Queria ser pintora, mas o 25 de Abril de 1974 trocou-lhe as voltas. Irene Fonseca acabou por estudar Matemática, licenciando-se com 20 valores na Universidade de Lisboa e tornou-se uma das matemáticas portuguesas de maior reconhecimento internacional. Professora na Carnegie Mellon University, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde dirige o Centro de Análise Não Linear, dedica-se à investigação há quase quatro décadas. No novo episódio do podcast Um Género de Conversa, fala da presença das mulheres na ciência, do futuro da investigação e dos desafios colocados pela inteligência artificial. A matemática não fazia parte dos seus planos, queria estudar pintura, mas chegou a um compromisso com o pai e inscreveu-se em Arquitectura. A interrupção das aulas acabou por levá-la à Faculdade de Ciências, uma solução provisória, até poder regressar ao curso que escolhera. “A matemática não era o meu forte”, recorda, explicando que no liceu fora uma aluna medíocre naquela disciplina. Tudo mudou quando encontrou professores que a inspiraram: “Quanto mais aprendia, mais queria saber”. A sua experiência também contraria a ideia de que a matemática é uma disciplina predominantemente masculina. Quando estudava em Lisboa, nos anos 70, a maioria dos estudantes do curso eram mulheres e muitas das suas professoras também. “Para mim, era normal ser mulher e estar em matemática”, afirma. Só quando chegou aos Estados Unidos percebeu que essa realidade não era universal. Na Carnegie Mellon University, onde trabalha desde 1987, foi durante décadas a única mulher numa categoria de carreira académica associada à investigação e à possibilidade de obter um vínculo permanente. Reconhece que nunca sentiu obstáculos pessoais à progressão, mas recorda que, em Portugal e noutros países europeus, a presença significativa de mulheres na matemática não se traduzia necessariamente em posições de liderança. “Quando se chegava a cargos de liderança, afunilava.” A investigação de Irene Fonseca cruza áreas aparentemente distantes. Estuda o comportamento dos materiais, a resistência a forças externas e as aplicações da matemática ao tratamento de imagens. A investigadora reconhece a rapidez com que a inteligência artificial está a transformar a produção científica e a capacidade crescente dos sistemas para resolver problemas matemáticos complexos. Ainda assim, distingue a obtenção de uma resposta da compreensão do caminho que permite chegar até ela. “Não temos o domínio de tudo o que existe no mundo ou que poderá vir a existir. E aí está, de facto, uma das limitações da chamada inteligência artificial. É que há todo um processo criativo que nós temos e que fazemos, que ainda é humano”, afirma, questionando-se sobre o que acontecerá à autoria, à descoberta e ao reconhecimento do talento. Se uma máquina consegue produzir resultados que antes exigiam anos de trabalho humano, como se avaliará o mérito de um investigador? “Como é que se vai reconhecer o talento?”, pergunta. Segundo Irene Fonseca, existem muitos investigadores preocupados com o futuro das suas profissões. “Onde é que isto vai parar? Há muitos colegas meus que temem que as suas profissões e áreas de trabalho acabem. Há também muitos alunos que, neste momento, se questionam: vale a pena fazer um doutoramento? Estou a fazer um mestrado para quê, se eu não faço ideia de qual será o futuro da minha profissão?”, conta a investigadora, que defende que a velocidade da mudança tecnológica exige regras e mecanismos de vigilância. A conversa passa também pelo clima vivido nas universidades norte-americanas, num contexto de redução do financiamento da investigação e de dificuldades na mobilidade internacional de estudantes e investigadores. Irene Fonseca mantém uma perspectiva optimista, mas reconhece os obstáculos. “A investigação continua a avançar, o cérebro não para”, conta, lembrando que muitas das descobertas que hoje transformam a vida quotidiana nasceram de investigações sem qualquer aplicação prática imediata. “Temos de ser criativos, temos de nos adaptar ao mundo em que vivemos”. A curiosidade, explica, está na origem de muitas descobertas científicas e é também o que a levou a permanecer na matemática. “Quando me reformar, sim, vou pintar”, promete. See omnystudio.com/listener for privacy information.