O Mundo Agora

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

  1. HACE 3 DÍAS

    Acordo sino‑americano pressiona soja brasileira e expõe falta de estratégia

    Quando Donald Trump pousou em Pequim, na última quinta-feira (14), a coreografia já estava pronta nos mínimos detalhes. Os roseirais de Zhongnanhai foram escolhidos a dedo — aqueles mesmos canteiros que pertenceram à liderança imperial e depois ao regime comunista. Ali o presidente americano caminhou ao lado do líder chinês, Xi Jinping, em um passeio que mais parecia ensaio de filme do que uma reunião entre os dois homens mais poderosos do planeta. Thiago de Aragão, analista político Houve almoço sem agenda divulgada, sementes oferecidas a Trump para que florescessem no jardim da Casa Branca, e a frase de Xi sobre uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva" recebida do outro lado com a palavra amigo. Quem viu aquilo e achou que era só teatro perdeu o que importava, porque diplomacia de superpotência é sempre um pouco teatro e o que vale mesmo é ler o roteiro nas entrelinhas. E o roteiro, para o Brasil, é desconfortável. Faz dois anos que o agronegócio brasileiro vive uma das melhores janelas da sua história recente, e essa janela se abriu quase por acidente. A guerra tarifária aberta por Trump no segundo mandato fechou o mercado chinês para a soja americana, e nós entramos nesse vácuo com a velocidade de quem encontra a porta destrancada e simplesmente passa. Em 2016, antes da primeira guerra comercial, os Estados Unidos forneciam 41% da soja consumida pela China. No ano passado, esse número despencou para 15%. A diferença, em larga medida, é brasileira: foram quase US$ 37 bilhões em soja exportada em 2025, com mais de 60% desembarcando em portos chineses. A tentação imediata diante de números desse tamanho é interpretá-los como conquista, como se o Brasil tivesse finalmente descoberto uma vocação que sempre esteve ali esperando, como se houvesse uma estratégia coordenada por trás de tudo isso. Não há, e talvez seja melhor falar isso em voz alta antes que mais alguém suba em um palco para fazer discurso bonito sobre o assunto. De Iowa ao Mato Grosso O que aconteceu não foi vitória brasileira, foi penalização americana, e essa distinção parece pedante até o momento em que deixa de ser. O produtor de Iowa apanhou da política tarifária do seu próprio presidente e o produtor de Mato Grosso colheu o que não plantou. A vitória construída pertence a quem construiu, enquanto janela aberta pela imprudência alheia fecha no instante em que a imprudência cessa. Foi exatamente isso que saiu de Pequim na semana passada, com o acordo que Trump e Xi costuraram prevendo a retomada das compras chinesas de soja americana em volume crescente até chegar a 25 milhões de toneladas anuais em 2028, o que corresponde a mais de um terço de tudo que o Brasil exporta hoje para o mercado chinês. O compromisso pode não se cumprir por inteiro porque a história das relações sino-americanas é uma coleção generosa de promessas que evaporam no caminho, mas o vetor político mudou, e mudou contra o nosso interesse. Quem acompanha o setor mais de perto sabe que existe ainda uma segunda camada, mais lenta e mais profunda, e que tem a ver com a decisão chinesa de reduzir gradualmente a dependência de proteína vegetal importada para ração animal. Não é que vão comer menos carne, é que vão produzir essa carne com uma matriz proteica menos dependente de soja, dentro daquela obsessão crescente de Pequim com soberania alimentar que atravessa todos os planos quinquenais recentes. Para o Brasil, é uma curva que se desenha no horizonte de 2030. Quando se soma essa curva à reaproximação americana o quadro fica difícil de ignorar: o pico da nossa exposição à demanda chinesa de soja talvez já tenha ficado para trás sem que a gente tenha percebido. Nada disso configura tragédia iminente, porque o Brasil continua sendo fornecedor central e a sazonalidade da safra sul-americana garante mercado entre fevereiro e agosto independentemente do humor de Washington ou Pequim. O problema não é o colapso, é a complacência, e ela tem nome no vocabulário diplomático brasileiro: pragmatismo, uma palavra que ficou perigosa de tão usada e que do jeito que aplicamos virou eufemismo educado para ausência de estratégia. Vendemos para a China o que ela precisa enquanto ela precisa, sem verticalizar indústria, sem diversificar destinos com a agressividade que o momento exige, sem montar uma diplomacia comercial proporcional ao tamanho do nosso superávit agrícola, tratando uma posição privilegiada conjuntural como se fosse paisagem permanente quando ela nunca foi mais do que um momento. Aviso entre rosas O que aconteceu em Pequim na semana passada foi, no fundo, um aviso entregue entre rosas. Os dois maiores compradores e produtores de commodities do planeta sinalizaram com sorrisos largos que pretendem voltar a fazer negócios um com o outro. Isso não destrói o Brasil mas reduz drasticamente a folga que o país vinha tendo para confundir sorte com mérito. Brasília que entender essa diferença antes de outubro chegará mais preparado para a década que vem. O país que não entender vai continuar celebrando recordes anuais sem perceber que qualquer um deles pode ter sido o último.

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  2. 12 MAY

    Moderação trabalhista impulsiona extrema direita e regionalismos na Grã-Bretanha

    As eleições locais britânicas revelaram o colapso da estratégia moderada dos trabalhistas, o avanço da extrema direita de Nigel Farage e o fortalecimento de forças regionalistas que colocam em xeque a própria unidade do Reino Unido. Thomás Zicman de Barros, analista político Menos de dois anos separam o momento de consagração de Keir Starmer, ainda primeiro-ministro trabalhista da Grã-Bretanha, daquele que pode marcar sua danação política. As eleições locais realizadas na última quinta-feira na Inglaterra, Escócia e País de Gales poderiam passar despercebidas fora desta ilha do norte, não fosse a dimensão da derrota trabalhista. Já há vozes pedindo a renúncia do premiê. Se não mudar de rumo, Starmer pode entrar para a história como o homem que abriu as portas do poder para a extrema direita britânica, ao mesmo tempo em que fortaleceu forças regionalistas que ameaçam a própria unidade do Reino Unido. Há menos de dois anos, os trabalhistas comemoravam uma vitória histórica. Após catorze anos na oposição, conquistaram uma supermaioria em Westminster, o parlamento britânico, e voltaram ao poder sob a liderança de Starmer. Na quinta-feira passada, porém, o partido perdeu mais de 1.400 conselheiros locais nas eleições regionais inglesas e sofreu graves reveses na Escócia e em Gales, em uma das piores derrotas desde a sua fundação. Starmer chegou à liderança do Partido Trabalhista após derrubar Jeremy Corbyn do comando da legenda. Corbyn, representante da ala esquerda do partido, era um líder que mobilizava multidões, mas acusado pelos adversários internos de ser radical demais e, por isso, incapaz de reconduzir os trabalhistas ao poder. Starmer representa o oposto. Muito mais moderado, entusiasmou menos eleitores, mas venceu graças ao desgaste dos conservadores e à fragmentação da direita britânica, já dividida pelo avanço do partido de extrema direita Reform UK, de Nigel Farage. Como não há segundo turno no sistema britânico, os trabalhistas colheram os frutos da cizânia direitista. Uma vez no poder, porém, a extrema moderação de Starmer cobrou seu preço. Apesar da ampla maioria parlamentar, o governo manteve a austeridade herdada dos conservadores. Para tentar conter o crescimento da extrema direita, Starmer chegou a evocar discursos racistas contra imigrantes. A frustração não demorou a aparecer, e os trabalhistas passaram a despencar nas pesquisas. A grande beneficiária desse processo não foi a direita conservadora tradicional, ela própria mergulhada em crises internas, mas sim a extrema direita do Reform UK. O partido de Farage conquistou 1.450 cadeiras locais na Inglaterra, além de tornar-se a segunda força na Escócia e sobretudo em Gales. Hoje, lidera com folga boa parte das pesquisas nacionais. Farage já havia transformado a política britânica dez anos atrás ao impor a agenda do Brexit, mesmo quando tinha apenas um único deputado em Westminster. Agora, pela primeira vez, sua extrema direita parece próxima de açambarcar a política institucional do país. Ao mesmo tempo, parte do eleitorado trabalhista parece buscar à esquerda a radicalidade perdida. O Partido Verde, frequentemente apresentado como uma esquerda mais radical e combativa, teve bons resultados e segue consolidando presença em regiões urbanas e universitárias. Ainda assim, talvez o aspecto mais impressionante das eleições locais da semana passada tenha sido o avanço das forças regionalistas e nacionalistas fora da Inglaterra. Na Escócia, o independentista Partido Nacional Escocês, de centro-esquerda, continua sendo a principal força política local e permanece à frente do governo regional. A surpresa maior veio do País de Gales, antigo bastião trabalhista onde o nacionalismo galês historicamente teve menos força. Nas eleições da semana passada, o partido independentista Plaid Cymru, também de linha progressista, alcançou seu melhor desempenho eleitoral em um século, chegando às portas do poder. Considerando que a Irlanda do Norte já é governada pelo Sinn Féin, defensor da reunificação da ilha sob a bandeira da República da Irlanda, o quadro que emerge é inédito: enquanto a Inglaterra parece cada vez mais dominada pelo nacionalismo inglês e pela extrema direita, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte aprofundam movimentos centrífugos. A desunião parece se tornar o traço dominante da política britânica. Os trabalhistas seguem com sua supermaioria em Westminster, o que lhes garante estabilidade para governar até 2029. A permanência de Starmer na liderança do partido e do governo, porém, já é menos evidente. Sem reatar com a radicalidade perdida, os trabalhistas correm o risco de assistir a um duplo desaparecimento: o seu, no horizonte político britânico, e o do próprio país que ainda governam.

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  3. 4 MAY

    Saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep tem efeitos geopolíticos

    Na semana passada, enquanto o mundo se concentrava no Estreito de Ormuz, em Comey e no possível encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, os Emirados Árabes Unidos anunciaram, numa nota de imprensa, a saída da Opep, encerrando 58 anos de associação em três parágrafos, com vigência em 1º de maio. Thiago de Aragão, analista político A cobertura foi modesta. As agências noticiaram, os analistas escreveram seus relatórios, e em 48 horas o assunto saiu da circulação. E é essa indiferença que me interessa, porque o que ocorreu em Abu Dhabi não é uma disputa de cotas, mas algo mais profundo, e que diz respeito também a nós, brasileiros, que vendemos minério, soja e estamos quase vendendo terras raras a um mundo cuja arquitetura energética acabou de mudar. Os economistas estão certos quando dizem que os Emirados saíram porque as cotas da Opep não cabiam mais na ambição da ADNOC, a estatal petrolífera de Abu Dhabi. Os números são públicos: a capacidade instalada do país é de 4,85 milhões de barris por dia, mas a Opep autorizava cerca de 3,6 milhões. Trinta por cento de capacidade ociosa, paga e disponível, gera frustração a cada trimestre, e a meta da ADNOC de chegar a 5 milhões de barris por dia até 2027 simplesmente não cabe num cartel desenhado em torno das exigências fiscais de Riad. Durante mais de uma década, Riad e Abu Dhabi foram tratados como sinônimos no vocabulário das chancelarias ocidentais. Os "monarquistas pragmáticos do Golfo", a "dupla MBS-MBZ", numa simplificação conveniente para diplomatas que não tinham tempo para entender as diferenças entre dois países que, na superfície, faziam coisas parecidas. Essa simplificação morreu em 29 de dezembro do ano passado, quando aviões sauditas bombardearam, em Mukalla, um carregamento de armas com destino a separatistas iemenitas apoiados pelos Emirados. Foi a primeira vez na história recente que dois aliados nominais do Golfo se atacaram militarmente. A imprensa cobriu o caso como mais um capítulo da guerra do Iêmen, mas os emiratis entenderam outra coisa: entenderam que aquele vizinho com quem haviam dividido Opep, Conselho de Cooperação do Golfo, política externa e foto oficial nas cúpulas por 30 anos estava disposto a usar a força aérea contra eles. Some-se a isso o seguinte: durante a guerra do Irã, mísseis iranianos caíram em território emirati e Riad ficou em silêncio. Para Abu Dhabi, foi a confirmação de que o guarda-chuva de segurança do Golfo, supostamente coletivo, era na prática uma cortesia que cada um cobrava do outro quando bem entendesse. Divórcio anunciado Sair da Opep, neste contexto, não é decisão econômica. É um divórcio anunciado em comunicado: os Emirados estão dizendo, com a elegância protocolar do Golfo, que não se sentem mais obrigados a coordenar política de preços com um país que os bombardeou. Há um detalhe que merece atenção. Os Emirados não saíram da Opep numa hora qualquer. Saíram exatamente no momento em que a administração Trump vem afirmando, pública e privadamente, que considera a Opep+ um cartel funcionalmente alinhado à Rússia. Disciplina de preços altos significa receita alta para Moscou, e receita alta para a Rússia significa mais drones em Kiev. É uma equação que Washington enuncia sem cerimônia. Ao sair, Abu Dhabi entrega exatamente o que Washington queria: capacidade emirati de derrubar o preço do barril a qualquer momento, sem precisar consultar Riad ou Putin. É um voto antirrusso disfarçado de reenquadramento de portfólio energético. E há um detalhe adicional. Dias antes do anúncio, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, defendeu no Senado a abertura de linhas de swap de dólar para os Emirados em meio à crise de Ormuz. Não para a Arábia Saudita. Para os Emirados. Quem viveu o suficiente em Washington sabe que essas coisas não são coincidência. São combinação prévia. Os Emirados estão comprando garantia americana com barris. A Arábia Saudita perde o monopólio de parceiro de referência dos EUA no Golfo, e Abu Dhabi assume o papel. Uma frase do ministro Mazrouei, de 2022, vale ser relida: segundo ele, o petróleo está "em modo de declínio", e supor que sua centralidade seria permanente era "wishful thinking". Repare quem diz isso: o ministro de Energia de um país que vive de exportar petróleo. A leitura emirati é a seguinte: se a demanda global por petróleo entrar em platô e depois em queda nas próximas duas ou três décadas, a estratégia racional é extrair tudo o que se puder agora, monetizar enquanto há comprador, e usar essa receita para construir uma economia que não dependa do barril. O que fazem internamente, em documentos da ADNOC, é o 'pump it before it's worthless': bombear antes que perca valor. Permanecer dentro de um cartel cujo objetivo é restringir oferta, num momento em que se fecha a janela para vender petróleo, é irracional do ponto de vista deles. A Opep foi moldada para um mundo em que o petróleo era escasso e a demanda crescia para sempre, e esse mundo está acabando. Abu Dhabi foi o primeiro Estado-membro a admitir isso publicamente, com gestos. Consequências concretas Vale traduzir este episódio em consequências concretas para o cotidiano de qualquer pessoa que lê e escuta esta coluna. Primeiro, a volatilidade do barril vai aumentar. Sem a disciplina coletiva da Opep+ funcionando integralmente, episódios de queda brusca de preço (quando os Emirados decidirem inundar o mercado) e de alta brusca (quando houver crise no Golfo) ficarão mais frequentes. Para o Brasil, que é exportador líquido de petróleo pela Petrobras mas importador de derivados, o resultado é assimétrico e incômodo. Segundo, e esse é o ponto mais sutil: a Opep era também uma instituição de coordenação política do Sul Global, o único cartel de commodities em que países em desenvolvimento conseguiam, juntos, exercer influência real sobre o preço de um produto estratégico. Sua erosão indica que a era das instituições coletivas do Sul está em declínio. O Brasil, agora discutindo se cria uma estatal de terras raras, deveria observar com atenção: cartéis funcionam apenas quando há disciplina política, e a disciplina política do Golfo já não existe. 'Países médios sobrevivem melhor sozinhos' Por fim, e talvez o mais relevante: o que os Emirados acabam de fazer é uma demonstração pública de que, na era da competição entre potências, países médios sobrevivem melhor sozinhos, alinhados bilateralmente com Washington ou Pequim, do que dentro de blocos coletivos. É uma mensagem que vale para Jacarta, Brasília, Buenos Aires e Pretória. Há um detalhe que me chama a atenção: o comunicado saiu numa manhã de terça-feira, e a saída foi marcada para sexta. Em diplomacia do Golfo, três dias equivalem a pedir o divórcio na manhã do casamento. A Opep não morreu esta semana, mas a ideia de que o Golfo era uma unidade política, energética e militar coordenada acabou. Daqui a dez anos, quando alguém escrever a história do fim da ordem energética que organizou o século XX, a data de 1º de maio de 2026 vai aparecer numa nota de rodapé importante. Por enquanto, está apenas no rodapé das nossas conversas.

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  4. 27 ABR

    Encontro da esquerda em Barcelona: ponto de inflexão?

    Em Barcelona, a esquerda global ensaiou sair da defensiva e voltar a ousar. Resta saber se o encontro marcará um verdadeiro ponto de inflexão ou se ficará apenas no diagnóstico de uma crise que já dura tempo demais. Thomás Zicman de Barros, analista político Em 18 de abril, Barcelona sediou o encontro da Mobilização Progressista Global. Mais de cem organizações, oriundas de 72 países, reuniram-se na capital catalã sob os auspícios de Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol. O evento se inscreve na continuidade de encontros realizados em Nova York e Santiago, agora ampliados por iniciativa de Sánchez e do presidente Lula, em parceria com a aliança social-democrata europeia, com o objetivo de incorporar mais atores da sociedade civil. Muitos celebraram Barcelona como um ponto de inflexão. E, ao menos no diagnóstico que a esquerda faz da política global, há algo de novo. Ao longo do último ano, critiquei diversas vezes o estado da esquerda no mundo. Disse aqui que partidos e lideranças progressistas têm se tornado, paradoxalmente, forças conservadoras. Sim, conservadoras: enquanto a extrema direita ocupa o lugar da ruptura, da transgressão, impondo uma espécie de revolução reacionária, a esquerda quer proteger as instituições, muitas vezes sem enfrentar seus limites estruturais. Num contexto de erosão democrática, em que se coloca em xeque a luta pela igualdade, o pilar básico da democracia, a esquerda parece apenas atuar na redução danos. É como se administrasse cuidados paliativos a um paciente terminal: a própria democracia. Líderes da esquerda latino-americana em destaque  O encontro de Barcelona foi, por assim dizer, plural. Dos Estados Unidos, por vídeo, participaram vozes tão diversas quanto a moderadíssima Hillary Clinton e figuras "radicais" como Bernie Sanders e Zohran Mamdani. A presença de muitos representantes da África, como o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, também mostrou como a iniciativa buscou se abrir ao Sul Global. E foi precisamente no Sul Global, notadamente na América Latina, que o evento encontrou seu centro de gravidade: Claudia Sheinbaum, do México, Gustavo Petro, da Colômbia, e, sobretudo, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, foram estrelas do evento. Foram eles, ao lado de Sánchez, que deram a linha. A mensagem ficou explícita no discurso de Lula: é preciso que a esquerda saia da defensiva. Em certo sentido, em Barcelona se viu a social-democracia assumir que precisa voltar a ousar. Isso dito, para saber se o evento será o tal ponto de inflexão para a esquerda global, resta descobrir se conseguirão transformar diagnóstico em ações. É fácil dizer que falta imaginação política. Muito mais difícil é produzir novas ideias. O próprio Sánchez talvez sugira caminhos nesse sentido. No governo, ele conseguiu recompor a esquerda incorporando pautas e práticas que vinham de forças mais à esquerda, como Podemos e Sumar, hoje minoritárias diante de PSOE hegemônico neste campo. O espanhol denuncia o genocídio em Gaza, regulariza centenas de milhares de imigrantes em meio a uma onda de histeria racista na Europa e avança em reformas trabalhistas que ampliam direitos.  Cúpula de Barcelona atacou as formas contemporânea do capitalismo Transformar a vida das pessoas também passa por definir com clareza o adversário. A cúpula de Barcelona não atacou o capitalismo em si, mas suas formas contemporâneas. A defesa da taxação dos super-ricos como forma de enfrentar a concentração extrema de renda foi um ponto de destaque, assim como crítica às Big Tech. Essas empresas não apenas amplificam discursos de ódio e fragilizam o espaço público, como também aprofundam a precarização do trabalho, dissolvem formas de organização coletiva e corroem vínculos de solidariedade. Uma política emancipatória passa, portanto, pela reconstrução de um tecido social comum. Isso envolve voltar a engajar as pessoas em torno de um horizonte compartilhado: uma vida sem exploração, num planeta habitável, que inclua aqueles que até hoje permanecem sem voz, invisíveis. Esse novo mundo comum só poderá surgir numa luta global. Na última década, a extrema direita se organizou em redes internacionais, enquanto dinamitavam fóruns internacionais.  Em Barcelona, talvez tenhamos visto uma importante resposta. Mas se será, de fato, esse ponto de inflexão, só saberemos quando – e se – esse diagnóstico se transformar em transformação concreta na vida das pessoas.

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  5. 21 ABR

    Pacotes de IA expõem dilema do Brasil na disputa entre EUA e China

    Em 23 de julho de 2025, Donald Trump assinou ordem para exportar “pacotes completos” de inteligência artificial, colocando o Brasil entre destinos prioritários ao lado de Egito e Indonésia. A medida intensifica a disputa com a China por influência tecnológica global. No mesmo período, o Brasil firmou memorando com Pequim e negocia com Washington, enquanto amplia dependência de infraestrutura digital estrangeira. Thiago Aragão, analista de geopolítica O Brasil está nominalmente na lista de destinos prioritários. Ao lado do Egito e da Indonésia, o país figura entre os mercados emergentes onde a presença americana precisa ser consolidada, antes que a influência chinesa se torne irreversível. Para entender o que isso representa na prática, vale olhar o que aconteceu com o Japão. Em outubro de 2025, durante a visita de Trump a Tóquio, os dois países assinaram um “Technology Prosperity Deal”, um acordo de alinhamento em política de IA que vai muito além da compra e venda de hardware. O documento inclui compromissos sobre padrões técnicos, frameworks de governança, fluxo de dados e cooperação em segurança digital. O Japão passou a integrar estruturalmente a órbita tecnológica americana, não apenas como parceiro comercial, mas como parceiro normativo. Washington quer replicar esse modelo em escala. Leia tambémPossível uso de inteligência artificial em ataques no Oriente Médio levanta questões, diz especialista A lógica americana é clara e, num certo sentido, legítima. A China exporta tecnologia de IA num modelo que analistas descrevem como “full-stack com condições embutidas”: hardware subsidiado, software com lógica de caixa preta e frameworks de governança que replicam o modelo regulatório de Pequim. Washington entendeu que competir chip a chip não é suficiente. É preciso exportar o ecossistema inteiro e, com ele, a arquitetura normativa que o acompanha. Para o Brasil, o problema é que os dois modelos chegam com política externa no rodapé do contrato. Leia tambémNa Índia, Lula diz que IA sem regulação ameaça a democracia e aprofunda desigualdades Em 2025, o governo Lula assinou um memorando de entendimento com a China para aprofundar a colaboração em inteligência artificial. No mesmo período, Brasília avançava nas conversas com Washington sobre o programa de exportação de IA e recebia anúncios de bilhões de dólares em data centers da Microsoft, Amazon e Oracle. Do ponto de vista diplomático, é um malabarismo admirável. Do ponto de vista tecnológico, é uma contradição estrutural que vai cobrar seu preço mais cedo do que se imagina. A questão central não é quem vende o chip. É quem treinou o modelo. Os grandes sistemas de linguagem e tomada de decisão que o setor público e privado brasileiro já usa, na análise de crédito, na triagem de políticas, na recomendação de conteúdo e na gestão de contratos foram desenvolvidos majoritariamente por empresas americanas, segundo padrões americanos, com dados que refletem realidades americanas. O viés não é necessariamente malicioso. Mas é estrutural. E tende a se aprofundar na medida em que o Brasil sustenta sua infraestrutura cognitiva sobre servidores sujeitos ao CLOUD Act americano, a lei que autoriza o governo federal dos EUA a requisitar dados armazenados por provedores americanos em qualquer jurisdição do mundo, independentemente de onde o servidor esteja fisicamente localizado. Leia tambémInteligência artificial: China alerta para cenário apocalíptico ao estilo 'O Exterminador do Futuro' O próprio debate regulatório revela a ambiguidade. O Senado brasileiro tem acompanhado de perto o AI Act europeu como referência normativa para sua legislação nacional, e o projeto em discussão cria um sistema de governança de IA sob a responsabilidade da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Na teoria, é soberania. Na prática, o discurso regulatório aponta para autonomia, mas a implementação é operada por corporações multinacionais americanas. O Brasil faz a lei, mas quem comanda a infraestrutura sobre a qual essa lei incide são outros. Isso não é uma acusação. É uma descrição de como o poder funciona no século 21. Brasil é maior mercado de dados da América Latina A boa notícia é que o Brasil tem cartas genuínas nessa mesa. É o maior mercado de dados da América Latina, tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o que importa imensamente para data centers, e produziu o Pix, um dos sistemas de pagamentos digitais mais sofisticados em operação no planeta. Quando Washington e Pequim disputam o Brasil como parceiro de IA, não o fazem por generosidade. É porque o país tem o que ambos precisam: escala, energia e população conectada. A dependência, se vier, será escolhida, não imposta. A pergunta que o debate público brasileiro ainda não fez com a seriedade necessária é esta: ao aceitar o pacote completo de IA americano, com seus chips, seus modelos, seus padrões de governança e suas obrigações de compliance, o que o Brasil está abrindo mão em troca? Não em termos comerciais, mas em termos de autonomia sobre decisões que, daqui a dez anos, serão tomadas por sistemas que alguém, em algum lugar, já programou.

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  6. 13 ABR

    Projeto controverso contra antissemitismo pode contribuir para normalizar extrema direita na França

    Mal formulada, a chamada "Lei Yadan" abriria espaço para associar antissemitismo a críticas legítimas ao Estado de Israel. Em vez de aprender com o passado antissemita francês para combatê-lo, ela contribui para normalizar o discurso da extrema direita. Thomás Zicman de Barros, analista político O projeto de lei contra o antissemitismo apresentado pela deputada Caroline Yadan abriu uma nova frente de tensão na França. Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU), organizações de direitos humanos, parlamentares de esquerda e até integrantes da base governista pedem sua retirada da ordem do dia. E surge a questão: será que a proposta de fato enfrenta o antissemitismo, ou só agrava o problema que pretende combater?  A iniciativa parte de um diagnóstico que, à primeira vista, parece difícil de contestar. Há, certamente, um recrudescimento de atos antissemitas desde os ataques de 7 de outubro de 2023, conduzidos pelo Hamas, que deram ao cambaleante premiê Benjamin Netanyahu o pretexto para iniciar uma ofensiva genocida contra Gaza – e, assim, se agarrar ao poder. Esse ciclo de violência teve repercussões diretas na Europa, inclusive na França, país marcado por episódios decisivos dessa história. Não custa lembrar: foi aqui que o caso Caso Dreyfus cristalizou, no fim do século XIX, uma das matrizes do antissemitismo moderno, conspiracionista, associando os judeus a uma camarilha financista supostamente cosmopolita, desleal, que controlaria o mundo por detrás dos panos. Foi também na França que, durante a ocupação nazista, o regime de Vich colaborou ativamente – e de bom grado – com a perseguição e deportação de judeus. Leia tambémFrança abre inquérito por revisionismo histórico após homenagem a marechal que colaborou com nazistas É justamente nesse país, com esse passado, que surge a proposta de Yadan. Deputada da base de Emmanuel Macron e representante dos franceses do "Mediterrâneo Leste" – uma circunscrição que inclui Israel –, Yadan afirma querer combater “novas formas” de antissemitismo. O projeto, porém, recebeu uma saraivada de críticas bastante justas.  A proposta repete problemas presentes em iniciativas semelhantes no Brasil, que também têm dado o que falar. Trata-se, sobretudo, de um texto mal redigido, ambíguo, e talvez propositalmente. A confusão aparece logo no início, quando o projeto desloca o foco do antissemitismo para a ampliação do crime de incitação ao terrorismo, passando a incluir declarações que o fariam “implicitamente”. A palavra “implicitamente”, até hoje ausente nas leis francesas, abre espaço para interpretações subjetivas, elásticas, ao gosto do freguês.  Nem tudo é implícito no projeto, contudo. Como indica a própria exposição de motivos, o texto se inspira na controversa definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), abrindo caminho para associar antissemitismo a críticas ao Estado de Israel. E aqui há um salto lógico perigoso, que não contribui nem para o combate ao antissemitismo, nem para a resolução do conflito no Oriente Médio. No fundo, propostas desse tipo acabam reforçando o discurso da extrema direita, em Israel e ao redor do mundo. No caso israelense, aproximam-se de um objetivo central de Netanyahu. A comunidade judaica, dentro e fora de Israel, é plural. Nem todo judeu é sionista – há judeus antissionistas, pós-sionistas. Por sinal, a própria palavra sionismo, hoje frequentemente associada a uma empreitada colonial, já teve significados diversos, muitas vezes em disputa. O sonho de Netanyahu é apagar essas nuances. Ele busca hegemonizar a identidade judaica, fixando o sentido das palavras. “Sionismo” passa a se reduzir ao sionismo revisionista, de extrema direita, que recusa a possibilidade de um Estado palestino ao lado de Israel, ou de uma solução binacional. Ao mesmo tempo, o povo judeu é progressivamente confundido com o Estado de Israel, e o Estado com seus dirigentes, como Netanyahu ou Itamar Ben-Gvir. Ao contribuir para amarrar o povo judeu a Netanyahu e à extrema direita israelense, que pensam em termos binários e de eliminação do outro, esses projetos dificultam a construção de pontes e tornam ainda mais distante qualquer horizonte de paz. Leia tambémMacron anuncia lei contra ódio na internet e nova definição de antissemitismo na França A associação entre críticas a Israel e antissemitismo também serve à extrema direita fora de Israel. Na França, essa pauta é instrumentalizada por setores reacionários, que usam a defesa do governo israelense como forma de se repaginar e esconder seu antissemitismo inato. Mais do que isso, a acusação banalizada de antissemitismo, confundida com a crítica a Israel, passa a ser mobilizada para inverter o cordão sanitário contra aqueles que legitimamente denunciam práticas genocidas contra o povo palestino. Sobretudo, com o projeto Yadan e seus semelhantes, perde-se também a oportunidade de aprender com a história do antissemitismo. E de reconhecer como sua gramática pode reaparecer na perseguição a outros grupos discriminados – em especial aos árabes e muçulmanos, vítimas de genocídio em Gaza e de islamofobia na França.

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  7. 6 ABR

    Guerra no Irã paralisa reaproximação de Lula com Trump e trava negociações comerciais

    O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã congelou de imediato a reaproximação diplomática que Lula e Trump vinham construindo lentamente desde o fim de 2025. Com Washington inteiramente absorvida pela guerra no Oriente Médio, temas comerciais centrais para o Brasil, como tarifas e acesso ao mercado americano, foram empurrados para um limbo sem prazo de saída. O resultado é um vácuo que custa caro aos dois países, justamente no momento em que mais dependem um do outro. Aqueles que vêm acompanhando a trajetória das relações Brasil-Estados Unidos nos últimos dois anos assistiram a uma verdadeira montanha-russa. Saímos de um período de hostilidade explícita, marcado por tarifas de até 50% e sanções direcionadas a ministros do STF, para uma reaproximação cautelosa que, em janeiro de 2026, parecia finalmente ter encontrado um trilho relativamente estável. Lula e Trump voltaram a se falar por telefone, discutiam Venezuela sem trocas públicas de ataques, e a Casa Branca já havia retirado as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes. A visita de Lula a Washington estava agendada para a segunda quinzena de março. Havia até a previsão de um fórum sobre carne bovina brasileira no mercado americano. Tudo indicava que, enfim, os adultos haviam retomado o controle da sala. No dia 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã e o sistema internacional virou a página de forma abrupta. O Brasil condenou os bombardeios. O Irã respondeu com ataques a bases americanas no Golfo. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo marítimo global, foi efetivamente fechado. O Brent ultrapassou os US$ 100. No Brasil, o preço do diesel disparou 45% em apenas 11 dias. Lula reagiu cortando impostos federais sobre combustíveis e criando uma taxa sobre exportações de petróleo bruto para conter o repasse ao consumidor. E a viagem a Washington? Adiada por tempo indeterminado. O (agora ex) ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, resumiu o espírito do momento com precisão quase lacônica: Lula havia solicitado sua presença na viagem, cujo foco seria a negociação de tarifas agrícolas, mas “em razão da guerra, a viagem foi adiada”. Sem ruptura, sem drama diplomático. Apenas a constatação silenciosa de que negociar detalhes comerciais no meio de uma conflagração global, ainda mais com o interlocutor diretamente envolvido na escalada, beira o descolamento da realidade. Da distensão ao congelamento diplomático Esse congelamento não é trivial. A relação Lula-Trump vinha numa trajetória surpreendentemente construtiva. Após meses de tensão provocados pelo caso Bolsonaro, incluindo tarifas punitivas, sanções contra um ministro do STF e pressões retóricas sobre “eleições livres”, Trump mudou o tom a partir de setembro de 2025. No encontro com Lula na Assembleia Geral da ONU, falou em “excelente química”. Em outubro, na reunião bilateral durante a cúpula da ASEAN em Kuala Lumpur, Lula classificou o encontro como “ótimo”, enquanto o chanceler Mauro Vieira afirmou que equipes técnicas começariam a trabalhar “imediatamente”. Em novembro, Washington removeu sobretarifas de 40% sobre diversos produtos agrícolas brasileiros. Em dezembro, suspendeu as sanções contra Moraes. Em janeiro, uma conversa de 50 minutos entre os presidentes abordou inclusive o “Board of Peace” de Trump para Gaza, com Lula sugerindo, sem atrito, a inclusão de espaço político para a Palestina. Era o tipo de divergência funcional típica de parceiros, não de adversários. Não por deterioração bilateral, mas porque Washington passou a operar em modo quase exclusivo de guerra no Oriente Médio. O resultado foi um vácuo. E esse vácuo tem custo. O nó tarifário que ninguém consegue desatar Para compreendê-lo, é preciso olhar o que ficou paralisado. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucionais, por 6 a 3, as tarifas impostas por Trump sob o IEEPA. Foi uma vitória relevante: as tarifas punitivas de 40% contra o Brasil, motivadas pela crise Bolsonaro, caíram. Mas a reação da Casa Branca foi imediata. Utilizando a Seção 122 do Trade Act de 1974, a administração implementou uma tarifa global de 15% sobre todos os países, incluindo o Brasil. Paralelamente, permanecem as tarifas setoriais baseadas nas Seções 232 (segurança nacional, aço e alumínio) e 301 (práticas comerciais desleais). Além disso, seguem abertas investigações do USTR contra o Brasil, incluindo temas como propriedade intelectual, etanol e desmatamento. O resultado é um emaranhado tarifário que ninguém, neste momento, tem capacidade política de desatar. Exportadores brasileiros já sentiram o impacto. As vendas de café para os Estados Unidos caíram 50% entre agosto e novembro de 2025, durante o pico tarifário. Mesmo com a posterior redução, o dano foi estrutural: o Brasil redirecionou fluxos para China e Ásia, enquanto importadores americanos passaram a pagar mais por alternativas de menor qualidade. A Suzano continua pagando tarifas sobre celulose exportada aos EUA. Frigoríficos brasileiros, que exportaram US$ 885 milhões em carne bovina em 2024, enfrentam simultaneamente barreiras tarifárias americanas e disrupções logísticas causadas pelo fechamento do Ormuz. Exportadores de suco de laranja (US$ 637 milhões) e o setor siderúrgico (US$ 4,9 bilhões em aço semiacabado) enfrentam dinâmica semelhante. Mas há um ponto pouco explorado: essas tarifas também penalizam os Estados Unidos. O custo econômico do vácuo político Refinarias como Valero e Marathon dependem crescentemente do petróleo bruto brasileiro para misturar com o shale oil mais leve. Tarifar esse insumo eleva custos internos. Siderúrgicas americanas utilizam ferro-gusa brasileiro de alto carbono; tarifas aumentam o custo da produção doméstica de aço. O setor de etanol dos EUA perdeu espaço no Brasil após retaliação silenciosa de Brasília, que elevou tarifas sobre o produto americano. E, em meio ao choque energético provocado pela guerra com o Irã, o encarecimento de café, suco de laranja e insumos industriais brasileiros adiciona pressão inflacionária à economia americana. A visita de Lula a Washington, agora adiada, colocaria exatamente essas questões na mesa. O fórum sobre carne bovina funcionaria como vitrine de ganhos mútuos. Havia espaço político para ampliar isenções tarifárias agrícolas. A Suprema Corte havia retirado da equação o instrumento mais agressivo da guerra comercial de Trump. E a relação pessoal entre os dois presidentes estava no melhor momento em meses. Faltava, literalmente, executar. A janela perdida e os riscos eleitorais de 2026 Agora, com o capital político de Washington consumido pela guerra, essa janela se fechou – e não há garantia de reabertura no curto prazo. As tarifas sob a Seção 122 expiram em julho de 2026, mas o cenário pós-expiração é incerto. Sem renovação pelo Congresso, Trump pode recorrer a instrumentos ainda mais agressivos e juridicamente robustos. Se o conflito com o Irã se prolongar, com o petróleo estabilizado acima de US$ 100, a pressão inflacionária reduzirá ainda mais o apetite por concessões comerciais. Há ainda o fator eleitoral brasileiro. As eleições de outubro de 2026 se aproximam, com pesquisas indicando empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. Uma visita bem-sucedida a Washington, com resultados concretos em comércio, teria alto valor político doméstico, algo que Trump compreende perfeitamente. Episódios recentes, como a tentativa de envio de Darren Beattie ao Brasil e seu subsequente veto, mostram que, apesar da cordialidade presidencial, as tensões ideológicas permanecem latentes. A guerra apenas adiciona mais uma camada de complexidade a uma relação já estruturalmente sensível. O que está em jogo é concreto: cerca de US$ 127 bilhões em intercâmbio bilateral de bens e serviços (dados de 2024). Os Estados Unidos mantêm superávit nessa relação, o que sugere que, do ponto de vista estritamente econômico, têm mais a perder com uma deterioração prolongada. Ao mesmo tempo, o Brasil depende fortemente de fertilizantes importados, com cerca de 50% transitando pelo Estreito de Ormuz. Uma disrupção prolongada afeta diretamente a safra brasileira e, por extensão, os preços globais de alimentos,  retroalimentando a inflação americana. O paradoxo é claro. Brasil e Estados Unidos precisam um do outro mais do que em qualquer momento recente. E é justamente agora que o diálogo entrou em suspensão. Diplomacia é, em essência, a arte de manter múltiplos pratos girando simultaneamente. Quando um conflito militar domina completamente a mesa, os demais caem. Empresas brasileiras dependentes do mercado americano e setores produtivos americanos dependentes de insumos brasileiros já estão absorvendo os custos de uma guerra da qual não são parte. Esse é o tipo de dano colateral que não aparece nos briefings do Pentágono, mas que se materializa no preço do café em Nova York e no custo do fertilizante em Mato Grosso. Quando (e se) essa guerra terminar, Lula e Trump terão que retomar o diálogo com urgência ampliada e tempo comprimido. O relógio tarifário avança. O relógio eleitoral brasileiro avança ainda mais rápido. E o mundo pós-conflito será um ambiente de cadeias produtivas redesenhadas, rotas comerciais alteradas e alianças mais rígidas.

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  8. 23 MAR

    Estreito de Ormuz se tornou espaço de manobra da economia mundial

    O mundo entrou na era dos preços do petróleo de 3 dígitos. O Estreito de Ormuz, mais do que um mero exercício de guerra dos think tanks, agora é uma variável pertinente do cotidiano econômico. O Brent superou a faixa dos 110 aos 115 dólares; não é mais uma possibilidade , mas um preço real. E a dúvida não é mais o “se”, mas o “quanto tempo o sistema será capaz de conviver assim: 15, 45 ou 90 dias?”.  Thiago de Aragão, analista político Nos primeiros 15 dias do bloqueio tudo é expectativa. Os preços explodem não porque hoje faltará petróleo, mas porque o mercado tenta precificar tudo que pode vir a faltar. É quando as grandes economias ainda podem montar a farsa da normalidade: liberando estoques estratégicos, realizando coletivas, falando em disrupção temporária. Mas esta normalidade tem um custo elevado. Com Ormuz fechado, cerca de 20% da produção de petróleo mundial e uma quantidade semelhante de gás natural liquefeito estão mais do que em risco. Dentro de poucos dias, o Brent se equilibra por volta de 110-115 dólares, e o WTI passa com facilidade o limiar de 100 dólares. O que representava nas crises anteriores o "pior dos momentos", constitui a nova base.   Esse primeiro estágio ainda poderia estar sob controle com os instrumentos clássicos: vendas coordenadas de reservas estratégicas, linhas de crédito de emergência aos países mais vulneráveis e pressão diplomática em volta do cessar-fogo. Mas, enquanto governos ainda declaravam que isso era um "choque gerenciável", as companhias aéreas, o transporte marítimo, a petroquímica e a eletricidade nos países importadores já terão começado a recalibrar a sua trajetória a toda velocidade. O perigo ainda é considerado um desvio, mas o desvio já começa a mudar os hábitos de investimento, de produção e de consumo.  Caos logístico Depois de um mês, a crise caminha para outra. Não se trata mais de um problema em interpretação da flutuabilidade, mas de funcionamento. As cadeias globais começam a perceber os efeitos de corrente: os navios deslocados, as refinarias mudando sua programação de carga, os contratos de fornecimento conquistados em disputa. O caos logístico assume, assim como a contagem estatística de barris fora do mercado. Estudos mais recentes que simulam um corte de quase 20% na oferta global de petróleo provocada pelo fechamento de Ormuz, indicam que, mantendo-se o fechamento por um trimestre, o WTI tenderia a média perto de 100 dólares. E isso significa que o Brent consistente estaria acima de 110-115 durante o período. Só que é isso, em tempos de estresse, com a média exibida, as faixas de 120-130 no Brent não são mais teatro dramático, mas sim o cenário provável.  As casas de pesquisa, que realizaram cenários para a crise atual, reconhecem abertamente um intervalo de 120 a 150 para o Brent, caso o estreito seja mantido bloqueado por um tempo como 30 a 60 dias algo assim, mesmo com uso agressivo de reservas e redirecionamentos logísticos. Esta conta não é só a de energia: um choque desse tamanho, mantido por um trimestre, poderia levar a um número de alguns pontos percentuais a menos de crescimento global anualizado naquele trimestre, é nesse momento em que a crise entra com tudo na política doméstica. Os bancos centrais, já em anos de inflação alta, necessitam decidir se aceitam mais pressão inflacionária ou se eles elevam juros em choque de oferta. Os países emergentes começam a encarar a conta de transações com pânico discreto: energia importada mais cara, moeda sob pressão, reservas com perda.  Se o lockdown superasse 90 dias, o problema se torna de energia para sistêmico. A lógica da interdependência global não-linear colapsa: quanto mais tempo fechado, mais efeitos colaterais acumulados em cadeias que inicialmente aparentemente não possuem petróleo em seus núcleos. Neste instante, os estoques estratégicos já foram extensivamente utilizados. O ordenamento da entrega do mercado através de leilões pontuais não serviria mais. Modelos que projetam cenários prolongados sinalizam de um mundo onde o Brent poderia ser de 150 a 200 dólares, no caso de o lockdown durar um trimestre completo e haver dano relevante às infraestruturas de exportação. O valor em si não é relevante, mas a mensagem é clara: trata-se de um nível em que as várias economias não podem mais repassar para o cliente o preço ou entram em racionamento ou explodem em tensões sociais. Risco geopolítico   De um lado, o aumento dramático da pressão por uma resposta militar coordenada, para a reabertura do estreito, não mais em nome da "livre navegação" abstrata, mas em função da defesa da inflação, do emprego e, em alguns países, da força política. De outro lado, as aparências vão levar os governos a medidas que já estavam fora de uso: controles de preços, racionamento de combustíveis, subsídios seletivos, acordos aceitos entre produtores e consumidores. Simultaneamente, o sistema começa a se reestruturar: projetos de gasodutos antes marginalizados tornam-se urgentes, a produção não convencional nos Estados Unidos transforma-se na nova moeda geopolítica e outras rotas estratégicas (Suez, Cabo da Boa Esperança) tornam-se gargalos e, nessa medida, vulneráveis.  Falar de Ormuz evoca a tentação de ver tudo como guerra de nervos de Teerã contra Washington. Mas, com o Brent a 3 dígitos, todos os governos que dependem de energia importada e já têm a sua reeleição ou sobrevivência indexada ao que ocorre em um corredor de 50 quilômetros entre Irã e Omã tornam-se os reais jogadores da mesa. A ironia é que, nesse ínterim, o sistema global apostou todas as suas fichas numa zona perigosa e acreditou que o risco geopolítico estaria sob controle. Agora, com o estreito fechado e no pico do preço para mais de 110 e 115 dólares, o mundo percebe que não apenas o petróleo ficou cercado ali, mas a própria ideia de uma globalização barata e previsível.  Pelo menos até o momento, os números dão a medida do drama: um choque capaz de arrancar uma fração importante do crescimento global em apenas um trimestre, cenários que apontam o petróleo Brent para mais de 150 a 200 dólares se o fechamento do canal se tornar definitivo, e um mercado já precificando esse risco hoje, não em um futuro hipotético. O Estreito de Ormuz sempre foi um gargalo geográfico, mas em 2026, ele se tornou o retrato mais explícito do quão estreito se tornou o espaço de manobra da economia mundial.

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Acerca de

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

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