Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é título de filme de terror. O cartaz, com as duas protagonistas cobertas de sangue, também aponta nessa direcção. Mas não nos precipitemos, porque quem não gosta de terror pode ter a tentação de o evitar e seria uma pena. Há sangue a jorrar e algumas cabeças a voar apenas porque Jane Schoenbrun, cineasta, presta aqui homenagem ao género slasher. Mas depois transcende-o para fazer um filme que é, afinal, muito mais sobre sexo e como encontrar um lugar seguro no medo, por paradoxal que possa parecer. A personagem principal, Kris (Hannah Einbinder, que não anda longe de ser um alter ego de Schoenbrun), foi convidada a recuperar a série de filmes sobre o Acampamento Miasma, voltando ao espírito original depois de várias tentativas para manter o entusiasmo dos fãs vivo. Para isso, quer ter no filme a "última rapariga" do episódio original. Ela é Billy (Gillian Anderson) e vive, reclusa, no acampamento isolado onde foi filmado o primeiro Miasma. É uma espécie de Norma Desmond, a diva de Sunset Boulevard, a olhar para o passado, mas leva-se bastante menos a sério. Até porque aprendeu — e esse será o segredo que fascina Kris — que "se as coisas forem demasiado reais, podem-se sempre desligar". O medo e o prazer são aqui uma aprendizagem, com a ajuda da Pequena Morte (não é por acaso que assim se chama ao orgasmo), jovem vítima de transfobia, que quando quer matar de novo sai do fundo do lago onde vive. O lago, esse sítio "de onde vêm os filmes" — leia-se o lugar dos traumas passados — para fazer jorrar o sangue. Mas, afinal, é no meio de frango frito e de gomas cheias de açúcar que Kris se reconcilia com o sexo e o desejo, e é tudo isto que faz deste filme queer um objecto vindo mais do corpo do que da cabeça. Ao contrário do que acontece com outra estreia da semana, Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, que já foi, ele também, mais sensual e menos cerebral. Agora, a urgência de filmar transforma-se numa obra que se perde na teia (demasiado) intricada da auto-ficção. Andamos por aqui, entre o corpo e a cabeça, neste episódio do No Escuro, onde até cabem Clint Eastwood e Nanni Moretti (ouçam, para perceber porquê) e o Psico de Hitchcock, referência fundamental para as questões de identidade de género centrais na obra de Jane Schoenbrun. Aliás, quando ainda não tinha abandonado as suas preocupações woke, Kris, a personagem da realizadora, fizera "o Psico do ponto de vista da cortina do chuveiro". Mas isso, claro, foi antes de experimentar o orgasmo. No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema. See omnystudio.com/listener for privacy information.