desigualdades que persistem. Quando questionada sobre as oportunidades dadas a homens e mulheres, responde: “De facto, não é igual, continua a não ser igual.” A reflexão estende-se às transformações do mercado de trabalho e à crescente importância da popularidade digital. “Não és contratado pelo talento, és contratado pelos likes. E os likes não correspondem muitas vezes ao talento”, afirma. Para Maria Rueff, que se tem dedicado aos palcos do teatro, a lógica das redes sociais veio acrescentar uma nova pressão a uma profissão que exige tempo, experiência e uma relação continuada com o público. Embora assuma que sempre teve “pouca autoestima enquanto mulher”, Maria Rueff recusa a ideia de que envelhecer deva significar desaparecer ou deixar de ser desejável. “O direito à diferença é permitir-nos envelhecer como uma árvore envelhece”, diz, evocando a transformação do tronco, das folhas e dos frutos. No teatro, acrescenta, a experiência pode ser uma vantagem: “É como o vinho do Porto, quanto mais velho, quanto mais experiência, melhor.” A liberdade de fazer humor é outro dos temas centrais desta conversa. A actriz lamenta que o humor seja frequentemente associado à humilhação e ao bullying, defendendo a importância de distinguir a provocação artística do insulto. “Eu tenho pena do humor agora estar sempre associado a isso, à humilhação, ao bullying”, afirma, acrescentando que a liberdade de expressão não dispensa uma reflexão sobre os limites éticos de quem cria. Apesar das dificuldades, Maria Rueff não apresenta a resistência como uma palavra abstracta. É uma prática quotidiana, feita de propostas, tentativas e persistência. “O que é que eu posso fazer? Posso não desistir, ser resistência e ir tentando diariamente propor projetcos.” Entre a vontade de continuar a trabalhar e a consciência de que nem todas as decisões dependem de si, a actriz encontra no teatro, no amor da filha e na relação com o público algumas das razões para continuar. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  5. Sep 22

    Ana Couto: “Tive uma psicose puerperal e sobrevivi”

    Ana Couto era mãe havia apenas 15 dias quando uma psicose puerperal a levou a um internamento compulsivo numa unidade de psiquiatria. Sozinha, de colo vazio, sem perceber o que lhe estava a acontecer, “ou que crime havia cometido para ficar presa”. Enfermeira de neonatologia, nunca tinha ouvido falar da perturbação que lhe mudou a vida e que testou todos os seus limites. “De repente eu vivia numa realidade paralela, era outra pessoa”. O caso de Lindsay Clancy, que enfrenta nos EUA um julgamento por homicídio, acusada da morte dos três filhos, trouxe para a esfera pública uma discussão sobre a saúde mental no pós-parto e tornou mais visível uma condição ainda desconhecida para muitas pessoas: a psicose puerperal. Afecta uma a duas mulheres em cada mil, é o mais grave quadro psiquiátrico que pode ocorrer após o nascimento de um bebé e caracteriza-se por sintomas como desorganização mental, delírios, alucinações e perda de contacto com a realidade. Antes do internamento, Ana Couto passou por diferentes profissionais de saúde sem que o seu estado fosse identificado. Acabou por ser o marido a perceber que alguma coisa estava errada, ao detectar comportamentos que lhe pareciam desadequados à sua personalidade. A sua experiência levanta uma das questões centrais deste episódio do podcast Um Género de Conversa: se uma enfermeira de neonatologia nunca tinha ouvido falar de psicose puerperal, como podem as mulheres e as famílias, sem formação em saúde, reconhecer os sinais de alarme? Ana Couto defende que é preciso preparar melhor os profissionais de saúde para identificarem alterações da saúde mental no período perinatal. Os 15 dias de internamento pareceram-lhe uma eternidade. Fortemente medicada, conserva falhas de memória desse período, mas recorda episódios que a levam a questionar a forma como uma mulher no pós-parto, com todas as especificidades decorrentes desta condição, é tratada numa unidade psiquiátrica. Por exemplo, continuava a extrair leite, acreditando que este seria entregue à filha — a sua “única forma de sensação de controlo da situação naquele estado” — até perceber que o leite era deitado fora, sem que ninguém lhe explicasse porquê. Quando recebeu a visita da sua bebé, Ana já não conseguiu largá-la. A separação à força acabou por ser, nas suas palavras, mais traumática do que benéfica. A unidade onde esteve internada não permitia a permanência do bebé, como acontece noutros países. Para Ana Couto, uma mulher com psicose puerperal não pode ser tratada apenas na sua dimensão psiquiátrica. Há também um corpo que acabou de dar à luz, a recuperação física, a amamentação e a construção do vínculo com o bebé, todos eles factores que foram em boa parte alienados durante o seu internamento. Mais de dois anos depois, fala da experiência sem esconder o medo ou a ambivalência que podem acompanhar a maternidade. E sublinha uma distinção essencial: os pensamentos não são acções. Ninguém escolhe ter uma psicose puerperal, “ninguém tem culpa se passar por isso”, frisa. Escrever ajudou-a a processar o que tinha vivido. Dessa necessidade nasceu o livro “Tive uma psicose puerperal e (sobre)vivi”. O que começou como uma forma de catarse ganhou outro propósito: chegar a outras mulheres que possam ter passado pelo mesmo e mostrar-lhes que não são as únicas. E que é possível recuperar a felicidade depois de um evento tão transformador quanto este. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  6. Sep 16

    Veronyka Gimenes: “Quando tudo é gratuito, provavelmente você é o produto”

    Tecnologia, soberania digital, manipulação de massas, regulação, poder e participação cívica: a convidada deste episódio do podcast Um Género de Conversa é considerada por muitos uma verdadeira justiceira do universo da inteligência artificial, algo que lhe tem valido reconhecimento internacional. Citando Eduardo Galeano, a hacker brasileira Veronyka Gimenes recorda que “somos o que fazemos para mudar o que somos” e acrescenta o quão importante é o processo de nos irmos hackeando, transformando tudo o que a gente é em algo que faça mais sentido para o momento.” Esta ideia ganhou um significado particular depois da experiência que viveu em 2024, quando um episódio do podcast Entre Amigues, dedicado à diversidade dentro da comunidade LGBTQIA+, saiu da sua esfera habitual de ouvintes e se tornou viral por causa da menção à expressão boyceta. “Depois que você fura a bolha, acreditem, você quer voltar para a sua bolha”, admite, descrevendo a onda de violência online que se seguiu. Perante milhares de ameaças e comentários de ódio, a activista e co-fundadora da associação Código Não Binário decidiu, em conjunto com a sua equipa, responder ao ataque, recorrendo à própria tecnologia. Desenvolveu um modelo de inteligência artificial em código aberto, de língua portuguesa, capaz de identificar diferentes formas de violência online. O trabalho de rastreio e análise de mais de 12 mil conteúdos revelou aquilo que considera ser uma hierarquia de prioridades das plataformas digitais. “A gente viu, por exemplo, que se a gente denunciava o ódio como propriedade intelectual, copyright, aí saía do ar na hora o conteúdo de ódio. Agora, se a gente denunciava como discurso de ódio, não saía.” Os dados recolhidos serviram também de base a uma acção judicial contra vários gigantes da tecnologia. “É ousado, a gente fica com um pouco de receio”, assume Gimenes, que reconhece a dimensão do desafio. “Mas, ao mesmo tempo, é algo que precisa começar a acontecer. Não somos totalmente impotentes.” Considera que um dos desafios centrais da actualidade é a tendência de se confundir inteligência artificial com os produtos desenvolvidos somente pelas grandes tecnológicas, portanto, começou também a dar formação sobre como usar de forma consciente as novas tecnologias e que alternativas existem. “Quando a gente não diferencia a inteligência artificial da big tech das outras, a gente acaba servindo a big tech. Porque exactamente o que eles querem é que a gente pense que os produtos deles são sinónimo do sector inteiro. Não são.” Num momento em que os dados pessoais, a desinformação, os deepfakes e a concentração de poder tecnológico ocupam o centro do debate público, Veronyka Gimenes recusa o fatalismo. “Não basta a gente simplesmente acompanhar esse fim do mundo e entender que as coisas estão piorando e piorando e piorando. É o momento de agir.” Defensora do software livre e da tecnodiversidade, argumenta que a tecnologia não é um destino inevitável, mas um processo que pode ser transformado. “As tecnologias são como processos, os processos mudam, você actualiza”, afirma. A mesma lógica aplica-se aos sistemas de IA, que, sim, podem reproduzir desigualdades, mas também podem ser desenhados de forma diferente e servir as populações. “Qualquer pessoa pode programar hoje. Isso é muito importante para a gente definir os rumos da internet”. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  7. Sep 9

    Sónia Duarte Lopes: "O tráfico de bebés na internet tem vindo a crescer”

    Neste episódio do podcast  Um Género de Conversa, Sónia Duarte Lopes, psicóloga clínica e coordenadora regional da Delegação de Lisboa da Associação para o Planeamento da Família, desmonta alguns dos maiores mitos em torno de um dos crimes mais lucrativos do mundo. "A invisibilidade do tráfico de seres humanos não existe apenas para quem está de fora. Muitas vezes, as próprias vítimas não reconhecem que estão a ser exploradas", afirma. Um especialista explica que a vulnerabilidade é a principal arma dos traficantes. “As vítimas de tráfico humano  estão, invariavelmente, em contextos de vulnerabilidade”, sublinha. A pobreza, a falta de educação, o desconhecimento da língua e dos direitos próprios levam muitas pessoas a aceitarem situações de exploração na esperança de uma vida melhor. “Acreditam que, se se sujeitarem, virá a recompensa”. Uma crença que se começa a discutir quando surgem os invariáveis ​​ciclos de violência, as ameaças e o medo pela própria vida. Um dos exemplos mais marcantes relatados por Sónia Duarte Lopes é o de uma vítima de escravidão em território nacional. "Uma pessoa esteve 18 anos a ser explorada numa quinta de pessoas abastadas. Quando foi retirada, já não se lembrava nem do nome das cores, nem conseguiu contar até 10, tal era o isolamento e os maus-tratos executados." O caso ilustra uma realidade muitas vezes difícil de compreender para quem está de fora, incluindo as autoridades. "Não é a porta aberta que faz com que elas fujam. O que as prende é uma vulnerabilidade tão profunda que não permite pedir ajuda." Nestes 50 minutos de conversa, aborda ainda a exploração sexual de mulheres e meninas, uma realidade marcada por mecanismos de controlo psicológico. “Invariavelmente, essas mulheres ficam isoladas, muitas vezes nem sequer sabem o sítio do país em que estão. São ameaçadas pela vergonha de serem denunciadas à família”, explica. "Há muita coação psicológica e muita dificuldade em romper com o que se está a passar." Os perigos do recrutamento através das plataformas digitais são outros dos temas envolvidos, a par de fenómenos emergentes, como a venda de bebés através da internet. “A venda de bebés tem vindo a surgir nos últimos tempos, e não me admiro que apliquem mais casos, porque é muito difícil chegar a quem está por trás”, alerta, referindo o escudo do anonimato e a exposição proporcionada pelas redes sociais. Desafiando a ideia de que o tráfico de seres humanos é um problema distante, Sónia Duarte Lopes realça uma realidade incómoda: há portugueses a serem traficados em Portugal. Aliás, o número de casos sinalizados por cá tem registos batidos, tal como mostramos os dados do último RASI. Aqui ou além-fronteiras, nenhum centro de todas estas formas de exploração está sempre o exercício do poder sobre quem se encontra numa posição mais frágil. “Mas é importante perceber que o uso do poder sobre outra pessoa não precisa de ser físico. Muitas vezes é um poder psicológico, estrutural”, afirma. “Pode vir do simples fato de uma pessoa ter uma posição social diferente e a outra estar numa situação de grande vulnerabilidade.” See omnystudio.com/listener for privacy information.

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Este podcast é sobre mulheres. Não é vedado aos homens mas, insistimos, é sobre as mulheres. Uma hora de conversa entre mulheres, sobre mulheres, para mulheres. Os homens que calharem a ouvir são capazes de beneficiar com isso. Pelo menos elas acham que sim. Uma é a Patrícia Reis, a outra a Paula Cosme Pinto, e são elas as anfitriãs deste lugar de fala feminino.

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