Mal se dorme nesta época, talvez porque as noites estão cheias de confissões, sugere ele, o que as liga umas às outras, abre esses canais de pernoita, essas funções burocráticas que converteram esta geração à insónia. Müller admite que desde 1789 nenhuma revolução na Europa ou onde quer que fosse encontrou outro modo de sobrevivência que não a cultura da denúncia, essa perseguição que os homens se movem, a título de ensejo moralizador. Mas chegamos a um tempo dos acusados, a esta mediocridade expiatória, que, pelo menos, justificaria a necessidade de cada um ilibar-se, o que leva à obsessão de se narrar de forma coerente, para não deixar nenhuma hora das suas vidas por registar. Alguns, no entanto, em vez dessa compulsão delirante de viver os dias documentando-se, produzindo a cada passo uma duplicação por escrito, em registo biográfico, preferem desentender-se consigo mesmos, não se solidarizar de nenhum modo, e até escarrar em cima dessa infeliz personagem, recusando ser crucificados nesse excesso de coincidência com um perfil identitário. «A partir do século XVIII, a cultura da autenticidade construiu-se exaltando o ideal de verdade face a si e aos outros: a ‘escrita do eu’ oferece dela uma ilustração perfeita», diz-nos Lipovetsky. «Com as Confissões, Rousseau abre caminho a uma nova forma de falar de si, de se contar, de se dizer até nos pormenores mais íntimos da vida. Uma tarefa tão perigosa que Rousseau não hesita em declarar que ninguém o fez antes dele próprio. A famosa frase que enceta essa obra não tem qualquer ambiguidade a este respeito: ‘Vou empreender uma coisa sem exemplo e cuja realização não será imitada. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza, e esse homem serei eu.’ Pela primeira vez, um homem normal, sem qualidades, toma a liberdade de escrever um livro onde são revelados os seus segredos, os pormenores mais íntimos da sua vida, os seus sentimentos, os seus erros, grandes e pequenos. A ambição proclamada consiste em inaugurar uma nova forma de se pintar sem hipocrisia e sem esconder o que quer que seja aos leitores, revelar um homem por inteiro, tal como é, sem máscaras, ‘em toda a sua verdade’. Celebrando a expressão sincera da subjectividade, Rousseau cria um novo género literário – a narrativa autobiográfica –, cujo modelo fixa e cujo atractivo, subsequentemente, não será desmentido», diz-nos Lipovetsky. Se este regime de algum modo se universalizou, talvez o capitalismo, com os seus principais combustíveis – a inveja e a vingança – a actuarem na subjectividade de cada um, tenha elevado este género a um modelo fundamental, enredando-nos nessa constante performance «egográfica», e à medida que a subjectividade ou a autenticidade se viam contaminadas pela função espectacular, pela competição em todas as esferas, a mitologia da veracidade foi sendo devassada. Enquanto o infraordinário e o banal recobriam toda a expressão, e as imagens na sua reprodução enfática absorviam as representações cada vez mais insistentes, dominadas pelo falso brilho dos clichés comerciais e publicitários, o verdadeiro foi dando lugar a outra coisa, a uma inversão nada subtil, a uma produção de fantasias em que todo o tédio se vai estetizando, e a retórica do verdadeiro dá lugar à frivolidade, à provocação do exibicionismo narcísico, da teatralidade sensacionalista, que tantas vezes procura legitimar o discurso procurando guindar essas manifestações a uma lógica transgressiva, desafiadora. Mas, na verdade, todo este regime contribui para uma reificação dos elementos de expressão e comunicação, aberto à disposição das massas, aos seus humores e sonhos factícios, que subscrevem sempre tendências, reforçando os consumos. Num certo sentido, todo este expediente permitiu salvar o poder após o colapso que terá significado a morte de Deus e o advento do niilismo. Como nos diz Agamben, se para Nietzsche como para Dostoiévski, estas rupturas significavam algo de tão terrível que os homens jamais poderiam aceitá-los sem porem radicalmente em questão a sua própria existência, o filósofo italiano entende que neste caso estes dois autores proféticos falharam a compreensão do que estava a emergir. «O niilismo tornou-se a condição normal da humanidade, mas, ao contrário de Kiríllov, o homem comum de hoje parece viver com a morte de Deus e com o niilismo sem sofrer nem se importar, literalmente como se nada estivesse a acontecer.» Mas «se, como o próprio Nietzsche sugeriu, o niilismo, plenamente realizado e apreendido enquanto tal, constitui a grande oportunidade da humanidade para escapar ao seu destino letal – se, como pensava Benjamin, o niilismo pode tornar-se o método de uma nova política –, então a pergunta que temos de fazer a nós próprios é: ‘Por que razão esta oportunidade não foi aproveitada? O que nos impediu de fundar verdadeiramente a nossa causa em nada e, em vez de fazer dele a nossa condição normal, encontrar nele uma saída para o destino do Ocidente?’» Porque essa oportunidade foi aproveitada antes de tudo pelo mercado para estender os seus domínios e subjugar os espíritos. Assim, quando Müller, muito mais tarde, se interroga sobre o que está por vir, admite a hipótese de o próprio tempo vir a tornar-se apenas matéria para os advogados, ou ser posto à venda como um imóvel. Aproveitando o movimento de dessublimação e dessacralização, toda a ética que resistiu a esta defunção estética é a do triunfo face a esses sonhos que nos tornam cada vez mais solitários, que promovem aquelas aspirações ligadas à rotação circular da mercadoria. O poeta e dramaturgo alemão diz-nos também que «uma prova do instinto de poder da Igreja Católica é o facto de conceber a curiosidade como um dos pecados mortais, um pecado que Ulisses, por exemplo, o primeiro animal político, continua ainda provavelmente a expiar no purgatório desde que foi denunciado por Dante». Para que a tentação de se biografar não levasse a uma corrosão dos conteúdos genéricos, das fórmulas que servem a busca de distracções e sórdidas fantasias que excitam os consumos, para que a curiosidade não assumisse um carácter quase obsessivo, por meio de inquirições e ruminações que dessem cabo das próprias estruturas narrativas convencionais, foi preciso que toda esta cultura da adição à representação de si mesmo estivesse orientada para a valorização pessoal. Por isso vemos a vulgarização de exercícios que derrotam a subjectividade em si mesma, em que a intimidade se vê virada do avesso para estar permeada pelas urgências de cada instante, e, assim, damos cada vez mais com esses escritos íntimos nos quais toda a dramaturgia é tão enfática como a de uma campanha publicitária, sem margem para assombrações nem restos. Neste episódio, alguém que tem estudado os santos à procura de saídas face a este enredo sacrificial, o qual é orientado segundo o patetismo das encenações espectaculares, vem falar-nos da possibilidade de uma ruptura que passe pelo encadeamento de zeros, lembrando que «quando o zero chegou à europa medieval, houve uma certa hesitação em aceitá-lo como conceito matemático. Parece que a representação do nada através de um símbolo tangível suscitou preocupações. Numa época em que as crenças religiosas e metafísicas eram cruciais para a compreensão do mundo, a ideia do vazio, do nada, da falta de significado, deve ter sido perturbadora – talvez até herética.» Erguendo as suas pesquisas como uma espécie de martirológio, Miguel Bonneville procura pensar a própria figura do escritor como «um ser feito de zeros», atravessado, aberto aos outros, e que passa mais tempo a ler e a transcrever do que propriamente a criar. A sua exigência para si mesmo é a de «continuar mutante, suave e adicto», colando «rostos abismos hieróglifos», adormecendo sobre os restos do fogo de outros, rompendo com a reificação da identidade e com a ilusão da continuidade, da coerência, de uma verdade última.