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  • Uma devastação inteligente. Conversa com João Camargo

    -1 dia

    Uma devastação inteligente. Conversa com João Camargo

    Os muros já praticamente não nos falam. E nem de limite servem, como barreiras, cortando as frases, interrompendo a tagarelice deste mundo tão jactante precisamente porque nada tem para dizer. Vende-nos constantemente o seu vazio por incapacidade de afirmar seja o que for. «Nada está próximo para quem está à deriva»... Eis a última frase que li num muro e que me pareceu que falava para mim. Já vão uns anos. Desencontrados de tudo, e desde logo desencontrados face à época, incapazes de corresponder à sintonia que esta exige, se quisermos afectar ou perturbar o seu curso, temos de começar pela afinação de uma estética, expurgando quer do senso comum quer da generalidade dos valores morais. Não sei que raio terão pedido a Ballard quando ele se lembrou de listar as suas crenças num breve artigo publicado originalmente numa pequena revista francesa, e, em vez de nos vir, com o habitual recital de sensaborias patéticas, o que é que lhe parecia crucial? Deter a noite, transcender a morte, encantar as auto-estradas, granjear a simpatia dos pássaros, conquistar as confidências dos loucos. Ora aí estava uma forma de ganhar a confiança a uma imaginação licenciosa, capaz de gerar algum transtorno, refazer o mundo, mesmo que apenas para uns quantos. «Acredito nas minhas próprias obsessões», adiantava ele, «na beleza do acidente de automóvel, na paz da floresta submersa, nas emoções da praia de férias deserta, na elegância dos cemitérios de automóveis, no mistério dos parques de estacionamento de vários andares, na poesia dos hotéis abandonados. (…) Acredito na impossibilidade da existência, no humor das montanhas, no absurdo do electromagnetismo, na farsa da geometria, na crueldade da aritmética, na intenção assassina da lógica. Acredito nas adolescentes, na sua corrupção pelas próprias posturas das pernas, na pureza dos seus corpos desgrenhados, nos vestígios dos seus genitais deixados nas casas de banho de motéis miseráveis. (…) Acredito na delicadeza do bisturi do cirurgião, na geometria ilimitada do ecrã de cinema, no universo oculto dentro dos supermercados, na solidão do Sol, na loquacidade dos planetas, na repetitividade de nós próprios, na inexistência do universo e no tédio do átomo. (…) Acredito nos próximos cinco minutos. (…) Acredito na ansiedade, na psicose e no desespero. (…) Acredito no alcoolismo, nas doenças venéreas, na febre e no esgotamento. Acredito na dor. Acredito no desespero. (…) Acredito em todas as alucinações. Acredito em toda a raiva. Acredito em todas as mitologias, memórias, mentiras, fantasias, evasões.» Talvez não seja o suficiente para fundar uma comunidade, um culto ou uma seita proselitista de qualquer ordem. Não parecem ser as notas de alguém minimamente empenhado em transmitir-nos algum tipo de esperança. Mas é, sobretudo, uma convicção de ordem estética, uma margem para se desligar de todo esse desastre de quem nos promete as melhores soluções, os que vivem das medíocres fantasias subordinadas à razão, à lógica, ao bem-comum podem bem ser o pior tipo de canalhas, num momento em que é uma forma de devastação inesperada a única possibilidade de ser feita alguma espécie de justiça neste mundo. Na sua obra ficcional, Ballard não fez outra coisa senão demonstrar como o mundo nos encurralou a tal ponto que só ambicionamos verdadeiramente o colapso, a derrocada das maravilhas deste regime em que nos forçam a viver encerrados como num vedado Jardim das Delícias. «Os últimos relatórios enviados de Las Vegas descreviam uma capital o jogo abandonada parcialmente submersa num gigantesco lago fustigado pelas chuvas. As roletas estavam paradas e as luzes moribundas dos hotéis reflectiam-se nos prados do deserto alagado, ou o fracasso e a humilhação da América vistos no mais feroz dos espelhos.» Seria quase impossível aceitar um paraíso que não vingue de algum modo enquanto a deglutição das ruínas de todo esse resplandecente cenário de progresso que temos diante de nós. «E por toda a parte, carros (…) rodeados de areia, enfileirados a ganhar pó, as suas carroçarias enferrujadas transformadas em caramanchões de flores silvestres que irrompiam de para-brisas desfeitos e os compartimentos dos motores a darem guarida a toda a espécie de roedores do deserto.» Fechamos os olhos, e não é difícil pressentir essa desolação que está inscrita nas coisas, e como em algumas décadas o mundo se verá convertido numa imensa paisagem imemorial e melancólica, com essas cidades defuntas que estão já presentes nas ficções em que nos pomos a contemplar o futuro. Por agora, a publicidade tenta pintar por cima de tudo, mas essa mesma publicidade diz-nos que não pertencemos ao mundo por ela idealizado, e diz-nos também que «quando a vida se submete ao consumo, a morte torna-se uma obra de arte» (Müller). É evidente que o nosso destino é o subterrâneo, e, como se lê nos «cadernos» desse ser que ali tomou morada, se nos últimos dois séculos, o ópio da religião foi substituído por o desses sumptuosos anúncios publicitários e o progresso se tornou a grande vertigem e doutrina, e se enfatizou sempre que vinha aí outra coisa, que «a própria ciência ensinaria ao homem que, na realidade ele não tem vontade nem capricho, nem os teve nunca, e mais não é do que uma tecla de piano ou pistão do órgão; e que, além disso, há no mundo leis da natureza, logo, tudo o que o homem faz não é feito por sua vontade, mas espontaneamente, pelas leis da natureza»… «Por conseguinte, basta descobrir essas leis da natureza, e o homem nem responsável será pelos seus procedimentos e ser-lhe-á muito fácil viver. Todos os procedimentos humanos serão então estimados de acordo com essas leis, matematicamente, como uma tábua de logaritmos, até 108 000, e incluídos num almanaque; ou, ainda melhor, aparecerão umas benevolentes edições, à maneira dos nossos actuais dicionários enciclopédicos, em que tudo será tão bem calculado e enunciado que deixará de haver mais procedimentos e mais aventuras no mundo.» Isto apareceu escrito por Dostoiévski numa revista em 1864, antecipando como toda esta marcha do progresso e da razão serviria para nos infectar de um ânimo absurdamente truculento, colocando um sulfúrico desprezo no lugar do desejo… «Não me admiraria nada, por exemplo, se, sem mais nem menos, no meio do bom senso geral futuro, surgisse um gentil-homem qualquer de fisionomia ignóbil, ou, melhor dizendo, retrógrada e irónica, que, pondo as mãos nos quadris, dissesse para todos nós: o que acham, meus senhores, e se déssemos um valente pontapé em todo este bom senso de uma vez por todas, unicamente para que todos estes logaritmos fossem para o raio que os parta e para voltarmos a viver segundo a nossa estúpida vontade?» Como é óbvio, nem preciso sugerir qualquer errata, qualquer actualização, para que a própria força das circunstâncias nos obrigue nos dias de hoje a substituir «logaritmos» por «algoritmos», ou por qualquer outra dessas funções que nos esmagam quotidianamente. Contra todas as promessas, todos os ganhos e vantagens desse futuro tecnológico, contra os avanços sucessivos, contra as mais salivantes fantasias para os quais somos industriados, ainda assim, persiste este desejo subterrâneo no homem de agir pela sua vontade e não como lhe mandavam a razão e a vantagem. «A nossa pr´ropria, livre e independente vontade, o nosso próprio capricho, por mais absurdo e selvagem que seja, a nossa própria fantasia, desenfreada por vezes até à loucura – eis a mais vantajosa das vantagens, a que foi omitida, a que não se encaixa em nenhuma classificação e que permanentemente faz desmoronarem-se todos os sistemas e teorias. Onde foram todos esses sábios buscar a ideia de que o homem precisa de uma qualquer vontade normal e virtuosa? Por que razão fantasiaram eles que é indispensável ao homem uma vontade sensatamente vantajosa? O que o homem precisa é só de uma vontade independente, custe o que custar e leve aonde levar esta independência. E sabe-se lá que diabo de vontade é essa…» Neste episódio, juntou-se anos João Camargo, que tem já um longo percurso enquanto militante e activista batendo-se pela necessidade de profundas transformações políticas e sociais para contrabalançar a emergência climática, sendo um dos elementos fundadores do Climáximo. Tem também desenvolvido pesquisas consistentes no que respeita à Inteligência Artificial e à devastação que esta acarreta, exponenciando mecanismos de vigilância e opressão e o complexo das indústrias militares. Mestre em Engenharia do Ambiente e Produção Animal, é investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, e autor dos livros Que Se Lixe a Troika (2013) e Manual de Combate às Alterações Climáticas (2018) e coautor de Portugal em Chamas – Como resgatar as florestas (2018).Os muros já praticamente não nos falam. E nem de limite servem, como barreiras, cortando as frases, interrompendo a tagarelice deste mundo tão jactante precisamente porque nada tem para dizer. Vende-nos constantemente o seu vazio por incapacidade de afirmar seja o que for. «Nada está próximo para quem está à deriva»... Eis a última frase que li num muro e que me pareceu que falava para mim. Já vão uns anos. Desencontrados de tudo, e desde logo desencontrados face à época, incapazes de corresponder à sintonia que esta exige, se quisermos afectar ou perturbar o seu curso temos de começar pela afinação de uma estética, expurgando-a quer do senso comum quer de valores morais. Não sei que raio terão pedido a Ballard quando se lembrou de listar as suas crenças num breve artigo publicado originalmente numa pequena revista francesa, e,

  • Viviane: "Quando cheguei, em 82, Portugal era muito diferente. Na minha aldeia nem havia dentistas, quem arrancava os dentes era o barbeiro"

    -1 dia

    Viviane: "Quando cheguei, em 82, Portugal era muito diferente. Na minha aldeia nem havia dentistas, quem arrancava os dentes era o barbeiro"

    Viviane, a cantora dos Entre Aspas que esta sexta-feira lança o quinto álbum a solo, esteve no Posto Emissor para falar sobre esta homenagem às mulheres da música portuguesa. A sua infância em França, o trabalho com João Aguardela e a ligação à natureza foram outros temas do podcast, em que abordamos ainda a morte de Jorge Palma e os concertos da próxima semana. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • Jorge Palma: "Comove-me sentir que não sou capaz de ajudar gente muito magoada."

    -3 dias

    Jorge Palma: "Comove-me sentir que não sou capaz de ajudar gente muito magoada."

    Recuperamos a conversa que tivemos com Jorge Palma em Janeiro de 2024, emitida em semanas diferentes, agora num único episódio. É uma forma de tornarmos mais acessível este registo belíssimo, e também de o homenagearmos e recordarmos. Como costuma acontecer aqui, trata-se de uma entrevista de vida com pontos de paragem obrigatórios nos poemas que o marcaram mais. Neste caso, alguns dos poemas transformaram-se em canções. "Eu apodero-me das tais variadíssimas coisas eacontecimentos e pessoas e absorvo-as e transmito-as. Depois, as coisas que passam pelo meu filtro e surgem depois, no papel, na gravação, saem completamente diferentes já daquelas que eu tinha absorvido. Há um trabalho de adaptação e de imaginação. Às vezes o resultado é completamente diferente da fonte."

  • Porque é que temos uma paixão pelo alho?

    -2 dias

    Porque é que temos uma paixão pelo alho?

    O alho é aquele indivíduo na mesa que destabiliza, que abana uma conversa de chacha, que mexe com os nervos das pessoas. Pode tornar a conversa mais animada ou dar cabo dela. Mas, o que é certo, é que nós não passamos sem o alho, ingrediente que está presente em quase toda a nossa gastronomia. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • Afonso Dantas

    -1 dia

    Afonso Dantas

    É o mais jovem chef português com uma estrela Michelin. É madeirense, formou-se na sua ilha, complementou a formação no Institut Paul Bocuse, em França, e o seu foco é o fine dining. Hoje, lidera um restaurante em Évora. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • Jorge Palma (1950-2026): “Não tenho interesse nenhum em ir para o Panteão Nacional. Depois de morto estou a marimbar-me”

    -4 dias ·  Bónus

    Jorge Palma (1950-2026): “Não tenho interesse nenhum em ir para o Panteão Nacional. Depois de morto estou a marimbar-me”

    Numa conversa gravada em 2023 para o podcast Posto Emissor, da BLITZ, Jorge Palma revisitou décadas de carreira, a propósito do lançamento do seu álbum, “VIDA” — na altura o primeiro disco de originais em 12 anos. Do conservatório à estrada europeia, das orquestrações feitas antes do 25 de Abril às colaborações com as gerações mais jovens, o músico refletiu sobre a criação, o tempo e a família. No dia da sua morte, recuperamos esta entrevista de arquivo, conduzida por Lia Pereira, com um dos autores mais queridos dos portugueses, um cronista em canção que, nas suas próprias palavras, canta aquilo que sente e pensa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  • Ricardo Conquilhas: "Odeio comer um arroz de marisco e levar com pernas de sapateira e gambas por descascar"

    -2 dias

    Ricardo Conquilhas: "Odeio comer um arroz de marisco e levar com pernas de sapateira e gambas por descascar"

    Foodie, porque as grandes conversas se fazem à mesa. Todas as quintas-feiras Rui Barros e João Francisco convidam um verdadeiro apreciador de comida para uma conversa sobre estar à mesa e muito mais. Neste episódio recebemos Ricardo Conquilhas, proprietário do restaurante Eduardo das Conquilhas. Entre histórias, sabores e memórias, Ricardo partilha a sua paixão pela … Continued The post Ricardo Conquilhas: “Odeio comer um arroz de marisco e levar com pernas de sapateira e gambas por descascar” appeared first on NiTfm.

  • 100 Objects #19: Western Electric 500 Series

    -1 dia ·  Bónus

    100 Objects #19: Western Electric 500 Series

    This episode is sponsored by Claude. For problems worth solving, get started with Claude at Claude.ai. The Western Electric 500 Series Telephone used to be everywhere. For over 50 years, it was the default telephone for homes, offices and literally anywhere else you might need a phone… but how did that happen? Why was this one phone so much better than everything that came before… or, in some ways, since? Former MythBuster Adam Savage joins Roman Mars to explore the history of the 500 Series Telephone and what we lost when we eventually decided to leave it behind. A History of the United States in 100 Objects is a production of 99% Invisible and BBC Studios. Subscribe to SiriusXM Podcasts+ to listen to new episodes of 99% Invisible ad-free and a whole week early. Start a free trial now on Apple Podcasts or by visiting siriusxm.com/podcastsplus. Hosted by Simplecast, an AdsWizz company. See pcm.adswizz.com for information about our collection and use of personal data for advertising.

  • Daniel Jonas: "A escrita é certamente da ordem da obsessão porque é um confronto comigo próprio grande."

    14/09

    Daniel Jonas: "A escrita é certamente da ordem da obsessão porque é um confronto comigo próprio grande."

    Segundo episódio do ciclo Alguns Gostam de Poesia, uma parceria d' O Poema Ensina a Cair com a Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos. Desta vez, gravámos ao vivo com Daniel Jonas, escritor, tradutor, professor e dramaturgo, vencedor de vários prémios literários com a sua obra poética e de tradução, mas também, mais recentemente, com a sua incursão na prosa e o livro A Justa Desproporção, vencedor do Grande Prémio de Crónica e Dispersos Literários da APE. Como costuma acontecer, ancorámos a conversa nalgumas escolhas literárias do nosso convidado - Shakespeare, Wirdsworth, Yeats ou Ruy Belo - mas também nalguns poemas de sua autoria, onde se inclui um inédito que sairá no próximo livro. Ficámos a saber que na poesia, poderemos contar com um livro chamado Belas Execuções, e na prosa com um segundo volume de A Justa Desproporção, a que dará o nome A Injusta Proporção.

  • O regresso dos percevejos, das Karens e das Tinas. Outra conversa entre os outros dois

    18/09

    O regresso dos percevejos, das Karens e das Tinas. Outra conversa entre os outros dois

    O diabo daria a sua bênção a esta época, se fosse capaz de abençoar seja o que for. Disto, creio que estamos todos convencidos. Eis-nos de volta ao aperto da mais trocista das molduras, e vamos justificando-nos com uma espécie de compulsão, o voltarmos de cada vez, como se por inércia, caídos em circunstâncias em relação às quais todos se confessam alheios, num ambiente de onde, na verdade, apetece é escapar. Quem sofra maleitas por manter alguma luz acesa na divisão da consciência, anda por aí sentindo-se forçado a tomar parte numa valsa dos suicidas, procurando suportar toda essa farsa, sendo que se podia deitar tudo ao lixo, a começar pelas múmias que vemos triunfar e capturar os lugares de destaque. Num país civilizado teria já rebentado uma guerra civil, nem que fosse para impedir este azucrinante estreitamento da peça, mas como as paixões vitalistas, os grandes arroubos foram descatalogados, tendo-se tão má impressão da vida no geral, sobra esta guerra entre lacaios, entre jagunços, este jogo das cadeiras, e não deixa de ser uma guerra, mas só por poleiros, nem direito a sangue temos, e consegue, assim mesmo, ser ainda mais repugnante, mais desprezível. Há quem tenha memória de outros tempos, quem nos diga que cresceu perto de jovens duros, duros e sensíveis aos períodos de pura desolação, que atacam e tolhem até os espíritos. Aquele tipo também se lembrava de um tempo em que a maior virtude desta espécie traidora era a coragem, a única que tornava muito claro qualquer diferença, a não cedência ao cálculo, e depois também os adeuses… Há um génio na rejeição, o desses tipos que não se deixam confundir nem integrar, perfis cortantes, que adoptam como referência outro período, decoram algum buraco como se estivessem a induzir um transe, impregnando-se da consciência de si mesmos como artefactos desse tempo mais puro e mais honroso, e procuram assim, na expressão de alguém, atravessar a vida «como um rato que atravessa uma píton», um inchaço perceptível na musculatura lisa do resto. Têm em relação a essa históriz do «mundo» a mesma condescendência que se tem face a uma qualquer tendência azucrinante, uma ficção de mau gosto, que, mais tarde ou mais cedo, cederá espaço a outra coisa. E nisto, aquele bruxo ri-se e exclama: «Ah! A miséria do imaginário e do simbólico. O real sempre adiado para amanhã.» No meio deste fúnebre e frívolo carnaval, desde que os poderosos aprenderam a gerir a situação por meio de uma extorsão metodizada que recobriu todos os aspectos da nossa existência, e se ninguém contesta que este tempo soube tem coleccionado um impressionante número de crápulas, ser mau tornou-se uma imperiosa necessidade, sendo evidente que não se sai disto sem uma bulha para os anais, mas, e infelizmente, continuamos a chupar missas, esses figurotes que desfilam por aí os reflexos de um mesmo eixo nervosos amolecido, vindo com uma prédicas, uns tradicionalismos bacocos, umas moralidades que nos rebaixam a todos. Anda aí tudo numas momices, numas poses enfáticas, e assim nos condenam a esse longo suicídio declamatório que não mais terminará, enquanto todos parecem muito confortados com saber o que seja isso do artista, do poeta, estendendo-se por toda a parte o museu de cera, estas figuras embalsamadas na luz de mijo das instituição e enredos do prestígio. Mas de que servem os poetas em tempos de indigência? E não é óbvio? Dos poetas exigir-se que nos seduzissem para um embalo perverso, para as função desmoralizadoras, para nos arrancar aos moldes, a esse desígnio em que se supõe que o ideal é que cada um dos nossos passos possa ser exposto numa montra qualquer, cada atitude ou gesto exibida como exemplar, em vez de provocar perturbação, desordem, indigestão. Num tempo que aniquila todo o carácter interventivo, aos poetas pediríamos que nos amparassem na queda, encorajando o nosso riso sarcástico e agravem os nossos vícios ou as nossas estupefacções, como sugere Cioran. Lê-se as colecção da poesia contemporânea e não se dá por nenhuma maldade profunda, nem sequer aquela leveza dos seres encantados por se terem visto livres da tentação ou do remorso. Os versos que fazem alguma coisa num tempo assim desequilibram-nos, mostram-se maravilhosamente debilitantes… Também se poderá conceder que o papel de outro, de abordagem mais difícil, porque não alinham com as nossas amarguras e obsessões, poderá ser o de trazerem o conflito para um nível mais íntimo, e aparecem quando estamos maduros o suficiente para estarmos já um pouco fartos de nós mesmos, das nossas lamúrias. Estes surgem para salvar-nos das convicção em que nos deixamos engessar, quando essa mania, eminentemente moderna, de protestar e reivindicar parece ter-se tornado a única estratégia para a definição de uma personalidade, e assanhamo-nos com tudo por isso se ter tonado reconfortante. Nessas alturas, como vinca Cioran, é decisivo encontrar um espírito que jamais sucumba a esses empolamentos dramáticos, ao teatro das penas, injectando no nosso ânimo um sangue estranho que nos force a recuar perante essa comédia da dor e da revolta. Mas faltam poetas, faltam os profanadores do improfanável, falta quem corte com a ladainha neste sentido ou naquele, sendo evidente que «aquilo que persistia de tensão apaixonada entre o prazer e a sua busca aventurosa já se desagregou numa sucessão ofegante de gestos reproduzidos mecanicamente, e num ritmo do qual em vão se espera que este eleve nem que seja a um simulacro de orgasmo», como bem notou Vaneigem. No momento actual, com a corrosão a que os imperativos económicos sujeitaram já os próprios sentimentos e paixões, vinculando toda a urgência à satisfação de vícios, necessidades falsas, estamos naquele ponto em que pouco mais nos resta do que a lembrança de termos feito parte de uma espécie tremendamente audaz. Mas agora, mesmo entre as lendas e no confronto com a história, parece que nos vemos obrigados a viver apenas retrospectivamente, a admirarmos essa espécie com a qual fomos perdendo todos os laços. Afundados num tom baixo, até os piores crimes, os efeitos mais letais, não deixam de se mostrar reles, resultado de seres que alcançam a infâmia pelo lado da sordidez. E que lamuriosos são, tomando como estilo o gemido agonizante de obras que vão saindo em série, rematando um vazio de experiência que nada tem a ver com a altissonante grandeza daquilo que nos é narrado nos relatos de qualquer período orgulhoso. Mas se hoje alguns se apresentam como poetas, sabemos que não passam de farsolas. Os poetas que aprenderam a divertir-se com o que aborrece ou escandaliza os outros, foram expulsos, irradiados da cidade. Não perguntem para que servem os poetas, mas para que servem os indigentes que se põem com essas interrogações, quando eles mesmos não têm a menor paciência nem têm tempo para impor às suas vidas qualquer dose de eternidade.

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